 NINGUM  DE NINGUM

ZBIA GASPARETTO

DITADO PELO ESPRITO LCIUS

NDICE

CAPTULO 1
CAPTULO 2
CAPTULO 3
CAPTULO 4
CAPTULO 5
CAPTULO 6
CAPTULO 7
CAPTULO 8
CAPTULO 9
CAPTULO 10
CAPTULO 11
CAPTULO 12
CAPTULO 13
CAPTULO 14
CAPTULO 15
CAPTULO 16
CAPTULO 17
CAPTULO 18
CAPTULO 19
CAPTULO 20
CAPTULO 21
CAPTULO 22
CAPTULO 23
CAPTULO 24
CAPTULO 25
CAPTULO 26
CAPTULO 27
CAPTULO 28
CAPTULO 29

Captulo 1

       Roberto chegou em casa confuso, irritado, batendo a porta com fora. Naquele dia fora submetido a um processo de autodestruio e pensava raivoso:
       "Isso no vai ficar assim. No posso tolerar ter sido feito de bobo pela pessoa em quem mais confiava. Quem poderia imaginar que, depois de me alisar a vaidade 
com elogios e tapinhas nas costas, ele acabasse por me apunhalar sem d nem piedade?"
       Dentro da sala espaosa, decorada com simplicidade e sem muitos adornos, ele andava de um lado para outro, como fera acuada, dando vazo a seu mau humor e 
a sua revolta.
       Sentia a cabea pesada, doendo, como se a testa estivesse sendo apertada sem cessar por um crculo de ferro. Seu estmago queimava, e o almoo que engolira 
rapidamente havia mais de cinco horas ainda no tinha sido completamente digerido, provocando de vez em quando uma sensao de azedume em sua garganta.
       Foi ao banheiro e procurou um vidro de sal de frutas. Depois dirigiu-se  cozinha, colocou gua num copo e despejou um pouco do remdio, ingerindo-o em seguida. 
Sentiu um arrepio no corpo e fez uma careta desagradvel.
       Se ao menos o mal-estar passasse! Ele precisava se acalmar. Havia uma situao difcil para enfrentar, e Roberto precisava estar com sade. Tinha famlia 
para sustentar. Dois filhos na escola: Maria do Carmo com cinco anos e Guilherme com sete. Ele fora contra a idia de enviar Maria do Carmo para a escola aos dois 
anos de idade. Mas Gabriela trabalhava e no queria deixar o emprego de forma alguma.
       Quando se casaram, oito anos atrs, ele se empenhou de todas as formas para que ela deixasse a empresa onde trabalhava como secretria. Afinal, ele havia 
montado um negcio prprio que lhe rendia bom dinheiro. Mas Gabriela foi irredutvel. No ia largar o emprego do qual tanto gostava. Ela dava muito valor  sua independncia 
e gostava de ganhar o prprio dinheiro.
       Roberto no concordava com isso. Mulher casada precisava tomar conta do lar. Ele tinha condies de arcar com as despesas. No fundo, sentia cime. Saber que 
Gabriela, todos os dias, durante a maior parte do tempo, estava em companhia de outros homens, chegava a tirar-lhe o sono.
    Apaixonara-se por ela desde o primeiro dia. Alta, cabelos louro-escuros, olhos verdes, boca carnuda e vermelha, corpo elegante e bem-feito, pele cor de pssego 
levemente rosada, Gabriela representava para ele o mximo da atrao.
    Quando, depois de muita insistncia, ela aceitou sair com ele pela primeira vez, Roberto sentiu-se o homem mais feliz do mundo. Namoraram durante dois anos. 
Ele confiava nela. Era moa honesta e de bom comportamento. Porm percebia claramente o quanto ela despertava a ateno masculina quando passava indiferente, desfilando 
sua beleza.
    Ele fez de tudo para que ela desistisse de trabalhar depois do casamento. Mas ela foi taxativa:
    - No sou o tipo de mulher dependente. Trabalho desde os quinze anos. Eu me sentiria muito mal se tivesse que depender do seu dinheiro. Sou competente para cuidar 
de mim. Depois, no gosto dos trabalhos domsticos. No tenho jeito para certos servios. Por isso, vou continuar trabalhando depois do nosso casamento. Esse  para 
mim um ponto muito importante.
    - Pense em mim, em como vou ficar nervoso imaginando voc l, junto com todos aqueles homens. Tenho certeza de que muitos do em cima de voc mesmo sabendo que 
 cmprometida.
    Imagino o que faro depois que for casada!
    Gabriela fulminou-o com o olhar:
    - Estou com voc porque o amo. Escolhi me casar com voc. Isso deve ser suficiente. Que me importa o que os outros pensam? A malcia  deles. Eu sei o que quero 
da minha vida e o que vou fazer com ela. Se no pode entender isso, sinto muito, mas voc no tem condies de se casar, nem comigo nem com qualquer outra mulher.
    Roberto sentiu um aperto no corao e resolveu contemporizar. Sabia que ela s vezes era intransigente. No desejava perd-la. Por isso concordou a contragosto. 
Entretanto, guardava a esperana de que quando tivessem filhos ela acabasse por desistir. Afinal, cuidar de crianas era coisa trabalhosa, e as mulheres, na maioria, 
mudavam muito quando se tornavam mes.
    Porm Gabriela no mudou. Teve dois filhos, planejou tudo com cuidado e conseguiu continuar trabalhando. Ele tentava convenc-la a ficar em casa, cuidar das 
crianas, mas ela arranjou uma creche, ao contrrio do que o marido e a sogra queriam.
D. Georgina implicava com a nora por causa disso. Nunca vira mulher to teimosa e determinada.
       Dissimulava, porm, seus sentimentos para que o filho no se indispusesse com ela. Sabia como ele era apaixonado por Gabriela. Mas, dissimuladamente, a pretexto 
de estar sentindo saudade, ia  creche ver as crianas, todavia era para descobrir alguma falha, algum problema que pudesse fazer com que a nora resolvesse deixar 
o emprego e ficar em casa cuidando dos filhos.
       Enquanto o casal estava trabalhando, durante o dia, Georgina ia muitas vezes  casa deles, sob qualquer pretexto, para verificar se tudo estava bem cuidado.
     A empregada fingia no perceber a inteno quando Georgina subia nos quartos do casal e das crianas, abria as gavetas e olhava tudo. Nicete sorria satisfeita 
ao perceber a frustrao da velha senhora por no encontrar nada que pudesse criticar. Esse, alis, havia se tornado um ponto de honra para Nicete, que trabalhava 
com Gabriela desde o casamento e gostava muito de sua patroa.
    Gabriela era objetiva, falava logo como queria as coisas; se no gostava de algo, chamava a empregada e colocava-se de maneira clara, explicando-lhe por que 
desejava daquele jeito. Ela era muito exigente, mas Nicete preferia assim. Quando caprichava, ela elogiava, e isso era para ela o maior prmio, porque sabia que, 
se no estivesse bom, a patroa diria logo o que pensava. Depois, Nicete sentia-se respeitada. Gabriela conversava com ela de forma clara, direta, e no ficava falando 
mal dela pelas costas, como muitas patroas que Nicete conhecia.
    Quando os patres estavam fora, ela caprichava mais ainda na arrumao, desejando at que Georgina aparecesse, para gozar da satisfao de v-la contrariada.
    Durante todos aqueles anos de casamento, Roberto teve de engolir o cime, dissimular.
    Gabriela nunca lhe dera motivo de queixa. Tinha suas roupas bem cuidadas a tempo e a hora, comida boa e caprichada, as crianas estavam saudveis, alegres e 
bem alimentadas.
    Sentou-se em uma cadeira e passou nervosamente a mo pelos cabelos. E agora, o que seria dele? Teria de falar com a esposa, contar-lhe a verdade. O que faria 
para sobreviver?
    Ele trabalhava com construo. Tinha um depsito de materiais e sempre sonhara em montar outra empresa, construir casas para vender. Durante anos fizera os clculos 
e sabia que construir dava muito dinheiro. Sonhava enriquecer, melhorar de vida. Talvez ento Gabriela se resolvesse a deixar o trabalho e, quem sabe, trabalhar 
com ele. Era uma maneira de conseguir finalmente o que desejava. Por que no? Se ele tivesse uma grande empresa, ela certamente poderia ajud-lo. Teria um salrio 
bom e tudo ficaria resolvido.
    Mas ele precisava de capital. Foi quando conheceu Neumes, engenheiro civil que construa um grande prdio de apartamentos para uma empresa que comprava o material 
em seu depsito.
    Conversaram muito. Roberto confidenciou seus projetos para o futuro e Neumes o ouviu com entusiasmo, ajudando-o nos clculos dos lucros. Em pouco tempo uma amizade 
nasceu entre eles, e tanto o engenheiro quanto a esposa passaram a freqentar a casa de Roberto.
    Sempre que podia, Neumes falava com entusiasmo sobre os projetos. No havia como dar errado. Era lucro certo. Resolveram fazer uma sociedade e comear a empresa. 
Para isso Roberto vendeu duas propriedades que possua, construiu trs salas e banheiro no terreno ao lado do depsito e l instalaram a nova empresa.
    Neumes estava construindo um prdio de apartamentos com outro engenheiro e ficou de integralizar sua parte do capital  medida que os imveis fossem sendo vendidos. 
Roberto correu com as primeiras despesas, e a empresa foi montada. Neumes apresentou-lhe o dono de um grande terreno interessado em construir nele um prdio. Assinaram 
um contrato estabelecendo que, dos trinta e cinco apartamentos que seriam construdos, o dono do terreno receberia dez em pagamento pela sua propriedade.
    Tudo parecia ir bem. Neumes entrou com pequena parte do seu capital, Roberto com tudo quanto possua, e o projeto comeou. Fizeram as plantas, aprovaram e comearam 
a vender os apartamentos.
    No estava fcil, porqanto a inflao alta obrigava a aumentos sucessivos de preo, mas mesmo assim o dinheiro comeou a entrar no caixa, e Roberto no se cabia 
de satisfao.
    Neumes tornou-se seu companheiro inseparvel. Iam ao futebol, s corridas de carro, aos restaurantes nos fins de semana com as esposas. Tudo estava correndo 
muito bem. O engenheiro dizia que estava cuidando das providncias iniciais. O estaqueamento do terreno, os alicerces iam bem. Roberto, orgulhoso, ia vistoriar a 
obra e dizia:
    - No vejo a hora em que o prdio comece a subir. Por enquanto  s alicerce.
    Ao que Neumes sorria e retrucava:
    - Essa  a parte mais difcil, porque no aparece. Precisa de pacincia. Logo estaremos comeando a levantar as paredes.
    Roberto sorria feliz vendo seu nome colocado na placa do lado de fora do pequeno pavilho de vendas que Neumes montara. Mas o tempo foi passando e Roberto achou 
que a construo estava demorando demais. O preo era barato, os apartamentos muito espaosos, por isso eles j haviam vendido vinte e oito unidades, recebido bom 
dinheiro, o bastante para acelerar a construo, ao que Neumes retrucava:
    -        Estou tendo dificuldade de conseguir mo-de-obra qualificada. Mas estou contratando mais gente e vamos alavancar o projeto.
    Gabriela vivia dizendo ao marido:
    -        Se eu fosse voc, cuidava dessa construo pessoalmente. Tudo est nas mos de Neumes.
    Voc confia demais nele.
    -        H o contador tomando conta de tudo.
    -        O contador que ele arranjou.
    -        Deixe de ser implicante. Neumes caiu do cu. Um engenheiro de alto padro, como ele, est se dedicando a um negcio com algum como eu, que nem sequer 
tem capital.
    -        Voc  quem sabe. O negcio  seu.
    -        Eu quero que voc venha trabalhar em nossa empresa.
    -        Por enquanto no. Meu salrio  alto e vocs ainda no tm como pagar. Quando chegar a hora, veremos. Por enquanto  cedo.
    -        Como voc  intransigente! O que custa ganhar um pouco menos e vir nos ajudar?
    -        No vou fazer isso agora. Vamos deixar o tempo correr.
    -        Se tudo estiver bem, voc vir?
    -        Veremos.
    Roberto passou a mo novamente nos cabelos. E agora, o que lhe diria? Havia alguns dias ele recebera uma intimao judicial. Sem saber do que se tratava, conversou 
com Neumes, que garantiu que deveria ser algum engano.
    Dois dias depois, Neumes recebeu um telegrama de seu pai, que morava no interior, pedindo-lhe que fosse ter com eles porque sua me estava muito mal. O engenheiro 
viajou imediatamente.
    Por que no percebera o jogo dele? Como fora to ingnuo a ponto de entrar naquele negcio? Comparecendo  audincia, tomou conhecimento de que algumas pessoas 
que haviam fechado negcio com os apartamentos haviam reclamado do no-cumprimento do contrato e pediam o dinheiro de volta. O juiz deferiu o processo e a empresa 
teria de cumprir a sentena.
    Nervoso, ele foi ao banco e l descobriu que, antes de viajar, Neumes retirara todo o dinheiro da empresa. Desesperado, procurou pelo contador e descobriu que 
ele tambm desaparecera. Foi ao apartamento do engenheiro, e estava vazio. Ele havia se mudado sem deixar endereo.
    Roberto enterrou a cabea nas mos, desesperado. Onde arranjar o dinheiro que teria de devolver aos compradores? Se ao menos ele tivesse como acabar a construo 
e entregar os apartamentos... Mas com que recursos? A conta bancria estava zerada.
    Ele se deu conta de que estava arruinado. Mesmo vendendo o depsito de materiais, no teria o suficiente para pagar o que devia. Seria a falncia, a vergonha, 
talvez at a priso. Precisava consultar um advogado, era preciso fazer alguma coisa. Mas em quem confiar numa hora dessas?
    O advogado que conhecia fora apresentado por Neumes, e ele seria a ltima pessoa em quem confiaria.
    Pensou em pedir a ajuda de algum. Um por um, todos os parentes e amigos foram desfilando em seu pensamento. Conscientizou-se de que nenhum deles possua recursos 
para lhe emprestar.
    Havia o projeto. Se encontrasse um scio que pudesse liquidar o montante da dvida, tudo ficaria resolvido. Mas e a construo, quem financiaria? Ele poderia 
vender sua parte, isto , sair do negcio sem receber nada. Se conseguisse salvar o depsito e pagar as dvidas, j seria um sucesso!
    Mas onde encontrar a pessoa certa, que, alm de ter recursos, se interessasse por um negcio mal comeado?
    Roberto pensou, pensou e resolveu, O primeiro passo seria colocar um anncio no jornal.
    Tinha algum dinheiro em sua conta pessoal. Depois iria procurar um advogado para uma consulta. Talvez sua me pudesse lhe indicar um. Apanhou lpis e papel e 
escreveu o anncio.
    Decidido, saiu e, depois de passar pelo jornal, foi  procura de sua me. Vendo-o aparecer em hora to inusitada, Georgina assustou-se:
    - Voc aqui a esta hora! Aconteceu algo com as crianas?
-        No. Elas vo bem. Eu  que preciso da sua ajuda.
Voc est com uma cara! Foi com Gabriela?
        No. Foi comigo mesmo. Estou desesperado. Aconteceu uma coisa horrvel. Preciso de um bom advogado. Voc conhece algum?
-        Advogado! Valha-me Deus! O que foi que voc fez?
    - Nada. Eu no fiz nada. Fui vtima de um desfalque! Neumes fugiu com o dinheiro da empresa e a justia me condenou a devolver tudo que os compradores pagaram! 
Estou arruinado!
    - Santo Deus!  o que d querer ser mais do que ! Por que tanta ambio? Voc no estava bem com o que ganhava?
    - Acho que errei vindo buscar sua orientao. Eu preciso de ajuda, no de crtica. Se eu soubesse com quem estava me metendo, nunca teria feito esse negcio. 
Ele  um engenheiro!
    Nunca pensei que fosse querer me passar a perna desse jeito.
    Roberto levantou-se nervoso e finalizou:
    - Vou embora. Foi um erro vir aqui.
    - No. Vamos ver o que se pode fazer. Vamos conversar. Conte tudo como foi.
    Roberto relatou os fatos com detalhes enquanto Georgina balanava a cabea com ar de quem j esperava o trgico desenlace, o que deixava Roberto ainda mais nervoso.
    - Na verdade, o que preciso de voc  saber se conhece algum bom advogado.  s isso que eu quero agora.
    Ela pareceu nem ouvir:
    - O que disse Gabriela?
    - Ela no sabe ainda. E o advogado? Conhece algum ou no?
    - Assim de pronto, de confiana mesmo, no sei. A coisa mais difcil  arranjar um advogado honesto. Esto sempre querendo nos enganar. Eles conhecem as leis, 
enquanto ns, no.
    - J vi que no vai poder me ajudar. Vou embora.
    - Espere um pouco. Vou fazer um cafezinho. Precisa se acalmar.
    - No estou com pacincia para esperar nada. Vou embora, para ver o que posso fazer.
    Enquanto ela protestava pedindo que ele tivesse calma, Roberto saiu sentindo aumentar seu desespero. Parou em uma banca e comprou um jornal. Na seo de classificados, 
procurou atentamente por escritrios de advocacia. Teria de ver os anncios e arriscar. Ele no estava em condies de perder tempo.
    Depois de escolher um escritrio no centro da cidade, dirigiu-se para l. Havia uma pessoa dentro da sala do advogado e outra na sala de espera. Ele teria de 
aguardar.
    Seus olhos percorreram a sala. O ambiente era sbrio, sem luxo porm bem cuidado. Ele nunca iria a um escritrio de luxo. No estava em condies de pagar muito 
pela consulta. Mas, por outro lado, um advogado pobre no lhe inspiraria confiana. Era sinal de que ele no tinha muitos clientes e por isso no deveria ser eficiente.
    Remexeu-se na cadeira tentando acomodar-se melhor. Parecia-lhe haver escolhido bem. Uma hora e meia depois, quando entrou na sala do advogado, j no suportava 
mais esperar.
    O Dr. Paulo era um homem dos seus trinta e cinco anos, alto, rosto forte de traos bem pronunciados, olhos castanho-escuros que pareciam mais claros quando ele 
os apertava um pouco para fixar-se em seu interlocutor quando sorria.
    Convidado a sentar-se, Roberto respirou fundo e contou-lhe tudo quanto lhe havia acontecido.
    O advogado ouviu-o com ateno, o que fez Roberto sentir-se confortado e compreendido.
    - Hoje o meu mundo desmoronou - finalizou. - Estou me sentindo perdido. No sei como proceder. Estou arrependido de haver confiado tanto nele, sinto-me um tolo, 
um idiota de boa-f que foi passado para trs sem nenhuma cerimnia. O pior  que minha mulher ainda no sabe de nada. Contar-lhe ser um horror. Ela sempre desconfiou 
dele.
    -        Avalio como se sente. Entretanto, agora, precisa controlar as emoes e procurar uma sada. A lei oferece-lhe algumas alternativas. J deu queixa  
polcia?
    -        Queixa  polcia? Claro que no. Ser um escndalo. No quero passar essa vergonha.
    -        O orgulho  inimigo do bom senso. Voc precisa documentar o desfalque. Embora isso no lhe anule a dvida, poder melhorar suas condies diante do 
juiz. Precisa provar que foi ludibriado e no agiu de m-f.
    -        Claro que no agi. Eu fui enganado, terminei como o maior prejudicado!
       Voc poderia ter combinado com seu scio para lesar essas pessoas e depois dividir o dinheiro.
    -        Eu sou um homem honesto! Nunca faria isso!
    -        Eu acredito, mas o juiz pode duvidar. Ele no o conhece e precisa de informaes para julgar com justia. Seu advogado vai precisar de documentos para 
entrar com recurso, e o mais importante deles  a queixa na polcia para registrar o roubo.
    -        Entendo. Terei que fazer isso?
    -  o primeiro passo. Depois, pode visitar os credores, um a um, contar-lhes a verdade e pedir-lhes um tempo para devolver o dinheiro, o que poder ser feito 
de forma parcelada, de acordo com suas posses.
    -        Se eu tiver que vender o depsito de materiais, no terei como ganhar dinheiro para lhes pagar.
    -        Esse ser um bom argumento para usar com seus credores. Eles desejam receber. Voc precisa mostrar boa vontade e o desejo de lhes pagar. Um acordo bem-feito 
poder beneficiar ambas as partes.
    -        O senhor acha que podemos conseguir isso?
    -        Seu advogado poder tentar.
    - No tenho advogado, ou melhor, o que eu tinha foi-me indicado pelo meu scio. No me sinto encorajado em dar-lhe a causa. Vim procur-lo atravs do seu anncio 
no jornal. Gostei.
    Estou sentindo que o senhor poder me ajudar e gostaria de contrat-lo. Estu preocupado com o preo, porque no momento minha situao  crtica. Se esperar 
um pouco at que as coisas melhorem, pagarei tudo que puder.
    Paulo sorriu ao responder:
    Voc poder pagar os meus honorrios no final.
    -        Sendo assim, fico-lhe muito grato.
    -        Vamos fazer o seguinte: vou mandar preparar uma procurao, como de praxe, e depois iremos  delegacia mais prxima da sua empresa fazer oficialmente 
a queixa. Tem as informaes sobre seu scio?
    -        Eu no sei onde ele est.
    -        No  isso. Refiro-me ao nome completo, idade, nmero de documentos, etc.
    -        Devo ter tudo isso na empresa. Alm do contrato social, h os documentos de compra e venda dos apartamentos. No ser difcil conseguir.
    -        Tem consigo seus documentos?
    -Tenho.
    O        advogado chamou a secretria e deu-lhe as instrues e os documentos de Roberto.
    Enquanto esperavam, mandou servir um caf. Roberto sentia-se apoiado e agradecido.
    Retirou uma foto da carteira e mostrou-a ao advogado.
    -        Estes so meus filhos. Esta  minha esposa.  por eles que eu trabalho e vivo. Nem sei como dar essa notcia a Gabriela.
Quanto menos dramatizar, melhor ser.
    -        Como assim?
    -        Se deseja que eles aceitem a verdade com calma, voc precisa apresentar os fatos com naturalidade, contar o que aconteceu e no se lamentar.
    -        Como no lamentar um caso desses?
    - Voc j sofreu com o fato em si. Mas aumentar o sofrimento de sua famlia no vai melhorar em nada a questo. As coisas vo continuar do jeito que esto. Se 
deseja poupar sua esposa, o melhor  conservar a serenidade, mostrar que tomou as providncias cabveis e que est fazendo o que pode para solucionar tudo. Isso 
 o mais importante. Para que alarmar sua famlia inutilmente?
    Roberto no respondeu e ficou pensativo. Para o advogado, que estava de fora e nada tinha a ver com o caso, isso poderia ser fcil. Mas ele, que fora a vtima, 
no se sentia calmo o bastante para falar no assunto com serenidade. Sua vida se desmoronara, como se manter calmo?
    Depois de haver assinado a procurao, Roberto, em companhia de Paulo, passou na empresa, apanhou os dados de que precisava e foram at a delegacia dar queixa.
    Roberto sentia-se arrasado. Logo ele, sempre to srio, to honesto, ter de se submeter quela situao. Parecia-lhe que o policial que datilografava suas declaraes 
assumira um ar de deboche quando ele narrava os fatos. Sentia vontade de sair dali correndo, desistir de tudo. Entretanto, a presena ereta e sria do advogado infundia-lhe 
coragem.
    Ao deixarem a delegacia, Roberto apanhou o leno e enxugou o suor do rosto. Fora-lhe muito penoso dar queixa. Na porta, foram abordados por um reprter que desejava 
mais informaes sobre o caso. Roberto queria ir embora, no dizer nada, porm Paulo o impediu. Prestou os esclarecimentos enquanto o jornalista anotava tudo.
    Quando saram, Roberto considerou:
    - Por que parou para falar com eles? Vai sair no jornal, ser uma vergonha! Eu no queria que ningum soubesse.
    - Ao contrrio.  melhor que saibam a verdade. No h como encobrir. Os credores vo falar, as notcias vo correr de qualquer forma. No se esquea de que voc 
no fez nada. No roubou ningum. No tem do que se envergonhar. Voc foi enganado. Est pagando pela ingenuidade. Errar  humano. Depois, quanto mais propagarmos 
o desfalque e a fuga do seu scio, mais estaremos tirando sua responsabilidade. Voc foi a maior vtima. Todo mundo vai ficar com pena de voc, at os seus credores. 
Isso  fundamental para negociarmos com eles.
    Apesar de sentir-se humilhado, Roberto foi forado a concordar. Ele era o advogado, sabia o que estava fazendo. Despediram-se combinando um encontro no dia seguinte.
    Havia anoitecido quando Roberto chegou em casa. Pelo caminho foi se esforando para controlar a emoo, preparando-se para dar a notcia a Gabriela conforme 
Paulo recomendara. Ele estava certo. Assustar a famlia no iria melhorar a situao.
    Mas logo que entrou em casa percebeu que isso no seria possvel. Georgina estava l e, assim que o viu, correu para ele dizendo:
    - Graas a Deus que voltou!  tarde, pensei que tivesse feito alguma besteira, que houvesse acontecido alguma desgraa! Ainda bem que voltou para casa!
    Gabriela vinha atrs dela, com as crianas agarradas  sua saia com ar assustado.
    - Eu no disse que a senhora estava exagerando? No h nada. Vamos nos acalmar.
    Roberto arrependeu-se amargamente de ter ido  procura da me. Foi dizendo logo:
    - No houve nada mesmo. Por que esto to assustadas? Est tudo bem. Tudo sobre controle.
    - Mas, filho, voc no disse que seu scio fugiu com todo o dinheiro e que voc ter que pagar os compradores dos apartamentos?
    -        Me, deixemos esse assunto para mais tarde. Estou cansado. No precisava falar disso agora.
    -        Quer dizer que eu me preocupei  toa? Voc vai  minha casa desesperado, me deixa preocupada e agora diz que est tudo bem, que no precisava falar 
nisso? Como no? Acha que sou de feno? Eu me preocupo com o que acontece com minha famlia. Ou acha que no?
    -        Eu sei que voc se preocupa, que nos quer bem. Mas veja: as crianas esto nervosas.
    Parece at que aconteceu uma desgraa. Vamos nos acalmar. Depois conversaremos.
    Gabriela olhou para eles com raiva. Por que o marido fora  procura da me para se queixar ao invs de falar com ela, a esposa? Se ele tivesse feito isso, no 
teria de agentar a sogra, que a fizera sair do emprego mais cedo, afirmando que Roberto estava arruinado e  beira do suicdio.
    Gabriela sentia mpetos de expulsar a sogra, e fez um grande esforo para se controlar, j-que seria pior se as crianas presenciassem mais uma cena. Estava 
plida e nervosa. Voltou  cozinha para mexer nas panelas, colocando o jantar para esquentar.
    Roberto percebeu que Gabriela estava no auge da irritao. Conhecia-lhe aquele ar controlado, aquela palidez que sempre prenunciava tempestade. O que ele precisava 
fazer era afastar a me dali. Por isso, f-la sentar-se na sala e procurou falar-lhe com calma, embora estivesse no limite da exausto.
       Me, arranjei um excelente advogado e tomamos algumas providncias.  melhor se acalmar. Estou muito cansado e agradeceria se nos deixasse descansar. Quero 
tomar um banho, jantar e dormir. Amanh irei  sua casa e conversaremos.
    Georgina tinha lgrimas nos olhos ao responder:
    - Voc sabe que estou do seu lado! Sou sua me, e tudo quanto lhe acontece  como se fosse comigo.
    -        Eu sei, me. Lamento ter lhe dado preocupao. V para casa, descanse. Amanh vou at l e conto tudo nos mnimos detalhes.
    -        Voc no vai fazer nenhuma besteira? Senti tanto medo!
    -        No, eu juro. Estou calmo, est vendo? Pode ir sossegada.
    -        Est bem. Ento eu vou.
    Ela foi at a cozinha, despediu-se da nora e das crianas e saiu. Quando a porta se fechou, Roberto deixou-se cair em uma cadeira, exausto. Ainda lhe restava 
falar com Gabriela. Foi  cozinha, onde ela remexia as panelas.
-        Sinto muito, Gabriela. Deu tudo errado.
    De repente, toda a sua tenso desmanchou-se em uma catadupa de lgrimas que lhe desciam pelas faces e ele no conseguia conter. Gabriela olhou diretamente em 
seus olhos e disse com voz firme:
    -        Sei de tudo. No precisa dizer nada. V para o quarto e controle-se. As crianas j foram muito traumatizadas hoje. No agrave mais esta situao to 
desagradvel.
    Roberto ficou indignado. Esperava que ela o confortasse. Vendo que as crianas reapareciam na cozinha, ele correu para o quarto, onde, a portas fechadas, deu 
vazo  sua frustrao,  sua raiva, ao seu desencanto, chorando copiosamente.
    Depois, quando se acalmou, olhou-se no espelho e sentiu vergonha. Estava com os olhos vermelhos, inchados. No podia aparecer assim diante das crianas. Tomou 
um banho, depois apagou a luz e deitou-se.
    Gabriela entrou e informou que as crianas j haviam jantado e se recolhido.
    -        Voc quer jantar?
    -        Obrigado, mas estou sem fome.
    -        Quer conversar?
    -        S quero dizer que sinto muito o que nos aconteceu hoje. Estou arrasado, envergonhado. Voc tinha razo. Por que no percebi nada?
    -        Vou buscar um calmante. Voc precisa dormir, descansar.
    -        No vai querer saber tudo que aconteceu?
    -        O principal eu j sei.
    -        Eu procurei um advogado. Ele me orientou e assumiu o caso. Vamos ver o que podemos conseguir. Espero no ter que vender o depsito. Pode ter certeza 
de que farei tudo para sair desta encrenca.
    -        Est bem.
    -        Voc no est zangada? No me culpa?
    -        Melhor no falarmos nisso agora.
    - Mas voc est zangada. Eu sei que est.
    -        Estou me controlando. Chega de confuso. Outra hora, quando estivermos mais calmos, conversaremos.
    -        Eu quero que voc me perdoe. Eu errei, fui ingnuo. Pus tudo a perder.
    -Agora est tentando consertar. Est bem. Chega. Depois falaremos. Estou cansada e quero dormir.
    Roberto ainda tentou conversar, mas ela no quis ouvir. Deu-lhe o calmante e, graas a isso, ele logo adormeceu. Contudo, ela, deitada de costas a seu lado, 
sentia dentro do peito um desnimo e um vazio que, embora tentasse afastar, no ia embora e a impedia de relaxar e dormir.

Captulo 2
    
    Roberto passou os olhos pelo jornal, desanimado. Estava difcil. Ele no tinha profisso definida. Sempre trabalhara por conta prpria. No cursara nenhuma faculdade.
    -        Est cheio de pessoas com diploma universitrio que no conseguiram subir na vida. Vivem de um emprego que mal d para se sustentarem - costumava dizer 
para justificar-se de haver parado de estudar quando acabou o primeiro ciclo. - Mais vale quem conhece o mercado, quem aprende na escola da vida.
    Entretanto essa escola agora no estava sendo suficiente para conseguir-lhe um emprego em que ganhasse o que precisava para sustentar a famlia.
    O advogado ajudara-o, esforara-se para controlar os credores, parcelando a dvida, tentando dividir o prejuzo. Mas pouco conseguiu. O juiz j havia determinado, 
e os compradores dos apartamentos no quiseram nenhum acordo diferente.
    Roberto teve mesmo de vender o depsito e ainda ficar com algumas prestaes que teria de parar pelo menos durante cinco anos.
    Ele reservou algum dinheiro para manter a famlia durante dois meses. Confiava em arranjar um emprego nesse perodo. Entretanto, j fazia trs meses que estava 
sem trabalhar e, por mais economia que tivesse feito, essa reserva havia se acabado.
    Roberto sempre se orgulhara de dizer que Gabriela trabalhava porque gostava e que ele no precisava do dinheiro dela. Agora, no entanto, estavam vivendo com 
o salrio dela, e ele se sentia humilhado por ter de pedir-lhe dinheiro at para comprar o jornal ou ir cortar o cabelo.
    Alm disso, no estava conseguindo pagar as prestaes do restante da dvida, e os credores estavam sempre cobrando, alguns at dizendo que ele os estava enrolando, 
j que morava em uma casa boa e poderia vend-la.
    Roberto ficava agoniado. A casa era a nica garantia de sua famlia. Se a vendesse, para onde iriam? O aluguel de uma casa, mesmo mais modesta do que a sua, 
era caro, e ele, desempregado, como poderia pagar?
    Resistia. Vender a casa, no. Pelo menos tinham onde morar sem pagar nada.
    Olhou novamente o jornal, revendo os anncios na esperana de encontrar alguma coisa. As empresas queriam currculo e experincia de pelo menos dois anos na 
rea, e ele no tinha nenhuma dessas duas coisas.
     Gabriela ajudou-o a montar um currculo que evidenciava sua experincia como gerente do depsito de construo. Graas a esse currculo, algumas empresas o 
chamaram para entrevistas.
     Entretanto, ao saberem que ele sempre fora proprietrio e havia perdido tudo, no o escolhiam para a vaga. Desesperado, ele dizia  esposa:
     - Acho que no deve escrever que eu era o dono. Como  que vo confiar em algum que abriu falncia? Vo pensar que no entendo nada do ramo.
     Gabriela tentou reescrever o currculo, mas, para dizer que ele havia sido empregado, era preciso fornecer o nome das empresas nas quais ele havia trabalhado, 
e isso era impossvel.
     Roberto pensou em ser vendedor. Ele se considerava com talento para vendas, uma vez que foi negociando que arranjou dinheiro para montar o depsito. Mas mesmo 
na rea de vendas estava difcil. No conseguia nada. Se ao menos ele tivesse dinheiro para montar qualquer coisa por conta prpria!
     Gabriela tinha algumas economias. J havia gasto uma parte, mas recusava-se a gastar o resto.
     E se as crianas adoecessem? E se ele demorasse a encontrar um emprego? No. Ela se sentia mais segura tendo algum dinheiro na caixa econmica.
     Roberto no tinha coragem de pedir-lhe esse sacrifcio, mesmo porque a importncia era pequena e no daria para resolver seu problema. O que ele precisava mesmo 
era arranjar um emprego. Mas como?
     A campainha da porta soou e ele foi abrir. Era Georgina, que entrou dizendo:
     - Vim ver voc. Fiquei preocupada. Ainda no arranjou nada?
     - Est difcil, me. No sei mais o que fazer.
     -        Se eu tivesse dinheiro, daria para voc abrir outro negcio. Mas infelizmente seu pai me deixou quase sem nada. A penso mal d para comer. Se no 
fosse a ajuda de sua irm, no teria como viver.
     - Eu sei, me. Vou dar um jeito, no se preocupe. Uma hora o emprego vai aparecer. Isso no pode ficar assim.
     - Ainda se seu cunhado no fosse to sovina, eu podia falar com Gina. Mas ele  to mo-fechada que ela sua para conseguir dinheiro dele.
     - No vou incomodar a famlia. Eu arranjei esta encrenca e eu tenho que dar jeito.
    -        Em todo caso, sei que Nando tem dinheiro guardado. Ganha bem leva vida boa. Voc podia ir falar com ele, ver se ele arranja um emprego para voc na 
empresa em que ele trabalha.
    -        No vou, me. Ele  cheio de pse. Desde que casou com Gina nunca se chegou do nosso lado. Tem amigos ricos, freqenta lugares de luxo. No perde chance 
de dizer que quem no fez faculdade  ignorante. Eu sempre senti que ele no gostava do meu ramo de atividade.  metido a intelectual. Prefiro morrer de fome a ir 
pedir alguma coisa a ele. E, por favor, nem comente com Gina a minha situao. No quero dar asa quele pedante.
    -        Sua irm j sabe de tudo. Sua falncia saiu no jornal, todo mundo ficou sabendo. Depois, orgulho no enche barriga. Pobre no pode ser orgulhoso. Quem 
precisa tem que ser humilde.
    -        Pois eu no sou. Posso pedir ajuda para qualquer um, menos para Nando. Depois, no fique dizendo que minha empresa faliu. No gosto disso.
    -        Mas no foi o que aconteceu? Voc tentou uma concordata, mas no conseguiu.
    -        Eu sei. Mas no precisa ficar repetindo isso. Est trovejando e eu vou recolher a roupa do varal.
    -        Que horror! Voc precisa fazer isso?  servio de mulher!
    -        Preciso e vou, seno vai molhar tudo. J est seca.
    Ele saiu rpido apanhando uma cesta e recolheu a roupa. Georgina olhava-o contrariada. Os primeiros pingos de chuva j estavam caindo quando ele entrou colocando 
o cesto sobre a mesa da cozinha.
    Georgina tinha lgrimas nos olhos quando disse:
    - Meu filho! Que humilhao. Esse servio deveria ser feito pela sua mulher.
    Ele se irritou.
    - Gabriela est trabalhando. Estamos vivendo do dinheiro dela, se quer saber. Se ela no estivesse trabalhando, no teramos o que comer.
    -        Aquela Nicete antiptica, assim que o dinheiro acabou, foi embora.
    - Ela no foi embora, me. Ns no podemos pagar seu salrio, ento ela arranjou algumas casas para fazer faxina e garantir seu sustento. Quando est, faz o 
servio como sempre.
    -        Quer dizer que ela dorme aqui sem pagar nada? Est se aproveitando de voc!
    -        Voc est sendo maldosa. Ela chega cansada e ajuda Gabriela a fazer todo o servio da casa.
-        Aposto que Gabriela gostaria que voc fizesse tudo.
    - Eu estou aqui enquanto elas trabalham. No sei fazer nada em casa, mas se soubesse faria.
    No tem nada de mais.  que no tenho jeito para essas coisas. Nunca aprendi.
    Georgina olhou penalizada para o filho.
    - No encontrou nada no jornal?
    - Separei algumas coisas. Vamos ver - mentiu ele, na esperana de que ela se contentasse e fosse embora.
    - Vou conversar com alguns conhecidos para ver se arranjo alguma coisa.
    - Me, preferia que no fizesse isso. Deixe comigo. Eu sou auto-suficiente, posso cuidar de tudo.
    Ela deu de ombros, foi at a janela. A chuva forte caa do lado de fora, lavando a calada.
    - Preciso esperar a chuva passar.
    Ele se resignou e perguntou:
    - Vou fazer um caf, voc quer?
    - At isso voc faz, agora?
    Ele fingiu que no ouviu. Colocou a gua na chaleira, apanhou o bule, colocou o p no coador, apanhou as xcaras, o acar, colocando tudo sobre a mesa. Sentia 
vontade de gritar, de obrig-la a sair mesmo na chuva. Por que ela tinha de ser assim to irritante?
    Controlou-se. Afinal, ela no tinha culpa por ele haver perdido tudo e estar naquela situao.
    Era sua me, devia-lhe respeito e obedincia.
    Coou o caf, serviu, tomaram em silncio. Quando a chuva passou e ela se foi, ele se deixou cair em uma cadeira, mergulhando a cabea entre as mos. As lgrimas 
desceram sobre o rosto e ele as deixou correr livremente. Sentia-se arrasado. Por que a vida fizera aquilo com ele? Por qu?
    Sempre fora honesto, cumpridor de seus deveres, trabalhador. Respeitara todas as regras da sociedade, nunca fizera mal a ningum. Pelo contrrio, sempre que 
podia ajudava as pessoas. Por que Deus o estaria castigando? E se ele no conseguisse emprego? O que faria da vida? Odiava viver  custa da mulher. Era a humilhao 
mxima.
    Enxugou os olhos. A chuva passara. Eram quase cinco horas, e ele precisava buscar as crianas. Fazia isso quando Nicete saa para trabalhar. Foi ao banheiro 
e olhou-se no espelho.
    Seus olhos estavam vermelhos. No podia sair assim. Procurou um colrio, pingou-o nos olhos, lavou o rosto, passou at um pouco de p de arroz de Gabriela para 
encobrir o vermelho das plpebras. Penteou os cabelos e saiu.
Quando ele voltou com os filhos, Nicete j estava na cozinha.
    - Ainda bem que o senhor recolheu a roupa. Eu estava na casa da D. Zilda pensando nesse varal cheio de roupas. Fiquei com medo de que o senhor esquecesse.
    Enquanto ela providenciava o jantar, Roberto entretinha os filhos. Eram quase sete horas quando Gabriela chegou. Olhou o rosto do marido e notou logo que ele 
havia chorado. Ele fingia estar bem, brincava com as crianas. Contudo, podia enganar qualquer um, menos ela.
    Se ao menos ele melhorasse o humor! Ela chegava cansada, mas no se importava de cuidar do bem-estar da famlia. O que a incomodava era o ar de vtima do marido.
    Ela fazia o que podia, e sentia-se bem por poder colaborar nessa situao difcil. Mas ele sempre estava com um ar de insatisfao.
    Claro que ela entendia que ele no podia estar feliz com uma situao daquelas. Entretanto, de que adiantaria ele agravar mais as coisas fazendo cara de vtima? 
Isso a irritava muito. Nunca imaginara que o marido fosse to frgil. Ele sempre se mostrara auto-suficiente, trabalhando no prprio negcio, tomando decises, parecendo 
saber sempre o que fazer. Por que mudara tanto?
    Ser enganado por um malandro pode acontecer a qualquer um, mas entrar na depresso, ficar remoendo o caso, s agravava o problema. Ela at pensava que ele no 
conseguia emprego por causa disso.
    Uma colega dissera-lhe que, quando a pessoa est com energia ruim, tudo d errado. A energia de Roberto estava horrorosa. Ela sentia isso. No tinha vontade 
de ficar perto dele.
    Quando ele se aproximava, chegava at a sentir certa averso. Por qu? Ela se casara por amor. Achava que amava o marido. Ento, o que estava acontecendo com 
ela? O fato de Roberto estar atravessando uma fase ruim no a incomodava. Ele era moo, saudvel, tinha a vida toda pela frente. Tendo construdo um negcio prprio 
uma vez, poderia fazer isso de novo. Era s no entrar na lamentao.
    Mas a cara dele era de tristeza. Ficava constrangido quando ela lhe dava dinheiro. Por que ela podia aceitar dinheiro dele quando ele tinha e ele no podia aceitar 
o dela, agora que ele precisava?
    Mulher prtica, Gabriela no podia compreender por que Roberto fazia tanto drama. O clima em casa era pesado, ele estava sempre aborrecido, calado. Quando falava, 
era sempre para se queixar. Ela estava ficando cansada daquela situao. Afinal, pensava, ningum  de ferro.
    Trabalha, trabalha, e em casa no tem nenhuma alegria? At quando suportaria?
     Fingiu no perceber e tratou de fazer o jantar enquanto Nicete cuidava da roupa. O cesto de passar estava lotado.
     Serviu a comida, lavou a loua, viu a lio de Guilherme. Tomou banho, mandou as crianas dormir. Nicete continuava passando roupa.
     -        Voc deve estar cansada. Passe as que vamos precisar e deixe o resto para outro dia.
     -        No, senhora. Amanh aparece mais e eu nunca vou acabar. No vou poder dormir pensando neste cesto cheio.
     -        Faa como quiser. Eu vou dormir.
     -        Se eu deixar o rdio ligado baixinho, no vai incomodar? A msica me distrai e nem sinto o tempo passar.
     -        No. Para falar a verdade, eu tambm gostaria de deitar e ficar ouvindo msica. Mas Roberto anda com o sono difcil. Se eu deixar o rdio ligado, ele 
no vai conseguir dormir.
     -        O Seu Roberto anda muito nervoso. Hoje quando eu cheguei ele estava com uma cara...
     Para mim foi conversa da D. Georgina. Quando eu virei a esquina, vi que ela estava saindo.
     -        Tem certeza de que era ela mesma?
     -        Tenho.
     Gabriela suspirou. Ento era isso. Ela com certeza fizera Roberto sentir-se mais atormentado do que o costume. Se ao menos ela os deixasse em paz!
     -        Infelizmente, no posso fazer nada. No quero me meter no relacionamento deles. Evito o quanto posso envolver-me com ela.
     -        Eu garanto que ela tirou o Seu Roberto do srio. Ele j anda to triste com a situao...
     -        Tristeza no resolve. O que ele precisa  tomar uma atitude mais sria.
     -        Ele tem se esforado, D. Gabriela.  que a situao anda difcil. Cada dia que passa tem mais gente desempregada.
     -        Ainda bem que voc  minha amiga e tem me ajudado. Estou anotando o que devo para voc, e assim que as coisas melhorarem pagarei tudo. No sei o que 
faria sem seu apoio.
     -        Eu me sinto bem aqui. Enquanto me quiser, ficarei.
     -        Por mim voc fica o resto da vida.
     -        Se no fosse o dinheiro que preciso mandar para minha me todo ms, eu nem ia trabalhar fora. No gosto de ver a senhora chegar cansada e ainda ter 
que trabalhar tanto em casa.
     -        Voc  uma moa to prestimosa, to boa. De repente aparece algum e voc acaba casando, nos deixando.
    -        Isso no vai acontecer, no. J dei muita cabeada na vida. Gosto de namorar, arranjo distrao, mas nunca mais quero morar com homem nenhum. Chega 
o que j passei. Comi o po que o diabo amassou.
    Gabriela sorriu. Nicete era objetiva e direta. No se deixava levar por ningum. Era uma mulher forte, prtica, sabia o que queria.
    -        Voc pode se apaixonar de novo!
    -        Apaixonar at que  bom! No tenho nada contra, no. Mas morar junto  que no. No amor eu quero a melhor parte, que  o namoro, quando tudo  bonito, 
gostoso. Juntou as camas, pronto: comea a confuso. J tenho quarenta anos, sou solteira, livre. Enquanto o namoro est bom, eu fico; quando comea a azedar, eu 
puxo o carro.
    -        Se voc fosse casada, se tivesse filhos, no faria isso.
    -        Faria, sim. Filho meu, se fosse pequeno, levaria comigo; se fosse crescido; ia ter que escolher de que lado ia ficar. No tem papel no mundo que me 
faa ficar amarrada a uma pessoa que est me incomodando.
    -        Voc  corajosa.
    - Sou. Enfrento o que vier na vida. Tenho disposio. Quando eu larguei do Albino e vim trabalhar aqui, eu estava um lixo. Magra, acabada, cansada, desiludida, 
de tantas que ele me fez.
    Eu jurei que nunca mais homem nenhum iria fazer isso comigo de novo. E no faz mesmo. Eu amava muito o Gilberto, moreno, bonito, danava que era um gosto. Quando 
eu ia com ele no salo, as outras ficavam com olho comprido que a senhora tinha que ver. Mas, quando percebi que ele estava me fazendo de boba com a Marli, dei a 
volta por cima. Despachei o Gilberto na hora.
       Mas voc no gostava mais dele?
    -        Eu amava muito. No comeo sofri como um co. A Oflia me disse que eu era boba, que ia deixar ele livre para ficar com a Marli. Que eu deveria segurar 
ele de qualquer jeito. Mas eu no ouvi mesmo. Fiz o que eu queria. Mas a aconteceu uma coisa engraada. Ele, que j andava cheio de dedos comigo, arranjando desculpas 
para no sair, mudou. Nunca mais quis ver a Marli. Ficou atrs de mim, no dava sossego, olha, at me incomodou.
    -        Ento voc o perdoou.
    -        Que nada! Quando aconteceu isso, enjoei dele. A paixo acabou. Ele no se conforma at hoje. Quando passo com o Mrio, ele fica olhando, com aquele 
olho comprido... Eu fao de conta que nem percebo. O Mrio sabe que ns j namoramos e fica nervoso quando v ele.
    Gabriela riu.
    -        Todas as mulheres deveriam aprender com voc. Voc gosta mesmo de Mrio? No est com ele s para fazer cime a Gilberto?
       No. Eu gosto mesmo do Mrio. Ele me compreende e sabe namorar como ningum.
       Enquanto estiver bom, eu fico com ele.
       Gabriela olhou para Nicete, dizendo:
- Voc me fez relaxar com suas histrias. Eu estava muito tensa. Obrigada.
        - Eu notei. Sabe, D. Gabriela, no leve a vida to a srio. Tudo passa neste mundo. Logo Seu Roberto arranja trabalho, fica mais alegre, tudo melhora. O 
segredo da felicidade  escolher a comdia e largar o drama. Se a senhora soubesse como eu tenho vontade de rir quando vejo a D. Georgina disfarando e xeretando 
nas gavetas para descobrir alguma coisa errada!  duro segurar.
       Ela fica com uma cara to engraada!
    -        Tem hora que eu sinto vontade de p-la daqui para fora. Mas respeito por causa de Roberto.
    - Experimente olhar para ela e ver como ela  engraada! Garanto que a raiva vai embora.
    Agora, o duro  segurar o riso.
Gabriela sacudiu a cabea dizendo:
    -        Nicete, voc no existe! Achar D. Georgina engraada quando ela  irritante, s voc mesmo.
    - Experimente fazer isso, D. Gabriela. De que adianta se irritar se no pode fazer nada, se tem que viver perto dela por causa do Seu Roberto? Se poupe, D. Gabriela. 
Cuide da sua sade, da sua paz. Faa dela uma piada e ver que a implicncia desaparece. Agora, eu at gosto quando ela chega, s para ter o gostinho de ver a cara 
que ela faz quando no consegue achar nada errado.
    - Gostaria de ser como voc. Vive de bem com a vida.
    - A vida  boa mesmo, mas tem muitos lados para se ver. Depende de que lado voc se pe.
    Eu repito: prefiro a comdia do que o drama, e isso sempre me ajudou. At no cinema, na televiso, no rdio, eu prefiro o que  engraado, alegre e me d disposio.
    -        Voc gosta de histria de amor, que eu sei.
    - Gosto muito. Mas s vezes me irrita quando a mocinha  bobona, sofre sem reagir. No gosto de gente fraca.
    - Eu tambm no. As vezes voc se engana com as pessoas. Pensa que elas so fortes e se decepciona quando elas mostram que so fracas.
- Ningum  fraco, D. Gabriela. Todo mundo tem fora, s que amolece, quer tudo fcil, espera que os outros faam as coisas para eles e acabam esquecendo que tm. 
Mas a fora continua l. Quando a vida provoca, quando cria uma situao dura, uma doena, um acidente grave, a pessoa encontra ela rapidinho. Lembra da Cleide? 
Ela vivia se queixando, sempre pendurada no marido, dizia que era doente, fraca, que no podia fazer nada dentro de casa. O coitado chegava cansado do trabalho, 
ainda tinha que fazer a janta. Quando desabou aquele armrio em cima do filho dela e o menino ficou preso embaixo, ela estava sozinha. Quando os vizinhos chegaram, 
ela j tinha tirado o menino. Ningum sabe onde ela rranjou fora para levantar um armrio to pesado. Olha que depois precisaram de dois homens para colocar ele 
no lugar.
    -        Sempre me perguntei como uma mulher to fraca tinha conseguido fazer aquilo!
    -         que de tanto se fazer de fraca a pessoa acaba acreditando que  mesmo. Mas  s uma iluso. A fora est l. E s puxar para fora que ela vem. E por 
isso que eu no gosto de gente que se faz de fraca. E tudo mentira, s para voc fazer as coisas que elas querem. Quando voc no entra na iluso delas, ficam contra 
voc. Af, tome cuidado: mesmo com toda a fraqueza, elas mordem para valer.
    - Voc est certa.  isso mesmo.
    -        Eu tenho meu modo de ver e nunca me arrependi. Levo a vida como eu gosto.
    Gabriela sorriu e sacudiu a cabea concordando.
    -        Vou dormir. Boa noite.
    -        Boa noite, D. Gabriela.
    Quando ela entrou no quarto, percebeu que, apesar de estar com os olhos fechados, Roberto no estava dormindo. Lavou-se, vestiu a camisola e deitou-se.
    Ele tentou abra-la, ela virou de lado, fingindo no perceber. Estava cansada e indisposta. No queria ouvir mais nenhuma queixa. Ele passou o brao em volta 
dela, dizendo:
    -        Voc est muito cansada?
    -        Estou. Amanh terei que levantar muito cedo e adiantar algumas coisas antes de sair.
    Ele suspirou angustiado.
    -        Tenho a impresso de que est me evitando. Reconheo que no estou sendo boa companhia. Tenho andado angustiado.
    Ela suspirou resignada.
    -         impresso sua.
    -        No , no. Voc est me evitando. As vezes penso que est com raiva de mim, me olha de um jeito...
    -        Voc est enganado.
    - Sei que errei, fui ingnuo, me deixei levar por aquele safado. Mas, que diabo, no foi de propsito. No arranjei emprego ainda. Est difcil porque no tenho 
profisso definida, mas estou tentando de todas as formas.
    -        Sei disso. No o estou culpando de nada.
    -        Voc no fala, mas eu percebo que no fundo voc est me culpando. Isso me derruba.
    Gabriela tentou controlar-se. Era quase uma da madrugada. Ela teria de se levantar s seis.
    Precisava dormir pelo menos algumas horas para ter disposio. Ter boa aparncia, ser agradvel, fazia parte de suas funes como secretria. Quis contemporizar:
    -        Voc est nervoso e imaginando coisas. Vamos dormir, que  tarde.
    -        Nunca pensei que voc fosse agir assim. Enquanto eu tinha dinheiro, voc me tratava com ateno e carinho. Agora que estou por baixo, precisando do 
seu apoio, voc mal fala comigo. O que foi, deixou de gostar de mim?
    Foi a gota d'gua. Gabriela sentou-se na cama, acendeu a luz do abajur e encarou o marido, dizendo com raiva:
    -        Estou querendo evitar uma discusso, mas j que insiste  bom saber. No  a falta de dinheiro que me incomoda. O que me irrita mesmo  ver voc se 
queixando o tempo todo, como se fosse um homem deficiente, incapaz. Por mais que eu tente ajudar, voc est sempre com essa cara de vtima, como se o mundo fosse 
uma tragdia e voc no pudesse fazer nada para sair dela.
    Apanhado de surpresa, Roberto enrubesceu.
    -        No posso estar feliz atravessando uma crise destas.
    -        Se no pode sentir-se feliz, pelo menos finja, porque eu, as crianas e at Nicete temos o direito de viver em um lugar agradvel. Onde est sua fora? 
Onde est o homem que abriu caminho na vida, fez seu prprio negcio, construiu duas casas?
    -        Como queria que eu ficasse depois do que aconteceu?
    -        Queria que mostrasse sua capacidade no ficando com essa cara compungida, implorando nossa piedade, para ganhar nossa estima, tentando apagar a prpria 
sensao de culpa. Seu orgulho  tanto que no pode admitir sinceramente que caiu no conto do vigrio, como qualquer pessoa?
    -        Voc est me arrasando.
    - No. Eu estou falando a verdade. Ela di, mas  bom que perceba o quanto est se rebaixando com essa atitude. O que passou j foi. Agora,  tentar comear 
de novo, batalhar com coragem. Mas voc no esquece o que aconteceu. Fica pensando nisso todo momento, se lastimando, se afundando na depresso. Como arranjar trabalho 
desse jeito? Quem vai confiar em sua competncia quando nem voc acredita nela?
    - Voc est sendo cruel.
    - Foi voc quem provocou. Eu no queria dizer nada.
    - Bem se v que eu tinha razo. Voc estava com raiva mesmo.
    - Estava. Voc est agravando a situao.
    -        Est decepcionada comigo. No sou o que voc esperava.
    -        Se quer continuar falando dessa forma, vamos parar por aqui. Vamos dormir. Tenho que levantar s seis.
    - No precisa me lembrar que agora voc sai cedo e eu fico em casa, podendo dormir at mais tarde.
    Gabriela franziu o cenho irritada.
    - Sabe de uma coisa? No d para conversar com voc. Vou dormir no sof, no quarto das crianas.
    Apanhou o travesseiro, algumas cobertas no armrio e saiu determinada. Roberto teve um mpeto de ir atrs dela, mas desistiu. No queria fazer uma cena e acordar 
as crianas. Apagou o abajur e tentou dormir. Sua cabea doa e ele sentia-se oprimido. Por que acontecera aquilo com ele, por qu?
    As lgrimas desceram pelo seu rosto e ele as deixou correr livremente. No percebeu que alguns vultos escuros se aproximaram dele, envolvendo-o. Sentiu aumentar 
sua angstia enquanto pensamentos tristes o acometiam:
    "Ela no me ama! Nunca me amou. Vivi enganado todos estes anos! Se ela me quisesse, agiria diferente agora que eu estou no cho. Nunca pensei que a mulher que 
eu amo, a me dos meus filhos, a quem sempre fui sincero e respeitei, me tratasse desse jeito. Minha me tem razo. Ela  uma mulher muito independente. Vai ver 
at que est gostando de outro! Sei l, naquele escritrio, com tantos homens de dinheiro, podendo darem-se ao luxo de serem amveis o tempo todo. Vai ver at que 
ela mudou porque j arranjou outro!"
    A esse pensamento, Roberto trincou os dentes com raiva. Por que a deixara trabalhar fora? Se a tivesse obrigado a deixar o emprego quando se casaram, ela estaria 
dentro de casa, como deve ser uma esposa.
    Ele estava to envolvido pelas energias escuras que o circundavam que nem considerou que, se ela no estivesse empregada, eles estariam passando fome. Ele s 
tinha olhos para seu cime, sua revolta, sua dor.
    Ficou revirando na cama sem conseguir dormir. Ouviu quando Gabriela se levantou, foi para a cozinha preparar o caf e pr tudo na mesa da copa, como fazia todas 
as manhs antes de sair para o trabalho. No teve coragem de se levantar. Deixou-se ficar, imerso em seu desespero, sem vontade de fazer nada.
    Ouviu quando ela saiu e s ento se levantou. As crianas ainda dormiam. Ele se lavou e foi para a cozinha. Nicete estava na lavanderia colocando roupa na mquina 
de lavar.
    Encheu de caf a xcara e sentou-se. Estava sem fome. Sua vida estava acabada. Mesmo que ele arranjasse um emprego, como esquecer a atitude de Gabriela? Ela 
no compreendia sua dor.
    Como ele poderia sorrir, ficar alegre, na situao em que se encontrava?
    " na hora da necessidade que se conhecem as pessoas", pensou ele. "Se ela me amasse, no me negaria conforto nesta hora."
    Nicete entrou na cozinha, olhou para o rosto abatido de Roberto. Gabriela dormira no quarto das crianas, por certo eles tinham brigado. Fingiu no notar nada. 
No gostava de se meter na vida de ningum.
    Roberto, vendo-a entrar, pensou:
    "Gabriela e Nicete se do muito bem. Elas conversam como amigas. Se Gabriela estiver me traindo, Nicete deve saber. Pode ser at que a ajude a encobrir. As mulheres 
se entendem nessas coisas."
    Lanou um olhar desconfiado para Nicete, que lavava loua na pia. Voc no vai trabalhar fora hoje?
    -        S  tarde. Vou passar roupas na casa da D. Veridiana. Vou adiantar o servio aqui, fazer almoo, deixar tudo arrumado, levar as crianas para a escola. 
S no posso ir buscar. O senhor pode ir?
    -        Sim, pode deixar.
    -        Quero deixar tudo arrumado, assim D. Gabriela no vai precisar fazer nada quando chegar.
    -        Ela anda muito irritada ultimamente.
    - Isso passa. Todos temos esses altos e baixos.
    -        Ela est muito mudada, voc no acha?
    -        No, senhor. Est como sempre foi. S um pouco cansada. Quero dar um jeito de fazer ela descansar mais.
    -        Ela no aceita nossa situao.
    -        D. Gabriela  uma mulher muito corajosa. Est fazendo o que pode para ajudar.
    -        Vocs se entendem muito bem, no ? So muito amigas.
    -        Sim, senhor. Gosto muito de trabalhar aqui.
        -        Ela fala com voc sobre o que acontece no escritrio? No, senhor. Por que me pergunta isso?
    -         que eu pensei que ela pudesse contar como so as coisas l. Afinal, vocs conversam tanto...
    Nicete olhou sria para ele. Por que estaria lhe fazendo aquelas perguntas? O que estava querendo saber?
    -        D. Gabriela no me faz de sua confidente, se quer saber. Eu que s vezes conto meus problemas para ela.
    -        Seria natural que ela contasse os dela para voc.
    -        Mas ela no conta, no.
    Ele no disse mais nada. O tom de Nicete no o animava a prosseguir. Se ela soubesse de algo, ele iria precisar de toda a astcia para descobrir. Ela era esperta 
e parecia disposta a no contar nada.
    -        Vou comprar o jornal.
    -        Eu trouxe quando fui comprar o po. Est na mesa da sala.
    Roberto foi apanh-lo. Tinha de arranjar alguma coisa para fazer. No podia ficar de braos cruzados enquanto sua vida conjugal estava sendo arrasada. Depois, 
tinha dignidade. No podia continuar vivendo  custa da mulher. Fora por causa disso que ela perdera o respeito e lhe dissera todas aquelas coisas. Tinha de mostrar 
a ela que ele era competente para sustentar a famlia e no precisava mendigar o dinheiro dela. Depois da cena da noite anterior, ele no iria mais aceitar um centavo 
dela. Teria de dar um jeito, fazer qualquer coisa para conseguir pelo menos algum dinheiro para suas despesas e no precisar lhe pedir nada.
    At ento estivera procurando um emprego que lhe desse condies de manter a famlia no mesmo padro a que se habituara. Mas, naquela circunstncia, aceitaria 
qualquer coisa, contanto que no precisasse pedir mais dinheiro  esposa.
    Tinha seu orgulho e no abria mo dele. Decidido, abriu o jornal e comeou a ler todos os anncios, sem distino. Anotou alguns que lhe pareceram melhores.
    Procurou Nicete:
    -        Vou sair agora.
    -        O senhor vem para o almoo?
    -        Acho que no.
    -        Mas vai buscar as crianas na escola.
    -        Vou. Pode deixar.
    Ele saiu e colocou a mo no bolso. Tinha apenas alguns trocados. Mordeu os lbios com raiva.
    Tinha de dar pelo menos para a conduo. Era uma vergonha. Ele que sempre fora honesto, trabalhador, esforado, ficar reduzido quela misria.
    A vida era perversa, injusta. Enquanto ele, que sempre fora esforado, correto, estava passando necessidade, Neumes, o ladro, com certeza estava levando uma 
vida boa. A polcia no valia nada, uma vez que no tomara nenhuma providncia para encontr-lo. Cada vez que ia  delegacia, ouvia sempre a mesma coisa: eles estavam 
procurando, mas o engenheiro havia desaparecido. Suspeitavam at que ele havia sado do Brasil.
    Roberto passou a mo pelos cabelos como para afastar os pensamentos desagradveis. Por que a vida o tinha castigado tanto? Nem a mulher o respeitava mais.
    Claro, ele estava por baixo. Ela tinha de sustent-lo. Como Gabriela iria am-lo vendo-o como incompetente, incapaz de manter a famlia? O amor vem com a admirao, 
pensava ele. As mulheres s amam o homem que podem admirar. E ele estava a zero. At na cama ele havia fracassado na ltima semana. Isso nunca lhe acontecera. Fora 
a humilhao mxima.
    Quanto mais Gabriela tentava justificar dizendo que ele estava muito tenso, preocupado e que nessas circunstncias era normal acontecer, mais ele se sentia arrasado.
     Ela estava diferente. Talvez no o amasse mais. E se estivesse apaixonada por outro? No escritrio em que ela trabalhava havia muitos executivos, elegantes, 
de bem com a vida, com belo carro, boas roupas, podendo oferecer a ela uma vida melhor.
     Ela fizera bastantes horas extras naquele ms. Ganhara bom dinheiro, inclusive um prmio, com o qual pagara a escola das crianas. Teria feito horas extras 
mesmo ou teria sado com algum?
     Ela sempre fora uma mulher sria, mas agora, na situao em que se encontravam, bem poderia ser tentada. Apesar de tudo, andava bem arrumada, perfumada, vestia-se 
bem. O dinheiro do trabalho daria para tudo?
     Enquanto esperava no saguo de uma fbrica, Roberto no conseguia desviar o pensamento de Gabriela. Havia preenchido uma ficha e quando foi chamado informaram-lhe 
que o nico cargo que seria possvel para ele era o de faxineiro. Roberto achava que tinha capacidade para fazer algo melhor, mas engoliu o orgulho e prontificou-se 
a aceitar. Mas disseram-lhe que sua ficha ficaria  espera de uma vaga no setor, porque naquele momento o cargo j estava preenchido.
     Desanimado, ele saiu e foi aos outros endereos, mas era sempre a mesma coisa. Mesmo aceitando qualquer servio, ele no conseguiu nada. Estava esperando a 
vez de ser atendido pelo gerente em um depsito de construo. Ele conhecia o ramo, estava esperanoso. Consultou o relgio e percebeu que no podia esperar mais. 
Tinha de buscar as crianas na escola.
     Olhou o nmero de pessoas que aguardavam e resolveu ir embora. No ia dar para esperar.
     Tanta gente para uma vaga. Com a sorte que ele estava, no iria dar certo mesmo.
     Saiu dali e foi para o ponto de nibus. No iria contar a ningum que nem para faxineiro conseguira emprego. Ele, que fora dono do prprio negcio! Se Gabriela 
soubesse, seria vergonhoso. Sentia o estmago enjoado e a cabea doa fortemente.
     De repente, sentiu-se tonto e segurou-se no poste para no cair. Lembrou que no havia almoado. O dinheiro no dava nem para um sanduche. Respirou fundo. 
Tinha de pegar as crianas. Felizmente o nibus chegou Logo e ele subiu, deixando-se cair em um banco tentando conter o mal-estar.
     Subitamente teve sua ateno voltada para um carro de luxo que passava. Dentro havia um casal, e Roberto reconheceu Gabriela. Seu corao descompassou e ele 
sentiu sua vista nublar. O carro parou no farol, o nibus tambm, e ele imediatamente desceu, tentando aproximar-se do carro. Queria surpreender os traidores. Porm, 
antes que ele conseguisse seu intento, o farol abriu e o carro seguiu adiante.
     - Parem, eu estou vendo vocs! Parem! - gritou ele.
     Sem poder conter a emoo, sentiu tudo girar  sua volta e perdeu os sentidos, ficando estirado no asfalto.
     Confuso, buzinas, Logo Roberto foi cercado por curiosos que queriam descobrir o que estava acontecendo com ele. Finalmente apareceu um policial que, ajudado 
por algumas pessoas, colocou-o na calada.
     - Melhor chamar uma ambulncia sugeriu um homem. - Ele est plido, parece morto.
        - Vai ver que est bbado        disse uma mulher.
        - No. Bbado no est. No cheira a lcool disse outra.
     Um homem apareceu com um copo de gua, dizendo ao policial:
     - Vamos ver se ele consegue beber.
     Algum levantou a cabea dele enquanto outra pessoa aproximava o copo de seus lbios.
     Chegou um moo que imediatamente tomou o pulso de Roberto e disse ao policial:
     - Sou mdico. Abram espao, ele precisa de ar. Est desmaiado. Enquanto falava, foi tirando a gravata e abrindo o colarinho da camisa. Imediatamente as pessoas 
abriram o crculo, olhando para o moo com respeito. Ele friccionou os pulsos de Roberto, fez com que se sentasse, pediu para um dos presentes segurar suas costas. 
Algum trouxe uma cadeira e conseguiram faz-lo sentar. De repente ele respirou fundo e abriu os olhos, olhando assustado para as pessoas  sua volta.
    -        Respire fundo - disse o mdico.
    -        Estou tonto, enjoado.
    -        Vai passar. Baixe a cabea assim.
    Aos poucos, Roberto foi se recuperando. Ficou envergonhado.
    -        Sente-se melhor? - indagou o mdico.
    -        Sim. Obrigado. Preciso ir pegar meus filhos na escola. Acho que no vai dar tempo.
    Tentou levantar-se, mas no conseguiu manter-se em p.
    -        No pode sair desse jeito.
    -        Tenho que ir.
    -        Onde  essa escola? - indagou uma mulher.
    Roberto informou o endereo. Ficava distante.
    -        Minha mulher est trabalhando e  minha vez de pegar as crianas. Tenho que ir de qualquer jeito.
    -        Eu vou por aqules lados, posso deix-lo na escola. Sei onde  - disse o mdico. - Vamos. Meu carro est no estacionamento em frente.
    -        Obrigado, doutor - disse Roberto. - No sei como agradecer.
    Sentado no carro ao lado do mdico, ele no se conteve:
    -        O senhor est me prestando um grande favor.
    Ele sorriu.
    -        No custa nada. Vou para l mesmo.
    -        Estou com vergonha. Foi a primeira vez que desmaiei.
    -        No se envergonhe. Acontece a qualquer um.
    -        Quando vi minha mulher naquele carro, ao lado de outro homem, no suportei - disse, fechando os punhos e tentando segurar as lgrimas.
     -        As vezes a gente se engana. Tem certeza de que era ela?
     -        Estava com um vestido novo, mas eu sei que era ela. Desde que perdi tudo, ela ficou diferente. O que eu temia aconteceu. Ela arranjou outro.
     -        O cime  mau conselheiro. No se deixe levar por ele.
     -        Como no ter cime? Gabriela  linda, exuberante, sensual. Eu estou desempregado, sem dinheiro.
     -        Vai ver que est sem comer.
     -        Sim, estou. Mas no podia pedir dinheiro para ela. Chega de humilhao.
     O        mdico deu ligeira olhada para Roberto e tornou:
     -        Ela no aceitou seu dinheiro desde que se casaram?
     -        Isso  diferente. O papel do homem  esse.
    -        A responsabilidade da famlia  dos dois. Quando um precisa, o outro ajuda. No  nenhuma humilhao aceitar o dinheiro de sua mulher.
    -        No depois do que eu vi hoje. Se no fosse pelos meus filhos, eu nem voltava para casa.
    -        Voc no est bem.  provvel que tenha se enganado. No era sua esposa que estava naquele carro, mas uma mulher parecida com ela.
    -        Era ela. Eu vi. Depois, ela tem feito muita hora extra, voltado para casa mais tarde, tem trazido mais dinheiro.
    -        Est se esforando para ajudar a famlia. Esto casados h quanto tempo?
    -        Oito anos.
    -         bastante tempo. Ela alguma vez lhe deu motivo para desconfiar do seu procedimento?
    -        At agora, no. Mas naquele tempo as coisas eram diferentes. Eu tinha um negcio prprio, dinheiro para tudo. Insistia para que ela no trabalhasse 
mais. Eu no queria que ela trabalhasse fora. Mas ela no concordou.
    -        Ela gosta de sentir-se independente, ter seu prprio dinheiro.
    -        Era isso que ela dizia. Mas agora ela mudou, tem estado diferente, impaciente, no me olha mais como antes. As vezes tenho impresso de que ela est 
me evitando.
    -        Vocs esto atravessando uma situao ruim. Ela pode estar cansada, preocupada.
    -        E eu, ser que ela no pensa em como eu estou me sentindo? Nunca precisei pedir dinheiro a ningum, e agora estou sendo sustentado pela mulher.
    -        Essa  uma fase passageira. Logo encontrar emprego, tudo voltar a ser como antes.
    -        Depois do que vi hoje?
    -        No se precipite. No tome nenhuma deciso no estado de depresso em que se encontra.
    -        No sei se poderei suportar.
    -        Voc pode estar cometendo uma grande injustia. No agrave uma situao que j est difcil.
    -        Acha que devo passar por cima de uma traio? O que julga que eu sou?
    - Voc nem sabe ao certo se era ela quem estava naquele carro. E depois, o que voc viu?
    Os dois sentados, cada um no seu lugar. Entrar em um carro com um homem no significa que uma mulher seja sua amante. Esfrie a cabea e no faa nada sem confirmar 
sua verso. A escola deve ser por aqui.
    -         naquela casa amarela. Puxa, chegamos cedo. As crianas ainda no saram. Obrigado.
    Nem sei como agradecer.
    - No precisa. Olhe, fique com meu carto. Meu consultrio  perto daqui. Voc est precisando de cuidados. V at l e vamos cuidar da sua sade.
    -        No tenho me sentido bem mesmo. No durmo  noite, tenho falta de ar, angstia. Quando arranjar emprego, irei.
    -        Nada disso. V o quanto antes. Terei prazer em receb-lo e no vou lhe cobrar nada. Sinto que  um homem de bem e gostaria de ajud-lo. No se acanhe. 
Precisa estar bem, com disposio, para conseguir arranjar trabalho. Com a energia que est, no vai conseguir. Precisa melhorar. V at l amanh  tarde e conversaremos.
    -        Est bem, doutor. Irei. Nem sei como agradecer.
    -        No se incomode. Olhe, as crianas comearam a sair. At amanh.
    -        At amanh.
    Roberto desceu do carro, fechou a porta e acenou um adeus. Depois olhou o carto e leu: Dr.
    Aurlio Dutra, mdico psiquiatra.
    Meneou a cabea. Era bem o que ele estava precisando: um mdico de loucos. Ele estava enlouquecendo. A rua ficava poucos quarteires adiante e ele resolveu que 
iria mesmo no dia seguinte. As crianas estavam saindo e ele imediatamente foi ao encontro delas.

Captulo 3

    Na tarde seguinte, Roberto foi procurar o consultrio do Dr. Aurlio. Ele no conseguira pregar olho a noite inteira. A cena do carro passando com Gabriela ao 
lado de outro homem no lhe saa da cabea. Ela chegou em casa usando um vestido diferente do que ele vira no carro, mas era bem possvel que ela houvesse trocado 
de roupa no escritrio.
    Disfaradamente ele perguntou se ela havia ido fazer algum servio fora naquela tarde.
    -        No. Houve uma reunio de diretoria e no pude sair nem para tomar lanche. Foi um dia cheio.
    Ela est mentindo, pensou ele. Mas resolveu no comentar que a havia visto, preferindo investigar primeiro. O mdico tinha razo: ele precisava obter mais provas. 
Tinha tempo de sobra para segui-la e confirmar suas suspeitas. Entretanto, o cime incomodou-o e ele no conseguiu tirar da lembrana aquele carro com ela dentro. 
Enquanto Gabriela dormia tranqila, ele se revirava na cama, angustiado, sofrendo, sentindo-se fracassado e sem estmulo para viver.
    Pela manh, Nicete no se conteve:
    -        Credo, Seu Roberto, o senhor parece um defunto! Emagreceu, tem olheiras... Desse jeito vai arranjar uma doena.
    Ele olhou irritado para ela.
    - Como posso estar bem, com minha vida virando de cabea para baixo? Esse seu palpite era desnecessrio.
    -        Desculpe. No quis ofender. Mas o senhor precisa se alimentar melhor, tratar da sade...
    No falei por mal. As crianas precisam do senhor.
    - Est certo. No fosse pelas crianas, eu j teria sumido.
    -        No diga isso. Se D. Gabriela ouvisse, ficaria muito triste.
    -        Ela j saiu. Posso falar a verdade.
    -         melhor tomar seu caf. Olha, eu trouxe aquele po que o senhor gosta. Trate de comer bem e esfriar a cabea. Logo tudo vai mudar, entrar nos eixos, 
o senhor vai ver. Tem caf na trmica, e o leite da jarra ainda est bem quente. Hoje eu mesma vou buscar as crianas.
    -         bom mesmo. Tenho um compromisso no fim da tarde.
    Ele queria ir ao consultrio depois do horrio de consulta, para no atrapalhar o mdico, que ia atend-lo de graa.
     Quando chegou, a sala de espera estava vazia e o Dr. Aurlio atendia ao ltimo cliente.
     Roberto apresentou-se  recepcionista e pediu para falar com o mdico.
     -         consulta?
     -        No sei. Ele me deu o carto e pediu que eu viesse aqui hoje.
     -        Sei. Tudo bem. Sente-se. Ele est atendendo.
     -        Obrigado.
     Roberto sentou-se e passou os olhos pela sala mobiliada com gosto e luxo.
     -        Qual  o preo da consulta?
     -        Duzentos reais.
     Ele engoliu em seco. Nas circunstncias em que se encontrava, parecia-lhe uma fortuna.
     - Tudo isso? - deixou escapar sem querer.
     -         que ele fica mais de uma hora trabalhando com o cliente. O Dr. Aurlio  conceituado, um dos melhores em sua especialidade.  muito procurado.
     Roberto sentiu-se acanhado. No devia ter ido. Levantou-se. O melhor era ir embora. Mas naquele instante a porta da sala do mdico se abriu, e ele apareceu 
com uma senhora.
     -        At tera-feira, doutor - disse ela. - Obrigada por tudo. At - disse ele sorrindo.
     Vendo Roberto em p, indeciso dirigiu-se a ele, dizendo
     - Ol! Como vai? Estava pensando em voc. Vamos entrar.
     Envergonhado, Roberto entrou e o mdico fechou a porta.
     -        Ainda bem que veio. Sente-se. Vamos conversar.
     - Obrigado. Vim porque me pediu. No vou me demorar. No quero tomar seu tempo. Sei que  muito ocupado.
     Aurlio olhou para ele e no respondeu de imediato. Roberto estava constrangido.
     -        Voc no deseja melhorar? No confia que eu possa ajud-lo?
     -        No  isso! Pelo contrrio. Sei que  muito bom profissional. Alis, nota-se pela sua maneira segura de falar, pela sua postura. O que eu sinto  que 
no tenho como retribuir sua ateno. J fez muito por mim ontem.
     -        Voc est constrangido s porque no tem dinheiro para pagar a consulta?
     -        Bem, isso realmente me incomoda. Afinal o senhor  um profissional competente, estudou anos e merece ser pago pelo seu trabalho.
     Aurlio sorriu e considerou:
    -        Como voc  orgulhoso! Pensando assim, no conseguir melhorar sua vida nunca.
    -        Estou dizendo a verdade. No  por orgulho, no.
    - Voc pensa que ter dinheiro  sua maior qualidade e que sem ele no  nada?
    -        Estou habituado a pagar minhas contas.
    -        No estou lhe cobrando nada.
    -        O que de certo modo me deixa com a sensao de estar me aproveitando da sua boa vontade.
    -        Engano seu. Julga-me ingnuo a ponto de ser usado pelas pessoas sem perceber?
    Roberto assustou-se:
    -        No... no quis dizer isso.
    -        Pois foi o que me pareceu. Sou um estudioso da vida, dos nossos comportamentos.
    Descobri que somos ns que, com nossas atitudes, atramos todos os acontecimentos e situaes que vivenciamos. Que, enquanto continuarmos agarrados a elas, os 
fatos iro se repetindo. Descobrindo qual a atitude que est causando uma situao que no nos agrada, poderemos substitu-la por outra melhor e obter outros resultados. 
Quando o convidei a vir aqui, no foi por sentir pena de voc, nem para tentar ajud-lo a resolver seus problemas. Foi porque me interessei profissionalmente pelo 
seu caso. Encontrar a causa dos seus problemas  perceber o caminho para a ajuda de muitas pessoas e seguramente aumentar o meu conhecimento, ter sucesso em minha 
carreira.
    Roberto abriu a boca e tornou a fech-la, sem encontrar palavras para responder. Aurlio prosseguiu:
    - O que desejo lhe propor  uma troca. Voc tem o que eu preciso para desenvolver meus conhecimentos, e eu posso dar-lhe alguns esclarecimentos que podero mudar 
sua vida se os utilizar. J v que em nosso caso ningum est abusando de ningum e os dois poderemos lucrar.
    -        Sua maneira de pensar me surpreende.
    -        Gosto de ser verdadeiro. Depois, voc estava pensando que sua situao atual pode ter me impressionado e que eu desejava ser caridoso, ajudando-o.
    -        No me socorreu na via pblica por caridade?
    -        No. Prestei socorro, o que  natural na minha condio de mdico, mas em nenhum momento fiz caridade.
    -        No estou entendendo.
    -        Um ato de caridade o tornaria uma vtima, um coitado, incapaz de resolver os prprios problemas.
    -        Mas eu me sinto assim mesmo, incapaz de solucionar minha vida.
    -        Mas voc no . Est neste momento emocionalmente pressionado por idias erradas a seu respeito, se desvalorizando, no utilizando sua fora interior, 
sua inteligncia, sua capacidade. Mas elas esto l, dentro do seu ser,  espera de que perceba e faa uso delas de maneira adequada.
    Eu no gosto de fazer caridade. Nunca dou nada de graa. Prefiro trocar. No h ningum que esteja impossibilitado de dar alguma coisa.
    -        Eu no momento no posso dar nada.
    -        No pode me dar dinheiro. Mas pode me contar o que vai dentro do seu corao para que eu possa aprender mais sobre a alma humana.
    -        Acha que ser suficiente?
    -        Para mim  o bastante. Voc acha que estarei  altura de entrar na sua intimidade e mostrar-lhe alguns lados da sua personalidade que no est conseguindo 
ver?
    -        Pelo que j fez comigo desde que entrei aqui, penso que tive muita sorte em encontr-lo.
    Aurlio sorriu contente.
    -        Por que diz isso?
    -        Porque entrei aqui, acanhado, me sentindo miservel, e agora pela primeira vez em alguns meses comecei a me sentir digno. Tinha me esquecido de como 
 isso.
    -         um bom comeo, concorda?
    Roberto concordou e eles marcaram hora para a noite seguinte. Quando ele chegou em casa, Gabriela j estava. Ela olhou para ele, mas no teve coragem de perguntar 
nada. Tinha certeza de que, quando ele arranjasse trabalho, ela seria a primeira a quem ele contaria.
    Ela estava notando que ele andava calado, cabisbaixo. Por vezes sentia o olhar dele fixando-a com certo rancor. Ela no tinha culpa se ele no conseguia arranjar 
emprego. Fazia sua parte com boa vontade, mas ele parecia cada dia mais fechado e com cara de poucos amigos.
    Nos dias seguintes, ela pouco conversou com ele, nem ao menos para perguntar como fora seu dia. Era difcil conviver, eles estavam cada vez mais distantes. As 
vezes ela sentia vontade de se separar. Mas no lhe parecia correto faz-lo exatamente naquele momento em que ele estava desempregado. Poderia parecer que ela era 
interesseira e maldosa. No queria que os filhos um dia lhe cobrassem isso. Em seu ntimo j comeava a formar-se a idia de que, quando ele resolvesse o problema 
financeiro, ela pediria a separao.
    Roberto no lhe contou nada sobre seu relacionamento com o mdico. No queria falar sobre o desmaio e que a vira naquele carro com um homem. Quando pensava nisso, 
o sangue subia, ele fazia tudo para se controlar. Havia concordado com Aurlio em investigar, s falar quando tivesse certeza.
    Algumas vezes seguiu-a s escondidas, mas apenas constatou que Gabriela ia direto para o trabalho.
    Ele se escondeu perto do escritrio, vigiando durante o horrio de expediente para ver se ela saa com algum colega. Mas isso tambm no aconteceu.
    A noite, desabafou com AurLio.
    -        No agento mais ficar calado sobre aquela tarde. Mas at agora no consegui descobrir nada, nenhuma prova. Tenho vigiado muito, e nada.
    -  bem possvel que tenha se enganado. No era ela quem estava naquele carro.
    -        Eu vi. Tenho certeza. Tambm no posso ficar l todo o tempo. Tenho que cuidar da minha vida, procurar trabalho.
    -        Como est se saindo?
    - Est difcil. Eu no tenho curso universitrio, trabalhava por minha conta, o que equivale a dizer que no tenho profisso definida. Estou desesperado, disposto 
a fazer qualquer servio, mas onde quer que eu v eles exigem experincia de pelo menos dois anos no cargo. Quando explico que trabalhava por minha conta, que perdi 
tudo, eles me olham desconfiados e no me chamam para as vagas.
    -        Voc est lhes contando uma histria de fracasso. Sua atitude no favorece a que eles confiem em voc.
    Roberto passou a mo pelos cabelos em um gesto nervoso.
    -        Sou sincero. Tenho que dizer a verdade. Se no contar, eles iro pensar que nunca trabalhei. Minha carteira profissional est em branco.
    -        No estou lhe dizendo para mentir. Por tudo quanto lhe aconteceu, voc est se sentindo um fracassado. No confia em suas possibilidades, como quer 
que eles confiem em voc e lhe ofeream trabalho?
    -        No estou entendendo. Claro que estou me sentindo fracassado. Perdi tudo. No posso estar otimista. Mas sou trabalhador e honesto. Tenho boa vontade 
e preciso sustentar minha famlia. Acha que no basta?
    - No. Isso no basta. Voc vai em busca de trabalho, mas carrega o desespero, a raiva, a culpa de ter sido ingnuo e deixar-se roubar pelo seu scio. Alm disso, 
acha que sua esposa deixou de am-lo porque voc foi lesado e no tem como sustentar a famlia. Pensa que por causa disso o amor dela acabou.
     - Essa  minha verdade, doutor. Tenho carregado essa angstia vinte e quatro horas por dia, desde que a tragdia aconteceu.
     - Por causa de um fato que j passou voc est destruindo todas as suas possibilidades de sucesso na vida. Voc est se prejudicando muito mais do que seu scio, 
que fugiu com todo o seu dinheiro.
     Roberto olhou para o mdico sem entender:
     -        Eu? Como assim?
     -        Voc sente vergonha por haver sido enganado. Acha que os outros o esto culpando, rindo  sua custa, chamando-o de otrio.
     -        Isso mesmo. Eu percebo isso nos olhos das pessoas. O advogado me obrigou a ir dar queixa na delegacia e foi um vexame. Nunca sofri tanto em toda a 
minha vida. Os policiais me olhavam com ar de gozao. Foi um horror.
     -        Por que se envergonha? Voc no  o ladro. Voc foi roubado!
     -        Fui burro. Ele me passou a perna. Acha que  bonito isso?
     -        Preferia estar no lugar dele?
     Roberto fitou-o admirado:
     -        Claro que no. Nunca seria capaz de fazer o que ele fez.
     -        Isso porque voc  um homem honesto.
     -        Claro. Nunca tirei nada de ningum. Tudo quanto ganhei foi com o fruto do meu trabalho.
     -        Logo, voc  um homem de bem. Correto.
     -        Claro que eu sou.
     -        Deveria sentir-se digno.
     Roberto endireitou-se na cadeira.
     - Eu sou um homem digno.
     - Ento por que se curva e se envergonha diante dos outros?
     - Por que no gosto de passar por bobo.
     - A opinio dos outros a seu respeito  muito importante para voc?
     - .
     - Mais do que a sua?
     Roberto hesitou e no respondeu. Aurlio continuou:
     - Voc acha que as pessoas sabem o que vai em seu corao, o que voc sente, pensa, quer?
     - No. Ningum pode saber o inferno que est sendo minha vida agora, a humilhao que estou suportando.
     - Quanto mais vaidade, mais humilhao.
     - Est enganado, doutor. Nunca fui vaidoso.
     -        Preocupar-se com o juzo que voc julga que os outros estejam fazendo de voc  pura vaidade. Voc acredita que os outros estejam percebendo um lado 
seu menos inteligente, menos bonito, e sente-se inferiorizado.
     Roberto baixou a cabea envergonhado. Lgrimas vieram-Lhe aos olhos e ele esforou-se para cont-las. No conseguiu responder.
     Aurlio ficou silencioso por alguns instantes. Roberto, cabea baixa, lutava para conter o pranto, mas, embora se esforasse, algumas lgrimas teimavam em descer-lhe 
pelas faces. O mdico colocou do lado dele uma caixa com lenos de papel. Roberto respirou fundo, apanhou um leno e assoou o nariz vrias vezes. Pigarreou e disse 
encabulado:
     - Desculpe, doutor. Tenho andado muito sensvel ultimamente.
     -        Voc no merece tudo isso, no  mesmo?
     Sentindo o tom amistoso do mdico, Roberto no conteve mais o pranto, que jorrou em profuso. Aurlio esperou em silncio que ele se acalmasse.
     Quando conseguiu se controlar, Roberto justificou-se:
     -        Isso nunca me aconteceu. Tenho andado muito tenso. A falta de dinheiro, a traio de Gabriela, tudo, tudo, tem me deixado descontrolado.
     -        Tem razo. Voc est acabado mesmo. No serve mais para nada. Acho melhor desistir, aceitar a misria, deixar o barco correr.
     Roberto encarou-o surpreendido. No era o que esperava ouvir.
     -        Vim aqui pensando que ia me animar. Pelo que vejo, o senhor est querendo me derrubar.
     Acho que vou embora.
     -  voc quem est fazendo tudo para se derrubar.
     - Ao contrrio. Tenho lutado, procurado emprego de todas as maneiras.
     -        Est difcil. Voc no confia em sua capacidade. Acha que no tem experincia. Nem sei como foi que conseguiu montar seu negcio. Voc diz que teve 
um. Ser?
     Roberto empertigou-se:
     - Acha que estou mentindo? S porque me v sem dinheiro, no acredita em mim?
     - Eu no o conheo o suficiente. Estou me baseando em suas informaes. Voc me diz que  um fracassado, que no consegue nem manter o amor da sua mulher, que 
no tem condies de arranjar trabalho. Est em desespero porque no consegue ver nenhuma sada.
     - Pois voc no me conhece mesmo. Eu trabalhei muito, primeiro como vendedor de um depsito de materiais de construo, depois comprei um terreno e constru 
um galpo onde fui comeando a comprar e revender alguns materiais. Fui progredindo at que cheguei a possuir um grande depsito, constru a casa onde moro, comprei 
outros imveis. Sempre fui muito bom em negociar, vender, comprar. Meu pai dizia que eu conseguia vender at lata vazia. Quando conheci Gabriela, ela era a moa 
mais disputada do bairro. No dava bola para ningum. Quando eu cheguei, ela gostou de mim de cara. Ns nos apaixonamos de verdade. Foi uma loucura. J fiz muitas 
coisas boas na vida.
     Roberto havia se levantado, postura ereta, olhos brilhantes, fisionomia sria.
     -        Esse  voc - disse Aurlio com voz calma. - Um homem forte, que sabe o que quer, que conseguiu tudo que quis na vida, que no pode ser derrotado por 
um ladro sem-vergonha.
     Roberto sentou-se, olhando pensativo para o mdico. Aurlio continuou:
     -        Se quer melhorar sua vida, precisa assumir sua fora, acreditar em sua capacidade, colocar sua dignidade acima do que os outros possam pensar. Voc 
sabe que  um homem inteligente, trabalhador, honesto, capaz. Esquea o que passou. Volte a ser o mesmo homem que era antes e logo ver que obter de novo tudo quanto 
perdeu e at mais.
     -        Sei que sou capaz de trabalhar, ganhar dinheiro.  que me deixei levar pelas emoes.
     -        Voc entrou na posio de vtima, o que voc no . Ele levou seu dinheiro, mas em troca voc aprendeu algumas lies que nunca mais esquecer. Portanto 
esto quites. Deixe-o ir, entregue-o ao prprio destino, sem dios ou lamentaes.
     -        Gostaria de poder fazer isso. Mas por enquanto ainda me parece impossvel.
     -        Enquanto no melhorar suas energias, voc no vai encontrar trabalho.
     -        Como assim?
     -        Nossas atitudes criam um campo magntico prprio que forma nossa aura, que atrai energias afins. As emanaes da nossa aura so percebidas pelas pessoas 
que reagem a elas.  a verdade de cada um. Voc pode mentir, representar papis, parecer o que no , mas as pessoas sentem suas emanaes e reagem de acordo com 
elas. Por isso, algumas so sempre bem recebidas em qualquer lugar, enquanto outras so ignoradas, destratadas e at rejeitadas.
     -        Isso  questo de sorte.
     - Engana-se. Isso  questo energtica. Se se aproximar das pessoas sentindo-se errado, fracassado, incapaz, elas no confiaro em voc. Para procurar emprego, 
saber isso  fundamental.
       - Nunca ouvi falar nisso.
    -        H muitos estudos a respeito.  a verdade maior. Se voc colocar ateno no que sente quando as pessoas se aproximam, perceber com clareza o que estou 
dizendo. Vai notar que as reaes que as pessoas provocam em voc so muito diferentes umas das outras. Tudo por causa da emanao do magnetismo delas.
    - Ser por isso que Gabriela nunca confiou em Neumes? Ela sempre foi desconfiada dele.
    Vivia me dizendo que eu precisava tomar cuidado, abrir os olhos.
    -        Ela registrava as emanaes dele e no gostava. Percebia que ele no era de confiana.
    -        Puxa, se eu soubesse disso antes, no teria entrado nessa.
    -        No lamente o que passou, nem se culpe. Voc fez o seu melhor. Como  honesto, teve boa-f.
    -        Isso . Eu confiava tanto nele! Nunca imaginei que ele fosse capaz de fazer o que fez.
    -        Voc o admirava. Sempre teve vontade de fazer faculdade?
    -        Sempre. Achava que quem faz faculdade  pessoa inteligente, importante.
    -        Por que nunca tentou estudar?
    - Isso no era para mim, doutor.
    -        Por que no? No acho que seja fundamental fazer uma universidade.  bom, abre a mente para vrias coisas, mas h muitas pessoas com diplomas universitrios 
que vegetam na vida, sem conseguir sucesso. H outras coisas que so mais importantes e imprescindveis ao progresso.
    -        Quais?
    - Inteligncia, boa vontade, ousadia, confiana em si, firmeza. Eu poderia citar outras tantas que concorrem para a conquista da felicidade. Quando voc tem 
essas qualidades, o sucesso independe de qualquer diploma. Voc ficou envaidecido com a amizade de Neumes.
    -        Claro. Ele era um engenheiro, formado. Havia projetado e construdo um prdio bonito.
    Comprava material em meu depsito. Quando ele me props o negcio, achei o mximo.
    Nem me passou pela cabea que pudesse ser enganado por ele.
    -        Para voc ver que diploma, conhecimento, s, no bastam. E preciso mais. Gostaria que pensasse em tudo quanto conversamos e tivesse certeza de uma coisa: 
nesse negcio, Neumes perdeu mais do que voc.
    Roberto olhou surpreendido para Aurlio:
     -        Como assim?
     -        Voc perdeu apenas dinheiro. Assim como conquistou tudo quanto tinha, pode recomear e fazer tudo de novo, agora mais experiente, mais amadurecido. 
Ele no. Est sendo procurado pela polcia e, ainda que tenha sado do pas, continuar lesando pessoas e acabar mal, com toda a certeza. A desonestidade tem um 
preo muito caro que cedo ou tarde a pessoa ter que pagar para recuperar a prpria dignidade. Acho que chega por hoje.
     Roberto levantou-se.
     -        Vou pensar em tudo isso, doutor.
     -        Pense. Estarei esperando voc no dia marcado para continuarmos a conversar.
     Roberto saiu do consultrio pensativo. Ele precisava refletir mesmo. Nunca fora um fraco.
     Sentia-se agora mais forte. Parecia-lhe haver voltado a ser um pouco do que era antes.
     Respirou fundo, sentindo que a brisa da noite lhe fazia bem. Olhou para o cu e reparou que estava cheio de estrelas. H quanto tempo no percebia como estava 
a noite?
     Chegou em casa. Gabriela ensinava a lio para Guilherme na mesa da sala. Ele se aproximou e beijou o filho enquanto Maria do Carmo, vendo-o, aproximou-se com 
um papel na mo.
     -        Olhe, papai: eu fiz este desenho sozinha.
     Ele se aproximou dela, olhou o papel e disse:
     -        Que lindo!
     -         uma casa! Eu pintei o cu de verde, e o Gui disse que est errado. Mas eu gosto do cu verde e pronto. O desenho  meu e eu pinto o meu cu da cor 
que eu quiser.
     Roberto riu da careta da menina e respondeu:
     -        O cu  azul, mas voc pode mudar a cor dele no seu desenho para ver como fica. Todos temos direito de experimentar.
     Gabriela olhou admirada para o marido, mas no disse nada. Ele sentou-se em uma poltrona, chamou a filha e colocou-a no colo.
     -        Pai, sabe o que aconteceu hoje na escola com a Juliana?
     -No.
     -        Ela foi com uma meia de cada cor.
     Ele riu divertido e justificou:
     -        Ela quis experimentar para ver como ficava.
     -        Todo mundo caoou dela. Mas ela nem ligou. Disse que estava lindo assim e pronto.
     Amanh eu tambm quero ir com uma meia de cada cor.
    Gabriela olhou novamente para o marido. Roberto estava diferente. O que teria acontecido?
    Onde teria ido? Ele nunca saa sozinho  noite. Teria algum rabo de saia nisso?
    Roberto sentia-se mais relaxado e melhor. Ficou com as crianas na sala at Guilherme acabar a lio. Em seguida, tomou um banho e foi se deitar. Naquela noite, 
depois de muito tempo, ele conseguiu dormir tranqilo.

Captulo 4

     Georgina tocou a campainha vrias vezes. Roberto teria sado? Ela resolveu visitar o filho na tera-feira  tarde porque sabia que tanto Gabriela quanto Nicete 
no estariam em casa. Roberto deveria estar, porqanto a janela do quarto da frente estava aberta. Insistiu, at que finalmente ele apareceu na porta.
     - Pensei que tivesse sado e esquecido a janela aberta. Alis, mesmo durante o dia voc no deveria deix-la assim.  um convite ao ladro.
     -        Entre, me respondeu ele.
     Uma vez na sala, porta fechada, ela o abraou com tristeza, dizendo:
     Pelo jeito, ainda no arranjou nada. Em casa a esta hora...
     Ele sentiu vontade de no responder. J tinha problemas demais para ter de agentar os comentrios dela. Conteve-se. Afinal, ela era sua me e no tinha culpa 
pelo que ele estava passando.
     -        Tenho algumas coisas em vista - mentiu ele. - Tenho certeza de que algum deles vai dar certo.  s questo de tempo.
     Georgina meneou a cabea, fitando-o triste.
     -        Di v-lo nessa situao! Voc, que sempre conseguiu tudo que quis. Fico de corao apertado, pensando em como andar sua cabea.
     -        No se preocupe tanto, me. Eu estou muito bem. J disse que essa situao  temporria. Vai passar.
     - No sei, no. Nessa mar de m sorte em que voc anda, tudo pode acontecer.
     Aproximando-se mais dele, baixando a voz, ela continuou: - Acho que Dalva est certa.
     Voc tem trabalho feito. Sabe como , voc estava muito bem e de repente tudo mudou. A inveja e a maldade tm meios de derrubar uma pessoa.
     - No creio nessas coisas, me.
     - Voc devia procurar um centro esprita para desmanchar esse mal. Dalva freqenta um e entende dessas coisas. Ela me contou alguns casos impressionantes. Garantiu 
que sozinho voc no vai conseguir melhorar. Sua vida ir de mal a pior. Eu pedi, e ela fez uma consulta l e disse que, se voc no fizer nada, at sua mulher vai 
larg-lo.
     Roberto sobressaltou-se. Com exceo do mdico, ele no contara a ningum de suas desconfianas sobre Gabriela.
     Georgina continuou:
     -        Vim aqui especialmente para dar esse recado. Quero levar voc l para resolver isso. No posso mais v-lo desse jeito. Precisamos fazer alguma coisa.
     Ele respirou fundo e decidiu:
     -        Eu no vou. No gosto da sua amiga Dalva, nem dessa idia de me meter com bruxarias.
     Largue de se preocupar comigo. Posso cuidar de minha vida.
     -        Pode tanto que est desse jeito! No v que nada tem dado certo? At quando pretende ficar vivendo  custa de sua mulher? At que ela se canse e lhe 
diga adeus?
     Roberto no se conteve mais.
     -        Chega, me! No estou com disposio para conversar. Alis, preciso sair agora, tenho uma entrevista importante.
     -        Bem que Dalva me avisou que voc no ia aceitar. Ela garantiu que a macumba foi muito bem-feita, que quando eu o convidasse voc se voltaria contra 
mim. Aconteceu mesmo. Voc est me mandando embora. Nunca fez isso antes. Mas saiba, meu filho, que est sendo muito ingrato. O que eu quero  ajud-lo. Peo-lhe: 
vamos ao centro.
     -        No acredito no que est dizendo. No quero ir. Entenda. No estou mandando-a embora.
     Tenho um compromisso, j disse. Sei que deseja me ajudar.
     -        Voc no vai arranjar nada se no desmanchar essa macumba. Por que  to teimoso?
     -        Deixe que meus problemas eu resolvo. No se preocupe.
     -        Eu vou embora, mas, se mudar de idia, procure-me. Para desmanchar o trabalho, vamos precisar de algum dinheiro. Voc no tem, mas eu posso dar um 
jeito. Eles aceitam uma parte agora e o resto quando tudo estiver resolvido. Eu tenho algumas economias, acho que dar para as primeiras despesas.
     Roberto impacientou-se:
     -        Me, quantas vezes preciso lhe dizer que no irei a esse lugar? Guarde seu dinheiro, pode precisar dele. No o entregue a esses oportunistas.
     -        No diga isso, meu filho. So pessoas que fazem isso de corao. Mas eles precisam comprar o material.  justo pagar por isso.
     -        Espero que voc no d dinheiro a eles. O que recebe mal d para suas despesas.
     -        Para salvar meu filho, farei qualquer negcio.
     -        No esse, por favor. Chega j minhas preocupaes. No posso tambm agora cuidar de voc. Seja razovel.
     -        Eles j mexeram no caso! O que direi a Dalva?
     - Fez isso sem me consultar. Viu no que deu? Agradea a ajuda e trate de no arranjar mais confuso. Diga que eu j consegui trabalho, que estou viajando, invente 
alguma histria, mas saia dessa e no me envolva. Se continuar com isso, ficarei muito zangado com voc. Entendeu?
     Ela suspirou desanimada. Depois disse:
     - Estou desolada, mas farei o que me pede. Contudo, se mudar de idia, poderemos ir.
     Ela se despediu, e Roberto respirou aliviado quando a viu sair. Fechou a porta e deixou-se cair em uma cadeira. Era s o que lhe faltava! Pensou em Gabriela 
naquele carro. E se fosse mesmo verdade? E se ele estivesse sendo vtima de alguma macumba para fazer com que perdesse tudo, at a mulher? Ela andava calada, diferente, 
no se chegava como antigamente. Ele tinha at receio de abra-la. E se ela o recusasse? Andava sempre cansada, dormia logo, no o beijava nem abraava na cama, 
como antes.
     Passou a mo nos cabelos num gesto de impotncia. Se isso fosse verdade, ele estava vencido. Como lutar contra coisas que ele no via nem sabia como funcionavam? 
Lembrou-se de alguns casos de conhecidos que os amigos diziam terem sido vtimas de feitiaria. Eles no tinham conseguido sair.
     No havia nenhuma lgica. Ele no podia acreditar que isso existisse. Contudo, uma sensao de medo o invadiu, O sobrenatural, os rituais que vira em filmes 
de magia estariam destruindo sua vida? Como se defender? Ele no acreditava que Dalva e seus amigos tivessem poder para resolver seu caso, se ele estivesse mesmo 
sendo uma vtima dos seres do mal.
     E se procurasse um padre? No, ele no se sentia com coragem de falar com ele sobre esses assuntos sempre to combatidos pela igreja. E o pastor? A esposa de 
um conhecido garantira-lhe que ele precisava ir para uma igreja evanglica, que tudo seria resolvido. Se ele fosse la contar suas suspeitas, eles diriam que estava 
sendo envolvido pelo diabo. S que ele no acreditava nele.
      Esses pensamentos angustiados no o deixaram at a hora de ir ao consultrio de Aurlio.
      Logo que entrou, o mdico notou sua preocupao. Assim que o viu acomodado na poltrona, foi dizendo:
      - Conte o que aconteceu.
      - Nada que merea ateno - disse ele com receio de parecer ignorante.
      - Talvez no merea, mas voc deu importncia. Prefere no falar no assunto?
     -        No foi nada srio. Minha me esta tarde veio com uma conversa louca. Disse que tenho um trabalho feito.
     -        Uma macumba?
     -        .
     -        Pode ser mesmo.
Roberto surpreendeu-se:
     -        Voc acredita nisso?
     -        Por que no? O magnetismo, a manipulao de energias, a fora mental podem criar e alimentar situaes muito penosas.
     -        Isso seria o cmulo do azar. S me faltava essa! Deus est mesmo contra mim, permitindo que eu seja castigado dessa forma sem que possa me defender.
     -        No fale assim sobre coisas que desconhece.
     -        Como quer que eu me sinta? Depois de haver sido roubado, ter perdido tudo, estar desempregado, a mulher pensar em abandonar-me, ainda as foras do 
mal esto contra mim. Isso me desespera. Lutar contra seres invisveis que desejam acabar comigo  demais para um homem como eu.
     -        Do jeito como voc est olhando a situao, parece que no tem como sair dela.
     -        No tenho mesmo. Tudo quanto fiz at agora no valeu nada. Minha vida est cada vez pior.
     -        Acalme-se. Vamos fazer um exerccio de relaxamento. Deite-se na maca.
     Roberto obedeceu. Aurlio apagou a luz, deixando acesa apenas pequena lmpada azul.
     Depois, colocou uma msica suave, aproximou-se de Roberto e, colocando a mo direita espalmada sobre sua testa, disse.
     -        Relaxe, deixe seu corpo bem  vontade. Imagine que voc est em um parque, as rvores muito viosas e os canteiros cheios de flores exalando agradvel 
perfume. H pssaros cantando, o rudo de gua caindo do morro, lavando as pedras do caminho, formando uma espuma branca que se desmancha ao chegar ao lago. Voc 
est descansando. Agora  o seu momento. No tem que fazer nada a no ser se integrar na harmonia da natureza. Respire fundo, aproveite esse ambiente calmo, tranqilo 
e vitalizante. Vamos, respire.
     Roberto comeou a respirar conforme ele mandava e aos poucos foi sentindo sonolncia, bocejando seguidamente. Aurlio continuou:
     - Vamos, continue respirando o ar puro do parque, usufruindo do gorjeio dos pssaros e da brisa perfumada do lugar. Tudo  perfeito no universo. Voc  natureza, 
voc  perfeito. A natureza cuida do seu corpo, do ar que voc precisa para respirar, do alimento que voc deve ingerir. Ela prov tudo. Nada lhe falta. Voc tem 
tudo para melhorar sua qualidade de vida. Para isso s precisa entender como a vida funciona, fazer sua parte e confiar que o invisvel far o resto.
     A vida  luz, beleza, harmonia, equilbrio, paz.
     De repente, Roberto comeou a soluar. As lgrimas desciam pelo seu rosto e ele tentou cont-las, mas Aurlio tornou:
     -        Chore. Lave sua alma. Jogue fora todos os pensamentos dolorosos que o incomodam.
     Voc  luz, vida, bondade, beleza, paz.
     Roberto soluou durante alguns minutos. Quando ele se calou, Aurlio perguntou:
     -        Como se sente agora?
     - Melhor.
     -        Agora, sente-se na poltrona, vamos conversar. H algumas coisas que desejo lhe explicar.
     Ele obedeceu. Depois, olhando para o rosto do mdico, que havia se sentado  sua frente, tentou sorrir.
     -        Devo parecer-lhe um fraco.
     - Ao contrrio. Voc  pessoa muito forte.
     -        Ainda agora, me queixei, chorei.
     -         natural. Voc est sofrendo.
     -        O que acaba comigo  sentir-me impotente. Por mais que eu tente resolver minha vida, no consigo nada.
     - Voc est tentando sempre do mesmo jeito. Vai obter sempre o mesmo resultado.
     -        No estou entendendo.
   -  preciso descobrir como voc est atraindo essa situao em sua vida. Cada um  responsvel por tudo quanto lhe acontece.
     -        Eu no. Fui vtima da maldade de Neumes.
     - No creia nisso. Voc colheu os resultados das suas atitudes.
     Roberto ia interromper, mas Aurlio fez um gesto para que s ouvisse e continuou:
     -        Sei o que vai dizer. Que o seu scio era mau-carter, ladro, e que voc sempre foi honesto. Mas por que ele o procurou para propor o negcio? Por 
que ele escolheu voc e no outro para ludibriar?
     -        Eu era pessoa de boa-f.
     -        Sim, mas sempre se julgou inferior a ele s porque ele tinha um diploma e voc no. Voc acredita que, para ser importante,  preciso haver cursado 
uma universidade. Nunca passou pela sua cabea questionar os atos dele, uma vez que o via como mais sbio, mais capaz.
     - Eu nunca saberia construir um prdio daqueles.
     - Concordo. Ele possua conhecimentos tcnicos que voc no tinha. Mas por outro lado, apesar de todo o conhecimento, ele no havia conseguido subir na vida. 
No possua o seu capital, o dinheiro que voc conseguiu ganhar apesar de no ter o diploma dele. Entendeu?
     Roberto coou a cabea admirado. Era verdade. Ele sempre fora capaz de ganhar sua vida, conseguir o que queria.
     - Eu queria que voc percebesse que foi voc quem se colocou abaixo dele, considerando-o mais. Por causa disso, confiou cegamente nele, deixou de lado seu talento 
comercial, sua sagacidade, envaidecido por ele haver se associado a voc. Em sua cabea, ele era muito mais do que voc. No usando o seu bom senso, sua intuio, 
como sempre havia feito em sua vida, voc pde ser enganado. Voc no foi uma vtima. Ao contrrio, suas atitudes atraram e facilitaram o trabalho dele.
     Roberto meneou a cabea, pensativo.
     - Lembra-se de como voc era antes de fazer essa sociedade?
     - Claro. Eu no ouvia ningum. Fazia o que me parecia melhor.
     - E assim voc prosperou, casou com a mulher amada, tudo como desejava.
     - At aparecer aquele sem-vergonha. Como pude ser to burro?
     - No se culpe, para no piorar as coisas. Voc precisa colocar sua fora em coisas boas, que melhorem sua vida. A culpa, alm de dispersar suas energias, ainda 
o empurra para o pessimismo. A condenao no ajuda em nada, s atrapalha. O que aconteceu com voc foi para o bem, reconhea.
     - Isso no, doutor. Tem sido horrvel.
     - Mas o impulsiona a pensar, a procurar as causas de tudo e encontrar a melhor soluo.
     Voc est crescendo.
     - Experincia eu ganhei, isso  verdade. Nunca mais entrarei noutra.
     - As pessoas no so iguais. Se voc estiver bem, vai atrair pessoas boas, nutritivas, que vo concorrer para tornar sua vida melhor.
     - Ainda vem minha me com essa histria de macumba...
     - Ns nunca conseguimos agradar todo mundo. H pessoas que se incomodam com o seu sucesso. H as que vem maldade em tudo quanto voc faz. Entre elas pode haver 
as que, a pretexto de "salvar" voc, ou de castig-lo pelos seus erros, apelam para os espritos desencarnados mais primitivos, realizando trabalhos de macumba.
     - Ento existe mesmo isso? No  enganao para pegar dinheiro dos incautos?
     -        H espertalhes em todo lugar. Mas estou falando dos que realmente esto envolvidos com espritos e desejam interferir na vida das pessoas, manipulando-as 
de acordo com seus interesses.
     -        Eles conseguem mesmo isso?
     -        S com os que no tomam posse de si mesmos.
     -        Como assim?
     -        Acontece com as pessoas muito dependentes, que no tm opinio prpria, que vivem perguntando tudo aos outros. Essas pessoas so muito vaidosas. Tm 
medo de errar, preferem no assumir responsabilidade por si mesmas. Sempre desejam dividir com outros, querendo opinio para, depois, se der errado, culpar o outro. 
Uma pessoa mais lcida, que usa o bom senso, no se deixa levar com facilidade, no pega macumba. Quem  positivo olha a vida sempre pelo lado bom, nunca d fora 
nem teme o mal, fica imune a todas essas investidas das trevas. Agora, conhecer a espiritualidade, saber como as energias que esto nossa volta funcionam, d segurana. 
Deus habita dentro de cada alma e, se voc se habituar a buscar essa fonte espiritual, acreditar que ela est em voc, agir de acordo com ela, nunca ter problemas 
com espritos maldosos. A fora deles  muito pequena diante da essncia divina.
     -        Ento como eles conseguem derrubar as pessoas?
     -        Atacando os pontos fracos que elas possuem: seus complexos, suas iluses, crenas que voc tem mas que mesmo no sendo verdadeiras criam suas atitudes.
     -        Voc disse que eu posso mesmo estar com macumba?
     -        Pode porque se deixou dominar pelo pessimismo, pela falta de confiana em si prprio, pelo cime. De fato,  um prato cheio para qualquer macumbeiro.
     -        Nesse caso, eu preciso ir a um centro para desmanchar tudo?
     -        Se descobrir as atitudes que o esto tornando vulnervel a eles e mud-las por outras melhores, seu padro energtico subir e haver uma desconexo 
natural. Mas para isso voc vai precisar aprender como essas energias funcionam.
     - Voc entende dessas coisas.
     - Tenho estudado em decorrncia do meu trabalho. Atendendo meus pacientes, acabei descobrindo muitas coisas, inclusive a mediunidade, a continuidade da vida 
aps a morte. Foram tantas as provas que obtive que hoje no saberia trabalhar sem analisar essas variveis. Digo mais, que meu sucesso profissional decorre de cuidar 
dos doentes integrando corpo, mente e esprito.
     - Ouvindo voc, fico pensando como minha vida est enrolada.
     -        Nada que voc no possa mudar.
     - De que forma? Estou me esforando para encontrar trabalho e parece que fica mais difcil a cada dia.
     -         que voc se deprime demais. Quanto mais deprimido, mais difcil.
Roberto impacientou-se.
     -        Como ficar mais otimista sem dinheiro, suportando os olhares de comiserao da me, da esposa, dos vizinhos e at da empregada? Sinto-me como se fosse 
um incapaz. Estou vivendo  custa de minha mulher.
     -        Voc no  incapaz, nem vagabundo ou aproveitador, s por estar sem emprego. Essa  uma situao temporria.
     - Que j dura alguns meses e estou no limite de minhas foras.
     -        Enquanto ficar na queixa, no conseguir nada. A depresso, a queixa, a falta de confiana na vida, isso afasta todas as oportunidades boas. Se quer 
vencer, tem que se esforar para mudar essa postura.
Roberto fez um gesto de impotncia. Ia falar, mas Aurlio continuou:
        - Sei o que vai dizer. Justificar-se no adianta nada, O que precisa  sair desse estado, enxergar as coisas boas que possui, valoriz-las, agradecer a Deus 
pelo que j possui. Voc tem uma bela famlia. Sua mulher tem sido boa companheira nesses momentos de dificuldade por que vem passando. No acha que tem muito a 
agradecer?
-        Visto assim...
     -        Tem mais. Apesar do que voc diz ter visto, no acredito que sua esposa o esteja traindo.
      bom valorizar tudo que ela tem feito pela famlia, para que ela no se sinta desanimada e algum venha a se aproveitar, tentando desvi-la. A, o que voc 
teme acontecer realmente.
     - Voc acha mesmo que posso ter me enganado?
     -        Acho. Uma mulher s trai o marido quando se apaixona por outro. E ento ela faz tudo para se separar.
     -        Ela est diferente. No me faz agrados como antes, est sempre cansada. Tenho at receio de me aproximar.
     -        Ser que no foi voc quem mudou? Prestou ateno em como voc tem se comportado dentro de casa, e com ela?
     -        Bom, depois do que aconteceu, claro que eu mudei. Fiquei triste, sem vontade de conversar, ressabiado. Parece que todos esto me criticando por eu 
ter confiado naquele patife.
     No me conformo de ter errado tanto e perdido todo o dinheiro.
    -        Voc se critica, julga-se incapaz por no ter descoberto a verdade a tempo. Sente raiva por ter sido enganado e pune-se pensando que no merece o amor 
de sua famlia.
     - No mereo mesmo. Eu no soube cuidar do bem-estar deles.
     - Perceba que est jogando toda a sua fora contra voc. Est se arrasando de propsito para se castigar.
     - Como assim?
     - Est com raiva por ter sido ingnuo. No fundo, acredita que merece sofrer pelo seu erro.
     Se um lado de voc deseja prosseguir, melhorar, recomear, cultiva o outro, que se compraz em sofrer, em ver-se derrotado, em "pagar" pelos seus erros. No fundo, 
voc acredita que est se depurando, tornando-se "limpo" diante da famlia. No aprendeu que "o sofrimento redime"?
     - Bom, sempre ouvi dizer que quem sofre est "pagando pelos seus erros ...
     - Voc acredita nisso. Para voc, sofrer significa suportar as conseqncias dos seus erros e tornar-se melhor.
     - Falando assim, d a impresso de que eu no quero arranjar emprego. E isso no  verdade.
     - Claro que voc quer trabalhar. Mas acredita que, para voltar a ter sucesso, dinheiro, precisa merecer. Como  que uma pessoa que fracassou pode merecer o 
sucesso?
     Roberto ia retrucar, mas calou-se. Respirou fundo, passou a mo pelos cabelos como querendo entender melhor.
     - Na verdade, Roberto, voc se compraz em sofrer, em continuar sendo vtima da maldade dos outros. Pensa que agindo assim est demonstrando o quanto as pessoas 
so enganadoras e perversas e tentando justificar a lamentvel experincia com Neumes.
     - Do jeito que voc fala, at parece que o nico culpado sou eu...
     - No se trata de encontrar um culpado, entenda isso, mas de compreender como voc est lidando com os fatos. Voc foi enganado por um malandro. Isso acontece 
todos os dias com as pessoas de boa-f. Voc est perpetuando esse fato, agravando a situao. Perceba isso: o errado no  voc, por haver confiado em seu scio, 
mas sim ele, por haver se aproveitado da sua confiana. Quem errou foi ele, e um dia ter que responder por esse ato diante dos valores eternos da vida. Quanto a 
voc, continua honesto, capaz, competente, e, se continuasse mantendo essa opinio a seu respeito, h muito teria encontrado a soluo do seu problema.
       - Sempre trabalhei por conta prpria, no tenho prtica para qualquer emprego. As empresas exigem dois anos de experincia.
       - Talvez a vida esteja querendo lhe dizer que o melhor ser fazer aquilo que sempre fez.
       - Precisaria de capital, e no tenho. Depois, um emprego  mais garantido. Salrio todo ms, sem preocupaes ou incertezas.
     -        Voc est com medo. No confia mais em sua capacidade. Pensar que um emprego lhe d mais estabilidade  iluso.
     -        Voc diz coisas que me perturbam e fazem pensar.
     -        Isso  bom, e vai ajud-lo a sair mais depressa dessa situao.
     -        Do jeito que voc fala, parece que depende s de mim.
     -        E depende mesmo. Quando mudar sua postura e voltar a agir como agia antes de conhecer Neumes, aos poucos tudo se normalizar.
     -        Pode me explicar melhor? Antes eu no estava nesta situao. No tinha que suportar a penria, ver minha mulher fazendo tantas horas extras para pagar 
as contas, nem minha me sofrendo por mim. Os fatos agora so outros. No d para agir como antigamente.
     -        Claro que a situao  outra, mas voc tambm  outro. Seus pensamentos so angustiados, depressivos, ansiosos. Est cheio de medo do futuro. Entretanto, 
precisa reconhecer que esse tipo de atitude, alm de dificultar, ainda cria obstculos  sua recuperao emocional e financeira. Ter que se tornar mais otimista.
     -        Voc j disse isso. Mas no sei como fazer. Como posso fingir que estou bem se tudo vai mal?
     -        No estou dizendo que precisa fingir. Estou dizendo que, apesar de estar passando por dificuldades, voc continua tendo muitas coisas boas em sua vida. 
Voc perdeu dinheiro, mas ainda tem o que  mais importante: sua famlia, o amor dos seus. Eles no o abandonaram. Ao contrrio, ficaram do seu lado, esforando-se, 
cada um a seu modo, para mostrar o quanto o amam e acreditam em sua capacidade.
     -        Minha me me critica porque ajudo a cuidar da casa. Ela acha que um homem no deve fazer isso.
     -  preconceito errado dela. No existe isso de servio de homem ou de mulher. Em uma famlia, todos precisam cooperar para que o servio da casa seja feito. 
Afinal, todos usufruem e dividem o mesmo espao. Nada mais justo que quem tenha mais tempo ajude mais.
     -         isso que eu penso. Se Gabriela est trabalhando e eu em casa, por que no devo fazer pequenos servios domsticos?
     -        Voc est muito certo. O que sua me pensa no deve afet-lo.
     Reconhea que essa  a forma como ela foi educada. No fundo mesmo, o que ela deseja  apoi-lo, ajud-lo a resolver seus problemas. Faz isso do jeito dela, 
sem perceber que o est constrangendo.  seu jeito de amar. Quando demonstra preocupao, est querendo dizer que o ama e torce para que seja feliz.
     -        Acho que tem razo. Nunca havia visto por esse lado.
     -        Quanto  sua mulher, est trabalhando mais horas para que nada falte a vocs, e isso, na minha opinio, no  para que voc se sinta humilhado, mas 
para apoi-lo at que possa assumir sua parte nas despesas. Ela faz isso por amor.
     -        Voc acha mesmo?
     - Claro. Ela deseja mostrar que o compreende e quer estimul-lo a reagir.
     -        Ela reclama que eu vivo queixoso e mal-humorado.
     -        Ela sente que, apesar de estar fazendo tudo que pode, voc no est entendendo. Percebe sua revolta. Sente-se incompreendida.
     -         verdade. Ultimamente ela no conversa mais comigo como antes. Isso me deixa mais deprimido.
     -        Ela tem razo. Est fazendo tudo que pode e voc continua na cmoda posio de vtima.
     No lugar dela, voc tambm estaria irritado.
     -        ... pode ser... Voc acha mesmo que a mudana dela pode ser por causa disso?
     -        Acho. Voc pode verificar. Mude sua atitude. Demonstre confiana no futuro. Prove a ela que voltou a acreditar na vida e em voc mesmo. Garanto que 
ela tambm mudar com voc.
     -        Puxa... vou tentar. Eu amo essa mulher. S de pensar em perd-la, sinto a vista turva e uma sensao de pavor.
     -        Se deseja mesmo isso, voc precisa reagir antes que ela se canse de sua falta de compreenso e o amor acabe.
     -        Nem quero pensar nisso!
     -        Ento faa alguma coisa. Voc perdeu s o dinheiro, mas o que possui de mais valioso ainda est do seu lado. Valorize o que possui de bom, se deseja 
conserv-lo. Descubra sua felicidade. Voc  um homem feliz. Tem uma famlia linda, uma me amorosa, at uma empregada dedicada que chega a trabalhar fora para ajudar. 
Isso  uma raridade.
     Roberto respirou fundo! De repente ele entendeu. Era verdade. Ele perdera s o dinheiro. A famlia ainda estava do seu lado.
     - Acho que tem razo Eu perdi o dinheiro, mas no perdi o que tenho de mais valioso.
     - Isso mesmo. O dinheiro foi mas pode voltar a qualquer momento, Os bens do corao, quando se vo, dificilmente voltam.
     - Roberto levantou-se e agarrou a mo do mdico, apertando-a com entusiasmo.
     - Obrigado, doutor. Entrei aqui arrasado, destrudo, e o senhor me transformou em um homem feliz, cheio de entusiasmo. Tem razo: vou me esforar para mudar 
meu comportamento.
    -        Faa isso. No se deixe abater pelo que j foi. Amanh  outro dia e novas oportunidades surgiro em sua vida.
    - No sei como agradecer...
    -        Ainda  cedo para isso. Vamos continuar. Volte aqui depois de amanh.
    Roberto despediu-se e foi para casa. Quando entrou, Gabriela estava na cozinha.
    Ele se aproximou dela. Gabriela estava com ar cansado, preparando a mesa do caf para a manh seguinte. Vendo-o entrar, olhou para ele e no disse nada.
    No sabia aonde ele ia quando saa  noite, mas estava to desanimada que no queria perguntar. As vezes pensava que ele poderia estar se envolvendo com outra 
mulher. As coisas estavam complicadas demais para que ela arranjasse mais esse problema. Por isso, fingia no notar suas sadas em dias determinados. Ele no dizia, 
ela no perguntava.
    -        Deixe-me ajud-la - disse ele dirigindo-se ao armrio e apanhando as xcaras.
    Ela olhou para ele um pouco surpreendida, mas no disse nada. Roberto continuou:
    -        Voc est cansada. Nicete no podia fazer isso?
    -        Ela est passando roupa. Amanh  dia em que ela trabalha para Anglica.
    Roberto colocou as xcaras na mesa e abraou-a, dizendo:
    -        Voc tem sido maravilhosa. Sou um homem afortunado por ter me casado com voc.
    Gabriela olhou admirada para o marido.
    -        Por que isso agora?
    -        Estive pensando. Tenho agido como um bobo. Mas, de hoje em diante, vou mudar. Estou confiante em que tudo voltar a ser como antes. Tenha um pouco mais 
de pacincia.
    Ela se soltou dos braos dele, dizendo:
    -        Arranjou emprego?
    -        Ainda no. Talvez esse no seja o meu caminho. Sempre trabalhei por conta prpria e me dei bem. Pretendo recomear.
    -        Como? No tem capital.
    -        Vou dar um jeito. Quando comecei, tambm no tinha nada.
    Ela deu de ombros e respondeu:
    -         verdade.
     -        Estou confiante. Assim como ganhei dinheiro e constru nossa vida, vou fazer tudo de novo.
     Pode acreditar, vou fazer. A, voc poder at deixar o emprego e cuidar apenas dos nossos filhos.
     -        Deixar o emprego, no. Pretendo continuar a ganhar o meu dinheiro.
     -        Veremos, quando chegar o momento.
     Gabriela olhou para ele e no disse nada. Reconhecia que o marido estava diferente. Seria bom mesmo que mudasse, que no ficasse com aquela cara de vtima sofredora. 
Ela no agentava mais sua depresso.
     -        Quer tomar um caf com leite antes de dormir? - indagou solcita.
     -        Quero. Mas hoje eu  que vou preparar e voc vai se sentar do meu lado e tomar uma xcara comigo.
     -        Estou cansada, vou me deitar.
     -        Nesse caso, levarei a bandeja no quarto. Voc vai tomar comigo.
     Ela esboou um sorriso, olhando admirada para ele. Roberto estava diferente. O que teria mudado?
     Gabriela foi para o quarto, preparando-se para deitar.

Captulo 5

    Gabriela levantou-se apressada. Estava atrasada. Aquele caf com leite na cama, a mudana da atitude do marido haviam-na feito relaxar e dormir pesadamente.
    Quanto  situao financeira dele, no queria pensar. No princpio, tentara de todas as formas ajud-lo, sugerindo vrias opes de trabalho que, seja por ele 
no ter prtica ou por no ter entusiasmo, nunca haviam dado certo. No fim, ela ficava sempre com a sensao de fracasso.
    Nessas ocasies, sentia que ele a olhava como que a culpando. Por causa disso decidiu no interferir mais nessa questo.
    Entretanto, apesar disso, no conseguia manter serenidade diante das contas a pagar, da falta de compreenso dele, do ar de vtima da sogra e at das pequenas 
contrariedades domsticas normais do dia-a-dia. Sentia-se esgotada de corpo e alma.
    Aprontou-se rapidamente e, tendo dado algumas recomendaes a Nicete, saiu aps um "at mais" ao marido.
    Chegou ao escritrio com quase meia hora de atraso. Uma colega informou:
    - O Dr. Renato perguntou por voc duas vezes.
    Nervosa, Gabriela guardou a bolsa no armrio, ajeitou a roupa e imediatamente foi  sala do chefe. Bateu levemente e entrou.
    Ele lia alguns papis e, vendo-a entrar, levantou os olhos dizendo:
    - Onde estava, Gabriela?
    - Desculpe, doutor, no consegui chegar no horrio.
        Ele        pousou os papis sobre a mesa e olhou atentamente para ela. Voc parece cansada. Est doente?
        - No, senhor. Estou muito bem.
        - Tenho observado. Ultimamente voc tem estado triste, abatida, emagreceu.
        - Tenho tido alguns problemas pessoais.
    Ele continuou fitando-a pensativo. Era um homem fino, elegante, que aos quarenta e cinco anos j podia considerar-se rico. Tinha mulher e dois filhos, sua empresa 
ia muito bem.
    - Se continuar assim, vai adoecer - disse. - Tem trabalhado demais. Mesmo quando no preciso de voc, tem procurado fazer horas extras em outros departamentos. 
O que est acontecendo?
     Gabriela esforou-se para controlar-se. No queria mostrar-se fraca. Ele poderia despedi-la.
     Se ela perdesse aquele emprego, sua famlia no teria como se manter.
     Tentou conter as lgrimas e disse com voz que tudo fez para tornar firme:
     - Por favor, Dr. Renato! No me mande embora. Sei que tenho estado cansada, mas no posso perder o emprego agora!
     Ele se levantou e se aproximou dela, dizendo:
     - No pensei nisso, Gabriela. Acalme-se. Estou apenas querendo saber o que est acontecendo com voc. Sempre admirei sua alegria, disposio, bom humor. Agora 
est diferente.
     No me passou pela cabea despedi-la. Pelo contrrio, desejo sabero que est acontecendo para poder ajud-la.
     Ouvindo essas palavras, Gabriela no conseguiu mais conter a emoo. Rompeu em pranto convulso e incontrolvel. Tudo quanto ela havia represado durante aquele 
tempo aflorou, e ela no conseguia parar de soluar.
     Sensibilizado, ele a abraou, apanhou um leno e colocou-o na mo dela, dizendo:
     - Chore, Gabriela. Extravase seus sentimentos. Desabafe.
     Ela se deixou ficar ali, abraada a ele, sentindo o conforto do seu apoio, o delicado perfume que vinha dele. Quando conseguiu se acalmar, afastou-se e ele 
imediatamente a largou.
     - Desculpe. O senhor no tem nada a ver com meus problemas pessoais. Sinto muito. No estou sendo profissional. No devia ter deixado acontecer.
     - No se preocupe. Voc est exausta, no limite da sua resistncia. Sente-se melhor agora?
     Gabriela tentou sorrir, enxugando os olhos mais uma vez.
     - Sim. Obrigada pelo leno. Vou lev-lo para lavar, amanh eu devolvo. O senhor estava me procurando.
     -        Isso pode esperar. Eu queria que soubesse que pode confiar em mim. Trabalhamos juntos h mais de trs anos e somos amigos. Se h alguma coisa que eu 
possa fazer...
     - O senhor j fez muito. Meu marido est desempregado at agora. As coisas esto muito difceis l em casa.
     - Agora me recordo, ele foi roubado pelo scio.
     - Foi. Como nunca trabalhou como assalariado, est difcil arranjar emprego. Todos pedem dois anos de experincia.
     - Por que ele no volta a trabalhar por conta prpria?
     - No tem capital.
     - Ele tinha um depsito de materiais de construo, no ?
     - .
     - Ele pode procurar um scio e recomear.
     - Depois do que ele passou? Desta vez ele vai precisar fazer tudo sozinho. Alis, foi assim que ele comeou.
     - No desanime. Ele vai conseguir. Agora v lavar o rosto, refazer a maquiagem e vamos trabalhar.
     - Obrigada pela compreenso. Estou melhor agora. Pode ter certeza de que vou trabalhar como nunca.
     Renato sorriu. Era assim que gostava de v-la: firme, disposta, capaz. Ele sabia que ela era muito eficiente. Gabriela retirou-se e ele ficou olhando para a 
porta, o lugar por onde ela desaparecera. Que mulher!
     Muito diferente da sua, que estava sempre se queixando e para quem tudo era difcil. Havia momentos em que ele no conseguia suportar sua voz chorosa, lamentando-se 
por futilidades. Ora porque o trnsito estava ruim, ora porque o cabeleireiro estava lotado, a balconista da Loja fora indelicada, uma amiga esquecera o dia do seu 
aniversrio, etc., etc.
     Se ela tivesse a metade dos problemas de Gabriela, com certeza teria um chilique. O que mais o irritava em Gioconda era sua atitude com os filhos, desculpando 
todas as malcriaes, principalmente de Ricardinho, que aos dez anos fora expulso de duas escolas e estava difcil de manter na terceira.
     Quando Renato chamava a ateno de Gioconda para que ela fosse mais firme com o filho, ela tinha crises de depresso, dizendo-se incompreendida, chamando-o 
de malvado.
     Ele tentara vrias vezes orientar Ricardinho, porm Gioconda sempre interveio, tirando sua autoridade. Pensara at em intern-lo em um colgio, o que deixou 
sua mulher de cama por dois dias, infernizando sua vida.
     J Clia era mais cordata. Quieta, delicada, falava pouco. Aos oito anos, fazia tudo para agradar a me, mesmo percebendo que Gioconda s tinha olhos para Ricardinho.
     Renato, por vezes, sentia vontade de intervir, mudar tudo. Mas como? Ficava trabalhando a maior parte do tempo. Depois, Gioconda era to frgil que ele tinha 
medo de pression-la. E se ela fizesse alguma besteira?
     Ia levando a vida como dava. Gabriela era o oposto. Forte. Determinada. Bonita e indomvel como um cavalo de raa.
    "Vai ver que o marido dela  um moleiro que no merece tudo isso!", pensou ele.
    Quando Gabriela voltou, estava renovada. Arrumara-se melhor. No podia desagradar ao patro. Sabia que ele detestava gente feia e mal arrumada. Queria estar 
sempre rodeado de obras de arte em um ambiente agradvel.
    Vendo-a entrar, ele tornou:
    - Vamos trabalhar. H algumas cartas que quero ditar sobre aquele contrato com a importadora.
    - Sim, senhor. Estou pronta.
    Ela se sentou com o caderno de anotaes nas mos e ele comeou a ditar. Trabalharam durante uma hora, depois ele decidiu:
    - Providencie essas cartas com urgncia. Pretendo assin-las logo ao voltar do almoo e mand-las o quanto antes.
     - Sim, senhor. No levarei mais do que meia hora para t-las prontas.
     - Todas?
     -Todas.
     - Voc no sai para o almoo?
     - No. Costumo trazer um lanche e como aqui mesmo.
     - Isso no faz bem  sade. Voc deveria se alimentar melhor. A noite, em casa, fao isso.
     Ele balanou a cabea negativamente.
     - No parece. Vai ver que  por isso que tem emagrecido e sentido cansao. Precisa se cuidar.
     - Sim, senhor. Farei o possvel.
     Gabriela saiu e tratou de aprontar as cartas. Havia trazido o lanche, porm no sentia fome.
     Quando acabasse, tentaria comer um pouco. Ela no gostava daquela sensao de estmago vazio que a deixava um pouco tonta.
     Atirou-se ao trabalho com capricho. Todos saram para o almoo e ela continuou trabalhando. Meia hora depois, chegou um mensageiro com um pacote. Ela atendeu.
     -  para D. Gabriela.  s entregar.
     - Gabriela do qu?
     - A secretria do Dr. Renato.
     - Sou eu. Obrigada.
     Curiosa, abriu a embalagem. Era um almoo completo, com refrigerante, sobremesa e tudo.
     Ela corou. Quanta gentileza! Ele almoava em um restaurante prximo e mandara-lhe aquela comida.
     Sentiu-se confortada. Ele se interessara pelo seu bem-estar. Estava habituada a cuidar dos filhos, do marido, da empregada, e foi agradvel ter algum que cuidasse 
um pouco dela. Era como se houvesse voltado  infncia e tivesse a presena de sua me, de quem havia se separado desde o casamento porque ela morava em outro estado.
     Abriu tudo sobre sua mesa. Ele no se esquecera dos pratos e talheres descartveis. Abrindo as embalagens e experimentando a comida, Gabriela parecia uma criana. 
Seu apetite voltou como por encanto e ela comeu tudo, sentindo-se muito bem.
     Depois limpou a mesa e foi pegar um caf na garrafa trmica na outra sala. Acendeu um cigarro e, enquanto observava as espirais de fumaa que formavam arabescos 
no ar, pensava que afinal no tinha motivos para ficar to depressiva.
     Roberto encontraria o que fazer, mas enquanto isso no acontecesse ela garantiria as despesas da famlia. Era bom tambm poder contar com a amizade de Nicete. 
Um dia, quando a situao melhorasse, haveria de recompens-la pela lealdade.
     Voltou ao trabalho e, quando Renato chegou, as cartas j estavam em sua mesa, prontas para serem assinadas e despachadas.
     Vendo-o entrar, Gabriela seguiu-o at a sala.
     -        Muito obrigada pelo almoo, Dr. Renato. No precisava ter se incomodado.
     -        Pelo menos voc comeu?
     -        Tudo. Estava delicioso. Mas o melhor foi sentir seu apoio. Muito obrigada.
     -        No foi nada. O que eu fiz foi pensando em mim. No conseguia comer sabendo que voc, minha secretria, estava aqui, apenas com um sanduche.
     -        Mais uma vez obrigada.
     -        No me agradea, porque de hoje em diante vou ter voc sob minha vigilncia. Ter que cuidar melhor da sua sade.
     -        Farei o possvel.
     -        Est bem. Vejamos as cartas.
     Ele leu, assinou e, entregando-as, tornou:
     -        Despache-as e depois volte aqui.
     Ela saiu e dez minutos depois voltou.
     -        Pronto, doutor.
     -        Tenho alguns contratos que gostaria que voc lesse e depois me dissesse o que pensa deles.
     -        Eu?
     - Voc. Preciso de uma opinio de algum que esteja fora da negociao.
     Ele apanhou uma pasta e entregou-a a Gabriela, continuando:
     - Leia e faa os apontamentos que julgar interessantes. Entregue-me assim que terminar.
     - Tem urgncia?
     - Sim. Pare outras coisas e d prioridade a estes contratos.
     - Est bem.
     - Como so vrios e diferentes assuntos, eu gostaria que,  medida que acabasse um, fosse me devolvendo. Assim estaremos agilizando as providncias.
     Gabriela saiu, foi at sua mesa e comeou a leitura. A princpio no se sentiu muito  vontade.
     Analisar um contrato era atividade para pessoa habilitada, que tivesse mais qualificao do que ela.
     J ao ler o primeiro, sentiu-se muito interessada pelo assunto, pela maneira como ele estava sendo exposto. Fez vrias anotaes, nas quais, alm de questionar 
algumas propostas, sugeria modificaes.
     Duas horas depois, ela entrou na sala de Renato com um contrato na mo.
     - E ento? perguntou ele.
     - Acabei de ler este. Anotei algumas questes. No  minha rea de trabalho, por isso peo que releve minha ignorncia.
     Ele apanhou o contrato e leu as anotaes com ateno.
     - Acho que voc se saiu muito bem. S no entendo por que sugeriu esta mudana aqui.
     Parece-me melhor fazer como a minuta pede.
     - Se fizer como est a, em caso de o cliente vir a falecer e deixar herdeiros menores, a empresa ficar amarrada, sem poder continuar o projeto. Se desvincular 
o contrato da rea pessoal, colocando-o em nome do banco e o mesmo ficar credor em caso de morte do cliente, nossa empresa estar garantida.
     Renato olhou para ela admirado.
     - Tem razo! Como  que no pensei nisso? Vou modificar tudo.
     Nosso negcio ser em nome do banco, que garantir a outra empresa.
     - Acha que eles aceitaro isso?
     - Acho. Esto muito interessados neste projeto. Afinal, eles  que iro ganhar a melhor parte. Leia os outros e depois conversaremos. Estou pensando em uma 
coisa diferente.
     - O qu?
     - Em dar-lhe uma oportunidade de melhorar seus vencimentos. Estou falando de uma promoo.
       Gabriela corou de prazer.
       - Promoo?
       - Sim. Voc  arguta e observadora. Merece uma oportunidade melhor. Vamos ver como se sai com os outros contratos.
       Gabriela ficou alegre. Melhorar sua situao financeira seria quase um milagre naquelas circunstncias.
       Naquela noite chegou em casa feliz. Depois de tanto tempo, acontecia alguma coisa boa. Dali para a frente tudo poderia mudar. Era s questo de tempo.
     Passava das sete quando Renato deixou o escritrio. Olhou o burburinho das ruas e decidiu andar um pouco antes de apanhar o carro no estacionamento.
     Apesar do vento frio, foi caminhando pensativo, parando em uma vitrine ou outra, procurando alguma coisa interessante. No sentia vontade de ir para casa, ouvir 
as ltimas reclamaes de Gioconda.
     No se interessou por nada e reconheceu que estava entediado. Advogado bem-sucedido inclusive na rea internacional, abrira sua prpria empresa de assessoria 
e negcios, especializando-se em empreendimentos de vulto. Podia orgulhar-se de ter como clientes grandes empresas que, aliadas  sua capacidade, lhe garantiam notoriedade 
e sucesso. Bela casa, carro do ano, boas roupas, Renato possua tudo quanto havia desejado.
     Olhando sua figura refletida na vitrine iluminada, seu rosto aborrecido, Renato foi forado a admitir que no estava feliz. O que estaria acontecendo com ele?
     Uma mulher jovem, elegante e bonita passou por ele, encarou-o e sorriu. Ele percebeu o interesse dela, mas nem isso o fez sentir-se melhor. Fosse em outros 
tempos, teria pelo menos se entusiasmado.
     Continuou andando, tentando encontrar o motivo da sua insatisfao, sem conseguir. No era dado a depresso. Ao contrrio, considerava-se um otimista. Fora 
sua postura entusiasta e seu empenho em resolver os desafios que lhe granjearam a confiana dos clientes.
     Comeou a garoar e ele resolveu apanhar o carro e voltar para casa. Passava das nove quando entrou na sala onde Gioconda, comodamente instalada em uma poltrona, 
folheava uma revista. Elegante, de estatura mdia, cabelos castanhos bem penteados, pele clara e delicada, vestida com apuro, era o que se pode chamar de uma mulher 
de classe. Vendo-o, levantou-se.
   -        Finalmente. Fiquei esperando voc para jantar.
     -        No precisava. Estou sem fome.
     -        Mandei servir s crianas. Sabe como , eles precisam se alimentar nas horas certas.
     - J lhe disse vrias vezes: no tenho horrio para chegar. Vocs no precisam me esperar.
     -        Ainda assim esperei. Afinal, almoamos sozinhos todos os dias. Voc nunca est em casa.
     O escritrio fecha s cinco e meia... o que ficou fazendo at agora?
     Renato tentou conter a irritao. No podia dizer que ficara andando na rua sem vontade de ir para casa.
     -        Nem sempre posso sair junto com os funcionrios. Tenho assuntos srios a estudar, contratos a resolver. Projetos de muita responsabilidade. No posso 
brincar em servio, parar de trabalhar por causa do relgio.
     Ela se aproximou dele, dizendo com voz queixosa:
     -        Sinto tanto sua falta! Por que me abandona desse jeito? Passo o dia contando as horas que faltam para voc chegar e di muito perceber que s eu sinto 
essa necessidade. Voc no se importa comigo nem com sua famlia.
     -        Voc sabe que isso no  verdade. Agora vou subir, me lavar um pouco. Pode mandar tirar o jantar.
     -        V? Voc no liga mesmo para mim. Estou sofrendo e voc nem se importa.
     Ele fez um gesto de impacincia.
     - Estou cansado, Gioconda. Tive um dia de muito trabalho. Gostaria que esta noite voc me poupasse.
     - Voc nunca tem tempo para mim. Os Mendes telefonaram para saber se iramos jantar com eles no sbado.
     - Eu j disse que neste fim de semana pretendo ir ao clube fazer um pouco de exerccio. Iremos outro dia.
     - Voc sabe que eu detesto ir ao clube nos fins de semana.
     - Seria bom que fosse e levasse as crianas. Ricardinho deveria praticar algum esporte para equilibrar seu excesso de energia.
     - L vem voc de novo com essa idia. Ele  como eu, no gosta de nada disso.
     - E fica em casa sem se ocupar, s pensando em besteiras.
     - Voc  um pai omisso. Nunca est em casa, no conhece o prprio filho e ainda se queixa das atitudes do menino.
     - Vou subir, Gioconda. Depois conversaremos.
     Ele subiu as escadas quase correndo para livrar-se da voz queixosa, da mulher. Sentia vontade de dizer-lhe uma poro de desaforos. Controlou-se, porm. No 
gostava de ser indelicado. Sempre primara pela boa educao, herana da postura firme e ditatorial de sua me, que no tolerava a mnima indelicadeza e o educara 
rigidamente.
     Enquanto se lavava, ele idealizava uma forma de no se aborrecer com a postura da mulher.
     Reconhecia que ela era assim mesmo. Ele se orgulhava de saber manejar as pessoas. Decidiu que a melhor forma de lidar com ela era no a levar a Srio, no entrar 
em seus desacertos emocionais.
     Algum naquela casa precisava conservar o bom senso. Ele no podia contar com ela na administrao dos problemas da famlia. Por isso, teria de tomar todas 
as decises sozinho.
     Quando se sentou  mesa do jantar, Renato j conseguira se acalmar, e, quando Gioconda quis retomar seus assuntos, ele sorriu gentilmente e pediu:
     -        Vamos deixar os problemas domsticos para mais tarde. No h nada como um jantar agradvel. Gostaria de um pouco de msica. Voc pode ver isso?
     -        O que voc quer Ouvir?
     -        Msica de filmes com orquestra. Com seu bom gosto, tenho a certeza de que escolher adequadamente.
     Nada podia alegrar mais Gioconda do que uma referncia s suas qualidades. Sorriu e apressou-se em fazer o que o marido pedira.
     Quando voltou, ele dirigiu o assunto para banalidades, coisa de que ela gostava de conversar, uma vez que estava a par de todas as novidades da sociedade e 
da moda.
     Enquanto a ouvia discorrer sobre as ltimas fofocas de Hollywood, Renato lembrou-se de Gabriela. Aquela sim que era mulher! Que diferena! Reconhecia que a 
vida fora injusta com ele, dando-lhe uma esposa infantil e fraca, muito diferente do que ele desejaria.
     Assim que acabaram o jantar, Renato, dizendo que precisava estudar um projeto novo, fechou-se no escritrio sob os protestos de Gioconda, que indignada no 
se conformava em v-lo trabalhar tanto.
     Uma vez L, Renato apanhou um livro, afundou gostosamente em uma poltrona macia e mergulhou prazerosamente na leitura.
     Esse era seu momento de reflexo e paz, e ele no desejava dividi-lo com ningum, muito menos com Gioconda. Renato s resolveu ir dormir quando percebeu que 
a esposa j havia pegado no sono.
     Na manh seguinte, na mesa do caf, Roberto notou que Gabriela estava mais disposta e sentiu-se mais animado. No se conteve:
     - Noto que voc est melhor, menos cansada. De agora em diante, enquanto eu no estiver trabalhando, farei tudo para ajudar no servio da casa.
     - No se preocupe com isso, Roberto. Ns damos um jeito.
     -        Tenho pensado muito e acredito que ns ainda vamos reconstruir nossa vida. Vou me esforar para reaver tudo quanto perdi. Voc no se arrepender de 
ter me apoiado. Quando estiver bem de novo, voc pode deixar de trabalhar, ficar s em casa cuidando dos nossos filhos.
     Gabriela olhou sria para ele e respondeu:
     -        Sei que voc  capaz e vai reaver o que perdeu. Mas gostaria que entendesse que eu gosto de trabalhar.  verdade que estamos vivendo tempos difceis, 
mas no pretendo parar. Voc pode ficar milionrio que continuarei trabalhando.
     Roberto fez um gesto de impacincia.
     -        Por qu? Meu sonho  v-la em casa, como uma rainha. Colocar tudo a seus ps. Voc no vai precisar mais de um emprego.
     -        Esse  um sonho seu, no meu. Nunca lhe ocorreu que eu posso desejar outra coisa? Cada pessoa tem o direito de escolher o que deseja fazer. Eu sinto 
muita vontade de aprender mais, de melhorar minha cabea, de participar da vida fazendo coisas inteligentes, boas, que me realizem.
     -        Voc  uma mulher casada, me de famlia. Tem essa responsabilidade. Essa  sua realizao.
     -        No penso assim. Eu posso muito bem ser tima me, boa esposa e fazer coisas que me deixem feliz.
     -         isso que no consigo entender. Voc  diferente das outras mulheres que se contentam em cuidar da famlia. Voc no valoriza o lar que tem.
     Gabriela olhou para ele com raiva.
     -        Se no valorizasse, h muito j teria desistido de ficar com voc. Gostaria que entendesse de uma vez por todas que eu estou aqui s porque amo vocs 
todos e valorizo muito minha responsabilidade familiar.
      Roberto mordeu os lbios. Estava sendo injusto de novo. Tentou consertar:
     -        Desculpe, Gabriela. As vezes no sei me expressar.
     -        Voc sabe muito bem. J conversamos inmeras vezes sobre esse assunto e nunca concordamos. Por isso  melhor parar. Estou muito satisfeita no emprego 
e pretendo continuar mesmo depois que voc ganhar dinheiro de novo. Estou sendo promovida, meu salrio vai aumentar.
    -        Promovida? Por qu?
    -        O Dr. Renato acha que eu posso progredir e deu-me um trabalho de mais responsabilidade. Alm do aumento que ainda no sei de quanto ser, h a chance 
de melhorar meus conhecimentos profissionais.
    -        Por que ser que ele resolveu fazer isso por Voc?
    -        Ele precisava de uma assistente em outra rea e eu estou experimentando. J me disse que estou indo bem e que vai melhorar meu salrio.
    Roberto sentiu um aperto no corao e tentou disfarar. No queria que ela percebesse que sentia cime. A cena de Gabriela passando dentro do carro com outro 
homem surgiu em sua mente e ele apertou a mo na xcara que segurava, sorvendo um gole de caf para ganhar tempo.
    Quando se sentiu mais calmo, respondeu:
    -        Voc vai aceitar a nova responsabilidade?
    -        Claro. Alm de aprender mais, h o aumento. Neste momento ser de grande valia. Temos algumas contas vencidas para pagar. Agora preciso ir. Ontem cheguei 
atrasada, no quero que acontea de novo.
    Depois que ela se foi, Roberto decidiu-se. Ele no podia ficar mais naquela situao. Tinha de dar um jeito na vida.
    Arrumou-se e saiu. Estava disposto a trabalhar em qualquer servio. Pegaria o que aparecesse, contanto que o ocupasse e lhe rendesse algum dinheiro. Do jeito 
que estava no podia ficar mais.
    Ao passar por um prdio de apartamentos que estava sendo construdo, parou. A estrutura estava em andamento e alguns andares j haviam sido levantados. Viuo 
mestre de obras e o engenheiro vistoriando o servio e foi at eles, que estavam to entretidos discutindo detalhes da obra que nem o viram.
    Roberto esperou calado at que o mestre, vendo-o, tornou:
    -        Se deseja alguma informao sobre os apartamentos, o planto de vendas  ali na frente.
    -        Eu desejo  falar com o senhor mesmo.
    -        Agora estou ocupado.
    -        Enquanto esperava, ouvi o que conversavam. Posso lhes oferecer uma soluo barata e eficiente para o problema que estavam discutindo.
    O engenheiro que examinava algumas colunas voltou-se para Roberto e perguntou:
    -        Voc  da rea?
    -        Desde criana. Sempre trabalhei com construo. H um material especfico, com uma liga especial e de grande resistncia, que vai melhorar toda a estrutura. 
Alm de tudo,  barato e fcil de trabalhar.
    -        Voc  vendedor? - indagou o mestre de obras, olhando-o desconfiado.
    -        Sou - respondeu Roberto.
    -        Estou interessado em obter mais informaes - tornou o engenheiro. - Esse problema est atrasando meu cronograma. Tenho urgncia de solucion-lo.
    -        Meu nome  Roberto Gonalves. O senhor vai ficar aqui at a hora do almoo?
    -Vou.
    -        At l estarei de volta com as informaes de que precisa.
    O        engenheiro olhou srio para ele e respondeu:
    -        Est bem.
    Roberto saiu dali e foi diretamente a uma empresa que ele conhecia e que produzia o material.
    Procurou pelo chefe de vendas.
    -        Roberto! Quanto tempo! Prazer em v-lo.
    -        Obrigado. Estou retomando os meus negcios.
    -        Eu sabia que voc ia dar a volta por cima. O que  que manda?
    -        Estou trabalhando com alguns engenheiros, sugerindo materiais e ajudando-os a compr-los. Preciso refazer meu capital.
    -        Tenho certeza de que conseguir.
    -        Gosto dos produtos desta empresa e pretendo comprar grandes quantidades para meus clientes. Vai depender da comisso que voc me oferecer.
    O        chefe de vendas interessou-se imediatamente. Roberto, de posse de todas as informaes tcnicas, inclusive uma amostra do produto para um teste, voltou 
 construo, onde o engenheiro o esperava.
    Juntos testaram o produto, e no fim o engenheiro resolveu:
    -        Vamos esperar vinte e quatro horas para ver se resiste ao peso e se mantm a consolidao. Amanh voc volta e, se tudo estiver aprovado, farei o pedido. 
Tem pronta entrega?
    -        Tem. Assim que autorizar, o material estar aqui. No trabalho s com este produto. Sei que a rotina em uma obra  muito corrida e o trabalho no pode 
parar. Por isso me especializei em agilizar as compras.
    -        Costumo pedir trs oramentos - disse o mestre de obras.
    -        Imagino que por telefone, e sempre para as mesmas empresas. J no meu caso, eu ando constantemente procurando novos materiais, novas alternativas para 
facilitar a obra, melhorar o custo, mas mantendo a mesma qualidade. Se precisar de outros produtos,  s me pedir. Com rapidez eu lhe trarei vrias opes, sem que 
precisem perder tempo.
    -  interessante conhecer as novidades. As vezes vejo novas opes nas revistas especializadas, mas acabo no tendo muito tempo de ir investigar.
    - Pode contar comigo. Vou deixar meu telefone. Infelizmente esqueci meus cartes. Este  o nmero da minha residncia. Fechei meu depsito de construes e no 
momento estou trabalhando em casa mesmo.
    Roberto ficou de voltar na manh seguinte. Sentia-se animado. Por que no pensara nisso antes? Naquele dia visitou o gerente de vendas de mais duas empresas 
onde ele comprara muito material quando teve o depsito e negociou uma comisso nas compras que faria para seus clientes.
    Fez os planos para o dia seguinte. Iria visitar outras obras e propor boas solues para seus construtores.

Captulo 6

     Naquela noite, Roberto chegou ao consultrio de Aurlio muito animado. Vendo-o entrar, o mdico disse satisfeito:
     -        Voc melhorou.
     -         verdade. Retomei o trabalho por conta prpria. Nem sei por que no fiz isso antes.
     -        No fez porque sua cabea estava confusa.
     -        O senhor tinha razo: um emprego no ia dar certo para mim. Sempre trabalhei do meu jeito. Depois, s sei lidar com construo, no tenho prtica em 
outros servios.
     -         o que gosta de fazer. Quando  que isso ficou claro para voc?
     -        Depois daquela conversa que tivemos outro dia. Pensei muito sobre tudo quanto me aconteceu. Percebi que estava com mais raiva de mim, por ter sido 
to bobo, do que de Neumes.
     -         difcil reconhecer que algumas crenas suas eram erradas.
     -        Como assim?
     -        Neumes conseguiu realizar o seu maior sonho, que era formar-se engenheiro. Voc o admirava. De repente, percebeu que pensava de forma errada. Um diploma 
no  suficiente para garantir o comportamento tico de uma pessoa. Sentiu-se enganado duas vezes. Diminudo duas vezes. Perdeu o referencial. Ficou deprimido, sem 
confiana em si nem na vida.
     -        O desnimo tomou conta de mim. Depois, veio o caso da minha mulher.
     -        Que voc no sabe se aconteceu mesmo.
     -        Eu vi. As vezes penso estar enganado, mas essa cena reaparece em minha cabea e sempre me angustia.
     -        Est se torturando sem razo. No tem certeza de nada.
     -        Ela est sendo promovida. Isso me deixou angustiado.
     -        Inseguro  o termo certo. Voc sempre coloca sua mulher muito acima, como se o amor dela representasse um prmio que voc no merece.
     -        Ela  muito bonita e tem mais estudo do que eu.
     -        Na verdade, seu problema  apenas um: despeito por no haver cursado a universidade.
     Diga-me: em sua famlia, quem costumava lhe dizer que a pessoa que no estuda nunca consegue nada na vida?
    -        Meu pai. Todas as vezes que eu ia mal nos estudos, que no obtinha notas altas, ele contava a histria de Pinquio, que fugiu da escola para vadiar 
e acabou virando um burro.
    -        E voc morria de medo de virar um burro.
    -        Eu fingia que no me importava com o que ele dizia. Sabia que nunca viraria burro. Mas sempre que alguma coisa dava errado eu achava que era burro mesmo, 
por no haver aprendido o suficiente. Por isso, sempre me esforcei para que os outros pensassem que eu era inteligente, esperto.
    - Trabalhou muito para progredir financeiramente. Sentiu-se valorizado tendo conseguido.
    -         verdade. Minha famlia mudou comigo quando eu constru minha casa, aumentei o depsito, comprei carro zero, etc. Meu pai me elogiava, minha me tinha 
orgulho de mim. Quando conquistei Gabriela, to disputada e bonita, foi a glria. Nem eu acreditei.
    -        Claro. Voc nunca acreditou no prprio valor. Estava apenas fazendo um papel.
    -        Isso no. Eu amo minha mulher, e tudo que fiz foi pensando em manter minha famlia.
    -        No duvido. Mas, l dentro do seu corao, havia a vaidade de provar para seu pai que voc era capaz e inteligente.
    - Quando ele morreu, eu estava no auge do sucesso. Tudo ia muito bem.
    -        Ele morreu, mas suas palavras continuam dentro de voc, produzindo efeito, fazendo com que voc se cobre, se vigie para nunca errar. Perceba como voc 
se impressionou com o que ele lhe dizia.
    -        No gosto de pensar nisso. Sinto-me angustiado.
    - Precisa libertar-se dessa presso. Voc  inteligente e no precisa provar nada para ele nem para ningum. Tem capacidade, mas humano. Pode errar como qualquer 
um e nem por isso fica burro ou  menos do que os outros. Voc sabia que ningum consegue progredir sem errar? Os erros ensinam mais do que os acertos.
    - No nego que aprendi muito com o que aconteceu. Mas tem sido duro.
    -        Por causa da sua resistncia em aceitar que foi enganado em sua boa-f, mas que isso  natural em nosso mundo. Acontece a qualquer pessoa que engane 
tambm.
    -        Nunca enganei ningum. Sempre fui honesto.
    -        Enganou a si mesmo, o que  ainda pior.
    -        No entendi.
    -        Voc atraiu Neumes em sua vida porque precisava tomar conscincia de como enganava a si mesmo.
     - Eu confiei nele.
     - Mas ele o traiu porque voc se traa.
     - No  verdade.
     - Como no? Voc se esforava no trabalho, no como uma realizao interior mas como um meio de provar aos outros, principalmente ao seu pai e  sua famlia, 
que era capaz. Essa atitude revela que no fundo voc no acreditava nisso, julgava-se pequeno, sem instruo, e dissimulava, receoso de que os outros notassem suas 
fraquezas. Por isso, escolheu a mulher mais cobiada, lutou para subir na vida, cumpriu bem esse papel. Diante dos outros era tido como sendo um vencedor, mas, no 
fundo, no se sentia assim. Por isso o cime o incomodava.
     -        Sinto que isso  verdade, mas nunca tra ningum.
     -        Traiu sua alma, sua realidade, seu esprito. Entrou na iluso, julgou-se mal, acreditou na mentira que lhe disseram sem consultar seu corao. Creia, 
Roberto, a nossa verdade maior est no esprito. E nesse particular, apesar das diferenas de nveis de evoluo, todos somos iguais. O nosso esprito possui a essncia 
divina que, quando ouvida, nos conduz  felicidade. Por isso, quando mergulhamos nas iluses, estamos traindo nossa realidade. A vida tenta nos chamar a ateno, 
colocando pessoas  nossa volta que servem de espelho para que possamos acordar.
     -        Neumes foi esse espelho?
     -        Isso mesmo. Se voc fosse verdadeiro com seus sentimentos, valorizasse o que sente, percebendo seus limites reais e suas possibilidades com naturalidade, 
ele no teria se interessado em trabalhar com voc e teria ido ludibriar outro.
     -        Quer dizer que a culpa  minha?
     -        Cuidado com isso. Voc no tem culpa de nada. Apenas ignorava o que est aprendendo agora. Voc  responsvel pelas atitudes que tem, atraiu essa experincia 
em sua vida por causa disso.
     -        E Neumes?
     -        Vai atrair tambm experincias que dizem respeito s suas atitudes, da maneira como s a vida sabe dar.
     -        Ento ele tambm ser castigado.
     -        A vida no castiga. Apenas ensina. De acordo com suas atitudes, ela responde com desafios que abrem a conscincia e fazem amadurecer. A vida  muito 
sbia e trabalha sempre para o melhor.
     - Eu estava bem e fiquei pior com tudo que aconteceu.
     - Voc estava iludido, inseguro. Agora comea a se conhecer mais, a retomar o domnio de suas escolhas com mais experincia e capacidade. Tenho certeza de que 
daqui para a frente ser mais difcil voc ser enganado nos negcios.
    -        Isso  verdade. Estou menos ingnuo.
    -        Conheceu a dedicao de sua mulher, que tem sido uma boa companheira, apoiando-o nos momentos de dificuldade.
    -        ... reconheo isso.
    -        Quero que pense em tudo que eu lhe disse. Tente sentir o que vai dentro do seu corao e daqui para a frente nunca mais traia seus sentimentos verdadeiros. 
No tenha medo da opinio dos outros. Eles esto sempre interessados em manipular voc, tirar proveito, criticar. Raros so sinceros.
    -        Tenho notado isso. Principalmente depois que perdi tudo.
    -        No se iluda com os outros nem espere demais deles. Mas, ao mesmo tempo que observa isso, conviva cordialmente, sem julgamentos nem crticas, preservando 
sua intimidade, tirando do convvio externo apenas o bem que for possvel conseguir. Todos precisamos aprender a nos relacionar bem com as pessoas.
    -        Ultimamente tenho estado ressabiado. No confio em ningum.
    -        Confie em voc. Contudo, afastar-se do convvio com as pessoas tambm no  bom. Ns somos seres sociais. Gostamos de participar, cooperar, ser includos. 
 preciso ter bom senso, fugir do paternalismo, do pieguismo, das crticas e das atitudes radicais. Manter os ps no cho.
No se deixar envolver pelo que as pessoas dizem. Se voc fizer isso e agir com sinceridade, obter melhores resultados. Esse  o segredo dos que sabem conviver 
sem se machucar.
    -        Gostaria de aprender isso. Minha vida tem sido um tormento. Minha me, minha cunhada, todos querem me ajudar, mas, quanto mais eles fazem isso, mais 
eu me sinto fracassado. Sei que todos tm boa inteno e no quero ser ingrato. Mas eu preferia que no se incomodassem tanto com meus problemas.
    -        Voc preferia, mas no consegue deixar de se impressionar com o que eles pensam ou dizem.
    -        Quando perguntam se arranjei emprego, parece que esto me chamando de incapaz, de vagabundo.
    -        Porque acreditam que, mostrando preocupao com seus problemas, esto mostrando afeto. Para muitas pessoas, preocupar-se com o outro  demonstrao 
de apoio,  amor.
    - No sinto isso. Ao contrrio. Aumenta meu desconforto, porque, alm de carregar o peso dos meus problemas, sinto culpa por estar causando preocupao a pessoas 
da famlia. Minha me fica aflita, quer resolver por mim.
     - Cada pessoa  como , e voc no pode mudar isso. Deve aprender a se isolar dessas influncias.
     -        Como?
     -        No as levando a srio. Ouvindo sem dar importncia. As pessoas falam o que querem ou pensam, mas  voc quem vai ou no dar crdito ao que elas dizem. 
Nesses casos,  prudente interessar-se somente por coisas que levantem seu moral e o coloquem para cima. As pessoas podem dar o melhor conselho, mas, se este o deixar 
deprimido, recuse-o, jogue-o fora, esquea-o.
     -        Sem analisar?
     -        Experimente sentir. Nossa cabea est repleta de idias ilusrias, regras convencionais, que tm nos aprisionado em obrigaes que nos limitam e paralisam. 
J a alma no. Ela tem a sensibilidade espiritual natural que preserva nosso equilbrio e bem-estar. Se voc a seguir, encontrar o melhor caminho.  ela que sente 
e reage. Se prestar ateno, perceber que h coisas que abrem seu corao e o deixam de bem com a vida e h outras que provocam aperto dentro do peito e incomodam.
     -        J senti isso.
     -         assim que sua alma fala com voc. Se deseja sentir-se bem,  s seguir esses sinais, valorizando e conservando tudo que o faz sentir-se melhor e 
no dando importncia ao que o deprime.
     -        Parece simples, mas no e.
     -        O que dificulta  que nos habituamos a valorizar o racional em detrimento dos sentimentos. A idia de que somos maus, de que precisamos domar nossa 
fera interior e manter controle para no fazer muitas besteiras, generalizou-se. Voc teme que, se seguir os impulsos do seu corao, se liberar seus sentimentos, 
acabar fazendo coisas ruins.
     - Minha me dizia que " de pequeno que se torce o pepino", que desde cedo as crianas tm que obedecer s regras e se comportarem. A, ela contava histrias 
de meninos desobedientes que se tornavam maus, ningum gostava deles e acabavam como marginais. Eu no queria ser ruim. Eu queria que todos me admirassem.
     - Voc queria ser heri. Todos ns gostamos disso. Mas, para conquistar a admirao dos outros e sermos aceitos, entramos nas regras, sepultamos nossos sentimentos, 
enterramos nossos talentos e nos tornamos meros atores representando papis de convenincia. Isso cria infelicidade, aquele vazio no peito, a depresso, o tdio.
     - Estou to condicionado que, quando saio um pouco do habitual, torno a ouvir a voz de minha me repetindo frases que ela costumava dizer.
    -         isso que o impede de ouvir seus verdadeiros sentimentos, de abrir sua intuio e valorizar seu esprito. Faa de conta que voc perdeu o controle, 
que pode fazer tudo que quiser, sem censura. O que faria?
Roberto olhou assustado para o mdico:
- No sei. Senti at um arrepio de medo.
    -        Faa de conta que est livre de qualquer perigo.  apenas uma suposio. Voc  livre e pode fazer o que quiser. O que gostaria de fazer agora? Diga 
a primeira idia que lhe ocorreu.
Roberto riu e respondeu:
    -        Voc vai rir de mim. Mas eu vou falar. Eu gostaria de ir para o palco de um teatro cheio de gente e cantar a plenos pulmes.
Aurlio fez um gesto largo:
- Pois faa. Voc  livre, pode fazer tudo que quiser.
Roberto abanou a cabea:
- Seria ridculo. Onde j se viu?
    -        Seria voc, fazendo uma coisa que seu corao quer e que lhe daria muito prazer.
    -        Quando era criana eu gostava de cantar e sonhava que um dia seria um grande cantor, aplaudido, famoso. Um absurdo.
    -        Por qu? Talvez seja essa sua verdadeira vocao. Cantar  uma forma deliciosa de expressar sentimentos.
    -        No tem cabimento. Nem sei por que me lembrei disso.
    - Quem em sua famlia costumava dizer que cantar no  profisso?
    -        Meu pai dizia que s  digno o dinheiro que se ganha com muito trabalho e suor. Cantar para mim  um prazer. Logo no poderia ser uma coisa boa.
    -        Isso  mentira, voc sabe. H muitas pessoas que so inteligentes o bastante para fazer um trabalho interessante, de que gostam, e ganhar muito dinheiro 
com ele.
    -         mesmo. Os jogadores de futebol, os atores, os pintores.
    -        Alis, s os que trabalham em sua vocao, com prazer e capricho, obtm fama e sucesso profissional. Essa  a verdade. Se voc tivesse tentado ser um 
cantor, no sei se teria sucesso, mas pelo menos teria tentado, experimentado. Quantas vezes imaginamos que ser uma coisa ou outra nos traria felicidade, mas quando 
a obtemos descobrimos que estvamos enganados?
    -        Eu sei que tinha boa voz e que era afinado. Mas senti vergonha. No tive coragem para enfrentar esse risco.
     - Voc no ousou. Bloqueou o que sentia. Deixou de experimentar e saber aonde poderia chegar, por medo de errar, de fracassar e de enfrentar a critica dos Outros. 
S vaidade. Iluso. Medo de perder o sonho.
      verdade.
     - Quantas coisas ainda esto dentro de voc, bloqueadas impedindo seu crescimento e progresso? Pense nisso. Observe tambm que, quando se permitiu ser livre, 
no fez nada de ruim. Procurou a alegria e a arte.
     -        Cantar  para mim um grande prazer.
     -        Pois cante, seja onde for, ainda que seja apenas para voc. Deixe seu esprito se manifestar. Confie na vida. Sua alma  essncia divina e, quando 
tem liberdade de se expressar, faz s o bem. No reprima sua alegria, seja verdadeiro, seja apenas o que voc . Essa  a receita para ser aceito e respeitado pelos 
outros.
     -        Puxa! Estou me sentindo to bem!
     -        Isso mesmo. Voc est muito bem. Penso mesmo que podemos espaar nossos encontros. O que acha?
     - J? Tem sido to bom... Isto , acho at que estou abusando da sua bondade, todo esse tempo.
     -        Tenho aprendido muito com nossas conversas. Estamos trocando experincias. Voc vir apenas uma vez por semana.
     -        Ainda bem.
     Ambos riram e Roberto levantou-se. Sentia-se revigorado e alegre. Chegou em casa e encontrou Gabriela ensinando a lio para Guilherme. Vendo-o entrar, ela 
se levantou, dizendo:
     - Agora seu pai vai ensinar. Tenho que lavar a loua.
     - E Nicete? - perguntou Roberto.
     - Est cuidando da roupa. Voc demorou. Pelo menos veja se ajuda Guilherme com a matemtica.
     Roberto percebeu a irritao dela, mas no ligou. Nunca lhe contara que ia ao consultrio de Aurlio. No queria que ela soubesse que estava sendo tratado por 
um psiquiatra. O que ela iria pensar? Depois, as coisas estavam comeando a melhorar e ele tinha esperanas de logo poder ter dinheiro e colocar as contas em dia.
     Olhou-a lavando loua na pia da cozinha. Gabriela no era mulher para fazer esse tipo de trabalho. Era instruda e fina. Assim que a situao melhorasse, iria 
compensar todo o esforo dela naquele perodo. No a deixaria mais trabalhar, compraria boas roupas, jias e at um carro, s dela. Por que no? Ela tirara carta 
mas nunca dirigira. Quando ele tinha carro, nunca permitira que ela o usasse.
     Sentou-se ao lado do filho, que o esperava impaciente, com cara de sono, e com boa vontade procurou ajudar.
     Na manh seguinte, Gabriela acordou cedo, preocupada com o futuro. Sentada no nibus durante o trajeto para o escritrio, no conseguia pensar em outra coisa.
     Sentia-se cansada, no de trabalhar tanto, mas da situao de frustrao dos ltimos meses.
     Seu relacionamento com Roberto havia se tornado desagradvel, cansativo. Quando ele a tocava, no sentia prazer como antigamente.
     Dependendo do momento, era-lhe at penoso manter intimidade com ele. O que estaria acontecendo com ela? Havia se casado por amor e eles haviam desfrutado preciosos 
momentos juntos.
     Agora, quando perdia o sono, ouvindo-o ressonar a seu lado, sentia vontade de empurr-lo para fora da cama. Reconhecia que estava cansada, e talvez essa fosse 
a razo de sua irritao, mas a cada dia mais e mais se tornava difcil dissimular seus sentimentos
     Ele estava sofrendo, desempregado, humilhado Ela no podia tripudiar sobre a situao, deixando-o notar o que ia dentro de seu corao. No seria justo para 
com ele. Precisava controlar-se.
     Depois, havia as crianas. Elas precisavam de um lar onde houvesse um pai e uma me. No podia se deixar levar por um momento de cansao e de desnimo.
     Gabriela sacudiu a cabea como querendo expulsar os pensamentos desagradveis. Mas no podia deixar de perceber que seus sentimentos haviam mudado. A atrao 
por Roberto desaparecera. Havia apenas medo, insegurana, vontade de contemporizar para no magoar a famlia.
    "Isso vai passar!", reagiu ela, tentando sair daqueles pensamentos desagradveis. "Quando ele melhorar, tudo voltar ao normal."
    Mas, apesar da boa vontade, Gabriela no conseguia sentir-se melhor. L dentro, bem no fundo do seu corao, havia uma vontade louca de romper as cadeias que 
a estavam oprimindo e libertar-se.
    Ah! Poder viver sem preocupaes, como quando era solteira! Seria muito bom. Depois se arrependia, pensando nos filhos que tanto amava.
    "Deus pode castigar-me" pensava. "Sou muito feliz por ter os dois em minha vida."
    Assim, voltavam as preocupaes as dvidas e os medos. Gabriela entrou no escritrio e foi procurar um comprimido para dor de cabea. Tratou logo de mergulhar 
no trabalho. Talvez com isso pudesse esquecer.
     Renato chegou ao escritrio e Gabriela apanhou os contratos que ela refizera para que ele os examinasse e levou-os  sua sala.
     Bateu ligeiramente e entrou. Ele estava atrs da escrivaninha, apoiando a cabea entre as mos, pensativo.
     Gabriela notou que ele no estava bem, por isso disse:
     -        Desculpe, Dr. Renato. Volto depois.
     Ele meneou a cabea:
     -        No. Entre. Vamos trabalhar.
     -        O senhor parece preocupado.
     -        H momentos na vida em que as coisas se complicam e exigem mais de ns.  preciso pensar e tomar algumas decises.
     Gabriela suspirou pensando nos seus problemas:
     -        O que nem sempre  fcil. Mas, pelo que sei, a empresa vai muito bem. Novos contratos interessantes, crescimento, produtividade.
     -        No me referi  empresa. Essa felizmente est melhor do que eu.
     -        Desculpe. No desejei ser indiscreta.
     -        No foi. Voc tem filhos. Que idade eles tm?
     -        Guilherme sete e Maria do Carmo cinco.
     -        So pequenos. Ricardinho tem dez e est me dando trabalho. Foi suspenso no colgio e j prevejo que da prxima vez poder at ser expulso.
     -        Essa idade  difcil.  preciso conversar com ele, saber o que est acontecendo na escola. H crianas que fazem isso para chamar ateno, para conseguir 
afeto.
     -        No  o caso dele. Foi expulso de duas escolas e, ao contrrio, penso que ele tem afeto demais. A me faz-lhe todas as vontades, e isso est estragando 
o menino. Por mim, eu o colocaria em um colgio interno. Mas Gioconda no quer nem ouvir falar nisso.
     -        Talvez ela possa conversar com ele, faz-lo entender melhor as coisas.  o que tenho feito com Guilherme todas as vezes que ele tem algum problema 
na escola. Primeiro me informo direito, com outras pessoas, sobre como as coisas se passaram. Depois, converso com ele.
     - Isso  bom. Ricardinho mente mesmo. Nunca conta o que fez e por que est sendo castigado. Para ele, os professores so sempre os culpados.
     -        J verificou se isso  verdade?
     -        Claro que no. Os professores sabem o que esto fazendo. As crianas  que esto sempre querendo engan-los.
     - Desculpe, Dr. Renato, mas no penso assim. Ensinei meu filho a dizer a verdade, doa a quem doer, e, sempre que ele faz isso, eu o apio. Por isso, quando 
ele diz alguma coisa, procuro saber se ele tem razo. Apesar de achar que os professores precisam ser apoiados pelos pas, h alguns que no respeitam a criana 
humilhando-a diante dos colegas, valendo-se da sua Posio de superioridade hierrquica para imporse de forma injusta.  claro que isso desperta a revolta e a indisciplina. 
 uma maneira de reagir, dentro da sua situao de impotncia.
    Renato fitou-a admirado. Nunca lhe ocorrera que seu filho pudesse estar sendo injustiado.
    Quando acontecia qualquer coisa com ele, sempre tomava partido contrrio No o deixava falar e o condenava, castigando-o sem ouvir o que ele desejava dizer, 
por achar que procuraria engan-lo de todas as formas.
    No era isso o que todas as crianas faziam com os pais? No fora isso que ele fizera todo o tempo para escapar da disciplina rgida e autoritria com a qual 
fora educado?
    -        Educar filhos  uma arte. Gostaria de saber como fazer isso.
    - Eu tambm. Procuro conversar muito com eles, saber como pensam, do que gostam, interesso-me pelo que sentem e tento apoi-los. Acredito que isso seja importante 
para que eles aprendam a viver a prpria vida confiando em sua prpria fora. Tudo que eles podem fazer sozinhos, eu deixo.  uma forma boa deix-los experimentar 
e tornarem-se independentes. As crianas adoram participar, aprender a fazer coisas.
    - S se so os seus. Ricardinho est sempre fazendo o contrrio do que ns queremos e nunca quer fazer nada. Isso est comeando a me preocupar
    - Claro que as pessoas so diferentes e cada uma reage de um jeito, mas tenho observado que, de um modo geral, as crianas tm muita vontade de saber como fazer 
as coisas
    -        Minha mulher acha que eles so pequenos e nunca fazem nada certo. Prefere fazer ou mandar que os outros faam.
    No podendo experimentar, nunca vo aprender.
    -        H coisas que so perigosas Eles querem fazer o que no podem. Mexer na cozinha, por exemplo, no  aconselhvel.
    -        Depende. Se voc os ensinar, h muitas coisas que eles conseguiro fazer. Claro que isso d trabalho, requer acompanhamento e pacincia.
    - Voc trabalha o dia inteiro. No tem medo de que eles se machuquem quando no est em casa?
    - Por isso mesmo os ensinei como fazer e mostrei os perigos.  muito pior eles serem muito protegidos e no terem autonomia. Se acontecer algum acidente e ningum 
estiver junto, no sabero como resolver. Eles so ainda muito pequenos e no os deixo sozinhos. Nicete cuida deles desde que nasceram.
     - Nesse caso ela faz tudo para eles.
     - Tudo que eles ainda no conseguem fazer. Essa  a questo. At Maria do Carmo, que tem cinco anos, escolhe a roupa que quer vestir, toma banho sozinha, coloca 
seu prato na mesa, os talheres e ainda lava o copo sempre depois de tomar gua.
     -        Isso em minha casa seria impossvel. Gioconda vive vigiando para que eles tomem cuidado sempre que pegam um copo na mo. Diz que eles derrubam tudo.
     -        A presso deixa-os tensos. Eu mesma, em casa, nunca quebro nada. Parece mentira, mas quando vou  casa de minha sogra acontece de tudo. Derrubo caf, 
deixo cair o talher, esbarro nos bibels. Um horror. Sabe por qu?
     Ele balanou a cabea negativamente. Ela continuou:
     -        Porque ela no tira os olhos de mim, esperando que eu erre para me criticar. Para ela, nenhuma mulher  boa o suficiente para ser sua nora. Vai  minha 
casa na minha ausncia para ver se tudo est em ordem, do jeito que ela acha que deveria estar.
     - Voc se importa com ela?
     -        Nem um pouco. Por mim ela pode falar o que quiser. Mas evito ir  sua casa, porque sua postura me incomoda e irrita. Acabo sempre provocando alguma 
situao desagradvel, mesmo sem querer.
     - No deve ser fcil ter uma sogra dessas.
     - Por isso, Dr. Renato, penso no problema das crianas. Elas so inseguras, precisam do nosso apoio. Se, ao invs de faz-las acreditar em si mesmas e na prpria 
capacidade, ns as criticamos, dizendo a todo momento que elas ainda no tm condies de cuidarem de si mesmas, aumentaremos sua insegurana, tudo ficar mais difcil 
e elas acabaro sempre fazendo os erros que queremos evitar.
     - O que voc diz tem lgica. Gioconda tem medo de tudo.  pior do que sua sogra.
     - Desculpe, Dr. Renato. No quis dizer isso.
     - No quis, mas foi o que voc disse. Alis, comeo a pensar que pode estar certa. Gostaria que ela conversasse com voc. Talvez lhe pudesse ensinar alguma 
coisa.
     - Seria pretenso de minha parte. Nesse assunto todos estamos aprendendo.
     - Voc acha que Ricardinho tem jeito depois de tudo que ele j fez?
       - Quero crer que sim. Por que no experimenta conversar com ele, sem cobrar nada nem punir, para conhec-lo melhor?
       - Acha que no conheo meu Prprio filho?
       - Bem... no sei. Ns vemos as pessoas atravs da nossa ptica e elas gostam de parecer o que no so. Ns nos iludimos uns aos outros. Quando a verdade aparece, 
nos pega desprevenidos.  por isso que tenho procurado desde cedo me conhecer e conhecer melhor os meus filhos. Sentir como eles pensam, como olham a vida. Acredito 
que juntos poderemos nos ajudar mutuamente, eu fazendo com que eles acreditem que podem viver melhor e eles me ensinando como eu posso lidar com as minhas iluses, 
aprendendo a valorizar o que  verdadeiro.
       Renato fitou-a admirado. No se conteve:
       - Voc  uma mulher maravilhosa!
       Ela Corou e desviou o olhar, tentando ignorar a emoo dele.
       - Sou apenas uma me interessada em criar bem seus filhos. Tenho certeza de que D. Gioconda vai encontrar o jeito certo de ajudar Ricardinho a perceber que 
no precisa chamar a ateno sobre si dessa forma para ser ouvido.
       - Vou pensar no que voc me disse. Talvez ainda possamos dar um jeito nele.
       - Fao votos.
       - Obrigado, Gabriela. Suas palavras me fizeram muito bem. Quando entrou aqui, eu estava em um beco sem sada, num final de linha que no levava a nenhuma 
soluo. Agora me sinto aliviado. Gostaria de conversar mais. Voc tem uma forma de pensar diferente das outras pessoas.
       Ela no respondeu de imediato Depois de alguns segundos, estendeu os papis, dizendo:
       - Gostaria que verificasse esses contratos e os assinasse.
       Ele assentiu Ela saiu da sala pensando em como tudo ficava fcil quando se conversava com uma pessoa inteligente e culta como Renato. Vrias vezes havia conversado 
com Roberto para faz-lo entender sua forma diferente de educar os filhos. Ele era de boa ndole e fazia tudo como ela pedia, mas ela percebia que pensava diferente. 
As vezes pretendia educar as crianas da forma repressiva sob a qual fora educado.
       Ela tinha horror  maneira fingida com que D. Georgina falava com o filho, sempre COmo uma me amorosa, mas atrs dessa atitude havia a cobrana constante 
a manipulao
       Quando Gabriela chamava a ateno do marido para esse lado, ele dava de ombros e respondia:
    - Coitada. Deixe-a para l. Sempre foi assim. No preciso fazer o que ela diz, mas tambm no quero entristec-la. Sempre to dedicada!
    Com o tempo, evitava falar nela com Roberto, que reclamava por Gabriela se esquivar de ir visitar a sogra, ao que ela respondia:
    - Ns no combinamos mesmo.  ela no sente nenhum prazer em me ver. No Natal e no aniversrio dela sempre compareo.  suficiente.
    Ele sabia que quando ela falava no adiantava insistir. Foi assim que ela conseguiu paz em sua vida conjugal. E no estava disposta a transigir.
    Ele no insistia. Reconhecia que sua me se excedia. Claro que era por amor, por querer que tudo andasse melhor com ele e sua famlia.

Captulo 7

    Renato saiu da empresa no fim da tarde e foi direto para casa. As palavras de Gabriela no lhe saam do pensamento. Ele sempre se julgara um bom pai, cumpridor 
dos seus deveres.
    Afinal, era  me que competia educar os filhos. A parte dele era a de sustentar a famlia, e isso ele sempre fizera muito bem, proporcionando conforto e bem-estar 
aos seus.
    Se seus filhos no estavam sendo educados como deveriam, a responsabilidade era de Gioconda. Ela no estava fazendo bem sua parte. Se fosse uma mulher como Gabriela, 
tudo estaria em ordem.
    Suspirou resignado. As vezes se perguntava por que havia se casado com ela. Era bonita, exuberante, alegre. Isso o atrara. Mas mudara depois do casamento. Transformara-se 
em uma mulher lamentosa, as coisas mais simples com ela se complicavam. Era muito sensvel. A menor contrariedade era motivo para deix-la abalada.
    A convivncia que de incio fora agradvel tornara-se aborrecida e cansativa. Apesar disso, as palavras de Gabriela haviam-no impressionado e ele resolveu ter 
uma conversa com Gioconda e descobrir como ela via a questo.
    Ao entrar, perguntou por ela e soube que estava deitada. Isso no era novidade. Sempre que o filho criava algum problema, ela ficava deprimida e ia para a cama.
    Resignado, Renato subiu at o quarto, entreabriu a porta e aproximou-se da cama.
    - Gioconda! Levante-se, quero conversar com voc.
    Ela se remexeu, abriu os olhos e respondeu em voz lamentosa:
    - O que voc quer? Estou com uma tremenda dor de cabea.
    - Faa um esforo. O assunto  importante.
    Ela se sentou na cama, dizendo:
    - Aconteceu mais alguma coisa? Uma desgraa nunca vem s. O que foi? Voc nunca vem to cedo para casa!
    - Acalme-se. No aconteceu nada. Est tudo bem.
    - Nesse caso, por que tenho que levantar?
    - Por que no gosto de conversar com uma pessoa que est derrotada antes de tentar resolver o assunto.
    Ela olhou nervosa para ele e retrucou:
     -        O que voc acha que estou sentindo ao ver meu filho novamente suspenso na escola? O que ser que eu fiz para passar por isso? Onde foi que eu errei?
     Renato respirou fundo antes de responder. A atitude dela o irritava. Sentia vontade de gritar.
     Controlou-se. Foi com voz baixa que tornou:
     -        Onde voc errou  o que estou querendo descobrir.
     - Voc tambm me acusa? J no basta minha prpria condenao?
     -        Onde est Ricardinho?
     -        No quarto. O que vai fazer? J lhe dei corretivo. No precisa dizer nada. O que tinha que ser feito, eu j fiz.
     -        Posso saber o que voc fez? J foi  escola saber como as coisas aconteceram?
     - Como assim? Eu j sei. A diretora me telefonou e contou tudo.
     -        O que foi que ela contou?
     - No adianta repetir. No leva a nada ficar repisando este assunto.  melhor esquecer. J disse a ele como essa sua maneira de agir est acabando comigo. Ele 
sabe que  o responsvel pelo meu mal-estar.
     Renato fitou-a surpreendido. Era assim que ela agia? Fazendo chantagem emocional? Olhou srio para ela e pediu:
     -        Quero saber o que a diretora contou que ele fez.
     -        Bem... ela disse que ele desacatou a professora de matemtica. Foi malcriado com ela e no quis deixar a sala de aula quando ela o mandou sair.
     -        E ele, o que disse?
     - Como, o que ele disse?
     -        Ele contou por que fez isso?
     - Ele quis se justificar. Mas nem ouvi. Onde j se viu? Ele tem que obedecer aos professores. No pode ser malcriado. Afinal, o que vo dizer de mim? Que eu 
no soube ensin-lo a respeitar os mais velhos?
     -        Est preocupada com o que vo dizer de voc? Pensei que estivesse interessada em saber o que realmente aconteceu l.
     -        O que aconteceu eu j sei, infelizmente. A diretora foi categrica. Ou ele pede desculpas  professora ou ela dobra a suspenso. Pelo jeito, ela quer 
mesmo  expuls-lo. Acho at que  perseguio.
     - Oua, Gioconda: no  perseguio, no. Ricardinho  mesmo muito malcriado. Deve ter realmente desacatado a professora. Mas precisamos saber como foi que 
isso ocorreu.
     -        No estou entendendo voc. A diretora j disse como foi.
     -        Tem certeza de que as coisas aconteceram como ela contou?
       - Claro. Ela no ia mentir. E a diretora de uma escola.
    -        . O mais provvel  que ela no tenha mentido mesmo. Mas vou falar com Ricardinho, ouvir o que ele tem a dizer.
    -        Claro que ele vai mentir, se defender.
    - Mesmo assim vou falar com ele.
    Ela olhou para o marido admirada, mas deu de ombros e disse:
    -  intil. Mas cuidado: j o repreendi bastante por hoje. Chega de castigo. Sabe como , pode traumatiz-lo.
    Renato saiu sem responder. Encontrou a criada com uma bandeja no corredor.
    -        O que  isso, Maria?
    - A bandeja do quarto de Ricardinho.
    - Ele jantou?
    -        E como. Tem um apetite invejvel! Quis at mais sorvete de chocolate.
    -        Ele estava triste?
    -        Que nada, Dr. Renato. Estava ouvindo msica, cantarolando e montando aquele quebra-cabeas grande do avio que D. Gioconda lhe deu ontem.
    Renato entrou no quarto do filho. Era evidente que ele no ficara nem um pouco abalado com a "reprimenda" da me. Assim que o viu entrar, desligou o rdio e 
abaixou a cabea.
    -        Ricardinho, temos que conversar.
    O menino levantou a cabea, dizendo em tom lamentoso:
    -        J sei, pai. Fui suspenso e a mame est muito doente. Mas no foi culpa minha.
    Renato sentiu uma impresso desagradvel. O menino estava usando o mesmo tom lamentoso da me. Sabia que era falso. Ele estava bem-disposto, alegre, com bom 
apetite. Por que mudara diante dele?
    Preocupado, aproximou-se do filho, colocou as mos em seus ombros e olhando diretamente em seus olhos disse com voz firme:
    -        Voc no est triste com o que aconteceu. Est fingindo. Para que isso? Acha que vou castig-lo?
    Apanhado de surpresa, Ricardinho no encontrou palavras para responder. Renato continuou:
    -        Sua me  uma pessoa frgil, se aborrece com tudo. Voc acha bom ficar igual a ela?
    -        No sei, pai... - murmurou ele, tentando descobrir aonde o pai queria chegar.
    - Voc  um homem! Tem que ser forte. Logo ter que enfrentar a vida l fora, e as pessoas no vo trat-lo com delicadeza. Quer tornar-se um fraco?
     -        No, pai. Eu no sou fraco. Nunca levo desaforo para casa.
     -        Depende. Nem sempre reagir brigando  ser forte. As vezes  preciso mais fora para ser paciente do que para brigar.
     -        No acho, no. L na escola, se eu no peitar os caras, eles me ignoram. Tenho que ser respeitado.
     -        Foi por isso que desacatou a professora de matemtica?
     Ricardinho baixou a cabea sem saber como responder. Seu pai nunca se interessara em conversar com ele sobre esses assuntos. Aquilo bem poderia ser uma armadilha 
para castig-Lo mais.
     -        Responda, meu filho. Foi por isso? Para fazer bonito diante dos colegas?
     O        menino remexeu-se e no respondeu. Renato continuou:
     -        A diretora contou uma histria  sua me e o suspendeu. Antes de acreditar no que ela disse, eu gostaria de ouvir a verdade de voc. Como foi que aconteceu?
     -        No quero falar nisso, pai. A me j me repreendeu. Eu prometo no fazer mais.
     -        No  a primeira vez que voc promete. Nunca cumpriu essas promessas. A histria se repete. Gostaria que soubesse de uma coisa. Estou procurando saber 
a verdade. Sem isso no poderei formar uma opinio sobre o assunto.  a palavra dela contra a sua. Gostaria muito de poder acreditar em voc. Fao mais: seja o que 
for que voc tenha feito errado, prometo n o castigar se me disser a verdade.
     -        Ih, pai... No vai dar certo!
     - Vai, sim. Voc  meu filho. Eu preciso saber como voc pensa. Quero sentir de perto quais os problemas e dificuldades que tem encontrado na escola. No para 
castig-lo, mas para ajud-lo. Como posso ser seu amigo se voc no me conta a verdade? Voc seria amigo de algum assim?
     Ricardinho suspirou e olhou meio acanhado para o pai.
     - Voc nunca disse isso antes.
     - Mas estou dizendo agora. Quero que de hoje em diante voc me diga a verdade, sem medo.
     Sou seu pai. Sempre farei tudo para apoi-lo.
     - Sabe o que , pai? A D. Mercedes no gosta de repetir a explicao. Ela deu um ponto e eu disse a ela que no tinha entendido. Mas ela ficou zangada e disse 
que, se eu era burro, no era culpa dela, que no ia repetir. Ento eu disse que burra era ela que no sabia dar a aula. Ento ela me mandou para fora da classe, 
e eu no fui. A ela chamou a diretora, e pronto. Foi assim.
    Renato fez cara sria para esconder o riso. Sentiu vontade de dizer que ele tinha feito muito bem. Mas conteve-se. Vendo que o pai no dizia nada, o menino perguntou:
    -        Voc acha que fui errado, que faltei com o respeito  professora. Mame ficou doente por minha causa. Sei que fui errado, mas, pai, ela estava com uma 
cara to posuda! S porque ela  grande e  professora, achava que podia me xingar na frente dos colegas. No agentei isso!
    -        Pelo jeito voc no est nem um pouco arrependido.
    - Estou s por ver a me nervosa.
    -        Sei que voc no queria mago-la. Obrigado por ter contado a verdade. Gostaria que fosse sempre assim. Amanh mesmo irei  sua escola ter uma conversa 
com essa diretora.
    -        O que vai fazer l?
    -        Dizer que meu filho est na escola para aprender e no para ser chamado de burro.
    -        Xi, pai... Vai dar um bode! A que ela pode me expulsar mesmo. Vai dizer que menti.
    -        Voc mentiu para mim?
    -        No, pai. Falei tudo como foi. Meus amigos viram, podem confirmar. Mas na escola nunca o aluno tem razo.  costume.
    -        Pois desta vez vai ser diferente. Se eles no entenderem, eu tiro voc dessa escola. Tenho certeza de que encontraremos outra melhor, onde os professores 
realmente respeitem os alunos.
    H muitas delas por a.
    Ricardinho deu um pulo e seus olhos brilhavam alegres quando respondeu:
    -        Puxa, pai! Voc vai fazer isso mesmo?
    -        Vou. Voc deve respeitar os outros, mas precisa ser respeitado tambm.
    Ricardinho abraou o pai. Em seus olhos havia o brilho de uma lgrima quando disse:
    -        Voc  o melhor pai do mundo!
    -        E voc  o melhor filho do mundo. Agora j sabe: entre ns no h segredos. Fale a verdade, mesmo que tenha feito alguma coisa errada. Converse comigo.
    Renato saiu do quarto sentindo-se emocionado e alegre. Ricardinho era um menino diferente do que falavam. Dali em diante, iria se aproximar mais dele para ajud-lo 
a enxergar a vida de maneira melhor.
    O problema maior era Gioconda. Se ele a deixasse continuar a educar o filho, Ricardinho acabaria por copiar-lhe as atitudes. H muito ele desconfiava que ela 
se fazia de doente e fraca para manipular todo mundo, principalmente ele.
     Essa fora a atitude do menino quando entrou no quarto. Estava alegre e no fundo muito satisfeito por haver respondido a ofensa  altura. Com certeza todos os 
colegas o tinham apoiado e elogiado. Ele estava de bem com a prpria conscincia.
     Pela primeira vez Renato comeou a pensar nos abusos dos adultos para com as crianas.
     Recordou-se de todas as injustias que sofrera na escola, com os pais. Ele nunca tinha razo.
     Era verdade que abusava e muitas vezes se divertia perturbando os outros. No seriam essas atitudes uma forma de reao, uma desforra diante da prpria impotncia 
frente s injustias que sofria?
     Gabriela tinha razo. Que mulher! Se ela fosse sua esposa, certamente tudo teria sido diferente. Alm de tudo, ela era muito atraente. Quando se aproximava, 
Renato sentia um calor agradvel. Ela tinha um perfume suave que o eletrizava.
     Pena que eles eram comprometidos. Ela tambm no parecia muito feliz com o marido.
     Apesar disso, ele se continha. No se sentia disposto a misturar afeto com trabalho. Sabia que isso nunca dava certo.
     Lamentar no adiantava. Era resistir e manter apenas amizade. Ela, alm de estar se mostrando muito competente no trabalho, ainda tinha uma viso clara da vida. 
Sua presena fazia-lhe muito bem. Ia melhorar ainda mais seu salrio. Sentia-se grato pela ajuda que ela lhe estava dando.
     No dia seguinte, assim que chegou ao escritrio, Gabriela levou-lhe alguns papis para assinar.
     Obrigado - disse ele, olhando-a com satisfao. Vendo que ela ia retirar-se, continuou: - Ontem segui seu conselho e conversei com Ricardinho. O resultado foi 
surpreendente.
     - O que descobriu?
     - Que foi bom ter me aproximado dele para ouvi-lo. E que o que ele fez no havia sido to srio como diziam. Ele reagiu como qualquer pessoa ofendida teria 
reagido quando  desrespeitada.
     Vendo que Gabriela o ouvia com interesse, contou-lhe toda a conversa que tivera com o filho. E finalizou:
     - Fez-me pensar em como as crianas sofrem a presso dos adultos, sentem-se impotentes e reagem para se defender, algumas tornando-se tmidas e fracas, outras 
rebeldes e provocadoras.
     Isso ficou muito claro para mim. Para ser franco, acho que nisso elas levam vantagens.
     Conseguem infernizar a vida familiar.
       -  por isso que procuro conversar com meus filhos. Faz-los sentir que os apio. Desejo que eles se sintam seguros do meu lado e que confiem no meu amor 
mais do que nos amigos.
    Renato pensava em Gioconda e no se conteve:
       - Isso nunca acontecer com Gioconda. Ela est mais preocupada com o prprio desempenho como me, com que os outros vo dizer dos filhos dela, do que com 
os sentimentos de Ricardinho. Ele percebe o quanto ela  fraca, e ento prefere confiar nos companheiros.
    -        Converse com Gioconda. Tenho certeza de que ela deseja fazer o melhor.
    Renato no conteve um gesto de desnimo ao responder:
    -        Acho difcil. Por qualquer contratempo se deprime, debulha-se em lgrimas, vai para a cama.
    Vendo que Gabriela se mantinha discreta, ele continuou:
    -        Desculpe, no deveria estar falando de Gioconda dessa forma.  que s vezes a fragilidade dela me preocupa. Gostaria que ela fosse mais forte. No me 
agrada v-la sofrer.
    Gabriela pensou em Roberto e respondeu:
    -        As vezes desejamos dar um empurrozinho nas pessoas que amamos, mas descobri que no adianta. Elas s andam quando querem.
    Renato olhou para Gabriela, tentando descobrir o que ela desejava dizer. E pensou: como seria seu relacionamento com o marido desempregado? Talvez estivesse 
to deprimido quanto Gioconda. Mas, pelo menos, ele tinha um motivo, enquanto ela, no.
    -        Seu marido ainda no arrumou emprego?
    -        No. Tem sado, procurado. Mas agora parece que est reagindo um pouco. Vejo-o mais animado.
    -        Com uma mulher como voc do lado, ele vai subir na vida com toda a certeza.
    Ela corou um pouco. Talvez Roberto no pensasse assim. Tambm, com Georgina por perto!
    -        Por que diz isso? - perguntou ela.
    - Porque voc trabalha,  esforada e tem a cabea boa. Muitos homens gostariam de estar no lugar dele.
    - Roberto pensa o contrrio. Gosta de mulher que seja dona de casa, fique com os filhos.
    Nunca gostou que eu trabalhasse. Quando estava bem de vida, brigava comigo para que eu deixasse de trabalhar.
    -        Foi bom no ter conseguido.
    -        Foi. Agora, se no estivesse trabalhando, nem sei o que seria de nossa famlia. Mas  minha sogra que pe essas idias na cabea dele.
    Ela odeia que eu trabalhe fora. Insinua que lugar da mulher  em casa, com os filhos.
     -        Ele escuta.
     -        No s escuta como concorda. Tem cime. Pensa que posso arranjar outro.
     -        Porque voc  muito atraente. Nesse ponto ele tem razo.
     -        O senhor tambm, Dr. Renato? Sempre me pareceu um homem moderno, de idias largas.
     -        E sou. Entendo que prefira trabalhar fora, ser independente, mesmo porque eu mesmo nunca suportaria viver fechado dentro de casa. Essa  uma forte 
razo para que eu nunca queira exigir isso de minha mulher. Gostaria muito que ela fosse assim como voc, arranjasse alguma coisa para fazer. Fica em casa s se 
queixando.
     -        Eu no teria essa pacincia. Gosto de sair, fazer coisas, ver pessoas, conversar. Preciso disso para me sentir viva. Ele no entende isso.
     Renato suspirou ao dizer:
     -        Por que ser que s percebemos essas coisas depois de anos de casamento?
     -        No sei. Mas apesar de tudo no vou deixar o emprego, mesmo que ele ganhe dinheiro novamente.
     -        Ainda bem! - Vendo que ela o fitava um pouco surpreendida, ele consertou:
     - No quero perder uma boa funcionria. Ainda mais agora que voc est indo muito bem na nova funo.
     Quando ela saiu, ele continuou pensativo. Compreendia o cime de Roberto. Ela tinha muita vida. Quando falava de seus sentimentos, seus olhos brilhavam, sua 
boca tinha um ricto voluptuoso, e ele sentia uma vontade imensa de beij-la. Controlava-se, porm.
     Estava decidido a no misturar trabalho com outro tipo de relao. No que ele no tivesse tido algumas aventuras depois do casamento. Como suportar a convivncia 
com Gioconda sem isso?
     Sua mulher h muito tempo perdeu o prazer da aventura, do mistrio. Ele precisava disso para sentir-se bem. O problema era que ele logo se desinteressava, e 
elas, ao contrrio, desejavam continuar.
     No acreditava que o amassem. Descartava-se delas friamente. Tinha certeza de que estavam insistindo por causa de seu dinheiro e de sua posio.
     Por vezes sentia-se triste. Gostaria de ter uma companheira com quem pudesse conversar mais intimamente, o que nunca seria possvel com Gioconda.
     Era incrvel como depois de tantos anos de vida em comum ela ainda no o conhecia.
     Percebia claramente que, para ela, ele era apenas o marido, cujos deveres e obrigaes ela cobrava insistentemente sem tentar descobrir o que ele pensava ou 
sentia.
    Com o tempo, ao invs da companheira para compartilhar sua vida, ele via nela mais uma filha, fraca, dependente, incapaz. Sentir isso o deixava muito angustiado, 
frustrado mesmo. At a atrao que sentira por ela nos primeiros tempos havia desaparecido. E, quanto mais ele espaava seu relacionamento ntimo, mais ela se entregava 
 depresso e  dependncia.
    Suspirou resignado. Apesar de tudo, ele no pensava em separar-se dela. Quanto mais fraca ela se mostrava, mais ele sentia que precisava assumir a educao dos 
filhos. Ainda mais depois que se aproximara de Ricardinho e percebera que ele precisava de ajuda e de disciplina.
    Um cliente ligou e Renato atendeu. Ele estava com uma dvida a respeito do contrato que lhe fora enviado e queria maiores esclarecimentos. Tentou esclarecer, 
mas como o assunto era complexo, resolveu:
    -        No se preocupe, Dr. D'Angelo. Uma pessoa ir agora mesmo ao seu escritrio para explicar-lhe tudo detalhadamente.
    -        Obrigado. Estarei esperando.
    Renato desligou e chamou Gabriela, dizendo:
    -        Preciso que voc v at o escritrio do Dr. D'Angelo explicar-lhe os detalhes daquele contrato. Ele no est entendendo a mudana que fizemos.
    -        Agora?
    - Sim. Nosso motorista ir lev-la. Trate de convenc-lo a assinar.
    Ela hesitou:
    -  muita responsabilidade. Tem certeza de que poderei fazer isso?
    -        Tenho. Alis, essas mudanas foi voc quem sugeriu. Est mais credenciada a explicar do que eu.
    -        Est bem.
    -        Se tiver qualquer dificuldade, teLefone. Estou esperando uma ligao importante e no posso me ausentar. Leve os documentos aqui.
    Entregou-lhe uma pasta de couro. Gabriela colocou dentro tudo de que precisava. Deu uma vista de olhos em sua aparncia. Quando desceu, o motorista j estava 
com o carro na porta esperando.
    Ela se sentou atrs, deu a direo. No aconchego do banco macio do carro de luxo, Gabriela sentia-se muito bem. Seu trabalho estava sendo valorizado. Aquela 
era uma oportunidade que ela no podia perder.
    Sentia prazer em saber que estava progredindo e seguia imaginando como deveria abordar o assunto com o cliente. Aquele trabalho era feito sempre pelo prprio 
Dr. Renato. Era a primeira vez que ele mandava outra pessoa. Faria tudo para justificar sua confiana e voltar com aquele contrato assinado.
     Roberto sorriu com satisfao ao receber os quinhentos reais de comisso da venda do material que fizera para aquele engenheiro. Finalmente ele estava novamente 
ganhando dinheiro.
     Sentia que podia fazer isso e que dali para a frente seria apenas uma questo de tempo. No procuraria mais emprego. Trabalharia por conta prpria, como sempre 
havia feito.
     Como era bom ganhar seu prprio dinheiro, no depender mais de outros para as prprias despesas! Da me, ele no tinha vergonha; j de Gabriela, sentia-se humilhado 
cada vez que ela pagava uma conta ou lhe dava dinheiro para a conduo.
     Passava das duas, e ele ainda no havia almoado. Levantara cedo e visitara alguns prdios em construo, deixando seu telefone, propondo-se a encontrar material 
bom e barato.
     Tinha alguns negcios em vista, mas, antes de ir batalhar pelos preos, resolveu comer um lanche. Havia muito tempo no fazia isso. Entrou em uma lanchonete, 
sentou-se e escolheu um sanduche e um refrigerante. Enquanto esperava, sentia-se alegre, bem-disposto. Foi com prazer que comeu tudo. Comprou um chocolate para 
sobremesa. H quanto tempo no comia um?
     Pensou nos filhos. Mesmo quando tinha dinheiro, nunca levara chocolate para eles. Era Gabriela quem comprava tudo. Mas agora, depois do que passara, tudo lhe 
parecia diferente.
     Queria que as crianas compartilhassem sua alegria, que sentissem que ele estava reassumindo seu lugar no comando da famlia. Levaria chocolates para casa.
     Saiu da lanchonete alegre. Tinha de visitar um depsito de materiais cujo dono era seu conhecido de longa data. L talvez encontrasse o que precisava.
     Tomou um nibus, sentando-se prximo  janela. A certa altura, o veculo parou em um farol e foi a que ele estremeceu de susto: em um carro de luxo parado 
do lado de sua janela, estava Gabriela.
     Desta vez pde ver muito bem. Era ela mesma, com um vestido seu conhecido e aquela postura que ele to bem conhecia: elegante, desafiadora, que a fazia parecer 
uma grande dama.
     Quem estaria com ela? Esforou-se para enxergar, mas o sinal abriu e o carro arrancou, e ele no viu porque logo outros carros avanaram cobrindo sua viso.
    Roberto, que se levantara pensando j em descer para abordar o carro, deixou-se cair no assento novamente, enquanto uma onda de violento cime o atormentou.
    Desta vez ele vira bem. No havia possibilidade de erro. Por que ficara paralisado, no descera para ver de perto quem era o homem que a acompanhava?
    Um carro de luxo como aquele, com motorista, s podia ser de um homem muito rico. Ela se cansara de viver aquela vida miservel que ele lhe oferecia e buscara 
outro caminho.
    Talvez estivesse at pensando em deix-lo para ficar com o outro. Roberto suava frio, sentia-se atordoado. Esqueceu completamente o que estava fazendo ali. Foi 
at o ponto final da linha e o cobrador cutucou-lhe de leve com o picotador, dizendo:
    - Ponto final, moo!
    - O qu?
    -  final. Vai descer?
    - No. Vou voltar. Eu me distra e passei do ponto. Ficou longe.
    O homem deu de ombros e desceu. Roberto ficou ali, perdido em seus pensamentos. A realidade era dura, mas ele tinha de enfrent-la!
    Apesar de julgar-se trado, no queria que ela o deixasse. No saberia viver sem ela. Depois, havia os filhos. Se ela ficasse com outro, ele no poderia permitir 
que as crianas fossem junto. Isso no. No suportaria ver toda a sua famlia vivendo com outra pessoa. Ele nunca permitiria isso. Se ela quisesse separar-se, ele 
no aceitaria.
    Sua alegria de momentos antes foi substituda pela tristeza, pela depresso. Bem que sua me o avisara que no deixasse Gabriela trabalhar fora.
    O lugar da mulher era em casa, com os filhos. Por que ele fora to fraco a ponto de concordar com ela? Angustiado, pensava que, se tivesse bastante dinheiro, 
poderia exigir que ela deixasse o emprego.
    Mas, apesar de estar recomeando, o que ele podia oferecer naquele momento? Nada. Nem tinha ainda como pagar todas as despesas da casa.
    Desceu do nibus e foi andando. Estava longe de casa mas no tomou outra conduo.
    Precisava pensar no que fazer quando chegasse em casa. Nem se lembrou de comprar os chocolates para as crianas. Sentia um gosto amargo na boca, o peito oprimido, 
a cabea zonza.
    Atendida pelo cliente, Gabriela apresentou-se com sobriedade e firmeza. Apesar de nervosa, soube controlar-se muito bem. Agiu de tal forma que no s tirou todas 
as dvidas do cliente mas tambm conseguiu que ele assinasse o contrato.
     Foi com alegria cantando no corao que Gabriela voltou ao escritrio. Tinha sido sua primeira vitria, e ela sentia o prazer da realizao. Fora ela quem sugerira 
aquelas mudanas e conseguira a aprovao do cliente.
     Estava corada, seus olhos brilhavam de alegria quando entrou na sala de Renato, com a pasta de couro nas mos.
     - E ento? - indagou ele.
     - Consegui. O contrato est aqui, assinado.
     - Parabns. Eu perguntei, mas j sabia. O Dr. D'Angelo ligou-me logo que voc saiu de l.
     Estava muito satisfeito. Fez questo de dizer que voc, sim, soube esclarecer, enquanto eu no. Cumprimentou-me por ter uma funcionria to eficiente.
     Gabriela corou de prazer. Renato prosseguiu:
     - Como no pensei nisso antes? De hoje em diante voc ir em meu lugar visitar os clientes mais importantes.
     - Obrigada. Eu estava nervosa, mas consegui me controlar. Fechar um negcio desses  emocionante. Quando ele concordou e assinou, senti um friozinho na barriga!
     Renato riu com satisfao.
     - Voc agora foi contaminada com o vrus do sucesso. Vai querer mais. Se continuar assim, vai melhorar a cada dia. Para cada contrato que voc redigir, estudar 
e conseguir a assinatura do cliente, vou dar-lhe uma comisso de dois por cento.
     Gabriela no se conteve:
     - Do valor do contrato?
     Claro.
     Ela respirou fundo. Eram contratos vultosos, e dois por cento representavam muito dinheiro.
     - No acha muito?
     - No. A empresa tem bom lucro, e acho justo que voc receba essa quota.
     - Puxa, Dr. Renato! No sei o que dizer!
     - No precisa. Trata-se de um negcio rendoso para a empresa. E voc o est desempenhando muito bem.
     Gabriela saiu da sala feliz. Foi para sua mesa e fez a conta na calculadora. S com aquele contrato, iria receber duas vezes mais do que ganhava pelo ms inteiro.
     Pensou em Roberto e sentiu um aperto no peito. Ele iria sentir-se mais humilhado. Por que tinha de ser assim? Por que ele no entendia que essa fase em que 
ela ganhava dinheiro, e ele no, era temporria?
    Gabriela estava feliz e resolveu no pensar mais nisso. A vida agora se abria a novas perspectivas e ela se sentia muito capaz. No tinha culpa por ele pensar 
daquela forma e no podia se limitar s porque ele se sentia inferiorizado.
    No era esse o ponto que a preocupava. Gostaria que ele entendesse seu esforo em prol do bem-estar da famlia e tratasse por sua vez de reconhecer isso e de 
acreditar mais na prpria capacidade.
    Apesar da diferena de instruo, ela sempre admirara no marido sua capacidade de abrir caminho na vida, de subir pelo prprio esforo. Agora que ele estava 
se revelando um fraco, ela sentia que essa admirao estava indo embora.
    Esforava-se para continuar admirando-o, porm cada vez que ele se colocava na postura de vtima, se queixava, dava ouvidos  conversa da me, ela sentia morrer 
um pouco em seu corao o amor que sentia por ele.
    Tentava reagir, repetindo para si mesma que aquela atitude dele era temporria, que ele logo reagiria e voltaria a ser como antes. Mas isso no acontecia e ela 
angustiada tentava ignorar os prprios sentimentos e continuar seu papel de esposa dedicada e amorosa.
    Chegou em casa eufrica com a vitria alcanada. Queria contar ao marido, mesmo com medo de que seu sucesso o incomodasse ainda mais. Era franca. No gostava 
de situaes dbias.
    Ao entrar na sala, notou Logo que ele no estava bem. Estava sentado no sof lendo o jornal e respondeu ao seu cumprimento sem levantar os olhos da leitura.
    Resignada, Gabriela foi para o quarto, deixou a bolsa, trocou-se e tratou de ver o que havia para o jantar. Vendo Nicete, perguntou baixinho:
    - Roberto est com uma cara... Sabe se aconteceu alguma coisa com ele?
    - No. Ele chegou da rua assim. Mal falou comigo, e nem ligou para as crianas.
    - Vai ver que no arranjou nada hoje. Vamos servir logo o jantar.
    Sentados  mesa, Gabriela decidiu tocar no assunto. Assegurar que ia entrar mais dinheiro em casa era uma boa notcia. Comeou:
    - Consegui uma promoo no trabalho.
    Roberto sobressaltou-se:
    - De novo?
    - Sim. Consegui que um grande contrato fosse assinado e o Dr. Renato disse que, a cada contrato que eu obtiver a aprovao, terei uma comisso de dois por cento. 
S no de hoje, vou ganhar dois meses de salrio. Sem falar nos que ainda poderei conseguir.
     Roberto sentiu o sangue subir e fez grande esforo para se controlar. Era essa a desculpa que ela usaria para explicar o dinheiro sujo que estava conseguindo 
com o amante? Conseguiu dizer com voz irritada:
     - Preferia que voc no fizesse esse trabalho. Hoje consegui algum dinheiro. Estou trabalhando. Dentro de pouco tempo voc nem vai precisar trabalhar mais.
     - Voc sabe que eu gosto do meu emprego e no pretendo abandon-lo. Principalmente agora que estou progredindo, descobrindo que posso subir na vida.
     Roberto levantou-se da mesa dizendo nervoso:
     - Voc deseja subir na vida e eu estou muito para baixo. Com o tempo, tenho certeza de que poderei dar-lhe tudo que quiser. O que pretende? Jias, carro de 
luxo, dinheiro, posio?
     Gabriela olhou para ele desanimada. Era intil tentar conversar. Ele tinha o dom de jogar um balde de gua fria em seu entsiasmo.
     - Acho melhor sentar-se e terminar o jantar. No vamos voltar a esse assunto, seno acabaremos brigando. Hoje no tenho vontade de discutir. Vamos parar por 
aqui.
     Ele procurou se acalmar e sentou-se novamente. Mas estava sem apetite. Disse apenas:
     - Estou sem fome.
     - Arranjou emprego?
     - No. Mas encontrei uma maneira de trabalhar por conta prpria. Hoje recebi algum dinheiro.
     - Nesse caso, deveria estar contente. No entendo voc. Finalmente encontrou uma soluo, mas parece que no foi o bastante para tir-lo da depresso.
     Ele olhou com tristeza para ela e disse com voz dorida:
     - No quero perder voc, Gabriela. Mas a cada dia sinto que est se distanciando mais de mim.
     - Seria melhor que me compreendesse, que me apoiasse. Tenho procurado fazer isso com voc desde que nos casamos. Mas voc quer que eu seja o que no sou. No 
respeita minha forma de pensar, quer que eu me limite e fique em casa mesmo sabendo que eu gosto de trabalhar, de aprender coisas, de descobrir que tenho capacidade.
     Roberto afundou a cabea entre as mos e no respondeu. O que poderia dizer? Que sabia de tudo? Que ela o estava traindo?
    Bem que sentiu vontade de gritar sua raiva, sua dor, seu desespero. Mas e depois, o que faria?
    Teria de tomar uma atitude, e ele no se sentia com coragem para deix-la.
    Gabriela olhou desanimada para o marido. Por que ele no entendia uma coisa to simples?
    Ficava irritada quando ele assumia aquela postura triste de vtima, como se ela fosse a ltima das mulheres. Percebia nele a reprovao e a crtica velada. Preferia 
que ele falasse abertamente ao invs de fazer aquela cara.
    Era crime querer progredir, ganhar dinheiro, subir na vida? Seria ele to vaidoso a ponto de no suportar que ela fizesse sucesso enquanto ele continuava limitado?
    Gabriela levantou-se e resolveu. Estava feliz e no iria perder sua alegria s porque ele sentia cime e no compartilhava.
    - Vamos encerrar o assunto - disse ela. - Voc nunca me entenderia.
    Tentando sufocar sua dor, Roberto no respondeu. Gabriela foi cozinha e contou sua vitria a Nicete, que aplaudiu contente. As duas conversavam alegres enquanto 
Roberto na sala, cabisbaixo, triste, fazia grande esforo para no chorar.

Captulo 8

    -        Aqui est parte dos seus salrios atrasados. De hoje em diante, quero que volte a trabalhar s para ns - disse Gabriela a Nicete.
    -        No vai lhe fazer falta?
    -        No. No prximo ms pagarei o restante.
    -        No quero, D. Gabriela. Nem deveria receber este. Tenho trabalhado pouco aqui, e a senhora no tem obrigao de pagar todo o salrio.
    - O que voc tem feito por ns no h dinheiro que pague. Estou feliz em poder dividir com voc esse dinheiro. Voc merece.  de corao.
    - Obrigado. Ainda bem que tudo est melhorando.
    Roberto fechou o jornal que fingia ler e aproximou-se, dizendo:
    - Eu ia dizer isso mesmo. Estou ganhando dinheiro e de hoje em diante voltarei a pagar as despesas. Aqui h o suficiente para a semana.
    Entregou a Gabriela um envelope com dinheiro.
    -        Arranjou emprego? - indagou ela.
    -        No. Resolvi que vou mesmo continuar a trabalhar por conta prpria. Os empregadores querem pagar pouco porque no tenho diploma nem experincia. Depois, 
eu gosto de fazer tudo do meu jeito.
    - Talvez seja melhor mesmo. Como voc conseguiu ganhar esse dinheiro?
    -        No tenho capital para montar um negcio, ento estou intermediando compras de materiais de construo. Desse ramo eu entendo.
    - timo! fez Gabriela sorrindo. - Eu tinha certeza de que voc ia reagir. Sempre se saiu bem.
    Vendo que ele se sentara novamente e apanhara o jornal, Gabriela continuou:
    -        Apesar disso, voc no parece satisfeito. Alis, tem andado calado, com ar preocupado, no conversa, no brinca com as crianas... No entendo. Deveria 
estar contente por haver conseguido uma sada.
    -        Estou contente. Sinto que dentro em breve poderei voltar no s a pagar todas as despesas da casa como at a dar-lhe mais conforto e bem-estar.
    - Sinto que voc est diferente. Pensei que fosse pela sua situao financeira. Se no  o dinheiro, o que ?
    -        Sua teimosia em querer continuar trabalhando. Isso me entristece muito.
Gabriela trincou os dentes e respirou fundo antes de responder:
        - Por que voc  to preconceituoso? Em teimosia voc ganha longe! Em vaidade tambm.
       Quando ir entender que o fato de eu trabalhar no significa que voc seja incapaz de manter a casa? Quando vai perceber que eu preciso do meu espao para 
fazer o que gosto?
    -        Eu no ia dizer nada. Voc perguntou, eu respondi.
    - Gostaria que soubesse como me sinto com essa sua atitude. O casamento para mim  parceria,  igualdade,  cooperao. Quando voc precisou, eu fiz tudo para 
ser companheira, para ajud-lo, fiz o meu melhor. Mas voc nunca reconheceu esse esforo. Ao contrrio, continua desvalorizando o que fao, como se eu no servisse 
para mais nada a no ser ficar em casa, como se eu no tivesse querer. Voc deseja que eu me torne um objeto de adorno em nossa casa para que seus amigos digam: 
"Olhe como Roberto  capaz! Como ele consegue ser um bom chefe de famlia! Para que sua me possa finalmente aprovar nosso casamento, coisa que ela nunca fez, e 
dizer: "Roberto soube encontrar uma mulher digna dele!"
Ele se levantou e tentou abra-la, dizendo:
- No  nada disso, Gabriela. Voc est enganada!
Ela se esquivou do abrao com raiva:
- , sim. Que outro motivo haveria para esse seu comportamento?
        -  que eu a amo muito! Sou louco por voc. Morro de cime vendo-a passar o dia inteiro no meio de outras pessoas enquanto eu estou longe.
        - Isso que voc sente no  amor! No  mesmo.  insegurana,  falta de confiana em voc,  falta de confiana em mim. Sua maneira de falar me ofende. 
Como se eu precisasse estar sendo vigiada constantemente para no fazer nenhuma besteira... Para no arranjar um amante... O que pensa que eu sou? Como pde passar 
nove anos do meu lado e no perceber minha maneira de ser?
       - No  o que est pensando... Eu confio em voc, mas no confio nos outros. Voc  muito atraente, eu sei como os homens agem.
       - Deveria saber como eu ajo. Isso  que deveria lhe interessar. Quem quer trair no precisa trabalhar fora para isso. Voc est sendo injusto. S que no 
vou fazer o que voc quer. No vou mesmo. Gosto de ter meu dinheiro, de fazer o que fao, de tomar conta da minha vida do meu jeito. Fazendo isso tenho certeza de 
que no estou fazendo nada errado. Se quiser continuar comigo, ter que respeitar minha maneira de ser.
    Roberto empalideceu. Sentiu vontade de gritar que sabia de tudo, que a vira mais de uma vez num carro em companhia de outro homem, mas conteve-se. Ela parecia 
decidida, e ele teve medo de perd-la. O que seria de sua vida se ela o abandonasse?
    Respirou fundo e disse com voz baixa:
    - Vamos mudar de assunto. No quero brigar.
    - Eu tambm no, mas  bom saber como eu penso e refletir bem antes de voltar a falar nisso.
    Roberto voltou a fingir que lia o jornal e Gabriela foi ter com as crianas. Sentia-se indignada.
    A custo tentava controlar-se. Roberto deixara bem clara sua insegurana, e aquela fraqueza do marido a incomodava e ofendia.
    Se ela quisesse, poderia arranjar outro homem com facilidade. Percebia a admirao masculina  sua volta, mas no se impressionava com ela. Sabia que eles queriam 
s aventura, e isso no a interessava.
    Amava sua famlia e acreditava que, sendo correta, sentindo-se digna, teria o direito de viver em paz. Por que Roberto no via isso? Por que teimava em desconfiar 
dela?
    Uma onda de desnimo invadiu-a. Teria de passar o resto da vida ao lado de um homem que no a compreendia? Naquele instante arrependeu-se de haver se casado 
com ele.
    "O amor  cego!", pensou triste.
    Ela se casara por amor. Agora, comeava a duvidar de seus sentimentos. Pensou nos filhos e tentou reagir. Estava cansada e nervosa. Precisava ajudar Guilherme 
com as lies da escola. Ele estava indo bem, e gostava quando ela olhava seus cadernos e via como ele estava progredindo com a leitura.
    Depois que ela se foi, Roberto passou a mo pelos cabelos nervoso. Aquilo no podia continuar. No estava mais agentando. Qualquer hora, no iria conseguir 
dominar-se e ento tudo poderia estar perdido. Precisava fazer alguma coisa. Mas o qu?
    Um detalhe incomodava-o. As duas vezes que a viu foram durante o expediente. Como ela conseguiu licena para sair? De repente estremeceu. E se seu amante fosse 
o prprio patro? O carro em que a viu era de luxo. No era para qualquer um.
    Ela estava com mais dinheiro. Pagou os atrasados de Nicete. Comprou roupas para as crianas, para ela e um aparelho de som. Como conseguiu tanto dinheiro?
    Remexeu-se na cadeira inquieto. No desejava separar-se dela, mas no podia aceitar que o trasse. S em pensar nisso, tinha mpetos de ir ter com ela e exigir 
que lhe contasse a verdade.
    No teve coragem. Ficou ali, sofrendo, pensando, perdido em sua dor.
    Gabriela, depois de tomar a lio de Guilherme, mandou os filhos para a cama e, depois de v-los acomodados, tomou um banho e deitou-se. Gostaria de conversar 
com o marido, de contar-lhe como se sentia valorizada desempenhando suas novas funes, o quanto desejava que ele progredisse e pudessem melhorar de vida.
    Queria que seus filhos estudassem, tivessem um futuro melhor, mas acima de tudo que conseguissem viver bem, tornar-se pessoas felizes.
    Suspirou triste. Roberto estava diferente. No era mais o moo alegre, cheio de planos e de vontade de vencer. Havia se transformado em um homem ciumento, desconfiado, 
desagradvel, de pouca conversa. Se tentasse conversar, ele no iria entender.
    Sempre acreditou que ele era muito diferente da me, mas agora notava que ele estava se tornando parecido demais com ela. Por que no percebera isso antes do 
casamento? Para ela, casar  ter um parceiro, algum com quem dividir alegrias e tristezas, desabafar, ser ela mesma sem segredos.
    Ela era reservada e no se abria com as outras pessoas. Mas considerava o marido uma extenso de si mesma, um companheiro em quem podia confiar e que confiava 
nela. Infelizmente, ele no pensava assim.
    Como lhe contar os detalhes do seu trabalho se ele no aprovava que trabalhasse? Como falar de sua realizao por estar progredindo com seu prprio esforo se 
ele se sentia menos porque ela estava ganhando mais do que ele?
    Antes, quando ela se deitava, ele j estava na cama, esperando ansioso que ela acomodasse as crianas e pudessem conversar, ficar juntos. Agora, onde estava 
ele? Por que no ia se deitar?
    Acomodou-se e resolveu dormir sem esperar por ele. Estava cansada, teria de se levantar cedo na manh seguinte. Se sua vida afetiva estava ruim, pelo menos a 
profissional ia cada vez melhor.
    "Nem sempre se pode ter tudo!", pensou. "O melhor  aprimorar meu desempenho profissional, porque, se um dia o casamento acabar, terei como viver com as crianas 
sem esperar nada dele."
    Virou-se para o lado e adormeceu. Quando Roberto subiu, passava da uma da manh.
    Vendo-a adormecida, pensou revoltado:
    "Como ela pode dormir tranqila depois do que fez?"
    Deitou-se, mas somente conseguiu adormecer quando o dia estava clareando.
    Quando Roberto acordou, passava das dez. Levantou-se assustado. Ficara de passar em uma obra s dez e meia. Olhou preocupado para o relgio. Daria tempo?
    Vendo-o descer apressado, Nicete chamou-o:
    -        Seu Roberto, a mesa ainda est posta. Tem caf na trmica.
    -        Estou atrasado. No vai dar para tomar.
    -        Em cinco minutos sair alimentado e se sentir melhor.
    Cinco minutos a mais no iriam fazer diferena. Sentou-se, tomou caf com leite e comeu uma fatia de po.
    -        Papai, olha a boneca que a mame me comprou ontem!
    Maria do Carmo aproximara-se sorrindo e mostrando a boneca com satisfao.
    Roberto sentiu uma onda de rancor. Aquela boneca fora comprada com o dinheiro sujo da traio.
    Levantou-se nervoso e empurrou a filha, dizendo irritado:
    -        Voc no precisa dessas coisas. Jogue-a no lixo.
    A menina assustou-se e abraou a boneca com fora, chorando.
    -        No jogo. Ela  minha. Minha me me deu!
    Nicete apareceu assustada:
    -        O que foi, Maria do Carmo?
    -        Papai quer jogar minha boneca no lixo. Eu no quero.
    Nicete abraou a menina, dizendo:
    -        Voc no entendeu. No  nada disso. Vamos, no chore.
    Roberto mordeu os lbios nervoso. Tentou contornar. Maria do Carmo no tinha culpa de nada.
    -        Eu no quis dizer isso. No chore. Sua boneca  linda. Mas tenho que ir, estou atrasado.
    Saiu rpido, sob o olhar admirado da empregada. Ele nunca gritara com a menina. Ainda abraada a Maria do Carmo, Nicete perguntou:
    -        O que voc disse que deixou seu pai nervoso?
    -        Eu s disse para ele olhar a boneca que mame comprou ontem... Ele disse que eu no precisava dessas coisas e que era para jogar a boneca no lixo. Eu 
no quero...  minha... minha me me deu...
    -        Ele j falou que no quis dizer isso. Ele estava brincando. Voc entendeu mal. Ningum vai tirar sua boneca, sossegue. Depois, quando eu acabar o servio, 
vamos fazer um vestido novo para ela. Voc quer?
    -        Oba! Faz uma calcinha tambm?
    -        Claro. Ela no pode ficar com uma s. Como vai fazer quando precisar trocar? Mas voc tem que ajudar.
    -        Vamos fazer agora?
    -        No. Depois do almoo. Hoje voc no precisa ir  escolinha. Vamos pegar o saco de retalhos e escolher um pano bem bonito.
    -        A Biloca levou na escola uma caminha com lenol, travesseiro e fronha. D para fazer uma?
    -        D. Agora v brincar que preciso lavar a loua do caf.
    Enquanto a menina se entretinha com os brinquedos, Nicete pensava na cena de momentos antes. Seu patro andava muito estranho nos ltimos tempos. Logo agora 
que ele voltara a ganhar dinheiro, era de admirar.
    Notava que as coisas no estavam bem entre o casal. At que Gabriela tinha muita pacincia.
    Reconhecia que para um homem era difcil aceitar que a mulher sustentasse a casa. Quando  que os homens iriam aprender que a mulher  to capaz de ganhar dinheiro 
quanto eles? Para que aquele orgulho bobo?
    Percebia que Gabriela j comeava a se cansar do mau humor dele. Se ele continuasse com aquela atitude, poderia acabar mal. Nenhuma mulher agenta muito tempo 
uma situao como aquela.
    Gostava muito de sua patroa. Era uma mulher decidida, sabia o que queria da vida e, ao mesmo tempo, era dedicada aos filhos e ao marido. No merecia a ingratido 
dele.
    Gabriela chegou ao escritrio e procurou esquecer seus problemas familiares. Sentia prazer em mergulhar no mundo dos negcios, principalmente porque estava podendo 
participar mais. Lia com ateno os contratos, estudava novas possibilidades de negociao e conseguia encontrar algumas sadas inteligentes.
    Renato admirava-se com o talento que ela demonstrava, com sua inteligncia arguta e sua dedicao ao trabalho.
    Na verdade, ela se interessava vivamente pelo que estava fazendo. Encontrava grande prazer em se dedicar inteiramente. Esses momentos eram para ela a opo de 
liberdade, de poder fazer alguma coisa do seu jeito, sentindo que estava sendo valorizada em seu esforo.
    Era um grande contraste com sua rotina familiar. L se sentia criticada, diminuda, vigiada.
    Roberto no falava abertamente, mas ela percebia em seus olhos, em seus gestos e at em algumas atitudes, a reprovao, a crtica.
    Ultimamente parecia que ela estava sempre fazendo alguma coisa errada. Entretanto, nunca trabalhara tanto em sua vida, nunca apoiara tanto o marido como nos 
ltimos meses.
    Quando no escritrio, sentia-se outra pessoa, esquecia o resto do mundo, mas quando saa, j no nibus de volta, seu peito se comprimia e no podia evitar a 
sensao desagradveL
    Entrava em casa querendo abraar os filhos, buscando uma compensao no amor que sentia por eles. A cada dia estava mais difcil viver ao lado de Roberto.
    Renato chamou-a em sua sala:
    - Preciso que me traga o contrato com aquela mineradora do Dr. Silveira.
    Ela saiu e voltou com os papis, entregando-os a ele.
    -        Eles mudaram o contrato social. Fundiram essa empresa com outra e precisamos refazer este contrato.
    -         s atualizao?
    -        Vai alm. Pretendo renegociar as condies. Vou dar uma olhada e depois passo para voc fazer a minuta.
    Ela ia saindo quando ele tornou:
    -        Estou pensando em mandar Ricardinho para um acampamento nas frias. Gioconda  contra. Voc, o que acha?
    -        Seria muito bom para ele. Aprender a se socializar.
    -  o que eu penso. Tenho conversado muito com ele, dado mais ateno. Tem melhorado na escola, mas em casa, ao lado da me, noto que ele muda muito. Quando 
ela no est por perto, ele se mostra mais equilibrado, mais calmo, menos exigente. Basta ela aparecer, pronto: comea a ficar rebelde, cheio de manias, reclama 
de tudo. Fica impossvel.
     Gabriela abriu a boca, mas fechou-a novamente sem dizer nada. Renato notou:
    -        O que ia falar? Fale. Voc tem jeito para lidar com crianas. Infelizmente, Gioconda  uma nulidade. S estraga o menino.
     -        Ele est muito mimado. J sabe que D. Gioconda cede aos seus caprichos e aproveita quando ela est por perto.
     Ele fez um gesto de desnimo.
     -  o que eu lhe digo, mas ela no percebe, continua do mesmo jeito. Por isso quero que ele v para o acampamento.
     - Ser muito bom se ele agentar ficar l.
     - Alguns colegas de escola j fizeram as reservas. Ele est com muita vontade de ir. Tenho certeza de que ir com prazer. Gioconda no quer nem ouvir falar 
nisso. Diz que pode acontecer um acidente, que ele pode adoecer. Em suma, fica arrumando empecilhos, fazendo drama.
     - Nesse caso, ter de convenc-la.
     -        . Vou tentar. Essa atitude dela me assusta. No parece natural.
     - Se ela se ocupasse com alguma coisa interessante, tivesse algum trabalho, ainda que fosse beneficente, mas que lhe desse prazer, talvez se libertasse dessa 
fixao nos filhos.
    -        Seria timo. J pensei nisso. Sugeri vrias opes, mas parece que nenhuma a atraiu. Fica em casa lendo revistas, visita algumas amigas, vai s compras 
e nada mais.
    -        Pelo menos ela gosta das atividades caseiras? Da ornamentao do lar, da organizao?
    -        Nunca a vi interessar-se por nada disso.  exigente, diz como deseja o servio e pronto.
    Pessoalmente no se ocupa com nada em casa.
    -        No  de estranhar que se fixe nos filhos. Hesitou um pouco e concluiu: - E tambm no senhor. Isto , deve reclamar, exigir ateno e queixar-se de 
tudo.
    -        Voc descreveu Gioconda com perfeio. Como sabe?
    -        A vida dela deve ser muito vazia, montona. Ela no faz nada por si e espera tudo dos outros. Essa fantasia sempre custa muito caro. Acaba na depresso 
e na doena.
    - Isso j est acontecendo. Gioconda est sempre adoentada, sentindo-se indisposta. Nunca se mostra satisfeita com nada.
    -        Ela foi sempre assim?
    -        No. Quando nos casamos era uma moa alegre, bem-humorada, disposta. O problema apareceu depois que Ricardinho nasceu. Gioconda  uma boa esposa, honesta, 
dedicada. Gostaria de ajud-la, mas no sei como.
    - Se eu tivesse um problema, procuraria um terapeuta disse Gabriela pensando em Roberto.
    - Acha que poderia ajudar?
    -        Se ela aceitasse, sim. Qualquer mudana de comportamento s ocorre se a prpria pessoa quiser.
    -        Esse  o ponto. Mas vou pensar. Pode ser que seja um caminho.
    Gabriela saiu da sala do chefe pensando no marido. Seria muito bom se ele fosse procurar ajuda. Talvez conseguisse aceitar a mudana que sua vida profissional 
tivera. Assim que surgisse a oportunidade, falaria com ele.
    Roberto foi vistoriar a obra e conseguiu um bom pedido de materiais. Imediatamente tratou de concretizar a compra para o cliente. Isso o manteve ocupado at 
as trs da tarde.
    Sentado na lanchonete  espera do sanduche, pensou em Gabriela com raiva. Mesmo ocupado, no conseguia tirar de sua mente a cena do carro. Precisava fazer alguma 
coisa.
    Quando deixou a lanchonete, ficou andando a esmo, pensando. Depois decidiu-se: iria procurar Aurlio novamente. Quando conversava com ele, sentia-se mais calmo.
    Na sala de espera do consultrio, enquanto esperava, uma senhora aproximou-se dele, sentando-se a seu lado.
    - Est demorando hoje - disse, olhando para Roberto.
-        No sei. Cheguei agora.
        - Minha sobrinha est l dentro faz mais de uma hora. Conheo o Dr. Aurlio,  muito bom, mas o caso de Neusa... Neusa  minha sobrinha... acho que no vai 
adiantar nada. Ela est com obsesso. O que ela precisa mesmo  de ajuda espiritual.
    Era uma senhora forte, aparentando uns quarenta anos, de ar agradvel e sorriso largo. Mais para ser educado, Roberto perguntou:
-        Qual  o problema dela?
        - Tem altos e baixos. Vai da euforia  depresso sem mais aquela.        Est bem e, de repente, comea a tremer, a suar, passar mal. Sente arrepios, tonturas, 
enjo de estmago. Fica com frio, ps e mos geladas. Eu sei que seu caso  espiritual. Mas ela no acredita. Nos ltimos meses tem corrido de mdico em mdico, 
fez vrios exames mas nenhum d nada. Sem falar do emprego que ela perdeu e do marido que fugiu com outra. Se ela no procurar ajuda de quem entende disso, no vai 
resolver.
    Roberto interessou-se:
-        O que quer dizer com espiritual?
-        Ela est com perturbao de espritos desencarnados. Coisa de espiritismo?
-        Isso mesmo. Como sabe?
    -  fcil. Na vida dela corria tudo normalmente. De repente mudou. Ela comeou a passar mal, perdeu o emprego, o marido, a sade, tudo. Os mdicos dizem que 
 sistema nervoso. Mas eu no creio. Tenho visto muitas coisas neste mundo. Eu sei que a vida continua depois da morte e que os espritos interferem na vida de todos 
ns.
    - Isso me deixa pensando. Comigo aconteceu a mesma coisa. Ser que estou sendo prejudicado por espritos?
    - Pode ser. Seria bom ir a algum centro fazer uma consulta.
    - No conheo nenhum. Nunca fui e tenho receio.
    - Procure um lugar srio, de mesa branca, onde fazem trabalho de Allan Kardec.  o mais seguro.
    - A senhora conhece algum?
       - Conheo. Tem papel e caneta a?
       - Tenho. Est aqui. Pode escrever.
    Ela apanhou o bloco e a caneta que ele lhe estendeu e escreveu o nome e o endereo.
    - Olhe, se quiser pode ir agora. Eles comeam a atender s sete. Deixei tambm meu telefone. Meu nome  Maria, e se precisar de mais alguma coisa, e eu puder 
ajudar, pode ligar.
    Espero que consiga. A cabea dura da Neusa bem podia ser como o senhor. Ela vai sofrer mais tempo e no fim ter que acabar indo de qualquer maneira.
    Roberto despediu-se e saiu. No esperou pelo mdico. Sua me de vez em quando falava de uma senhora que benzia e que lia as cartas. Desde que Neumes levara seu 
dinheiro, ela queria que ele fosse l para uma consulta.
    Roberto no acreditava naquilo. Entretanto, aquela senhora conseguiu descrever uma situao parecida com a sua. Perdera o dinheiro, no se sentia bem de sade 
e estava perdendo Gabriela. E se ele estivesse sendo vtima de um esprito desencarnado?
    J ouvira contar muitas histrias sobre o assunto. Haveria alguma verdade naquilo?
    Tirou o papel do bolso e leu o endereo: Vila Mariana. No era longe. Decidiu ir.
    Tratava-se de uma casa antiga, reformada. A porta estava aberta e ele foi entrando. No hall, uma senhora atendeu-o, perguntando o que ele desejava.
    - Uma consulta.
    - Temos um planto de atendimento. O senhor vai para aquela sala conversar com um plantonista. Sente-se l e espere chamar seu nmero.
    Entregou-lhe uma senha e Roberto foi para a sala indicada. Havia algumas pessoas e de vez em quando algum saa da outra sala e um nmero era chamado.
    Enquanto esperava, Roberto comeou a sentir-se angustiado. Arrependeu-se de ter ido.
    Afinal, o que estava fazendo ali? O lugar era limpo mas muito simples; as pessoas, de condio humilde.
    Ele estava sendo ajudado por um grande mdico e havia aprendido muito com ele. Mas ali, com aquelas pessoas sem qualificao profissional, sem grandes conhecimentos, 
o que poderia esperar?
    Nunca se detivera muito pensando em Deus. No tinha certeza de nada. Cedo aprendera que, se no cuidasse da prpria vida, ningum o faria por ele.
     -        As coisas no caem do cu! - costumava dizer. -  preciso ir  luta.
     Por insistncia da me, ia  igreja de vez em quando. Casara-se nela, batizara os filhos. Mas isso representava apenas uma cerimnia social, um pretexto para 
reunir a famlia e oficializar costumes.
     Aquela situao era ridcula. O melhor era sair. Fez meno de levantar-se, mas a porta abriu-se e algum chamou:
     -        Dezessete.
     Era o dele. Fez de conta que no ouviu. Uma senhora a seu lado colocou a mo em seu brao, sacudindo-o:
     -         o seu nmero. No ouviu?
     Roberto levantou-se e a moa da porta pediu:
     -        Entre, por favor.
     Roberto respirou fundo e entrou. Na sala ampla havia quatro pequenas mesas. Trs estavam ocupadas por pessoas conversando. Na outra, apenas uma senhora de meia-idade.
     -        Pode sentar-se l - indicou a moa.
     Roberto aproximou-se da mesa e a mulher levantou os olhos, fixando-os nele com interesse.
     -        Sente-se, por favor. Meu nome  Cilene. Prazer em conhec-lo.
     -        Obrigado.
     -        Seu nome e endereo, por favor.
     Ele falou e ela anotou em uma lista que estava sobre a mesa. Depois perguntou:
-         a primeira vez que vem aqui? Sim.
-        Qual  seu problema?
     -        Bem, minha vida mudou muito e algum me sugeriu a ajuda espiritual.
     Respondeu acanhado. No pensou que fossem perguntar-lhe aquilo. Imaginou que no fosse preciso dizer nada. Afinal, um mdium deveria adivinhar tudo. Estava 
claro que eles no tinham nenhum poder. Se nem percebiam o que ele tinha, jamais teriam como resolver seus problemas.
     Tinha sido loucura ter ido.
     Cilene olhou sria para ele e respondeu:
     -        Voc est realmente precisando muito. Sente-se perdido, no confia em mais ningum.
     Desconfia at de sua famlia. Esse sentimento est infelicitando sua vida e dificultando sua prosperidade.
Roberto olhou admirado para a mulher.
-        Por que est dizendo isso?
       - Porque cada um  inteiramente responsvel por tudo quanto lhe acontece.  hora de tentar descobrir como voc atraiu em sua vida uma mudana to drstica 
e por que est to difcil se recuperar.
    -         verdade que minha vida mudou muito, mas no fiz nada para isso. Sempre fui trabalhador e honesto. O culpado foi meu scio, que me roubou todo o dinheiro, 
e no pude fazer nada. At hoje estou tentando sobreviver com dignidade.
    -        H pessoas honestas. Por que  que voc atraiu um scio desonesto ao invs de um correto?
    -        No sei. Nunca pensei nisso.
    -        Est na hora de comear a pensar.  importante que saiba que a vida  muito mais do que parece ser. Vivemos rodeados de energias sutis que trocamos 
com as pessoas, e essa troca determina os fatos em nossa vida. Nossa atitude interior imprime nas energias que emitimos os sentimentos nos quais acreditamos.
    -        No estou entendendo.
    -        As energias csmicas so como o ar que respiramos. Elas sustentam a vida. Todos os seres as absorvem e transmitem conforme suas necessidades. Quando 
nosso corpo fsico sofre um acidente, uma doena, so elas que trabalham na recuperao do nosso equilbrio, refazendo os pontos atingidos, recompondo a sade. Os 
mdicos sabem disso. Fazem a parte que lhes cabe e esperam a reao natural. Como pensa que a natureza executa todo esse trabalho de refazimento?
    Atravs das energias. So elas que mantm seu corpo funcionando.
    Roberto abriu a boca e fechou-a de novo, sem saber o que dizer. Ela prosseguiu:
    - Para compreender melhor os fatos que lhe acontecem,  preciso que voc comece a observar, a estudar as energias que o cercam.
    -         uma idia interessante. Meu mdico j tinha dito alguma coisa sobre isso.
    - O que ele no lhe disse com certeza foi que  voc quem transforma a energia que recebe, conforme suas atitudes.
    -        Como poderia fazer isso se nunca ouvi falar a respeito?
    -        Essa troca  natural. Voc faz e no percebe. Mas, se ficar atento, comear a notar como.
    Por exemplo: quando est se sentindo mal, precisa perceber se essas energias vieram de fora j ruins ou se foi voc quem as tornou assim.
    -        Acho difcil saber isso.
    -        No , no. Se voc estava muito bem e de repente, sem nenhum motivo aparente, comeou a sentir-se mal sem estar doente,  porque absorveu energias 
negativas. Elas vieram de fora, de outras pessoas, desencarnadas ou no. Se voc estava revoltado, negativo, de mal com a vida, julgando-se vtima da maldade alheia, 
triste, inconformado, foi voc quem transformou as energias em ruins. Entendeu?
       - Comeo a perceber.
     - Nos dois casos,  preciso transformar aquelas energias, tornando-as boas.
     - De que forma?
     - Positivando os pensamentos, tomando atitudes otimistas, esforando-se para mudar seu modo de ver. Funciona em qualquer caso. Estamos rodeados por energias 
de todos os nveis.
     Atrair esta ou aquela  apenas questo de sintonia. Quando voc est mal, quando nada d certo, quando tem problemas financeiros ou de sade,  porque teve 
atitudes, crenas que o sintonizaram com padres negativos, ligando-o a essas faixas. Para sair delas, basta desconectar-se. s vezes precisa fazer o oposto do que 
vinha fazendo. Em todo caso,  voc quem deve prestar ateno e descobrir isso.
     -        Percebo que nos ltimos tempos tenho andado muito preocupado. Mas foi por causa do que tem me acontecido. Quando tudo ia bem, eu no tinha pensamentos 
ruins.
Cilene olhou para ele com seriedade e respondeu:
- No precisa se justificar. Voc tem fora bastante para sair do mal e permanecer no bem.
        - Eu no estou no mal! Nunca desejei mal a ningum. Nem ao scio que me roubou. Se ele aparecesse, eu s queria que me devolvesse o dinheiro que ganhei com 
muitos anos de trabalho honesto.
       - Sei que voc  pessoa de bons sentimentos e no pensa em vingana. Mas quando imagina coisas ruins, se deprime, se angustia, est no mal. No existe meio 
termo. Quando no est positivo, est no negativo. Quando no est otimista, est no mal. Entendeu?
       Roberto fez um gesto desalentado:
       - Nesse caso,  difcil ficar no bem. A vida  cheia de surpresas desagradveis, ningum pode ficar otimista sempre.
       - Reconheo que neste mundo no  fcil conservar o otimismo. Penso at que foi para fazer este treinamento que reencarnamos aqui. Este mundo  cheio de desafios 
para que aprendamos a desenvolver nossa fora interior. Somos espritos eternos em evoluo. Desejamos viver em um mundo melhor, sem dor, com alegria, com amor. 
Alis, a felicidade  nosso maior objetivo. Como acha que alcanaremos tudo isso sem conquistar a sabedoria? E, para conquistar a sabedoria, precisamos desenvolver 
nossa fora interior, aprender a Lidar com as leis da vida, nos harmonizarmos com elas.
    -        A senhora  pessoa de f. Gostaria de ter esse conforto.
    -        A conquista da f depende do esforo de cada um. Se voc deseja desenvolver sua f, comece a experimentar suas crenas e verificar quais so verdadeiras. 
No aceite coisas s porque algum famoso disse ou escreveu. Tambm no recuse. Procure descobrir at que ponto funcionam. Jogue fora os preconceitos. Teste, questione, 
busque. Pea a Deus que o ajude a descobrir a verdade.
    -        Vou tentar. Cheguei aqui angustiado e j estou me sentindo melhor.
    -        Desde que entrou aqui, est sendo assistido por amigos do plano espiritual. Vou encaminh-lo para um tratamento de renovao energtica. Vai faz-lo 
sentir-se aliviado, dormir melhor. Entretanto, a conquista do seu equilbrio depende apenas de voc. Gostaria que no se esquecesse de observar seus pensamentos 
ntimos, as frases que costuma dizer a voc mesmo. A chave do que lhe acontece est a.
    Estendeu-lhe um papel, dizendo com simplicidade:
    -        Ter que vir aqui duas vezes por semana durante um ms para esse tratamento. Depois volte para falar comigo e vamos ver como est.
    Roberto pegou o papel, hesitou um pouco, depois perguntou:
    -        Se eu precisar, isto , se no conseguir me lembrar de tudo que falamos, posso vir conversar com voc antes desse tempo?
-        Pode. Mas, se fizer tudo que eu disse, no vai precisar.
    Roberto agradeceu, levantou-se e saiu da sala. A moa da porta encaminhou-o para uma fila em outra sala. Sentia-se sensibilizado. Parecia-lhe que de repente 
as coisas tinham outro significado.
    Quando chegou sua vez, entrou no salo iluminado por duas lmpadas azuis, onde atrs de cada cadeira da fileira havia uma pessoa em orao. Os que entravam sentavam-se 
nas cadeiras e, quando elas lotaram, a porta fechou-se. Uma msica suave tornava o ambiente particularmente agradvel.
    Roberto no conteve a emoo. Quando a pessoa que estava atrs de sua cadeira ficou  sua frente, ele fechou os olhos como para impedir que as lgrimas cassem, 
mas foi intil. Elas desabaram e ele rompeu em soluos, sem conseguir controlar-se.
    De olhos fechados, sentia que uma brisa suave envolvia seu corpo e ele perdeu a noo do tempo e do lugar. Sentia enorme alvio naquele pranto, como se com ele 
jogasse para fora toda a sua dor, sua angstia, seu desvalimento.
    Aos poucos foi se acalmando. Depois de alguns segundos, sentiu um leve toque no brao.
    Abriu os olhos, e o rapaz  sua frente oferecia-lhe pequeno copo com gua que ele bebeu, um pouco envergonhado por no ter conseguido segurar as lgrimas.
    Devolveu o copo e saiu, acompanhando os demais. Uma vez fora da sala, foi at o banheiro.
    Queria lavar o rosto e refazer-se um pouco. Olhou-se no espelho e a custo conteve o pranto.
    O que estava acontecendo com ele? Precisava dominar-se. No podia ser to sensvel. Mas, quanto mais se esforava para controlar-se, mais lgrimas brotavam. 
Quando se sentiu melhor, lavou o rosto e penteou os cabelos.
    Lembrou-se dos seus culos escuros que estavam no bolso e colocou-os. Sentiu-se mais  vontade depois disso.
    Quando chegou  rua, sentiu fome. Olhou no relgio. quela hora Gabriela j teria chegado em casa. Ao pensar nela, sentiu um aperto no peito.
    As palavras de Cilene voltaram aos seus ouvidos e ele reagiu:
    "No vou pensar nisso agora. Chorar me fez bem. Sinto-me muito aliviado. S que chegar em casa com esta cara... Acho que vou comer um sanduche por aqui e dar 
um tempo.
    Entrou em um bar e pediu o sanduche. Comeu com vontade. Depois, tirou os culos e olhou-se no espelho. Estava melhor. Seus olhos no estavam to vermelhos. 
Podia ir para casa.

Captulo 9

    Gabriela chegou em casa carregando uma pasta. Havia levado duas minutas de contrato que pretendia examinar depois do jantar. Precisava encontrar um jeito de 
modificar as condies com as quais os clientes no concordavam, sem prejudicar os interesses e os ganhos da empresa.
    Gabriela no costumava levar trabalho para casa porqanto se ocupava com os filhos e o bem-estar da famlia, o que no era fcil ficando fora o dia inteiro.
    Sentia-se satisfeita com o progresso alcanado, com o dinheiro que estava comeando a ganhar, e desejava progredir cada vez mais. Depois, era-lhe muito prazeroso 
perceber que, ao contrrio do que diziam seu marido e sogra, ela tinha capacidade para ganhar dinheiro.
    Quanto mais Roberto a criticava por trabalhar fora de casa, mais ela se sentia valorizada, percebendo que tinha elementos para subir na vida.
    Claro que considerava importante sua presena ao lado dos filhos, orientando-os, ajudando-os, exercendo suas funes de me. Apesar do esforo daqueles dias 
difceis, quando no pde contar o tempo todo com Nicete, nada faltara aos seus. Mesmo quando ela se sentia exausta, procurara tornar o ambiente da casa alegre, 
apesar do mau humor do marido.
    Se tivera capacidade para isso quando tudo estava ruim, por que deveria desistir agora que as coisas comeavam a melhorar?
    Roberto no havia chegado ainda. Como ele estivesse demorando, as crianas comeram e foram brincar. Gabriela sentou-se na sala de jantar, colocou sobre a mesa 
a pasta que trouxera e comeou a ler o primeiro contrato, anotando alguns detalhes em um bloco ao lado.
    Foi assim que Roberto a encontrou quando entrou em casa. Imediatamente ela se levantou, dizendo:
    - Vou mandar esquentar o jantar. As crianas j comeram.
    - No estou com fome. Eu me atrasei e acabei comendo um sanduche.
    Nicete, que aparecera na porta da sala, perguntou:
    - Coloco a mesa s para a senhora?
    - Tambm no sinto fome. Quando eu terminar isto, comerei um lanche. Pode acabar com a cozinha.
    Roberto aproximou-se curioso:
    -        O que est fazendo?
    -        Examinando estes contratos. No deu tempo durante o dia e eles so urgentes.
    - Desde quando voc examina os contratos de sua empresa? Que eu saiba no  essa sua funo.
    -        Eu disse a voc que fui promovida, lembra-se?
    -        No  muita responsabilidade? Ser que voc no vai fazer nenhuma besteira?
    Gabriela levantou para ele os olhos nos quais havia um brilho de irritao.
    - No. No vou porque o dono da empresa confia em mim, sabe que tenho capacidade para opinar e dar sugestes que ele usa se quiser. So s sugestes; quem decide 
 ele. A responsabilidade  s dele.
    Roberto sentiu um aperto no peito. Suas suspeitas justificavam-se. Bem que desconfiara que era com o chefe que ela andava se envolvendo. Imagine, ela, analisar 
contratos. Estava claro que ele fazia isso para conquist-la.
    No se conteve:
    -        Cuidado. Esse homem deve estar querendo alguma coisa mais. Por que ele no d esses contratos para seu advogado ou seu contador? Seria mais adequado.
    Gabriela levantou-se fuzilando-o com os olhos e respondeu:
    -        J vem voc com essa conversa. As vezes chego a pensar que voc deve ter muitas amantes na rua, porque no consegue pensar em outra coisa. Quem usa 
cuida, sabia?
    - No precisa ficar nervosa. Conheo os homens. Sei como agem. Esse parece que tem segundas intenes.  bom tomar cuidado e no cair na lbia dele.
    O rosto de Gabriela coloriu-se de vivo rubor. Sentia-se indignada. Colocou as mos na cintura e disse com raiva:
    -        Est me chamando de ingnua ou de burra? Acha que no sei diferenciar uma cantada de um trabalho profissional? H momentos que me arrependo de haver 
casado com voc. No confia em mim, me ofende julgando-me leviana e, para coroar tudo isso, ainda me passa um atestado de incapacidade. Pois fique sabendo que meu 
trabalho tem sido muito elogiado, que cada contrato desses, quando conseguimos fechar, est me rendendo excelente comisso, alm do salrio normal do ms. Portanto 
cuidado voc com o que diz, porque poder chegar um momento em que no suportarei mais a tenso e resolverei minha vida de outra forma.
    Ela tocou no ponto crucial e Roberto assustou-se. O que faria se ela o abandonasse? Uma onda de desespero acometeu-o e ele tentou contemporizar.
    -        No quis dizer isso. Voc est torcendo minhas palavras.  que no gosto de v-la trabalhando tanto. Se eu digo que gostaria que deixasse de trabalhar, 
 porque desejo que tenha uma vida boa, s cuidando da famlia. Desejo poup-la.
    -        No me venha com essa histria. Sei muito bem o que voc pensa. Sou uma mulher digna, que tem feito tudo pela nossa famlia. Se ainda assim no consigo 
agrad-lo, pacincia. Estou no limite de minhas foras. Afirmo de uma vez por todas: gosto do meu emprego, estou me realizando profissionalmente, ganhando mais, 
e tenho  minha frente a oportunidade de progredir como nunca tive. Por isso, se deseja continuar comigo, nunca mais toque nesse assunto. Agora me deixe em paz. 
Vou terminar este trabalho.
    Roberto mordeu os lbios e foi para o quarto. Nicete entrou em seguida, dizendo:
    -        D. Gabriela, venha comer um pouco agora. Assim ficar mais calma para trabalhar.
    -         melhor mesmo. Estou trmula de raiva e sem serenidade para discernir. Minha cabea est fervendo.
    -        Venha, vou lhe contar a ltima que a Maria do Carmo aprontou hoje. Essa menina tem cada uma...
    Gabriela sorriu. Nicete tinha um jeito especial para acalm-la, e falar da filha era sempre prazeroso.
    Sentou-se, ouviu o que ela disse e comeu um pouco. Quando terminou, Nicete, vendo-a pensativa, procurou confort-la:
    -        Um dia ele vai perceber a mulher que tem em casa...
    -        S que esse dia pode chegar tarde. Estou cansada e no sei quanto tempo mais consigo agentar. Vou ver se consigo trabalhar.
    Foi para a sala e mergulhou no trabalho. Passava da meia-noite quando finalmente conseguiu finalizar. Havia feito todas as anotaes e preparou-se para dormir.
    Quando entrou no quarto, percebeu que Roberto no estava dormindo. Tinha os olhos fechados mas permanecia atento a todos os movimentos dela.
    Respirou fundo e deitou-se virando-se para o lado. Pretendia evitar que ele recomeasse o assunto. Estava cansada, precisava levantar cedo no dia seguinte. Depois, 
de que adiantaria conversar com ele? Seu cime cegava-o a ponto de no enxergar mais nada.
     Roberto virou-se para o lado dela e abraou-a, dizendo ao seu ouvido:
     - Gabi, eu fui rude ainda h pouco. Estou arrependido. Voc me desculpa?
     -        Est bem, vamos esquecer isso.
     -         que ultimamente tenho sentido muito medo de perder voc. Isso tem me atormentado.
     -        Por enquanto no corre esse risco. Mas, se continuar me criticando como fez hoje, no sei se poderei agentar.
     - Eu a amo demais.
     -        Nesse caso, me respeite.
     -        Eu vou fazer o possvel para mudar. O que eu mais desejo  v-la feliz.
     -        Se isso  verdade, deixe de me atormentar com seu cime. Ponha na sua cabea que, se eu no o amasse e tivesse de deix-lo, teria feito isso quando 
voc ficou sem nada. Eu fiquei do seu lado por amor. Alm disso, h os nossos filhos.
     Ele a abraou com fora e procurou seus lbios, beijando-a longamente. Gabriela no sentiu nenhum prazer com aquele beijo. Sentia-se irritada com a insegurana 
dele, mas no o afastou.
     Tambm no correspondeu como em outros tempos. Deixou-se amar, em meio  apatia,  desiluso e ao cansao, esforando-se para no o empurrar para longe.
     Ele tentou de todas as formas motiv-la, inutilmente. Quando acabou, ele se separou dela dizendo triste:
     - Voc est magoada comigo. No me ama mais.
     -        Por favor, no vamos recomear. No leve para esse lado.  que estou cansada, s isso.
Voc j teve dias assim. Veja se me entende.
     - Est bem. No quero discutir. Vamos dormir.
     Gabriela virou para o lado e em poucos instantes adormeceu. Roberto, no entanto, sentindo o peito oprimido, uma horrvel sensao de desconforto e receio, ficou 
ali, no escuro, tentando vencer seu medo. Mas o medo continuava l, impvido, levando a melhor. Roberto s conseguiu adormecer quando o dia comeou a clarear.
     Levantou passava das dez. Estava atrasado. Respirou fundo tentando evitar o mau humor. Foi intil. A lembrana da noite anterior aumentou sua depresso.
     Tomou uma ducha rpida, engoliu o caf puro para espantar o desnimo e saiu. Tinha marcado com o engenheiro s oito horas e eram quase onze. Tentou melhorar 
a expresso de seu rosto, estendendo os lbios em um sorriso:
    - Desculpe o atraso, doutor.  que passei a noite em claro, meu filho chorou e no nos deixou dormir. Quando consegui pegar no sono, estava to cansado que no 
acordei na hora.
    - Sinto muito, mas eu tinha urgncia do material. No podia deixar os homens parados. Mandei buscar em nosso fornecedor habitual e j deve estar chegando.
    - Eu teria conseguido um preo melhor.
    - Pode ser, mas e se voc no viesse?
    - Sou homem de palavra. No ia deix-lo na mo.
    - Mas deixou. Marcou s oito e so onze. Se fosse de palavra, teria vindo no horrio.
    Roberto conversou um pouco na tentativa de obter outros pedidos, mas notou que o engenheiro no estava interessado. Saiu dali aborrecido.
    - Hoje no  o meu dia! - pensou.
    A obra era grande e estava no incio. Ele poderia fazer grandes negcios com aquela construo. Achou melhor no insistir. Deixaria passar alguns dias para que 
o engenheiro esquecesse o episdio e voltasse.
    Embora estivesse ganhando algum dinheiro, no conseguira guardar nada. Tinha acumulado algumas dvidas e estava pagando-as. Havia tambm as dvidas com os fornecedores. 
Roberto planejava pagar tudo para limpar seu nome e poder reabrir seu negcio. Esse era seu objetivo, e faria qualquer sacrifcio para alcan-lo.
    Ao passar por uma praa, sentou-se em um banco. Pretendia visitar outra obra, mas era hora de almoo e achou melhor esperar. Sabia que para eles o horrio de 
almoo era sagrado. No gostavam de tratar de negcios nessa hora. No queria arriscar-se a perder outro possvel comprador.
    Seu pensamento voltou-se para Gabriela. Sua frieza deixara-o sentido. Abraara-a cheio de amor, mas era tarde. Sua esposa no o amava mais.
    A esse pensamento, sentiu o corao oprimido e respirou fundo, tentando acalmar-se.
    Lembrou-se do centro esprita e do alvio que sentira l. A noite deveria ir novamente para o tratamento.
    Iria mais cedo e tentaria conversar com Cilene. Talvez ela o ajudasse a libertar-se daquela opresso que sentia no peito.
    O dia custou a passar e Roberto visitou mais duas obras, sem conseguir nada. Tambm, com a disposio que estava, nada poderia dar certo.
    Passava um pouco das seis quando ele entrou no centro esprita. O atendimento no havia comeado, porm ele viu Cilene no hall conversando com uma senhora. Aproximou-se 
esperando que ela terminasse. Quando a viu s, aproximou-se dizendo:
    -        Estou precisando conversar. Voc disse que me atenderia.
    Ela pensou um pouco e depois respondeu:
    - No  nosso costume atender antes do horrio, mas vou abrir uma exceo. Vamos entrar.
    Vendo-o sentado em sua frente na sala de atendimento, Cilene perguntou:
    -        E ento, melhorou?
    -        Aquela noite sa daqui aliviado. Fiquei bem. Mas depois tudo voltou a ser como antes. A depresso voltou, sinto-me triste, tenho impresso de que algo 
de muito ruim vai me acontecer.
    -        Percebeu se esses pensamentos vm de fora, de repente, ou se voc quem os est criando?
    -        Claro que no sou eu. No gosto de me sentir assim. Mas eles vm e no tenho como evitar.
    - Sei que preferia sentir-se bem. Mas, se est mal, com certeza est olhando a vida pelo lado errado. Foi por isso que eu lhe disse para prestar ateno s conversas 
que costuma manter consigo mesmo. Elas revelam sua maneira de reagir aos fatos do dia-a-dia.
    -        Meu mdico disse que somos responsveis por tudo que nos acontece na vida. Mas penso que ele est enganado. Tenho me esforado para fazer as coisas 
do jeito certo. Sou um homem honesto, amo minha famlia, meus filhos, minha mulher. Entretanto, fui roubado, minha mulher deixou de me amar, estou sendo trado. 
Est difcil segurar essa opresso. Como posso fechar os olhos e ser otimista com tudo de mal que est acontecendo  minha volta?
    As lgrimas brotaram dos olhos de Roberto, que no se importou e deixou-as cair. Precisava desabafar, contar a algum seu sofrimento, suas dvidas, seus medos.
    As palavras brotavam em seus lbios e ele foi falando de sua vida, contando o que lhe acontecera e o que ele pensava que poderia acontecer.
    Cilene deixou-o falar sem interferir. Sabia que ele precisava desse conforto. Ele finalizou:
    -        Agora ela no me ama mais. Gosta de outro. Eu vi. Qualquer dia destes vai querer separar-se e eu no vou agentar. Sei que deveria ter vergonha de gostar 
de uma mulher que est me traindo, mas no posso viver sem ela. Suportarei tudo, menos que ela v embora.
       Quando ele se calou, Cilene disse com simplicidade:
    -        O cime  mau conselheiro. Cria um inferno para quem o sente e afasta as pessoas. Voc pode estar destruindo seu lar com seu cime.
    -        Mas eu vi Gabriela em um carro de luxo. Aonde ela ia ao lado de outro homem?
    -        Estavam abraados? Podia ser um encontro de trabalho.
    -        Mas ela nunca me falou nada sobre isso. Por qu? Se fosse um trabalho, ela teria me contado.
    -        Ela nunca lhe contaria por causa do seu cime.
    -        Tem aparecido com dinheiro. Diz que foi promovida, mas eu a vi no carro do chefe.
    -        Pode ser verdade. Ela pode estar sendo sincera. Pense em como ela deve estar se sentindo se for inocente, se estiver se esforando no trabalho para 
ajudar voc a suprir as necessidades da famlia e notar suas desconfianas. Deve sentir-se desvalorizada, desanimada, e isso sim pode fazer com que a admirao que 
ela sentia por voc comece a mudar.
    -        Eu seria o homem mais feliz do mundo se fosse como voc diz. Nesse caso ela deveria me odiar. Mas no creio. eu a vi naquele carro. Depois, ela mudou 
comigo. No  mais a mesma.
    -        E vai mudar mais se voc no trabalhar esse cime e continuar agindo dessa maneira.
    Ningum  de ningum. Voc no  o dono de sua mulher. Ela s vai ficar ao seu lado se quiser, se continuar gostando de voc. Por isso, deixe de trabalhar contra 
seu casamento. Comece a valoriz-la como pessoa enquanto  tempo e ela ainda pode ouvi-lo.
    Roberto baixou a cabea confundido. Era difcil acreditar nas hipteses que ela levantava. Percebendo sua hesitao, Cilene continuou:
    -        Sua mulher alguma vez demonstrou interesse por outro homem depois do casamento?
    Roberto estremeceu.
    -        Claro que no! Ela  inteligente e esperta, nunca deixaria perceber. Depois, penso que apesar de tudo ela no teria coragem de me confrontar dessa forma.
    -        Ela  tmida e passiva?
    -        Ao contrrio. Sempre sabe o que quer e  teimosa tambm. S faz o que ela acha que deve fazer. Se me ouvisse, j teria deixado o emprego e tudo estaria 
bem.
    -        Voc perdeu tudo, ficou sem emprego. Como viveriam se ela tambm no trabalhasse?
    Roberto remexeu-se na cadeira inquieto.
    - Devo reconhecer que ela tem mantido a casa desde que perdi meu negcio. Agora  que estou comeando a ganhar dinheiro novamente, assim mesmo no o suficiente.
    Cilene olhou seriamente para ele e depois disse:
    - Acho que voc est precisando de uma consulta especial.
    -        Como assim?
    -        Vou marcar e vamos ver o que acontece.
    -        Como  isso?
    -  uma reunio  qual voc vai comparecer, sentar-se em uma cadeira por alguns instantes.
    No precisa dizer nada. Basta dar apenas seu nome e endereo. Os espritos vo averiguar seu caso e dar orientao.
    -        Eles vo falar comigo?
    -        No. Conversaro com os mdiuns videntes que fazem parte dessa reunio. Cada um deles vai anotar tudo que conseguir ver sobre seu caso. Depois voc 
volta aqui e conversaremos.
    -        Vo poder saber se Gabriela me trai?
    - Eles podem ver muitas coisas, mas s vo dizer o que for permitido pelo plano superior.
    Entretanto, pela experincia que tenho tido, eu o aconselharia a seguir todas as orientaes que eles lhe derem.
    -        Pois eu gostaria que eles me dissessem a verdade. Seja ela qual for,  prefervel a este tormento.
    -         voc quem est se atormentando, imaginando o pior. Por que no tenta olhar para o outro lado? Por que no pensa que sua mulher sempre lhe foi fiel 
e est se esforando para ajud-lo a manter a famlia? Tenho certeza de que se sentiria bem melhor e muitos dos seus problemas acabariam.
    Roberto suspirou fundo, depois disse:
    - Se eu pudesse, faria isso.  que quando penso dessa forma me sinto um bobo, enganado, iludido, fracassado.
    - O orgulho  o maior obstculo  felicidade. Ilude, infelicita, destri. Cuidado com ele.
    - Sou um homem simples. Vim de baixo. Sou de origem humilde.
    Cilene sorriu e respondeu:
    - Ser pobre, sem instruo, levar vida modesta, no  prova de humildade. Se voc fosse humilde, no se sentiria ofendido por sua esposa manter a casa enquanto 
estava desempregado.
    Voc se sentia envergonhado. A vergonha  sinnimo de vaidade.
    - Sentia-me incapaz, e isso di. Depois, minha me  muito preocupada e vivia atrs de mim querendo saber como iam as coisas. ELa tambm no gosta que Gabriela 
trabalhe fora. Acha que ela deveria ficar em casa para cuidar dos filhos. Temos dois, como j Lhe contei.
    - As mes se preocupam e no percebem que as vezes contribuem para aumentar os problemas, interferindo indevidamente na vida do casal.
    - Minha me  pessoa muito dedicada  famlia. Nunca trabalhou fora.
    -  de outra gerao, tem outros costumes. Mas hoje a mulher mais independente. Depois, o casamento  uma sociedade em que tudo deve ser compartilhado. Pense 
nisso. Vou marcar a consulta e voc vai voltar aqui no prximo sbado, s duas da tarde.
    Preencheu um papel e entregou-o a ele, finalizando:
    - Agora v tomar seu passe. Pense em tudo quanto eu lhe disse. Seja sincero, analise com cuidado tudo que costuma pensar. Faa mais. Pegue um papel e anote todas 
as vezes que tiver um pensamento desagradvel.
    - Anotar? No vai ser pior?
    - No. Vai mostrar-lhe como anda sua cabea.
    Roberto saiu. Estavam chamando para o tratamento. Ele entrou novamente na sala em penumbra e rezou. Pediu a Deus que o orientasse e esclarecesse. Saiu de l 
mais calmo, aliviado.
    Na volta para casa, rememorou tudo quanto Cilene lhe dissera. As palavras dela fizeram-lhe muito bem, mas em meio a isso pensava que ela era ingnua, como todas 
as pessoas que se dedicam  religio, e que por isso no via mal em nada.
    Quando dava fora a esse pensamento, sentia que a depresso voltava. Lembrava-se de que ela lhe pedira para tomar nota dos maus pensamentos. Arranjou um papel 
no bolso e resolveu escrever suas dvidas.
    Seria muito bom se o que ela dissera fosse verdade. Se Gabriela nunca o houvesse trado, se ela realmente s estivesse cuidando do trabalho e da famlia. Esse 
pensamento dava-lhe alvio, mas logo a dvida reaparecia e ele sentia voltar a depresso.
    Agitava-se pensando que no podia ser ingnuo e deixar-se influenciar por Cilene. Ela dizia isso para acalm-lo, era funo dela no trabalho que estava realizando. 
De nada adiantava enganar-se nem tentar acobertar uma verdade que ele no desejava ver.
    Por mais que tentasse, nunca poderia deixar de notar o quanto Gabriela havia mudado com relao a ele. Evitava contato ntimo, isso ele no podia aceitar. Certamente 
estava apaixonada por outro e por isso no sentia prazer aceitando suas carcias.
    As mulheres so sensveis e diferentes dos homens, que podem relacionar-se apenas por atrao sexual. Sua me sempre dizia que, quando uma mulher est apaixonada 
por um homem, sente repulsa em manter relaes sexuais com outro.
    A esse pensamento, Roberto sentiu-se inquieto, faltou-lhe o ar. Respirou fundo e resolveu esquecer os conselhos de Cilene. Era uma boa pessoa, bem intencionada 
mas muito distanciada da realidade.
    Voltaria para a consulta marcada e continuaria o tratamento, porque se sentia aliviado cada vez que ia l, contudo continuaria com os ps no cho, vivendo sua 
triste realidade.
    Se ao menos pudesse ter certeza de que um dia Gabriela mudaria, voltando a am-lo como antes! Para conseguir isso, faria qualquer sacrifcio, inclusive o de 
continuar sofrendo calado, sem dizer a ela que sabia de tudo.
    Ao mesmo tempo que decidia isso, Roberto sentia-se abatido, triste. Dizia a si mesmo que no podia esmorecer.
    Se era de dinheiro que ele precisava para restabelecer o equilbrio de sua famlia, ele no mediria sacrifcios para consegui-lo.
    Foi para casa disposto a elaborar um plano de ao que lhe permitisse ganhar dinheiro rapidamente.
     Ao chegar, Gabriela j estava sentada  mesa, jantando. Vendo-o entrar, disse:
     - No o esperei porque no sabia se viria para o jantar. Ultimamente voc no mantm horrio nem avisa quando vai chegar.
-        No tem importncia.
-        Vou colocar um prato para voc.
     Nicete apareceu na porta.
- Pode deixar, D. Gabriela. Eu coloco. Vou lavar as mos disse Roberto.
     Ele foi ao banheiro lavar-se, pensando:
     "Antes ela me esperava mesmo que eu chegasse  meia-noite!'
     Sentou-se  mesa, esforando-se para distender a fisionomia e deixar transparecer um ar amvel.
     Gabriela comia em silncio. Ele se serviu e comeou a comer, de vez em quando olhando-a disfaradamente. Ela lhe pareceu distante, perdida em seus prprios 
pensamentos. Tentou conversar:
     -        Gostaria de ter chegado mais cedo, mas h clientes que no respeitam os horrios. No tm nenhuma pressa. Gostam de conversar, e  preciso ter pacincia, 
deix-los falar. No fim, acaba saindo algum negcio ou pelo menos a promessa de alguma coisa para o futuro.
     - Tudo bem.
     Ele continuou:
    -        Estou com alguns planos que acredito daro bom resultado. Tenho certeza de que dentro de pouco tempo estarei ganhando mais dinheiro.
    Ela no disse nada. Ele se irritou, mas esforou-se para controlar o mau humor. Gabriela no parecia interessada em manter uma conversa com ele.
    A situao estava pior do que havia pensado. Sentiu um aperto no peito. E se ela resolvesse separar-se? Agora estava ganhando o suficiente para manter at a 
famlia, no precisava dele para nada.
    Remexeu-se na cadeira inquieto. Ele no suportaria uma separao. Precisava tentar todos os recursos. Engoliu a raiva e a tristeza. Terminou o jantar e depois 
da sobremesa, antes do caf, ele se levantou, foi at a cadeira dela, pousou a mo em seu ombro e disse:
    -        Estou achando voc muito calada. Aconteceu alguma coisa? Gabriela levantou os olhos para ele, encarando-o.
    No. Est tudo bem.
    -        Pois no parece. Tenho impresso de que est com algum problema.  algo com as crianas?
    -        Engano seu. As crianas esto bem.
    -         que voc me pareceu to distante, nem se interessou pelos meus planos de negcio, como fazia antigamente.
    -        Tudo muda, Roberto. Ns mudamos. Hoje estou mais madura, e o fato de eu estar mais discreta no significa que no esteja interessada em seu progresso 
profissional. Fico feliz que esteja encontrando novamente o caminho da prosperidade. Voc sabe disso.
    Ele no respondeu. Voltou para seu lugar, serviu-se de caf. Decididamente ela estava diferente. A Gabriela de antigamente no existia mais.
    Tentou dissimular sua tristeza e depois se sentou em sua escrivaninha, na pequena sala que lhe servia de escritrio, e tratou de trabalhar.
    Apanhou um caderno que lhe servia de agenda e anotou: no dia seguinte iria  Prefeitura visitar um funcionrio seu conhecido e tentar conseguir dele uma relao 
de todos os projetos de construo de imveis aprovados nos ltimos meses. Sabia que com uma boa gorjeta conseguiria.
    Depois, analisaria esses projetos e entraria em contato com os proprietrios desses imveis.
    Desde que recomeara a trabalhar freqentando as obras, pretendendo arranjar material melhor e mais barato para os encarregados, descobriu que muitos deles enganavam 
os proprietrios, superfaturando os materiais, no s para ter maiores comisses, uma vez que ganhavam por valor do material gasto na obra, como engolindo polpudas 
quantias que certas empresas lhes pagavam pela sua preferncia na compra. Por isso no tinham muito interesse em que Roberto conseguisse preos melhores.
    Ele pensou que, se procurasse os proprietrios, oferecendo seus servios para conseguir baixar os custos da construo, Levando-lhes oramentos que comprovassem 
que, contratando-o, eles economizariam muito, tinha certeza de que em pouco tempo voltaria a ganhar dinheiro.
    Claro que ele precisava conquistar a confiana desses proprietrios. Pretendia trabalhar com muita honestidade e dedicao. Por isso tinha a certeza de que conseguiria 
seu intento.
    De repente ele teve uma idia: de incio no exigiria um salrio, apenas uma comisso em tudo que o cliente conseguisse economizar. Era um excelente negcio. 
Qualquer pessoa aceitaria imediatamente.
    Como se tratava de uma comisso sobre algo que o cliente estava ganhando, j que gastaria menos do que lhe haviam pedido, ele poderia colocar um ndice melhor.
    Quem fosse economizar dez mil reais, certamente no se importaria em dar-lhe vinte por cento desse dinheiro. Anotou todas as idias, pretendendo iniciar no dia 
seguinte.
    Quando ele foi se deitar, Gabriela j estava dormindo. Passava das onze horas. Notou que ela no o esperara para dormir, mas estava por demais interessado em 
seus planos para ficar remoendo isso.
    A partir do dia seguinte, tudo iria mudar. Ela deixaria de v-lo como um incapaz, um imbecil que fora roubado pelo scio. Ele mostraria a ela que era muito capaz. 
Ganharia mais dinheiro do que aquele empresrio pelo qual ela tinha tanta considerao.
    Cerrou os punhos com fora, dizendo baixinho:
    - Voc vai ver, Gabriela, com quem est casada! Eu juro! A vai se arrepender de me trair, de jogar fora nossa felicidade. Vou provar para voc que sou um homem 
capaz.
    Sentiu-se confortado com esse pensamento. Virou-se para o lado e sem mais problemas conseguiu adormecer.

Captulo 10

    Renato chegou ao escritrio nervoso, agitado. Tivera uma discusso com Gioconda, e ela, como sempre, se refugiara na cama alegando mal-estar.
    Estava difcil levar adiante a vida familiar, porqanto sua mulher
a cada dia mais e mais se mostrava incapaz e fraca. Ele percebia que, com
a desculpa de estar se sentindo mal, ela fazia tudo do jeito que queria,
perturbando a educao dos filhos e o andamento da casa. At os criados estavam abusando, e ele, embora notasse, no queria intervir. Pensava que, enquanto ela estivesse 
se ocupando com os problemas domsticos, pelo menos desviaria um pouco a ateno dos membros da famlia. No podia conceber que uma mulher como ela, forte, saudvel, 
tendo uma famlia bonita, conforto e bem-estar, se comportasse como uma criana mimada, estragando sua prpria vida colecionando problemas inexistentes, imaginando 
dificuldades, tornando-se to alheia  realidade como as crianas.
    Enquanto se tratava dela, de sua maneira errada de viver, no quisera intervir. Mas, agora, as crianas estavam sendo prejudicadas, e isso ele no iria tolerar.
    Estava cansado das chantagens que ela fazia com os filhos a propsito de qualquer coisa, obrigando-os a fazer tudo que ela quisesse.
    Ricardinho, inteligente e esperto, percebia o jogo dela. Renato notava que o menino perdera completamente o respeito pela me, no lhe obedecendo em nada, a 
no ser quando ele intervinha.
    Com ele, o menino mostrava-se completamente diferente. Depois que ele se aproximara, ouvindo-o, levando em considerao suas opinies, ele mudara radicalmente 
seu comportamento na escola.
    Tornara-se querido pelos colegas. Os professores, admirados, contavam ao pai satisfeito os progressos que Ricardinho fizera, tornando-se mais corajoso em assumir 
seus erros e interessado em aprender mais.
    Mas em casa, com a me, ele andava impossvel. Quando o pai no estava, divertia-se em atorment-la, inventando histrias sobre os colegas, deixando-a assustada.
    Naquela manh ela lhe dissera na mesa do caf:
    - Estou preocupada com Ricardinho. Estou procurando outro colgio para ele. Nesse no quero que ele fique.
    -        Por que isso agora? Ele est indo bem nos estudos, os professores at o elogiam.
    - Isso eles dizem a voc. Mas Ricardinho tem colegas perigosos. Ontem ele me contou coisas de arrepiar. So verdadeiros marginais. No quero que meu filho fique 
em companhia deles. J pensou o que pode acontecer?
    -        No acredite em tudo que ele diz. As crianas gostam de fantasiar. Ricardinho tem uma mente frtil. Acho que ele andou lendo muitas revistas em quadrinhos.
    -        O que no posso acreditar  que voc oua isso e no tome nenhuma providncia. Se voc no for, eu mesma irei ao colgio para pedir sua transferncia. 
Alis, j escolhi um outro. Eles ficaram de me arranjar uma vaga.
    Renato, contrariado, colocou a xcara de caf sobre o pires.
    -        Gioconda, deixe Ricardinho por minha conta. Estou satisfeito com o colgio e com ele. No vejo motivo para transferi-lo. Estamos no segundo semestre, 
e uma mudana agora com certeza vai prejudic-lo.
    -        No sei o que est acontecendo com voc. Antes deixava que eu cuidasse dos nossos filhos. Agora est interferindo, e isso est sendo desastroso. Ele 
no me obedece. Quando pergunto das aulas, desconversa. Para mim, esse menino est escondendo algo, e voc fica a, nessa postura calma, sem fazer nada. J pensou 
se ele estiver fazendo alguma coisa errada?
    -        Nosso filho no  um marginal, se  disso que voc tem medo.  um menino inteligente e no vai deixar-se levar por ningum.
    -        Pois eu sinto que no  assim. No quero que ele estude mais nesse colgio e vou tir-lo.
    Renato levantou-se, olhando para ela e tentando controlar a raiva:
    - Voc est proibida de fazer qualquer coisa. Ele vai continuar l e no se fala mais nisso.
    -        Puxa, voc est sendo grosseiro comigo! Nunca pensei que chegasse a tanto. Logo eu, uma me preocupada com o futuro dos nossos filhos. Pode haver maior 
ingratido?
    -        No se faa de vtima. Voc  uma mulher privilegiada, tem tudo de que precisa para ser feliz. Por que prefere colecionar problemas?
    -        Tenho tudo, menos um marido que me apie. Comeo a pensar que voc no me ama mais. Est mudado. No me trata mais como antigamente. O que est acontecendo?
    -        Nada. No est acontecendo nada. Quem mudou foi voc. No  mais a moa alegre e agradvel com quem me casei. Sempre que chego em casa tem uma nova 
reclamao, vive chorosa pelos cantos. As vezes olha-me como se eu fosse culpado de alguma coisa.
    -         que a vida no  do jeito que eu gostaria. Meus filhos no ligam para mim, meu marido est se distanciando a cada dia. Eu no fiz nada para isso. 
Tenho desempenhado meu papel de esposa e me com devotamento.
    Renato sentia-se irritado. Detestava discutir logo cedo, principalmente com Gioconda, cujos argumentos infantis o indignavam. Apesar do esforo para controlar-se, 
ele no conseguiu segurar as palavras:
    -        Isso  o que voc diz. Mas passa os dias folheando revistas, conversando com as amigas ao telefone, circulando pelas lojas. O que voc tem  tdio. 
Est jogando fora sua vida, gastando seu tempo sem fazer nada de til. Penso que, se procurasse algum trabalho para fazer, ocupasse seu tempo com coisas interessantes, 
no ficaria criando problemas para sua famlia. H muitas obras filantrpicas precisando de voluntrias. Por que no tenta ocupar-se? Garanto que lhe faria muito 
bem.
    O        rosto de Gioconda cobriu-se de rubor, e ela, indignada, levantou-se:
    -        No d para conversar com voc! No vou ficar aqui ouvindo. O ar est me faltando. Vou tomar meu remdio.
    Saiu revoltada, e Renato, meneando a cabea contrariado, no terminou o caf. No carro, enquanto se dirigia para o escritrio, sentia-se desanimado.
    Sua mulher era um desastre. Imatura, incapaz, vaidosa e cheia de exigncias. Ele sentia que precisava fazer alguma coisa, mas o qu?
    Gabriela entrou na sala e percebeu logo que ele no estava bem.
    -        Dr. Renato, trouxe-lhe aquele contrato que me pediu. Fiz algumas consideraes sobre o projeto e gostaria que o senhor visse.
    -        Agora no. Estou sem cabea para resolver qualquer assunto.
    -        Desculpe, doutor. Aconteceu alguma coisa?
    -        O de sempre. S que hoje Gioconda caprichou. Conseguiu tirar-me do srio e acabamos discutindo. Ela foi para a cama, e, se a conheo bem, a estas horas 
j deve ter infernizado a vida de seu mdico, dos empregados. Felizmente as crianas esto na escola.
    -        Podemos deixar para amanh. Temos prazo.
    Ela ia se retirando quando ele disse:
    -        Espere, Gabriela. Estou arrasado. Sou um homem educado. Detesto discutir logo cedo com uma pessoa to confusa quanto Gioconda. Ela no se coloca como 
qualquer pessoa faria. Ela se faz de vtima e atira toda a culpa sobre mim.
    -        Se o senhor sabe disso, no precisa se aborrecer. Cada pessoa como , e no temos como mud-las.
    -        Est difcil continuar convivendo. Estou cansado. Sinto que preciso fazer alguma coisa, mas no sei o qu. Gostaria que ela percebesse que est jogando 
fora nossa felicidade. Eu amo minha famlia.
    Gabriela pensou em Roberto e suspirou. Ela tambm gostaria de fazer alguma coisa para que ele voltasse a ser como antes.
    -        H muitas pessoas com problemas de relacionamento. Nesses casos, o melhor  procurar um terapeuta.  o que eu faria se tivesse dinheiro para isso.
    -        Voc tambm est com problemas com seu marido?
    - Os de sempre. Ele  muito ciumento, como o senhor sabe.
    - Nesse caso, quem deveria procurar ajuda teraputica  ele.
    -        . Mas ele nunca faria isso.  um homem antiquado. Sua mulher concordaria em procurar ajuda de um psiclogo?
    -        No sei. Acho que no. Ela vive com mdicos, pretendendo provar que tem alguma doena para nos comover. Para ir a um terapeuta, teria que admitir que 
precisa de ajuda. Isso acho que ela no faria. Pensa que est sempre certa. Os outros  que esto todos errados.
    Gabriela sorriu.
    - Meu marido  igual. Sempre acha que est com a razo.
    Depois que Gabriela se foi, Renato ficou pensando. A idia era boa. Se Gioconda concordasse em procurar um psiclogo, talvez pudesse melhorar, O que no dava 
era para continuar daquele jeito.
    No fim da tarde, ao chegar em casa, encontrou-a na sala, folheando uma revista. Gioconda no respondeu quando ele cumprimentou.
    Renato respirou, tentando segurar o mau humor que tornaria as coisas ainda piores. Procurou contornar:
    -        Vejo que est melhor.
    Ela olhou sria para ele e respondeu:
    - Preciso me fazer de forte, tenho dois filhos pequenos para criar. Renato sentou-se na poltrona em frente a ela.
    -        Gioconda, nossa discusso de manh deixou-me de pssimo humor. No gosto de discutir com voc.
    -        E voc acha que eu gosto? Passei o dia inteiro indisposta. Sabe como tenho a sade delicada.
    Ele procurou ignorar suas palavras e continuou:
    -        Precisamos conversar. Ultimamente no estamos nos entendendo. No desejo continuar assim. Nossos filhos precisam viver em um lar harmonioso, tranqilo, 
alegre.
    -        Voc mudou de algum tempo para c.
    -        No  verdade. Eu amo voc, vivo para a famlia e para meu trabalho.
    -        Pois no parece. Vive me contrariando. Pode avaliar como me sinto quando me desautoriza diante dos nossos filhos?
    -         sobre isso que quero conversar. Com relao  maneira de educ-los, temos idias diferentes. Temos que discutir e acertar nossas diferenas nesse 
sentido em benefcio deles. No gosto de intervir quando voc decide alguma coisa. Tenho certeza de que deseja o melhor para eles. Mas s vezes voc no percebe 
que algumas atitudes que toma no do bom resultado.
    -        Quer dizer que no sei educ-los?
    -        No diria isso. Voc sempre foi uma me amorosa, interessada. Mas, Gioconda, voc tem se colocado em uma posio frgil diante deles, e essa no  uma 
postura adequada.
    -        Sou uma mulher sensvel. No consigo tolerar certas coisas...
    -        Respeito sua sensibilidade, mas j reparou como Ricardinho procede exatamente como voc? At Clia, que era mais alegre, est adotando sua postura.
    -        O que h de errado que os filhos copiem a me? Isso  natural nas crianas.
    -  que voc vive se queixando, reclamando de tudo, mostrando-se fraca. Fazendo isso, eles tambm se tornaro fracos como voc. Enquanto so crianas, esto 
protegidos. Mas, quando forem viver a prpria vida, estaro despreparados. As pessoas s respeitam os fortes, quase sempre costumam passar por cima dos fracos, esmagando-os.
    Gioconda levantou-se nervosa:
    -         isso que pensa que eu sou? Uma fraca? At que tenho sido muito forte agentando tudo que me tem acontecido. No pode falar isso de mim, no pode.
    As lgrimas estavam prestes a cair, e ela saiu da sala indo fechar-se no quarto. Renato passou a mo pelos cabelos desanimado. Qualquer conversa com ela naquele 
sentido era impossvel. Ela lhe pareceu realmente desequilibrada. Antes ela no era tanto assim. E se com o tempo piorasse?
    Ele precisava fazer alguma coisa, mas o qu? Aquela tentativa lhe valeria mais alguns dias de cara fechada, de suspiros e idas ao mdico. Era isso que ela faria. 
Ouviu o rudo de algum discando no telefone. Era ela com certeza solicitando a visita do mdico, como sempre fazia.
    No dia seguinte, desanimado, contou a Gabriela o que acontecera. Ela ouviu-o com ateno e ao final sugeriu:
    - Se D. Gioconda no vai ao terapeuta, porque o senhor no vai no lugar dela?
    - Eu?
    - Claro. Ele poder lhe dar sugestes de como ajud-la.  a pessoa certa para isso.
    - . Sabe que tem razo? Estou me sentindo perdido. Preciso mesmo de uma direo de quem entende. Se continuar como est, tenho certeza de que no suportarei 
por muito tempo.
    Como eu disse, amo minha famlia. No desejo me separar, por causa das crianas. Nesses casos a lei favorece a maternidade. Sinto que Gioconda no est preparada 
para educ-Los como  preciso. Tenho que ficar l, fazendo minha parte. Mas est cada dia mais difcil.
    - O senhor  um bom pai. Procurar ajuda especializada  o melhor caminho.
    -  o que farei.
    Gabriela saiu pensativa da sala. Por que na hora de casar as pessoas escolhiam errado? Um homem bonito, rico, culto, amoroso e sincero, por que se casara com 
uma mulher despreparada, que estava tornando aquele lar infeliz?
    Pensou em seu casamento. Se pudesse voltar atrs, no se casaria com Roberto. Lembrou-se de seus sonhos de moa, das idias que fazia de como deveria ser um 
casamento harmonioso e feliz.
    Na verdade, ningum conhece ningum intimamente. As iluses, os sonhos, so muito agradveis. Mas as pessoas nunca so como as vemos. Com o tempo, a verdade 
aparece e  preciso esquecer os sonhos, juntar os pedaos de realidade e tentar pelo menos levar adiante.
    Renato falara nos filhos. No fosse por eles, certamente ele j teria se separado da esposa. E ela, teria feito o mesmo? Se no tivesse Guilherme e Maria do 
Carmo, tambm teria se separado?
    Lembrou-se dos primeiros tempos de casamento. Ela amava o marido. Casara-se por amor.
    Haviam vivido momentos de felicidade. Quando tudo comeou a mudar?
    Percebeu que, mesmo quando ele estava bem, antes de Neumes haver levado todo o dinheiro, as coisas j haviam comeado a modificar-se. Quanto mais ele ganhava, 
mais insistia para que ela abandonasse o emprego. Insistia para que ela mudasse de hbitos, usasse roupas sem graa, no se maquiasse. Quando saam a passeio, preferia 
andar por lugares com pouca gente. Se ela desejava ir a alguma festa, ele acabava se atrasando, indo sem vontade, criticando suas roupas, vigiando-a o tempo todo. 
Era insuportvel.
    Gabriela era jovem, cheia de vida, gostava de viver. Ele e D. Georgina sugeriam que ela era leviana. Isso a ofendia profundamente. Sempre fora sincera e respeitara 
o marido. Nunca lhe dera nenhum motivo para duvidar de sua dignidade.
    Gabriela tinha a sensao de que ele de certa forma at gostara de terem ficado sem dinheiro, porque assim no podiam ir a lugar algum.
    Apesar de tudo, ela no pretendia mudar em nada. Gostava de vestir-se na moda, de ficar bonita, olhar-se no espelho e sentir-se viva, alegre, bem cuidada. No 
podia entender por que deveria ficar feia, maltratada, s porque era casada. Seu marido deveria sentir-se orgulhoso de ser casado com uma mulher bonita, charmosa, 
agradvel.
    Lembrou-se de que Renato reclamava exatamente disso, que sua esposa no se interessava em ficar bonita, em cuidar da aparncia. Se Gabriela fosse casada com 
um homem como ele, certamente no o decepcionaria. Andaria no maior luxo, ele teria orgulho dela.
    Suspirou resignada. Afinal, escolhera Roberto por marido, e Renato escolhera Gioconda. Ningum poderia mudar aquilo.
    Renato telefonou a um amigo mdico pedindo que lhe indicasse um bom terapeuta. Conseguiu o nome e o endereo e ligou marcando hora. Ficou admirado ao saber que 
s havia vaga para dali a quinze dias. No imaginava que tantas pessoas procurassem aquele servio.
    Marcou a consulta, e a sensao de estar fazendo alguma coisa em favor de sua famlia deixou-o um pouco aliviado. Depois se esforou em esquecer o assunto. Havia 
muito trabalho a atender, decises importantes a tomar, e ele precisava estar lcido para fazer o melhor.
    Gioconda olhou o relgio e pensou desanimada:
    "Minha vida est cada dia mais sem graa. O que est acontecendo conosco? Renato nunca me tratou dessa forma. J no me procura como antes. Ter deixado de me 
amar?"
    Levantou-se da poltrona e foi olhar-se no espelho do hall. Seus olhos estavam sem brilho, e as olheiras fundas davam um aspecto envelhecido a seu rosto. J no 
era mais a mocinha com a qual ele se casara. Os anos haviam deixado sua marca.
    E se ele houvesse se apaixonado por outra? Isso justificaria sua falta de interesse. E se ele resolvesse abandon-la?
    Gioconda passou a mo pelo rosto preocupada. Sempre ouvira falar que o casamento tinha momentos de crise. A rotina, os filhos, tudo contribua para que aos poucos 
a paixo dos primeiros tempos desaparecesse.
    Os sintomas eram claros. Seu marido estava entediado e nem sequer disfarava. Que ingratido! Ela sempre se esforara em ser uma boa esposa e cumprir seus deveres, 
chegando at o sacrifcio de deixar seus interesses de lado para cuidar primeiro da famlia.
    Isso no valia nada. Os homens so venais e esto sempre interessados em novas conquistas.
    Acreditava haver encontrado um homem fiel e dedicado, mas estava enganada. Ele era como os outros. Bastou ela ficar um pouco mais envelhecida e pronto, ele se 
mostrava distante e desinteressado.
    Renato chegara ao ponto de criticar suas atitudes, como se ela  que fosse culpada pela infelicidade que estavam sentindo. No adiantava negar. Ele se sentia 
infeliz dentro de casa, evasivo, preferindo isolar-se com os filhos ou no escritrio lendo.
    Quando estava em casa, nunca a procurava para trocar idias, como faziam no comeo de casados. Ela nunca sabia se ele estava triste ou alegre, preocupado ou 
relaxado.
    A iniciativa para conversar sempre partia dela, e ele a ouvia com aquele ar distante, sem muito interesse, embora fosse educado, atencioso.
    Ultimamente, ento, dava mais razo s crianas, aos estranhos, do que a ela. Interferia na educao dos filhos, mostrando claramente que no concordava com 
sua forma de pensar.
    A cada dia que passava as crianas estavam mais difceis de lidar. No lhe obedeciam, faziam-se de desentendidas quando ela dava uma ordem. Ela no podia reclamar 
a Renato, porque com o pai elas agiam completamente diferente.
    Renato, com aquela histria de ouvir o que eles pensavam, acabava por facilitar que o enganassem. Na opinio dela, criana tinha de ouvir e obedecer. Dar importncia 
ao que elas pensavam seria relaxar a disciplina, favorecer a que mentissem. Estava claro que fingiam diante dele. Por que Renato no percebia?
    Ela precisava reagir. Fazer alguma coisa para salvar seu casamento. Mas o qu?
    Lembrou-se de que sua amiga Leucdia lhe contara que fora a uma cartomante maravilhosa.
    No s adivinhara detalhes de sua vida mas tambm previra muitas coisas do seu futuro.
    Resolveu fazer uma consulta. Pelo menos poderia descobrir se havia outra mulher na vida de Renato.
    Foi ao telefone e falou com a amiga, pedindo o endereo.
    - V, sim, Gioconda - respondeu Leucdia com entusiasmo. -Ela  boa mesmo. Falou tudo sobre Geraldinho, at que ele estava com problemas na empresa por causa 
da inveja de um colega que estava fazendo tudo para tomar-lhe a chefia. Acertou em cheio.
    -        Vou telefonar e marcar logo. Quero ir hoj e mesmo.
    -        Diga que fui eu quem a indicou. Sabe como , ela s atende por indicao. Tem medo da polcia. Eles no gostam dessas coisas.
    -        Compreendo.
    - Voc est com algum problema?
    -        Problema, propriamente, no. Mas tenho notado Renato diferente nos ltimos tempos. Bateu uma desconfiana...
    -        Huuum... Para isso ela  tima. Voc vai ver. Se no tiver nada, ela fala logo; mas, se tiver, revela tudo.
    -        Estou ansiosa. Eu ligo depois da consulta.
    - Ficarei esperando.
    Gioconda desligou e ligou em seguida para a cartomante. Depois de dizer quem a indicara, insistiu. Queria a consulta imediatamente.
    -        Madame Aurora no tem hora vaga para hoje, minha senhora. No posso fazer nada.
    -        Por favor,  urgente... Diga a ela que eu pago o quanto for.
    -        Ela est atendendo a uma pessoa e no posso interromper. Deixe o seu telefone. Vou conversar com ela assim que a cliente sair e ligarei para a senhora. 
Mas desde j lhe digo que no vai ser fcil. Madame respeita a fila. No passa ningum na frente.
    -        Faa uma forcinha. Saberei reconhecer sua boa vontade, tenha certeza. Preciso falar com Madame Aurora ainda hoje.
    -        Est bem. Verei o que posso fazer.
    Ela desligou o telefone e tratou de se arrumar para sair. Sabia que iria conseguir. O dinheiro sempre abre todas as portas. E ela estava disposta a pagar regiamente 
pela consulta. Sua tranqilidade valia muito mais.
    Quase uma hora depois, o telefone tocou: ela havia conseguido uma consulta para aquela tarde. Gioconda sorriu. Quando queria alguma coisa, sempre conseguia.
    Cinco minutos antes da hora marcada, ela j estava tocando a campainha da casa de Madame Aurora. Uma moa convidou-a a entrar, conduzindo-a a uma sala mobiliada 
com luxo e bom gosto.
    -        Queira sentar-se, senhora. Madame est se preparando para atend-la.
    Gioconda no conteve a curiosidade:
    - Ela se prepara para atender a cada cliente?
    -        Claro. Ela faz um pequeno intervalo entre um atendimento e outro para manter a privacidade dos clientes e tambm para renovar as energias da sala. Mas 
sente-se, fique  vontade. No vai demorar.
    Gioconda sentou-se e esperou. Estava emocionada. O que iria saber?
    A moa apareceu na sala e pediu:
    -        Vamos entrar, por favor.
    Gioconda acompanhou-a pelo corredor at outra sala.
    -        Pode entrar.
    Gioconda abriu a porta e entrou. A sala estava em penumbra e havia no ar um forte cheiro de incenso. Pesadas cortinas fechavam as janelas. Atrs de uma mesa, 
uma mulher de meia-idade estava sentada,  espera. Vendo-a entrar, fixou-lhe os olhos penetrantes.
    Gioconda estremeceu. Havia alguma coisa diferente naquela mulher. Cabelos castanhos, lisos, presos em um coque na nuca, rosto moreno, lbios grossos, traos 
fortes embora fosse magra.
    -        Sente-se, Gioconda - disse ela com voz suave.
    Ela obedeceu. Sobre a toalha bordada da mesa, um baralho bastante manuseado, uma lamparina acesa.
    -        Voc me procurou porque no est segura em sua vida. As mudanas esto ocorrendo e voc no sabe como as enfrentar.
    -        . De fato. Meu marido mudou muito. Suspeito que haja outra mulher.
    -        Vamos ver. Corte o baralho com a mo esquerda trs vezes. Gioconda obedeceu, e a mulher, com mos geis, manuseou as cartas, dispondo algumas delas 
sobre a mesa, dizendo:
    -        Voc est certa. Sua vida familiar corre perigo. Seu marido est muito distante da senhora.
    Veja: ele est Lhe voltando as costas.
    -        Bem que eu senti isso. Diga, ele tem outra?
    Ela continuou manuseando as cartas e continuou:
    -        Ainda no. Mas est em via de apaixonar-se por outra. Veja: uma mulher bonita, mais jovem do que voc.
    -        Quem ser?
    -        Ela  muito infeliz no casamento. Est sempre do Lado do seu marido.
    -        Nesse caso tem alguma coisa com ele...
    -        No. Ainda no. Seu marido trabalha no qu?
    -         empresrio. Por qu?
    -        Porque acho que essa moa trabalha com ele. Est sempre mexendo com papis. Voc conhece as pessoas que trabalham com ele?
    -        No. Nunca vou  empresa. No gosto de me meter nos negcios.
    -        Pois tome cuidado. Trate de ir verificar. Trata-se de uma mulher muito bonita e atraente. Ele a admira muito. Da a se apaixonar  fcil. Corte o baralho 
novamente.
    Ela obedeceu e Aurora prosseguiu:
    -        Veja... De novo! Confirmado! Veja: os dois aparecem sempre juntos. Um olhando para o outro. Ele lhe faz confidncias.
    -        Confidncias? Sobre nossa vida particular?
    -        Sim. Ela ouve e aconselha. Ele anda triste com voc. Est desanimado. Vocs no esto se entendendo bem nos ltimos tempos.
    -        Se ele est interessado em outra...
    -        O afastamento dele ainda no  por isso. Voc no est sabendo Lidar com ele. Precisa mudar se quiser conservar o marido.
    -        Como assim?
    -        Voc  que tem de notar o que est fazendo que o deixa descontente. Ele se afasta porque voc tem estado muito queixosa. Vive reclamando de tudo.
    -        Eu?
    -        Sim. Se ama seu marido, trate de mudar sua forma de viver dentro de casa. Caso contrrio, ele vai se afastar cada dia mais.
    -        Ele est se apaixonando por outra e a culpa  minha? Acho que voc no est vendo direito. Leucdia me disse que voc sabia tudo e iria me dizer a verdade. 
Eu acreditei. Agora vejo que no  bem assim.
    -        Sinto que voc est resistente. No quer saber a verdade. Essa postura s vai agravar seu caso. Seu marido  um homem bom, dedicado, mas eu o vejo cansado 
do relacionamento em casa.
    -        Agora fala bem dele e eu  que sou a errada. Acha que vou acreditar nisso? E dizer que prometi pagar um dinheiro por esta consulta. Acho que cometi 
um erro vindo aqui. Voc no sabe de nada. No ficarei aqui nem mais um minuto.
    Gioconda levantou-se. Aurora olhou para ela sem se perturbar com seu tom irritado e disse calma:
    -        Lamento. Voc me procurou para que eu lhe dissesse o que voc desejava ouvir. Mas eu prefiro lhe dizer o que estou vendo de fato. Se est lamentando 
seu dinheiro, no precisa pagar nada.  uma norma que tenho. Se meu cliente no est satisfeito, no cobro nada. V com Deus e pense no que ouviu aqui.
    Gioconda deu-lhe as costas e saiu dirigindo-se  porta da rua sem dar ateno  moa que a acompanhou silenciosa.
    Depois que ela saiu, a moa foi ter com Aurora, dizendo:
    - Que mulher antiptica, Madame.
     -        No diga isso, Maria. Ela pensa que sabe, mas est iludida. No deseja conhecer a verdade.
     -        Nesse caso, a vida vai cobrar o preo. Toda iluso deve ser arrancada.
     -         por isso que lhe peo para no a julgar. No vamos agravar seu estado. J basta o que ela consegue fazer por conta prpria.
     Maria sorriu.
     -        S a senhora para dizer uma coisa dessas!
     -         por isso que no gosto de abrir excees no atendimento. Geralmente os que se deixam levar pelo desespero, que no tm pacincia de esperar sua vez, 
so pessoas mimadas, cheias de iluses. Atend-las sempre nos causa problemas. Aprenda. Nunca mais insista para passar algum na frente.
     -        Sim, senhora.
     Gioconda saiu de l irritada. Essa era a mulher que adivinhava tudo? Leucdia estava enganada. Era uma embusteira que gostava de explorar o prximo. Ainda bem 
que no pagara a consulta. No fora l para ouvir desaforos nem para ouvir elogios ao seu marido.
     Mas apesar disso um pensamento incomodou-a. Haveria mesmo essa mulher ao lado dele, para quem Renato fazia confidncias? Podia ser mais uma mentira daquela 
farsante, mas, diante das circunstncias, no era demais verificar.
     Nos prximos dias faria uma visita  empresa do marido. Iria ver com seus prprios olhos.

Captulo 11

    Na tarde seguinte, Gioconda arrumou-se e foi ao escritrio de Renato. Sem se preocupar com o ar de admirao dos empregados, dirigiu-se ao andar da diretoria. 
Lembrava-se vagamente onde ficava a sala de Renato. Aproximou-se e entrou.
    Gabriela estava ao lado de Renato, esperando que ele assinasse alguns papis. Assim que Gioconda entrou, eles a olharam admirados. Renato levantou-se assustado.
    -        Voc aqui? Aconteceu alguma coisa?
    -        No. Por que se assustaram com minha presena? Ser que no sou bem-vinda aqui?
    Gabriela fez meno de retirar-se. Renato deteve-a, dizendo:
    - Um momento, Gabriela. Esta  Gioconda, minha esposa. -Voltando-se para ela, continuou:
    - Claro que  bem-vinda. Fiquei admirado porque voc nunca aparece por aqui. Depois, as pessoas costumam bater antes de entrar. Esta  Gabriela, minha assessora.
    Gioconda mediu-a de alto a baixo com curiosidade. Claro que a cartomante dissera a verdade.
    Tratava-se de uma mulher muito bonita, de uma beleza picante, como os homens gostam.
    - Vejo que est bem assessorado - disse ela com um sorriso, mas em tom que no ocultava uma ponta de ironia.
    -        Gabriela tem sido muito competente - disse Renato, esforando-se para conter a irritao.
    - Prazer em conhec-La, senhora - disse Gabriela sustentando o olhar dela com naturalidade.
    - Com licena.
    Ao sair, Gabriela ainda a ouviu dizer:
    -        O ambiente desta sala  aconchegante, no sabia que era to agradvel, eu deveria ter vindo antes.
- No veio porque no quis. Por que est aqui?
    -        Curiosidade. Afinal, voc passa mais tempo aqui do que comigo em casa.
    -        Preciso trabalhar. Se quer dar uma volta pela empresa para matar sua curiosidade, pedirei a Gabriela que a acompanhe.
    -        Pelo visto voc pede tudo a ela...
    - No gosto do seu tom. O que quer insinuar?
    - Nada.  que ela me parece muito eficiente mesmo. Eu vou aceitar o seu oferecimento. Desejo conhecer cada dependncia desta empresa.
    Renato apertou um boto, Gabriela atendeu:
    -        Sim, Dr. Renato.
    -        Gioconda deseja visitar nossa organizao. Gostaria que a acompanhasse.
    -        Sim, senhor.
    Gabriela abriu a porta, convidando-a a acompanh-la. Enquanto percorriam as dependncias da empresa, Gabriela ia explicando o que era feito em cada seo, porm 
Gioconda no estava nem um pouco interessada em suas palavras, apenas observava atentamente a elegncia de seu andar, a classe com que ia descrevendo tudo, o leve 
perfume que vinha dela, seus gestos delicados.
    Assustada, reconheceu que aquela mulher era muito atraente. Por isso seu marido andava to distante nos ltimos tempos. Talvez estivessem tendo um caso. Afinal, 
as secretrias querem subir na vida  custa do dinheiro do patro.
    Tratou de dissimular, sorriu e perguntou com naturalidade:
    -        Faz tempo que trabalha aqui?
    -        Cinco anos.
    -        Voc  casada? Tem filhos?
    -        Sou. Tenho dois filhos.
    -        Suponho que gosta do seu emprego, uma vez que est aqui h tanto tempo.
    - Gosto.  bom trabalhar aqui.
    - Imagino! Renato sempre foi um bom patro. As pessoas abusam dele o quanto podem.
    Gabriela no respondeu. Percebia que Gioconda estava com cime. Roberto costumava usar o mesmo tom quando queria especular sua vida. Aquela mulher era pior do 
que havia imaginado.
    Pelo que Renato deixava transparecer de vez em quando, imaginava que ela fosse difcil, mas ela ia alm, conseguia tornar-se muito antiptica. Esforou-se para 
no demonstrar desagrado. Era a esposa do patro e precisava trat-la com considerao. No tinha nada com as particularidades dela.
    Depois de darem a volta, Gabriela levou-a at a sala de Renato. Bateu levemente na porta. A uma ordem, abriu, esperou que Gioconda passasse e depois, ainda na 
soleira, indagou:
    -        Deseja mais alguma coisa, Dr. Renato?
    -        No. Pode ir.
    Gabriela voltou-se para Gioconda, dizendo:
    - A senhora aceita uma gua, um ch ou caf?
    -        No quero nada, obrigada.
    Gabriela afastou-se e Gioconda sentou-se na cadeira em frente escrivaninha do marido.
    -        Ento, gostou do que viu?
    - Sim. Parece que tudo est indo bem. S essa sua assessora  que destoa, no parece uma pessoa dedicada ao trabalho.
    - Engana-se, Gioconda. Gabriela  muito profissional, inteligente, dedicada. Tem me ajudado muito.
    Ela meneou a cabea negativamente.
    -        Profissional ela pode at ser, mas no de uma empresa.
    Renato impacientou-se. Gioconda estava exagerando.
    - Ela  minha melhor funcionria. Alm disso, como pessoa  esposa dedicada. O marido perdeu tudo e ela manteve a famlia, ajudou-o de tal maneira que agora 
ele est comeando a se recuperar. Voc no devia prejulgar as pessoas nem falar de quem no conhece.
    -        Ela  provocante... Viu como rebola? Acha que isso  adequado para quem est trabalhando?
    - Acho melhor voc parar. No creio que tenha vindo aqui para interferir no meu trabalho, criticar meus funcionrios.
    - Agora por causa dela voc est me maltratando. Vim aqui na melhor das intenes. Voc tem andado diferente nos ltimos tempos, tem me deixado de lado. Sabe 
h quanto tempo no fazemos amor? Pensei que, interessando-me pelo seu trabalho, aproximando-me de voc, poderamos voltar a ser como no princpio do nosso casamento. 
Mas acho que cheguei tarde...
    Voc prefere defender essa mulher a ouvir o que sua esposa tem para dizer.
    Renato passou a mo pelos cabelos tentando controlar a impacincia. A ltima coisa que desejava era discutir com ela ali. Resolveu contemporizar:
    -        Vamos sair um pouco, dar uma volta, conversar melhor. Aqui ao lado h uma confeitaria boa. Podemos nos sentar, tomar alguma coisa.
    - Deseja que eu v embora?  isso? Estou arrependida de ter vindo.
    - No tora minhas palavras. Voc est reclamando que temos estado distantes um do outro.
    Convidei-a para dar uma volta a fim de podermos trocar idias. Aqui  um escritrio, no  o melhor Lugar para isso.
    Gioconda cedeu. No queria que Gabriela descobrisse que ela sabia a verdade sobre os dois.
    Reconhecia que se tratava de uma mulher perigosa. Gioconda queria reconquistar o marido, e para isso precisava de tempo.
    Acompanhou-o tentando dissimular o mau humor. Na confeitaria, Renato procurou conversar com naturalidade, mas Gioconda no se interessava por nenhum dos assuntos 
que ele tocava.
    Ao mencionar os filhos, ela no se conteve:
    -        Ultimamente voc tem interferido demais na educao deles. Tenho me sentido intil, incapaz. Eu digo uma coisa para Ricardinho e voc diz outra. Antes 
voc no se envolvia, eu tinha autonomia. Agora ele no me obedece mais.
    -        As crianas precisam de firmeza. Voc cede a tudo que ele pede. Agora ele est estudando mais, tem melhores notas. Alm disso, o pai tambm deve ajudar 
na educao dos filhos.
    Gioconda remexeu-se na cadeira, inquieta.
    -        Voc est dizendo que faz isso porque eu no sei educ-los. Voc tem bom corao, cede com facilidade. As crianas so endiabradas, precisam de pulso, 
e nesse caso o pai  que precisa intervir.
    - Voc deu corda a ele contra os professores. Isso  errado. No dei corda a ningum. Fui saber o que havia acontecido e agi de acordo com os fatos. Os professores 
tambm erram.
    Procurei ser justo e saber quem estava com a razo.
    -        Acreditou nele. No sabe que Ricardinho mente para fugir  responsabilidade?
    -         isso que desejo evitar: que ele viva mentindo.  preciso valorizar a verdade, fazer com que ele no tenha medo de assumir o que faz. Isso s vai acontecer 
quando ele confiar em ns.
    - Est dizendo que nossos filhos no confiam em mim? Que sou culpada pelas mentiras que pregam? Isso  absurdo.
    -        No adianta tentar conversar com voc. Infelizmente pensamos de forma diferente. Jamais chegaremos a um acordo.  melhor irmos embora. Tenho muito que 
fazer no escritrio.
    Gioconda mordeu os lbios. Por que no conseguia controlar-se? Tentou reagir:
    -        Desculpe, estou nervosa. Sinto que voc est se afastando de mim, e isso me deixa muito triste.
    -         que voc est sempre mal-humorada, insatisfeita. Porque no procura alguma coisa com que se ocupar? O trabalho voluntrio em alguma obra social  
gratificante.
    Ela se irritou, mas procurou no deixar transparecer. Disse apenas:
       - Pode ser, vou pensar.
       - Faa isso. Vai fazer-lhe bem.
    Gioconda chegou em casa preocupada. Apesar de tudo, aquela cartomante dissera a verdade.
    A mulher que estava o tempo todo ao Lado de Renato era perigosa.
    Precisava afast-la do seu caminho. Tinha de ser esperta. Renato nunca a demitiria.
    Renato voltou ao escritrio aborrecido. As insinuaes de Gioconda incomodaram-no. Era uma injustia. Gabriela era muito atraente, mas ele, apesar da atrao 
que sentia por ela, nunca se insinuara.
    Ela sempre se portara dignamente e nunca dera abertura para qualquer intimidade. Sua conduta sempre impecvel fizera-o admir-la ainda mais. Respeitava-a.
    Por isso a atitude de Gioconda ofendia-o. Apanhou o carto do mdico e Leu: Dr. Aurlio Dutra, mdico psiquiatra. Apesar da pressa, teria de esperar pela consulta.
    Gabriela fingiu que no vira o olhar rancoroso que Gioconda lhe dera quando saiu com o marido. Respondeu ao cumprimento educadamente, mas percebeu o que ela 
estava pensando.
    Sentiu-se triste. Alm do cime do prprio marido, teria de tolerar as desconfianas de Gioconda? Notara a malcia com que ela a interrogara sobre sua famlia. 
Logo agora que estava progredindo na empresa, aprendendo coisas importantes, ganhando melhor.
    Se tivesse de deixar o emprego, sentiria muito. Depois, no era fcil ganhar um salrio como o seu. Roberto reagiu, estava ganhando algum dinheiro, mas o que 
ele recebia ainda no dava para pagar nem a metade das despesas.
    Pensou em falar com Renato, mas desistiu. Era humilhante tocar em um assunto to delicado.
    Depois, ele poderia pensar que ela estivesse interessada nele. No. No diria nada.
    Era provvel que Gioconda nunca mais aparecesse na empresa e tudo fosse apenas uma impresso sua.
    De fato, nos dias que se seguiram ela no voltou L nem mencionou o assunto com o marido.
    Entretanto, ele no saa de sua cabea. Se Renato demorava um pouco a voltar no fim da tarde, ela o imaginava nos braos de Gabriela, trocando beijos e carinhos.
    Quando ele chegava, ela ficava observando disfaradamente, para ver se encontrava algum vestgio de um relacionamento extraconjugal.
     Quando ele se afastava, ela revistava seus bolsos, cheirava suas camisas, procurava as marcas da traio.
     Esse pensamento tornou-se uma obsesso para Gioconda. No conseguia pensar em outra coisa. Em nenhum momento refletiu que no tinha nenhuma prova de que isso 
fosse verdade.
     Para ela, estava mais do que provado que eles eram amantes.
     Quinze dias depois da visita de Gioconda  empresa, Renato compareceu ao consultrio do mdico para a consulta.
     Sentado na sala de espera, ele aguardava. Quando a porta da sala do mdico se abriu, Roberto saiu e, vendo-o, sobressaltou-se. O que o patro de Gabriela estaria 
fazendo no consultrio de Aurlio?
     Sabia que ele no o conhecia e tentou disfarar o mal-estar. Precisava saber por que ele fora justamente ao seu mdico.
     Foi ao corredor, apanhou um copo com gua e voltou  sala de espera. Renato j havia entrado. Aproximou-se da secretria e tentou conversar.
     - Tenho impresso de que conheo esse senhor que entrou agora. Faz tempo que ele vem aqui?
     - No.  a primeira consulta.
     Roberto saiu com mil pensamentos tumultuando sua cabea na tentativa de encontrar explicao plausvel. Estava difcil. Gabriela no sabia que ele estava se 
tratando. Nunca lhe contara. Sentia vergonha de dizer que estava precisando de terapia. Preferia que ela acreditasse que ele conseguira melhorar sem ajuda de ningum.
     Poderia ser coincidncia, mas mesmo assim era intrigante. Que problemas Renato poderia ter? Era um homem bem-sucedido.
     Esse pensamento o incomodava. E se ele houvesse se apaixonado por Gabriela e estivesse em crise com a esposa?
     Sentiu um aperto no peito, como um mau pressgio. E se o relacionamento entre eles no fosse uma paixo passageira, se ele estivesse pensando em se separar 
para ficar com Gabriela? Nesse caso ele precisaria mesmo de um terapeuta.
     Roberto passou a mo trmula sobre os cabelos. Sentiu uma onda de rancor e pensou:
     "E se eu esperasse ele sair, me apresentasse e conversasse com ele francamente? Afinal, eu sou o marido. Tenho todo o direito de exigir satisfaes."
     Ficou andando na calada em frente ao prdio durante algum tempo. Por fim, resolveu no dizer nada. Sua atitude poderia precipitar os acontecimentos. Vendo-se 
descobertos, eles poderiam assumir a relao, e ele perderia Gabriela. No. O melhor era fingir que no sabia.
    Sentiu que o ar lhe faltava e respirou fundo. At quando suportaria aquela situao? Entrou em um bar e pediu um caf. Precisava reagir, agentar.
    Renato entrou na sala do mdico e depois dos cumprimentos esclareceu:
    -        Vim procur-lo porque preciso de ajuda. Aurlio olhou srio para ele e pediu:
    - Pode falar.
    -        O problema  minha mulher. Ela mudou muito depois do nosso casamento. Tornou-se problemtica, e nossa vida em famlia est se deteriorando. A cada dia 
sinto menos vontade de voltar para casa. Gosto de minha famlia, temos dois filhos, fao o que posso para torn-los felizes. Mas est difcil, porque Gioconda vive 
deprimida, insatisfeita, os filhos abusam dela,  preciso intervir, O clima em casa  pesado. No sei o que fazer.
    -        Vamos ver o que  possvel ser feito. Fale-me dela, de como a conheceu e como se casou.
    Renato contou tudo ao mdico, inclusive a ajuda de Gabriela, que lhe chamara a ateno sobre os problemas de Ricardinho e o aconselhara a procurar um profissional.
    Quando ele terminou, o mdico tornou:
    -        Essa sua funcionria  muito inteligente e observadora. Deu-lhe sbios conselhos. Ela  bonita?
    -        Muito.
    -        Sua indiferena por sua esposa no vir de um interesse maior por sua funcionria?
    -        No. Confesso que ela  extremamente atraente e muitas vezes senti-me atrado por ela. Mas trata-se de uma mulher muito honesta, dedicada ao marido 
e aos dois filhos, que nunca se insinuou.  extremamente profissional. O marido foi roubado pelo scio, perdeu tudo e ela o apoiou, encorajou, sustentou a famlia 
at que ele reagiu e teve nimo para recomear. Eu a estimo e respeito. Se fssemos livres, talvez at eu tentasse alguma coisa. Entretanto, no gosto de misturar 
negcios com relacionamento afetivo. No d certo. Por isso, nunca houve nem haver entre ns qualquer ligao ntima. Gabriela  tima funcionria e no desejo 
perd-la. Tenho certeza de que, se tentasse alguma coisa, ela iria embora.
    -        Entendo... O senhor disse Gabriela?
-        Disse. Por qu? Por nada.
    O        mdico, depois de informar-se de que Gioconda no iria voluntariamente para um tratamento, sugeriu:
    -        Se o senhor quiser, poder vir para algumas sesses. Para tentar alguma coisa, preciso conhec-lo melhor.
    Renato concordou. Depois que ele se foi, Aurlio ficou pensativo. Gabriela no era um nome comum. Depois, a histria que Renato contou foi a que ele j conhecia. 
Sua funcionria seria a esposa de Roberto?
    O        empresrio parecera-lhe sincero. Afirmou que nunca tivera intimidades com Gabriela. Nesse caso, Roberto estaria errado ao afirmar que ela era amante 
do patro.
    Alis, ele suspeitava que o cime de Roberto era exagerado e suas suposies fantasiosas.
Agora tinha certeza. Gabriela era inocente. Quando ele voltasse a procur-lo, tentaria ajud-lo a entender o quanto estava errado.
    Renato apanhou o carro e se foi. Roberto, da porta do bar, viu quando ele saiu, mas no teve coragem de abord-lo. Depois se arrependeu. Por que o deixara ir 
sem lhe dizer que sabia a verdade? Por que no lhe pedira satisfaes da traio odiosa que estava destruindo sua famlia?
    Pensou em voltar ao mdico. Chegou  porta do consultrio e resolveu ir embora. Ficou andando pelas ruas sem destino, ruminando sua dor, recordando-se do seu 
romance com Gabriela, dos momentos de intimidade que viveram juntos, do nascimento dos filhos.
    Estava escurecendo quando resolveu ir at o centro esprita. L no precisaria dizer nada. Receberia ajuda e conforto, se  que algum ou alguma coisa poderia 
confort-lo diante daquela tragdia.
    Quando chegou l, a fila para o tratamento espiritual era grande, mas ele pacientemente esperou. Quando chegou sua vez, entrou e sentou-se diante dos mdiuns, 
pedindo ajuda a Deus.
    O        mdium  sua frente inclinou-se para ele e disse baixinho:
    -        Tome cuidado com seus pensamentos. Eles so a causa de sua perturbao. Se no se ajudar, ns no poderemos fazer nada para a soluo dos seus problemas.
    -        Tenho me esforado, mas no depende de mim!
    -        Depende s de voc. Pea a Deus que o esclarea. A maledicncia atrai espritos trevosos e agrava qualquer situao. Confie em Deus, tenha bom senso. 
No se deixe levar pelas aparncias. Agora v.
    Roberto saiu contrariado. Ele no era maledicente. Aquele mdium por certo estava fantasiando. Vai ver que no havia ali nenhum esprito desencarnado.
    Arrependeu-se de ter ido at l. Tudo aquilo era bobagem, e o melhor era no se envolver com aquelas pessoas.
    Sua cabea estava pesada e doa. Sentiu arrepios e seu corpo doa. Teria se resfriado?
    Ele no viu que um vulto escuro o estava esperando na calada e colou-se a ele satisfeito. Afinal conseguira seu objetivo. Agora poderia dominar Roberto com 
facilidade.
    Renato chegou em casa disposto a convencer Gioconda a ir se tratar com Aurlio. O mdico inspirara-lhe confiana, no s pela postura muito profissional mas 
tambm pela simpatia pessoal, olhando-o de frente, mostrando-se muito interessado em fazer um bom trabalho.
    Encontrou Gioconda na sala folheando uma revista. Vendo-o chegar, ela se levantou:
    - Estava preocupada. Voc demorou.
    - Cheguei no horrio de sempre.
    -  que eu precisei falar com voc, liguei e no estava no escritrio. O curioso  que sua secretria tambm havia sado. Foram juntos visitar algum cliente?
    - No. Gabriela foi discutir um contrato, eu fui a outro lugar. Por que pergunta isso?
    - Por nada. Curiosidade.
    - O que desejava falar comigo?
    - No era nada de mais. Um pequeno problema em casa, mas j resolvi. No precisa se preocupar. Mas, se no foi a um cliente, aonde foi?
    Apesar de irritado com o tom dela, que, embora procurasse ser amvel, indiferente, no encobria uma insinuao maldosa, Renato tentou aproveitar o momento:
    - Fui consultar um mdico.
    - Voc est doente?
    - No. Sente-se, precisamos conversar seriamente.
    Depois de v-la acomodada no sof, sentou-se a seu lado e continuou:
    - Tenho me preocupado com nosso casamento. Nosso relacionamento no  mais como antes. Por isso fui consultar um psiquiatra em busca de ajuda. Desejo muito que 
possamos melhorar nosso entendimento.
    Gioconda olhou surpreendida para o marido:
    - E o que foi que ele disse?
    -        Que deseja nos conhecer melhor, estudar nosso comportamento. S assim poder nos ajudar efetivamente. Eu j marquei algumas sesses de terapia com ele, 
gostaria que voc fizesse o mesmo.
    Gioconda levantou-se irritada:
    -        Por que eu faria isso? No preciso de um psiquiatra. No estou louca.
    -        Um psiquiatra estuda o comportamento, no cuida s de loucos. Depois, o Dr. Aurlio foi indicado por um amigo que estava para separar-se da esposa e, 
com a ajuda dele, conseguiu encontrar jeito de resolver seus problemas. Hoje eles esto vivendo muito bem, so felizes.
    -        Pois eu no preciso de ningum para me dizer do que eu necessito para ser feliz. E, se voc est sendo sincero mesmo quando diz que deseja viver melhor 
com sua famlia, podemos resolver sozinhos. Eu sei muito bem o que est errado com voc. Se me ouvir, tudo estar resolvido. No precisamos que um estranho nos diga 
como proceder. Alis, no me agrada nada que voc ande fazendo confidncias a todo mundo, falando dos nossos problemas. Eu sei por exemplo que essa sua secretria 
vive se metendo, dando conselhos sobre nossos filhos e at sobre ns. E isso  revoltante. Mas a culpa  sua. Se no lhe desse asa, por certo ela no teria essa 
liberdade.
    -        Voc est errada, Gioconda. Eu no vivo fazendo confidncias a todo mundo, muito menos a Gabriela. Ela  muito discreta e nunca tomou nenhuma liberdade. 
Voc est se excedendo com essas insinuaes.
    -        Pois, se deseja melhorar nossa vida, mande embora essa mulher. No gosto dela e no quero que ela continue a seu lado o dia inteiro. Tenho certeza de 
que est tramando contra mim, que deseja tomar meu lugar. Afinal, seu dinheiro pode ser uma boa motivao para essa ambiciosa.
    Renato empalideceu e tentou controlar-se. Gioconda estava passando dos limites. Respirou fundo e disse:
    -        Voc est cada dia mais maldosa. Desse jeito no d para conversar. Mas tome cuidado. Se a situao aqui ficar insuportvel, lembre-se de que eu tentei 
ajud-la. Foi voc quem escolheu esse caminho.
    Renato levantou-se e saiu. Gioconda cobriu o rosto com as mos e rompeu em soluos. Ela era muito infeliz. Seu marido estava to apaixonado pela outra que no 
atendia a seu pedido para despedi-la. Mas isso no iria ficar assim. Ela teria de fazer alguma coisa para tirar aquela mulher de seu caminho. Eles no perdiam por 
esperar.
    Gioconda no viu que uma sombra sinistra e escura se aproximou dela, abraando-a e dizendo ao seu ouvido:
    - Isso mesmo. No seja boba. No se deixe enganar por essa mulher. Reaja. Ns vamos ajud-la.
    Ela no viu nem ouviu nada, mas sentiu aumentar sua raiva e intimamente firmou o propsito de afastar Gabriela de seu marido. Eles no iriam ficar impunes. Ela 
era a esposa, tinha todos os direitos. Deus estava do seu lado. Precisava defender sua famlia.
    Enxugou os olhos com raiva. Sentia uma dor forte na nuca e ligeiro enjo. Ela no podia ficar nervosa. Era de sade delicada. Tentou controlar-se. Precisava 
ficar mais calma para resolver o que iria fazer.

Captulo 12

    Roberto chegou em casa radiante. Havia fechado um grande negcio e, se tudo corresse bem, ganharia muito dinheiro.
    Ainda estava devendo e pensou em conversar com os credores para convenc-los a retirar os ttulos do cartrio. Todos sabiam que ele fora vtima e que estava 
se esforando para pagar tudo.
    Havia sido contratado por um grande empresrio para assumir o controle da construo de vrios prdios.
    Dessa forma contava futuramente reabrir seu depsito de materiais de construo. Era a oportunidade esperada no s para reaver o que perdera como at para crescer 
mais do que antes. Agora ele estava mais experiente, sem o scio para dividir os lucros ou para prejudic-lo.
    Lembrou-se de que uma semana antes, ao tomar o passe no centro esprita, fora chamado para conversar com o mentor espiritual, que lhe dissera:
    - Terminamos seu tratamento espiritual. No precisa mais vir tomar passes.
    - Eu gostaria de continuar. Meus problemas ainda no foram resolvidos.
    - Fizemos o que nos foi permitido. Agora depende de voc.
    - Eu me sinto bem quando venho aqui.
    - Continue freqentando. Sua vida vai ter uma boa melhora, mas no se esquea de que quem vive no mundo  bombardeado constantemente por energias de todos os 
tipos. Aprender a lidar com elas  fundamental para viver bem e proteger-se dos perigos. Por isso, procure estudar as leis espirituais. Ser a forma de proteger-se. 
Nunca se esquea disso.
    - Est bem. Mas, se me sentir mal, posso voltar ao tratamento?
    - Nossa casa est aberta para todos. Porm a fonte divina s ajuda quem est pronto para receber.
    Roberto saiu de l preocupado. No se sentia seguro de que sua vida iria melhorar. Por isso firmou o propsito de estudar seriamente a vida espiritual, conforme 
lhe fora aconselhado.
    Agora, na euforia do que lhe acontecera, lembrou-se das palavras do amigo espiritual. Ele estava certo. Sua vida iria melhorar e desta vez ningum o derrubaria.
    Satisfeito, comprou algumas guloseimas para sobremesa e uma garrafa de vinho do melhor. Precisavam comemorar.
    Entregou tudo a Nicete e esperou ansioso a chegada de Gabriela. Quando ela entrou, ele a recebeu com flores. Depois lhe contou a novidade. Ela sorriu feliz. 
Finalmente aquele pesadelo iria acabar. Roberto, reabrindo seu negcio, ficaria de bom humor e talvez eles pudessem voltar a ser felizes como antes.
    Nos dias que se seguiram ele se desdobrou para satisfazer o dono dos empreendimentos, fazer um bom trabalho. Saa de casa muito cedo e s voltava tarde da noite. 
Alm disso, aproveitava o tempo para procurar algum credor e conseguir resolver suas dvidas.
    Apesar de no tocar no assunto, Roberto acariciava o desejo de convencer Gabriela a deixar o emprego. Era para isso que ele trabalhava dia e noite, no se poupando, 
pensando em ganhar muito dinheiro.
    Ficava nervoso por saber que ela estava progredindo no emprego e ganhando mais a cada dia. Desconfiava que isso tinha um preo e quando pensava nisso quase enlouquecia.
    Sua mulher estava mais bonita a cada dia. Sempre fora muito elegante, mas agora ela comprava roupas de qualidade, o que a deixava com mais classe. Vendo o marido 
progredir de novo, Gabriela mostrava-se alegre, bem-humorada, chegando a cantar dentro de casa quando desempenhava alguma tarefa domstica.
    Roberto olhava-a preocupado, mas no se atrevia a tocar no assunto. Esperava o momento certo.
    - Este fim de semana terei que trabalhar - disse ela uma noite. Roberto irritou-se:
    - J no chega a semana inteira?
    -  importante. Trata-se de um evento especial para grandes empresrios. Nossa empresa est participando. Terei que estar presente.
    - Eu no concordo. Vai deixar sua famlia, no pensou nisso?
    - Eu sei, Roberto. Mas tenho interesse em participar. Estamos com um projeto muito importante, e fui encarregada de apresent-lo.
    - Voc fala como se j fosse a dona dessa empresa. Isso  tarefa para seu chefe. Por que ele no faz isso?
    - Porque essa funo  minha. Eu cuidei de todos os detalhes tcnicos. Eu tenho condies de esclarecer todas as dvidas. Depois, eu quero fazer isso. Estou 
entusiasmada com esse trabalho.
    Roberto no se conteve:
    -  bom no ir se entusiasmando. Agora que estou progredindo, voc no precisa mais trabalhar. Quero que se demita dessa empresa.
     Gabriela olhou-o incrdula:
     - No  possvel que ainda pense nisso!
     - Pois  s no que eu penso. Acha que gosto de ver minha mulher no meio desses empresrios? O que pensa que eu sou?
     - No vejo em que meu trabalho possa estar incomodando voc.
     - No v porque no quer. No imagina o que vai pela cabea dos homens quando vem uma mulher insinuar-se nos negcios.
     Gabriela empalideceu:
     - Se h homens com a cabea suja, no tenho nada com isso, O que me espanta  que voc, que me conhece h tanto tempo, que tem convivido comigo todos estes 
anos, venha com uma conversa dessas. Francamente, Roberto, pensei que j tivesse se curado desse cime doentio.
     - Pois no me curei e tenho meus motivos. Voc sabe do que estou falando.
     - No sei, no. Pode falar mais claro?
     Roberto titubeou. Se ele falasse que sabia de tudo, teria de tomar uma deciso, e isso o assustava. Tentou recuar.
     - So coisas que passam pela minha cabea quando vejo voc toda elegante, perfumada, muito bem vestida, saindo para trabalhar.
     - Sua mente  doentia. Mas no vou entrar nesse seu jogo odioso. Gosto de me vestir bem, de me perfumar. Sempre fui assim. Fao isso por mim, para me sentir 
bem, no para atrair olhares masculinos. Alm do mais, gosto de criar, de usar minha inteligncia, de produzir, de ganhar meu prprio dinheiro. As vezes penso que 
voc tem inveja de mim. Quando voc estava por baixo, eu achava que voc agia assim por no aceitar que sua mulher ganhasse mais dinheiro do que voc. Mas agora 
voc est novamente ganhando bem. No h motivo para isso.
     - Eu posso sustentar nossa famlia. Por que no entende isso? Qualquer mulher ficaria feliz em poder ficar em casa, usufruir da companhia dos filhos. Eu tenho 
dinheiro. Posso lhe dar o que quiser: jias, roupas bonitas, tudo. Por que no pode atender a um desejo meu? Que capricho  esse que pe em risco nossa vida familiar? 
O que custa fazer o que estou pedindo?
     - Custa minha dignidade. Sou uma pessoa. Tenho direito de escolher o que fazer da minha vida.
     - Voc ser mais digna dedicando-se inteiramente  sua famlia.
     - No, Roberto. Eu estarei traindo meus verdadeiros sentimentos. Desde que nos casamos tenho feito minha parte com dedicao e carinho. Voc no pode me acusar 
de haver negligenciado meu papel de esposa e me. Respeito voc. Jamais faria alguma coisa que pudesse prejudicar nossa famlia, mas no reconheo o direito de voc 
interferir em meus sentimentos ntimos, dizendo-me o que eu devo fazer.
    -        Voc no me ama mais. Se voc me pedisse alguma coisa, fosse o que fosse, eu faria de corao.
    -        Pois ento me deixe em paz. No queira mandar nos meus sentimentos. Essa  uma tarefa minha, e no estou disposta a ceder o lugar a ningum.
    -        O que pede no depende de mim.  mais forte do que eu.
    -        Nesse caso  voc quem precisa aprender a vencer suas fraquezas. Eu no posso fazer isso.
    Roberto no respondeu. Sentiu vontade de gritar que a tinha visto no carro com um homem e tambm no carro de luxo do patro. Conteve-se, porm. De que adiantaria?
    Tinha receio de que ela aproveitasse a oportunidade para romper com o casamento. Talvez at estivesse esperando um motivo. Ele precisava ter pacincia. Com o 
tempo iria conseguir o que queria.
    Gabriela deitou-se e tentou dormir. Porm o sono no vinha. Sentia-se decepcionada. Fizera tudo para ajud-lo enquanto estava sem dinheiro. Acreditara que agora 
pudessem retomar sua vida, pensando no futuro, na educao dos filhos. Mas no. Roberto nunca mudaria. Estava sendo mesquinho, maldoso. Sua natureza generosa no 
conseguia admirar o marido, vendo-o to injusto.
    Como seria sua vida dali para a frente? At quando teria de suportar suas desconfianas? Sempre fora fiel, e as indiretas dele a ofendiam e desanimavam.
    Apesar disso, no pensava em abrir mo do que conquistara com tanto trabalho e estudo. Estava sendo gratificante saber que tinha capacidade para grandes negcios. 
Por que Roberto no entendia isso?
    No dia seguinte acordou indisposta e um pouco abatida. Quando chegou ao escritrio, entrando na sala de Renato ele notou logo:
    -        O que foi, est doente?
    - No, senhor. Apenas um pouco cansada. Ontem custei a dormir.
    - Algum problema?
    Gabriela deu de ombros.
    - O de sempre. As desconfianas de meu marido.
    Renato suspirou:
    -        Esse problema eu conheo bem. Gioconda faz o mesmo. Vive jogando indiretas, dizendo frases com duplo sentido.
    -        Isso  desgastante. Confesso que estou ficando cansada.
    -        Eu tambm. Se no fosse pelos meus filhos, j teria me separado. Fao de conta que no entendi e vou levando. Minha mulher  imatura e mimada. No d 
para manter uma conversa franca e colocar tudo no lugar.
    -        Eu tenho conversado com Roberto, tenho sido sincera, aberto meu corao, falado dos meus sentimentos, do meu amor pela nossa famlia. Mas tem sido intil. 
Ele finge que aceita, mas depois de pouco tempo volta ao assunto.
    -        Ultimamente venho refletindo muito sobre o relacionamento afetivo. Estive algumas vezes com o psiquiatra em busca de ajuda, mas ele garantiu que o problema 
est nela. Ela  que precisaria buscar ajuda. Isso ela nunca far.
    -        No haveria uma maneira de Gioconda entender?
    -        No. Quando tento conversar, ela no escuta, ento acabo desistindo.
    -         pena.
    - Estou conformado. Algum disse que a felicidade no  deste mundo, e eu acredito.
    -        Pois eu no me conformo. Sou uma pessoa boa, dedicada, honesta. No vou aceitar essa situao.
    -        As vezes os filhos pequenos merecem nosso sacrifcio. Pelo menos at se tornarem adultos.
    -        Uma separao talvez seja menos dolorosa para eles do que uma convivncia perturbada, cheia de desentendimentos e desconfianas. Como eles iro confiar 
na vida se descobrirem que seus pais so Imaturos?
    -        Isso tambm me preocupa. Mas por enquanto vou levando.
    -        Eu tambm.
    Passaram a falar de trabalho.
    Roberto tambm no dormira bem naquela noite. Gabriela nunca faria o que ele desejava. Ele precisava fazer alguma coisa. E se ela fosse despedida da empresa? 
Ela no desconfiaria dele.
    Naquele dia ele quase no conseguiu trabalhar direito. Aquele pensamento no o deixava. Por que no pensara nisso antes?
    Mas Gabriela era muito competente. Ele no tinha acesso aos documentos que ela manuseava para alter-los, dar prejuzo  empresa. Fazendo isso, ela seria despedida.
    Esse pensamento o dominou nos dias que se seguiram. Tinha de descobrir um jeito. Chegou  concluso de que, se no podia atingi-la no trabalho, deveria atingi-la 
na moral. Renato tinha mulher e filhos. O que aconteceria se ele enviasse uma carta annima  sua esposa sugerindo a ligao dele com Gabriela?
    A princpio assustou-se com a idia. Mas aos poucos esse pensamento foi ganhando fora. Se a esposa dele desconfiasse da relao dos dois, exigiria que ela fosse 
despedida.
    Gabriela no podia desconfiar dele. Teria de escrever  mquina em um lugar que ela jamais descobrisse. No dia seguinte, pediu ao cliente permisso para escrever 
um contrato, alegando que teria de entreg-lo em seguida e no haveria tempo de ir faz-lo em casa.
    Tendo conseguido, escreveu a carta, contando que, enquanto Gioconda ficava em casa cuidando dos filhos, o marido se divertia com a secretria. Ele estava avisando 
pelo bem da famlia.
    Colocou-a em um envelope branco, endereou-a e colocou na caixa do correio. Pronto. Estava feito. Agora era esperar o resultado.
    No dia seguinte, Gioconda acordou particularmente indisposta. Renato telefonara na noite anterior dizendo que no iria jantar e chegaria depois da meia-noite. 
Aonde teria ido? Certamente no estaria fazendo coisa boa.
    Sua me sempre dizia que "homem quando sai sozinho  noite  porque est mal intencionado". Suspirou triste. Enquanto aquela secretria estivesse na empresa, 
ela no teria sossego.
    Estava claro que ele estava tendo um caso com ela. A cartomante dissera-lhe claramente. Por que ele no atendera a seu pedido para despedi-la? Se fosse apenas 
uma funcionria comum, ele o teria feito.
    Ele dizia que estava se esforando para a harmonia da famlia, entretanto se recusara a atender um pedido to simples. Havia dzias de boas secretrias procurando 
emprego. No lhe seria difcil substitu-la por outra melhor. Mas no. Ele queria aquela. Por qu?
    A resposta era clara. Estava apaixonado por ela. H quanto tempo estava sendo trada? Havia muito que ele espaara suas relaes ntimas com ela, certamente 
porque estava com a outra.
    Gioconda comprara roupas novas, arrumara-se com capricho, tentara interess-lo em conversas sobre os filhos. Mas nada. Ele se esquivava, fechava-se no quarto, 
brincava com os filhos e ia dormir. Precisava fazer alguma coisa. Aquilo no podia continuar.
    Na hora do almoo, ela mal tocou na comida. Sua cabea doa e ela tomou dois comprimidos para ver se passava. Apanhou uma revista e foi ler na sala, mas no 
conseguia pensar em outra coisa.
    A criada entrou e colocou a correspondncia sobre a mesa. Gioconda no se interessou. Mas a moa comentou:
    - H uma carta para a senhora.
    Ela estendeu a mo e a criada entregou-a. Gioconda abriu-a e, medida que lia, seu rosto ficava mais plido e ela comeou a passar mal.
    Maria assustou-se.
    - O que foi? A senhora est se sentindo mal?
    Gioconda levou a mo ao peito, dizendo baixinho:
    - Sim. Acho que vou desmaiar.
    - Respire fundo, senhora. Vou buscar um copo d'gua.
    Saiu correndo enquanto Gioconda pegava novamente aquele papel e o lia. No havia dvida. Ali estava a prova da traio. Ela estava certa. Seu marido e Gabriela 
eram amantes.
    Maria trouxe a gua e ela bebeu alguns goles. Precisava controlar-se. No podia deixar-se dominar pelo rancor.
    Respirou fundo tentando acalmar-se. Maria perguntou:
    - Foi essa carta que a deixou mal?
    Fez meno de apanh-la, mas Gioconda respondeu rpida:
    - No foi isso, no. - Segurou a carta, colocou-a no envelope e continuou: - Voc sabe que sou uma pessoa doente. Vou subir e descansar um pouco.
    Levantou-se e foi para o quarto. Sua cabea doa ainda mais. O remdio no fizera nenhum efeito. Estirou-se na cama e chorou de raiva. O que ela sempre temera 
havia acontecido.
    Sentiu vontade de ir ter com o marido na empresa, gritar toda a sua revolta, atirar a carta na cara dos dois. Porm, pensando melhor, achou que de nada adiantaria 
fazer escndalo. Renato ficaria com mais raiva dela e certamente defenderia aquela sirigaita, que, claro, se faria de vtima.
    No. Isso no daria certo. Precisava pensar em outra coisa. Algo que resolvesse definitivamente a questo. Gabriela era casada. E se procurasse o marido para 
uma conversa? Certamente ele a faria deixar o emprego e Renato nunca saberia que ela fora a responsvel.
    Era uma boa idia. Antes precisava descobrir onde ela morava. Apanhou o telefone e ligou para a empresa:
    - Aqui  a secretria do Dr. Guedes. Ele est muito grato pela ateno com que foi atendido pela D. Gabriela e deseja mandar-lhe algumas flores. No para a empresa. 
Poderia dar-me o endereo da residncia dela?
    Anotou tudo sorrindo satisfeita. Descobriu o telefone e ligou. Nicete atendeu.
    -        D. Gabriela est?
    -        No, senhora. Ela est trabalhando.
    -        Eu poderia falar com o marido dela, o senhor...
    -        Roberto. Ele tambm no est. Quem est falando?  a secretria do Dr. Guedes. Trata-se de um assunto profissional. Poderia dar-me o telefone do escritrio 
dele?
    -        O Sr. Roberto ainda no tem telefone comercial. Quer deixar recado?
    - No, obrigada. Ligarei  noite.
    Gioconda ficou pensando. Precisava encontrar um jeito de conversar com ele sem que Gabriela soubesse. No podia dar o telefone de sua casa. Gabriela poderia 
descobrir. Pensou, pensou e resolveu procurar um detetive particular. Havia visto o endereo de um numa revista.
    Telefonou e marcou um encontro com ele em uma confeitaria. Enquanto tomavam o refresco, foi direto ao assunto:
    -        Meu marido  amante da secretria. Resolvi procurar o marido dela para tir-la do emprego. Quero que voc entre em contato com ele e marque um encontro 
comigo. Eis o meu telefone. Aqui esto os dados dele.
-        Marco para quando?
- Hoje, amanh, o mais rpido possvel.
    -        Est bem, senhora. Pode aguardar que entrarei em contato. Gioconda voltou para casa, mas no conseguia se acalmar. O tempo iria custar a passar. At 
que no fim da tarde o detetive ligou:
    -        J fiz o contato e ele disse que est  sua disposio.
    -        Onde?
    -        Est aqui comigo. A senhora marca onde quiser. Est bem. Leve-o at aquela confeitaria em que nos encontramos e irei imediatamente.
    Ela desligou trmula. Finalmente iria conseguir o que desejava. Pintaria as coisas de um jeito que ele no teria alternativa seno tir-la do emprego. Assim 
estaria livre dela.
    Uma vez na confeitaria, o detetive apresentou-os. Gioconda despediu o detetive, dizendo:
    -        Pode ir por enquanto. Ligue-me amanh.
    Depois que ele se foi, Roberto disse educadamente:
    - Deseja conversar aqui mesmo?
    - Preferia um lugar mais discreto.
    -        Vamos ver se eles tm mesa reservada. - Voltou logo, dizendo: - Pode vir, senhora.
    Acomodaram-se em uma mesa cercada por um biombo. Roberto pediu dois guarans e justificou-se:
    - Temos que pedir alguma coisa. Deseja algo mais?
    - No. O que eu quero  conversar com o senhor sobre um assunto do nosso interesse.
    - Pode falar, senhora.
    - Deve ter estranhado meu chamado, mas garanto que, se no fosse to importante, eu no o teria incomodado.
    Fingindo ignorncia, Roberto indagou:
    - Do que se trata?
    -        De meu marido e de sua mulher.
    Apesar de saber, Roberto estremeceu. Aquele assunto o tirava do srio.
    - Pode ser mais clara?
    -        Infelizmente o que vou dizer no  nada bom. Meu marido e sua mulher so amantes.
    -        Tem certeza?
    -        Tenho. H muito andava desconfiada. Ele falava nela com admirao. De uns tempos para c, ele mudou comigo. No me ama mais como antes. Tenho sido esposa 
dedicada e me amorosa, mas ele est cada dia mais distante. Tem vindo mais tarde.
    -        Eu tambm andava desconfiado. Minha mulher est ganhando mais, arruma-se cada dia melhor, e eu a vi no carro dele duas vezes.
    Gioconda empalideceu de raiva.
    -        Eles no podem fazer isso comigo. Tenho dois filhos que preciso defender. Por eles farei qualquer coisa... qualquer coisa!
    - Tambm tenho dois filhos.
    -        Eu pedi a ele que a despedisse, mas, como era de esperar, recusou. Vim procur-lo para que o senhor obrigue sua esposa a deixar o emprego. Assim ficaria 
tudo resolvido. Apesar de trada, quero proteger meus filhos e no desejo que minha famlia se desfaa.
    Roberto abanou a cabea negativamente:
    - Eu no tenho feito outra coisa. Mas ela se recusa a deixar o emprego.
    -        Voc  o marido. Deve saber como obrig-la!
    -        Ela  teimosa. No quer me obedecer.
    - Nesse caso foi intil procur-lo. Terei que pensar em outra coisa. Mas eu garanto: com ele ela no vai ficar, nem que eu tenha de mat-la!
    Roberto estremeceu.
    -        Isso no. A violncia no resolve nada. Temos que encontrar outro meio.
    -        No sei at quando suportarei saber que, enquanto estou em casa cuidando dos nossos filhos, eles esto juntos, rindo e divertindo-se  nossa custa.
    Roberto tentou contemporizar:
    - Vou pensar em alguma coisa. Deixe comigo.
    - Minha vontade  ir at l e acabar com tudo de uma vez!
    -        Espere. No faa nada. Hoje falarei com ela novamente. Quem sabe resolve me atender.
    -        Est bem. Vou esperar at amanh. Ela vai deixar meu marido por bem ou por mal. Isso eu juro!
    Gioconda disse isso com tanto dio que Roberto se arrependeu de haver escrito a carta.
    Aquela mulher era bem capaz de fazer uma loucura. Ele queria acabar com o relacionamento deles, mas com inteligncia, para no ficar mal diante de Gabriela. 
No queria ficar sem ela.
    -        No podemos perder a cabea. Apesar de tudo, amo minha mulher e no desejo que ela parta. A senhora tambm no quer que seu lar se desfaa. Precisamos 
agir com inteligncia. Se seu marido descobrir que a senhora fez alguma coisa contra Gabriela, ele ficar do lado dela. O mesmo acontecer comigo. O que nos interessa 
de fato  que eles se separem definitivamente.
    -        Sei que tem razo, mas no sei se terei pacincia para suportar. H momentos em que penso em acabar com tudo de uma vez!
    -        Calma, senhora. Ningum mais do que eu deseja isso.
    Gioconda suspirou pensativa, depois disse:
    - O que sugere, ento?
    - Preciso pensar. Peo-lhe alguns dias.
    -        Esperarei uma semana. Aqui tem meu carto. Telefone e voltaremos a nos encontrar.
    Despediram-se e Roberto sorriu satisfeito. Agora no estava mais sozinho. Com tal aliada, certamente conseguiria o que queria.
    Sentiu um aperto desagradvel no peito e pensou: por que Gabriela mudara tanto?
    Estava escurecendo e ele se lembrou de que era dia de tratamento espiritual no centro. Fazia um ms que ele no ia l. Sentia-se aliviado quando saa daquele 
lugar mas por um motivo ou outro nos ltimos tempos deixara de ir.
    Sentiu vontade de voltar l. No trajeto, mudou de idia. Estava cansado de paliativos. Cada vez que conversava com Cilene, ela lhe dizia que ele precisava fazer 
sua parte para que fosse ajudado pelos espritos. Nesse caso, de que lhe adiantaria ir l? Ele iria fazer sua parte, sim, mas do seu jeito. Tinha certeza de que 
daria certo.
    Foi para casa, pensando em como fazer com que Gioconda pressionasse Renato para despedir Gabriela.
    No viu que dois vultos escuros o abraaram satisfeitos. Mas sentiu-se tomado de indignao. Gabriela no tinha o direito de fazer isso com ele e com os filhos.
    Ele a amava muito e sempre fora fiel. Lembrou-se de que ela era mais culta e bonita do que ele e sentiu a angstia aumentar. Por que se apaixonara por ela? Bem 
que sua me o avisara de que ela no era do mesmo nvel que ele.
    Mesmo no sendo de famlia abastada, Gabriela cursara universidade, tinha classe, enquanto ele viera de famlia de operrios, deixara os estudos muito cedo para 
trabalhar. Alm disso ela era linda. Qualquer homem se sentiria atrado.
    Roberto trincou os dentes com raiva. Ela era dele, e no iria perd-la. A vida sem ela no teria nenhum sentido.
    Nos dias que se seguiram, Roberto no pensava em outra coisa. Aos poucos foi elaborando um plano, e quanto mais pensava mais acreditava que poderia dar certo. 
Resolveu ligar para Gioconda e marcar o encontro.

Captulo 13

     Gabriela chegou ao escritrio pela manh, aborrecida. Seu relacionamento com Roberto estava pior a cada dia. Embora ele no dissesse claramente, ela percebia 
que o marido a vigiava, controlando seus horrios, suas palavras, at seu dinheiro.
     Era insuportvel e injusto. Ela nunca lhe dera motivos para isso. Sempre fora esposa dedicada, fiel. Amava-o. Se no fosse pelas crianas, pensaria em separao. 
Estava cansada daquela desconfiana.
     Ele insistia que deixasse o emprego. Nunca faria isso, O trabalho ajudava-a a esquecer e a suportar os problemas em casa. Gostava de sentir-se til, inteligente, 
respeitada, ter seu prprio dinheiro. Sentia-se viva, participando da vida. No suportaria ficar sem fazer nada.
     Sacudiu a cabea tentando expulsar os pensamentos desagradveis e mergulhou no trabalho.
     Passava das onze quando um homem procurou por Renato. Depois de falar com seu chefe, Gabriela introduziu-o, retirando-se em seguida. Sentia o corao oprimido 
e certo mal-estar, mas reagiu. No podia deixar que questes pessoais atrapalhassem seu lado profissional.
     Quinze minutos depois, Renato chamou-a. Atendeu prontamente. Pelo seu rosto srio, notou logo que estava contrariado.
     -        D. Gabriela, poderia explicar-me o que significam estas retiradas das contas de nossa empresa?
     -        Retiradas? Como assim?
     -        O gerente do banco trouxe-me estes cheques assinados pela senhora. Por que fez estes saques?
     Atnita, ela apanhou os trs cheques que ele lhe estendia, examinando-os. As assinaturas eram iguais s suas, mas ela nunca os assinara.
     -        No compreendo, Dr. Renato. Eu nunca assinei estes cheques. Deve haver um engano.
     -        Nega que tenha sacado este dinheiro?
     -        Claro. Por que o faria? Todos os cheques so sempre assinados pelo senhor...
     - Mas a senhora tem minha procurao para assin-los quando viajo.
     -        Mas nunca assinei nada sem que o senhor autorizasse.
     -        Mas estes no autorizei.
    -        Estas assinaturas so falsas. Nunca vi estes cheques.
    Voltando-se para o gerente do banco, Renato disse:
        -        Obrigado pelo seu interesse. Pode deixar que eu resolvo isso. Seria bom dar queixa  polcia.
- Pode deixar.
    Ele se despediu e Gabriela, plida, olhava sem entender bem o que estava acontecendo.
    -        Sente-se, Gabriela. Vamos conversar. Voc est passando por algum problema financeiro?
    -        No, senhor. Meu marido voltou a trabalhar e o que ganho aqui tem dado para nossas despesas. O senhor est pensando que fui eu quem tirou esse dinheiro?
    - Custo a crer, Gabriela. Voc  a pessoa em quem eu mais confiava nesta empresa. Mas conheo sua assinatura. Posso entender um ato de desespero. No quer me 
dizer a verdade?
    As lgrimas desceram pelas faces de Gabriela, que, trmula, tornou:
    - Como pode pensar isso de mim? O senhor me conhece h tanto tempo!
    - Nega que tenha sacado esse dinheiro?
    -        Nego. Seria bom que o senhor investigasse para descobrir quem foi. Garanto que no fui eu.
    Ele ainda a interrogou mais um pouco, mas ela continuava negando. Por fim ele disse:
    -        O que aconteceu foi muito srio. O gerente disse que recebeu um telefonema avisando que uma pessoa da empresa estava dando um desfalque. Ento fez uma 
sindicncia e descobriu estes trs cheques, com sua assinatura, sem nenhum comprovante de pagamento. Desconfiou e veio at aqui.
    -        Pois eu garanto ao senhor que no fui eu quem os assinou.
    Renato suspirou aborrecido. Gabriela parecia sincera, mas as provas eram irrefutveis. Ele no podia facilitar. Respirou fundo e decidiu:
    -        Preciso pensar melhor. V para casa, tire uma semana de frias. Vou investigar. Gostaria muito de acreditar em voc.
    - Eu no fiz nada, eu juro. O senhor vai descobrir a verdade!
    -        Farei o possvel para isso.
    Gabriela saiu dali arrasada e, sem dizer nada a ningum, foi para casa. Renato deixou-se cair na poltrona, passando a mo pelos cabelos, preocupado.
    Pensou, pensou, depois decidiu. Abriu sua agenda, procurou um telefone e ligou:
    -        Egberto? Preciso de voc. Pode vir at meu escritrio agora?
    -        Irei imediatamente, Dr. Renato.
    Meia hora depois, Egberto entrava na sala de Renato. Depois dos cumprimentos, Renato colocou-o a par dos acontecimentos. Finalizou:
    -        Quero que voc investigue essa histria. Gabriela est aqui h anos e sempre foi excelente.
    -        As pessoas mudam, doutor.
    -        Eu sei. Mas ela negou com tal veemncia que me pareceu estar dizendo a verdade. Pode mesmo ter sido outra pessoa.
    -        O senhor gostaria que fosse.
    -        Sim. Para ser honesto, sim. Ela  minha secretria de confiana.
    -        Bem, vou investigar. Saber se ela tinha dvidas, se comprou alguma coisa de valor, se abriu alguma conta em outro banco.
    - Faa isso o mais rpido possvel. Dei-lhe uma semana de frias.  o prazo que voc tem.
    -        Um detalhe chama minha ateno: o telefonema para o gerente do banco. Como  o relacionamento dela com os colegas?
    -        Bom. No me consta que tenha algum inimigo na empresa.
    -        Um inimigo, no, mas algum querendo apenas dizer a verdade.
    -        , pode.
    -        Preciso dos dados dela para comear a trabalhar.
    Depois que ele saiu, Renato colocou a cabea entre as mos, aborrecido. Aquilo parecia um pesadelo. Nunca havia se enganado com algum. No descansaria enquanto 
no descobrisse a verdade.
    Gabriela chegou em casa abatida. Vendo-a, Nicete preocupou-se:
    -        O que foi, D. Gabriela? Est doente?
    -        No. Aconteceu uma coisa horrvel! Algum tirou dinheiro da empresa falsificando minha assinatura. Eles pensam que fui eu...
    -        Que horror! Quem teria feito isso?
    -        No tenho idia. Deve ser algum que conhece minha assinatura. Estava bem parecida.
    Voc pode imaginar como fiquei!
    Voc foi despedida?
    - No. O Dr. Renato deu-me uma semana de frias. Espero que ele consiga descobrir quem foi, caso contrrio no sei o que ser de minha vida. A quantia desviada 
foi grande. No tenho esse dinheiro. Se ele acreditar que fui eu, no vou poder pagar.
    Gabriela cobriu o rosto com as mos e comeou a chorar. Estava assustada. Se a empresa desse queixa  polcia, ela poderia ser presa.
    Nicete tentou confort-la:
     -        No chore, D. Gabriela. Deus  grande. A senhora no fez nada, por isso no deve temer.
     Vai ver que em pouco tempo o Dr. Renato descobre quem foi e tudo ficar bem.
     -        Estou me sentindo muito mal. Ser tachada de ladra... Logo eu, que sempre fiz questo de ser honesta. Foi como se algum me tivesse dado uma paulada 
na cabea. Estou tonta, sem rumo.
     -        Vamos rezar, D. Gabriela. Deus vai nos ajudar.
     -        No tenho cabea nem para isso.
     -        Vou fazer um ch de cidreira. Enquanto isso, a senhora deve tomar um bom banho, descansar. Eu levo o ch no quarto.
     -        Obrigada, Nicete, mas no quero nada.
     Nicete no escondeu a preocupao. Durante anos convivera com Gabriela e nunca a vira em tal estado de depresso, nem mesmo quando Roberto perdera tudo.
     Nicete era pessoa de f. Depois do jantar iria ao centro esprita fazer uma consulta. Tinha certeza de que Gabriela estava sendo vtima de uma injustia. A 
situao podia complicar-se. Ela precisava pedir ajuda espiritual.
     Quando Roberto chegou e perguntou pela esposa, ela disse triste:
     - Est no quarto, foi se deitar.
     - Ela est doente? Veio mais cedo hoje. Aconteceu alguma coisa?
     O corao de Roberto bateu forte e ele se esforou para dissimular a satisfao. Ela teria sido despedida?
     Imediatamente subiu as escadas e entrou no quarto. Gabriela estava deitada, janelas fechadas, e ele acendeu a luz. Ela protestou:
     -        Apague, por favor. Estou com dor de cabea.
     Ele apagou a luz e aproximou-se da cama, dizendo:
     -        O que aconteceu?
     -        Nada. No estou me sentindo bem, por isso tirei uma semana de frias para descansar.
     -        Est doente?  melhor chamar um mdico.
     -        No  preciso. Quero descansar. No estou disposta a conversar. No  nada srio.
     Ele alisou a cabea dela com carinho:
     -        No gosto de v-La assim. Deu para notar que est abatida, parece ter chorado. Deve ter acontecido alguma coisa. No vai me contar?
     -        Tomei um comprimido para dor de cabea e quero dormir um pouco para ver se passa. Depois conversaremos.
     -        Deve ter sido alguma coisa no emprego. Eles esto abusando de voc. Tem trabalhado demais.
    Gabriela suspirou triste. No sentia disposio para contar o que acontecera. Sabia o que ele pensava sobre seu emprego. Certamente ficaria ofendido por ela 
ter sido humilhada daquela forma, talvez at fosse na empresa tomar satisfaes, causaria mais confuso, e ela no desejava isso.
    Renato prometera investigar, o melhor seria esperar. Pediria a Nicete que no dissesse nada.
    -        Deixe-me descansar. Nicete preparou um ch. Pea-lhe para trazer mais uma xcara.
    Ele saiu, e, assim que Nicete entrou, Gabriela perguntou:
    - Onde est Roberto?
    - Ficou com as crianas na copa.
    -        Feche a porta. Olhe, no conte nada a ele sobre o que aconteceu. Sabe como ele . Vai logo querer se envolver, tomar satisfaes. Eu prefiro que ele 
fique fora disso. S vou contar se for preciso. Est bem?
    -        Claro. Pode ficar tranqila. Eu s disse que a senhora estava indisposta.
    -        Fez bem.
    - No vai descer para o jantar?
    - No.
    Vou trazer a comida aqui.
    -        No quero nada. Meu estmago parece que tem uma bola dentro. Cresceu de repente.
    -        A senhora no pode ficar sem comer. Vou fazer uma sopa e deixar sobre o fogo. Trarei algumas frutas e deixarei aqui. Estou pensando em sair um pouco. 
Vou ao centro pedir ajuda. Lavo a loua na volta. Posso?
    -        V. Reze por mim.
    Depois que ela saiu, Gabriela fechou os olhos e tentou rezar. Mas no conseguiu. A cena de Renato mostrando-lhe os cheques com sua assinatura no lhe saa do 
pensamento.
    Roberto desejava saber como as coisas haviam acontecido. Mas precisava esperar. No queria telefonar para Gioconda de sua casa. Preferia conversar com ela pessoalmente 
no dia seguinte. Ela lhe garantira que fizera tudo direito. Ele lhe levara alguns documentos assinados por Gabriela e ela conseguira uma pessoa que falsificara as 
assinaturas. Ele vira os cheques. Haviam ficado perfeitos. Se ele no soubesse a verdade, diria que aquelas assinaturas eram de Gabriela.
    Depois, Gioconda retirara o dinheiro e guardara em casa. Colocando um leno no bocal do telefone, Roberto ligara para o gerente do banco fazendo a denncia. 
Certamente ele fora procurar Renato. Imaginava que Gabriela j houvesse sido despedida. Mesmo que Renato a amasse, certamente no suportaria ver-se roubado por ela.
     Estava radiante. Gabriela ficaria em casa e, com o tempo, esqueceria o desagradvel incidente. Gioconda prometera interceder para que o marido no desse queixa 
 polcia. Fazia parte do trato. Assim, tudo estaria resolvido.
     Ele no podia demonstrar sua alegria. Tomou conta das crianas para que no incomodassem a me, esforando-se para parecer preocupado diante de Nicete.
     Na manh seguinte, Roberto levantou-se bem-disposto, porm fingiu preocupao. Gabriela s conseguiu adormecer quando o dia comeou a clarear, e ele pediu a 
Nicete:
     -        No deixe as crianas fazerem barulho. Gabriela no dormiu bem e est descansando. No a acorde. Preciso trabalhar. Eu telefono.
     Apesar de ter ido dormir muito tarde, Gabriela levantou-se s nove horas. Vendo-a, Nicete disse:
     -        Vou servir um caf reforado. A senhora no pode adoecer. Est abatida.
     - No tenho fome, Nicete. S vou tomar um gole de caf.
     -        Nada disso. O po est fresquinho e tem aquele queijo que a senhora adora.
     - E as crianas?
     -        Esto brincando no quintal. Fizeram a lio.
     Gabriela sentou-se  mesa, servindo-se de caf.
     Nicete preparou um sanduche e colocou-o no prato ao lado dela. Depois sentou-se em frente  patroa, dizendo:
     -        Coma. No sairei daqui enquanto no a ver comendo tudo.
     Gabriela esboou um sorriso.
     -        Est me tratando como se eu fosse criana.
     -        A senhora precisa reagir. No pode se abater dessa forma. Fui ao centro e tenho um recado para a senhora. Sabe, eu freqento l h mais de cinco anos. 
Sempre desejei conversar com o Dr. Bezerra de Menezes, que  o mentor espiritual. Nunca consegui. Ontem, coloquei seu nome no livro de oraes e, quando menos esperava, 
me chamaram dizendo que queriam falar comigo. Fiquei to emocionada! Entrei na sala e o Dr. Bezerra estava falando com algumas pessoas. Depois me chamou e disse:
     -        Sei por que voc veio. Diga a ela que tenha f. Ns a estamos protegendo. Tudo ser esclarecido.
       - Ele disse isso mesmo?
    -        Disse. Bom, eu fiquei muito emocionada. Senti um ar diferente quando ele falou comigo, uma brisa leve, era como se eu estivesse no ar. No consegui 
nem falar. No via a hora de lhe contar. Seria bom a senhora ir at l.
    Gabriela hesitou:
    -        No sei... Nunca fui a um centro esprita. Tenho medo dessas coisas.
    -        Pode ir sem medo. L  uma casa de orao onde todos s fazem o bem. As pessoas so muito agradveis e h muito respeito. Eu garanto. Tenho certeza 
de que vai se sentir muito melhor.
    -        Est bem, Nicete, vou pensar.
    - Isso, D. Gabriela. Tenho f em que tudo ser esclarecido.
    - Fao votos.
    Roberto aproveitou o telefone em uma construo, enquanto esperava o engenheiro, e ligou para Gioconda:
    -        Ento. Acho que estourou a bomba.
    -        . Deve ter acontecido. Renato chegou em casa abatido, com cara de poucos amigos, e por mais que eu insistisse no quis me contar o que o estava preocupando. 
Estou morta de curiosidade.
    -        Eu tambm. Pensei que voc soubesse. Gabriela voltou mais cedo para casa e foi se deitar.
    Est abatida, chorosa, disse que est indisposta e por isso tirou uma semana de frias. No acreditei em nada disso. Ela no quis me contar. Mas acho at que 
j foi despedida.
    -        No diga! Que maravilha!
    - Precisamos saber como esto as coisas.
    - Hoje  tarde irei  empresa investigar.
    - Tome cuidado.
    -        Fique sossegado. Arranjarei um pretexto e tentarei descobrir o que aconteceu.
    -        Eu ligo no fim da tarde para saber.
    -  melhor no. Ligue amanh cedo, como agora.
    - Est bem. Vai ser difcil esperar tanto tempo.
    - Se ela est em casa de frias,  porque foi despedida.
    -        No quero que seu marido d queixa  polcia. A situao pode se complicar se ele fizer isso.
    -        Ele gosta dela, no far nada disso. Estou certa de que vai despedi-la e pronto.
    -        Espero que seja assim.
     Naquela mesma tarde, Gioconda foi ao escritrio do marido a pretexto de fazer hora para uma consulta ao dentista que ficava prximo. Depois de cumprimentar 
o marido, disse cordata:
     -        No desejo atrapalhar. Sei que est muito ocupado.
     -        De fato. H uma pessoa importante que j deve estar chegando para uma reunio.
     -        S vou fazer um pouco de hora. No gosto de ficar na sala de espera do consultrio. Fico nervosa.
     Renato foi avisando que a pessoa esperada chegara, e Gioconda levantou-se logo, dizendo:
     -        Pode atender. Faltam quinze minutos para minha hora. Vou dar uma volta pela empresa e sair.
     Despediu-se do marido e foi  copa. Disse  funcionria:
     -        Pode me servir um caf?
     Enquanto tomava o caf, Gioconda deu uma volta pelo escritrio, cumprimentando os funcionrios. Parou perto de uma que j conhecia e com a qual simpatizava 
e indagou:
-        Gabriela no veio trabalhar hoje? No, senhora. Ela est de frias.
     -        Frias? Que eu saiba ela tira frias sempre junto com a escola das crianas. Tem certeza?
     -        Bom, foi o que eu ouvi dizer...
     - Estranho. Teria acontecido alguma coisa com ela?
     -        No sei. Ela me pareceu doente. Estava muito plida, nervosa. Apanhou suas coisas e foi embora antes de terminar o expediente.
     - Por que ser?
     - No tenho idia. Tambm gostaria de saber. Deve ter acontecido alguma coisa mesmo. Depois que ela saiu, o Dr. Renato estava muito nervoso. A senhora precisava 
ver. Quando Ana lhe perguntou o que havia acontecido com Gabriela, ele disse que ela estava indisposta e ficaria de frias por uma semana.
     No era bem o que Gioconda desejava ouvir, mas foi s o que conseguiu. Saiu de l pensativa. Claro que havia estourado a bomba. Certamente Renato ficara sabendo 
do desfalque e tivera uma briga com ela. Essa histria de uma semana de frias fora s para encobrir a verdade.
     A esse pensamento, Gioconda estremeceu de raiva. Apesar de tudo, ele a protegia, e estava claro que no pretendia denunci-la  polcia. De repente uma idia 
comeou a incomod-la. Ele a mandara embora com certeza, porque no queria ser roubado, mas pelo jeito estava muito apaixonado. E se continuasse se relacionando 
com ela mesmo depois de a ter despedido?
     Era at provvel que isso acontecesse. Nesse caso, no teria adiantado incrimin-la. Precisava certificar-se de que, depois que ela sara da empresa, no se 
encontrara mais com Renato.
     Precisava falar com Roberto para que ele a vigiasse.
     Ela preferia que a polcia a prendesse, mas, uma vez que Roberto era contra isso, ele que a vigiasse para que no continuassem se encontrando. Era o mnimo 
que ele poderia fazer.
     Na manh seguinte, quando Roberto ligou conforme o combinado, Gioconda foi taxativa:
     - No vamos conversar pelo telefone. Prefiro pessoalmente.
     - J sabe o que aconteceu?
     - Uma parte. Vamos nos encontrar s duas horas no mesmo lugar da outra vez. Est bem?
     - Estarei esperando.
     Ela desligou pensando no que desejava dizer-lhe. Conforme o tempo passava, mais e mais ela temia que eles continuassem se encontrando. Queria evitar aquilo 
a qualquer preo.
     Quando chegou ao local do encontro, Roberto j a esperava com certa impacincia.
     Procuraram uma mesa reservada e sentaram-se para conversar.
     Gioconda foi direto ao assunto:
     - Renato deve ter mesmo descoberto o desfalque e mandado Gabriela embora.
     Roberto exultou:
     - Finalmente conseguimos!
     - Ele disse ao pessoal do escritrio que ela estava indisposta e tirou uma semana de frias, mas tenho certeza de que ela no voltar a trabalhar. Ele no permitiria 
isso. Conheo como Renato  rigoroso nesse aspecto.
     - Nesse caso, podemos comemorar.
     - No penso assim. Ele nem tentou chamar a polcia. Deve estar muito apaixonado. Nesse caso, ela no vai mais trabalhar l, mas receio que o romance deles continue.
     - Como assim?
     - Talvez eles continuem se encontrando, apesar de tudo.
     Roberto empalideceu. Isso bem poderia acontecer. Passou a mo pelos cabelos, preocupado, e perguntou:
     - O que podemos fazer?
     -        Eu j fiz minha parte. Agora voc deve fazer a sua: precisa vigi-la at termos certeza de que eles acabaram mesmo.
     -        No vai ser fcil. Tenho que trabalhar, e s vezes nem posso almoar em casa.
     -        No pode deixar um pouco o trabalho, at que estejamos seguros de que romperam mesmo?
     -        Estou em uma fase de muito trabalho, em que preciso reconstruir o que perdi. Se parar agora, posso perder o que j conquistei.
     -        No h uma pessoa de confiana que possa fazer isso em seu lugar? Uma criada, voc daria algum dinheiro.
     -        A criada fica sempre do lado dela. Nunca concordaria.
     -        Pois pense, ache uma soluo. Pelo menos nos primeiros tempos precisamos ter certeza de que no esto se encontrando.
-        Bem que eu gostaria de ter essa certeza.
- S vai ter se fizer o que estou dizendo.
     Depois que Roberto deixou Gioconda, esse pensamento no saiu de sua cabea. Se por um lado no queria nada com a polcia, por outro reconhecia que qualquer 
patro em um caso como aquele teria dado queixa.
     Por que ele no o fizera? Por amor, certamente. Gabriela era atraente, e, se ele estivesse muito apaixonado, continuaria com a ligao mesmo depois que ela 
deixasse o emprego.
     Ele precisava ter certeza de que aquilo nunca mais iria acontecer. Depois de muito pensar, decidiu. Iria pedir ajuda  sua me. Claro que no lhe contaria o 
que aconteceu, mas diria que Gabriela estava doente e ele queria que ela estivesse sempre ao lado dela para que no fizesse nada que prejudicasse sua sade.
     Gabriela levantou-se naquele dia abatida, triste. Nicete esperava-a na copa e, vendo-a, disse:
-        Est melhor?
     -        Um pouco. Estou mais calma. Sou inocente. Hoje acordei com a impresso de que logo tudo estar esclarecido. Apesar disso, sinto-me triste.
     -        No centro eles me mandaram ir ontem novamente para ajudar. Fizeram um trabalho especial  distncia. Mandaram lhe dizer que tenha f e coragem. Eles 
a esto protegendo.
     -        Acredito, porque esta noite consegui dormir. Foi uma boa ajuda.
     -        Agora precisa confiar e fazer sua parte. Vai se alimentar bem e entregar tudo nas mos de Deus.
    -        No posso fazer nada mesmo. Nem sequer sei quem falsificou minha assinatura.
    -        Lembre-se de que, quando voc no pode, Deus pode. Vamos confiar.
    -        Gostaria de ter a sua f.
    -        Seria bom que a senhora fosse comigo ao centro esta noite tomar um passe. Estou certa de que lhe faria muito bem.
    - Vamos ver. Agora vou costurar um pouco. No agento ficar sem fazer nada. Preciso ocupar minha cabea para no pensar. H algumas roupas das crianas que precisam 
de reforma.
    -  bom. Mas tome seu caf antes.
    Passava das quatro quando Georgina chegou. Roberto fora  sua casa pedir-lhe ajuda para Gabriela, e ela no podia recusar. Sentia-se lisonjeada por ele haver 
ido  sua procura e firmou o propsito de mostrar sua dedicao.
    Encontrou Gabriela costurando e comentou:
    - Bem que Roberto me falou que voc estava doente! Est to plida, abatida. Por que no deixa esse servio para Nicete? E melhor se deitar.
    Gabriela, apesar de contrariada com a presena dela, no deixou transparecer. Respondeu apenas:
    -        Eu estou bem. No precisa se preocupar.
    - E o mdico, o que disse que ?
    -        No fui ao mdico, D. Georgina. No  caso para isso.
    -        Como no? Sua aparncia  pssima. Acho que vou chamar o Dr. Miranda.  um excelente mdico.
    - No  preciso. Estou muito bem. J passou
    -        Mas as pessoas no se sentem mal sem uma causa. Insisto que devemos chamar o mdico.
    Gabriela sentiu que estava no limite de sua pacincia e disse com voz firme:
    - No vou chamar o mdico. Obrigada pelo seu interesse, mas estou bem.
    -        Eu vim para ajudar voc. Ficarei aqui at Roberto chegar. Virei todos os dias at que fique bem. Meu filho est muito preocupado com sua sade.
    -        Ele no precisava preocupar a senhora. No h necessidade de ficar aqui. Nicete faz tudo. Estou costurando porque no gosto de ficar sem fazer nada.
    -        Sei que quer me sossegar, mas vou ficar.
     Gabriela suspirou e no respondeu. No estado em que se encontrava, agentar Georgina era muito penoso. Por que Roberto contara a ela que no estava bem?
     Teve vontade de mand-la embora, mas conteve-se. No estava disposta a enfrent-la, muito menos a Roberto. Para se acalmar, pensou que ele estava interessado 
em seu bem-estar e no podia ser grosseira. Suspirou resignada, dizendo:
     Nesse caso, vou pedir a Nicete para servir-lhe um caf.
     Respirou aliviada quando a viu ir para a copa tomar um lanche. Sabia que ela gostava de observar os mnimos detalhes de como ela dirigia a vida da famlia, 
e, a pretexto de ajudar Nicete, ficaria l durante a maior parte do tempo, o que a pouparia de sua presena.
     Enquanto costurava, Gabriela pensava, tentando encontrar uma explicao para o que lhe acontecera. Quem teria feito aquilo? Com certeza algum que a conhecia. 
Em sua mente desfilaram um a um todos os colegas de trabalho, sem que pudesse suspeitar de nenhum. Eram todos amigos, formavam uma equipe entrosada, em que se ajudavam 
mutuamente. Renato era um chefe firme porm justo e conseguira formar um grupo interessado em progredir com a empresa.
    Alguns estavam com ele havia vrios anos, e, quando algum entrava, se no se afinasse, acabava saindo. Por isso, Gabriela no conseguia entender o que lhe havia 
acontecido. S podia pedir a ajuda de Deus e esperar.
    Renato chegou ao escritrio pontualmente s oito. Gabriela estava fazendo-lhe muita falta. Entretanto, no pensara em substitui-la antes de Egberto terminar 
as investigaes.
    A semana que dera a Gabriela estava terminando, e ele ainda no tinha nenhuma informao. Estavam no sexto dia. O que fazer se ele no descobrisse nada que a 
inocentasse? Quanto mais o tempo passava, mais Renato duvidava que Gabriela tivesse praticado aquele desfalque.
    Ela lhe parecia uma mulher de princpios, honesta, cultivando valores ticos verdadeiros. Esse comportamento no se ajustava  sua personalidade.
    A secretria ligou, avisando que Egberto estava esperando na recepo.
    -        Mande-o entrar - ordenou Renato ansioso.
    Depois dos cumprimentos, tendo o detetive sentado  sua frente, Renato disse preocupado:
     -        E ento, descobriu alguma coisa?
    -        Sim. Mas as notcias que eu trago no so muito boas. Estou constrangido.
    - Gabriela tirou mesmo aquele dinheiro?
    -        No, doutor. No foi ela.
    Renato respirou aliviado.
    -        No sabe o peso que tira de cima de mim.
    Egberto hesitou:
    -  que o caso  mais grave do que parecia  primeira vista. Funcionrio que d um desfalque  coisa bastante usual hoje em dia. Mas este caso envolve pessoas 
tanto da famlia dela quanto da sua.
    Renato olhou admirado:
    -        Como assim? No estou entendendo.
    -        Vou lhe contar tudo. Meus relatrios esto claros.
    Egberto entregou algumas folhas datilografadas para Renato.
    -        Depois eu leio. Conte voc. Quero saber tudo.
    -        Naquele dia fui ao banco, mas no consegui saber nada alm do que me contou. Tentei descobrir se ela tinha algum vcio, dvidas, que a pudessem empurrar 
ao desfalque. Uma pessoa que sempre foi honesta s faria isso se tivesse desesperada. Tentei descobrir o motivo. Descobri apenas que o marido perdera tudo, ainda 
tinha dvidas que estava tentando pagar. Ento eu pensei que talvez ele fosse cmplice no desfalque. O dinheiro teria sido para ele. Assim resolvi segui-lo.
    Egberto fez uma pausa e Renato pediu:
    -        Continue, por favor.
    -        Ele se encontrou com D. Gioconda em um restaurante. Foram para uma mesa reservada.
    Aproximei-me o mais possvel tentando ouvir o que diziam. Algumas palavras me escaparam, mas ouvi o suficiente para saber que eles planejaram o desfalque.
    Renato levantou-se de um salto, dizendo:
    -        Isso no  possvel! Eles no se conhecem.
    -        Pois eu conheo bem D. Gioconda. Eles estavam curiosos para saber que providncias o senhor ia tomar com relao a Gabriela. Pelo que ouvi, ambos queriam 
que ela fosse despedida.
    Renato deixou-se cair na cadeira sem saber o que dizer. Egberto prosseguiu:
    -        No deu para saber certos detalhes, mas, pelo que ouvi, penso que foi por cime. Eles pensam que o senhor tem um caso com ela.
    - Isso  um absurdo! Gabriela  uma moa correta. De fato, Gioconda vive implicando com ela. Vrias vezes pediu que a despedisse. Trata-se de uma excelente funcionria, 
e eu me neguei a fazer isso. Por outro lado, Gabriela sempre dizia que o marido queria que ela deixasse o emprego.
    Mas da a praticarem esse crime,  difcil de acreditar.
    -        Pode crer, Dr. Renato.  a pura verdade. Fotografei os dois juntos, pode verificar.
    Renato, com mos trmulas, abriu o envelope que Egberto colocara sobre a mesa e tirou as fotos. No havia dvida. Eram Gioconda e um outro homem.
    - Tem mais, doutor.
    - Mais? O que pode ser pior do que isso?
    -        Mandei um perito examinar os cheques. Eles disseram que as assinaturas so falsas, mas que  trabalho profissional. Eles contrataram algum para o trabalho. 
Por outro lado, foi D. Gioconda quem sacou o dinheiro.
    -        Voltei ao banco e conversei com os caixas, descrevendo D. Gioconda, e uma moa lembrava-se de hav-la atendido. Ela tinha pressa, mas, como a quantia 
era alta, foi preciso esperar para pagar. Foi ela quem sacou o dinheiro.
    - Parece impossvel!
    - De fato. A princpio eu tambm duvidei. Mas sei que mulher ciumenta  o diabo! J vi cada coisa! Ouvi quando ele disse a ela para intervir e evitar que o senhor 
desse parte  polcia.
    - Sabem que eu a estimo e admiro.
    -        Bem, agora j sabe o que houve.
    -        Voc foi maravilhoso, como sempre.
    - O que pretende fazer?
    - Ainda no sei. Mas  claro que preciso tomar algumas providncias. Eles foram longe demais.
    - J vou indo, doutor. Se precisar de mim  s avisar.
    Depois que ele se foi, Renato leu o relatrio, inteirando-se de todos os detalhes da investigao. Quando acabou, pensou em Gabriela. Pobre moa! Como deveria 
estar sofrendo!
    Renato sentiu o estmago embrulhado. Chamou uma das secretrias e pediu que lhe arranjasse um sal de frutas. Pensou em Gioconda e sentiu repulsa. Depois do que 
ela fizera, no havia mais como continuar com o casamento.
    H muito aquele relacionamento se arrastava desagradvel, mas ele, preocupado com as crianas, tentava protelar a separao. Agora no daria mais para conviver 
com Gioconda. Uma pessoa que faz o que ela fez  capaz de qualquer coisa. Iria pedir a separao e a guarda dos filhos. Sua interferncia na educao deles sempre 
fora perniciosa, mas ele levava em conta sua falta de capacidade, de experincia. Porm o que ela fizera provava que era maldosa, desonesta, falsa.
    Por isso esteve no escritrio a pretexto de estar fazendo hora. Foi para tentar descobrir se ele despedira Gabriela. Mostrara-se amvel, cordata, diferente do 
que costumava ser.
    Um arrepio de raiva percorreu-lhe o corpo. Como  que ela conheceu Roberto? Teria ido procur-lo?
    Renato sentia a cabea pesada e, quanto mais pensava, mais e mais se sentia indignado.
    Tomou ento a deciso de se separar. Iria consultar seu advogado para decidir como conseguir a guarda dos filhos. Sabia que ela jamais permitiria e que as leis 
favoreciam a me.
    Mas ele haveria de provar ao juiz que Gioconda no possua equilbrio suficiente para cuidar deles.
    Renato passou a mo pelos cabelos angustiado. Sabia que iria ter pela frente um perodo difcil, porm estava decidido. No voltaria atrs. Ao praticar aquele 
ato deplorvel, Gioconda, sem o saber, assinara a separao.

Captulo 14

    A primeira providncia que Renato tomou foi ligar para Gabriela. Nicete atendeu e avisou:
    -        O Dr. Renato quer falar com voc.
    Gabriela estremeceu. Deveria voltar  empresa na manh seguinte. Por que ele ligara antes?
    Nervosa, foi atender:
    -        Al. Sim,  Gabriela.
    -        Preciso falar com voc, mas no pode ser pelo telefone.
    -        O senhor marcou para eu voltar amanh.
    -        No posso esperar. O assunto  delicado e urgente. J descobri quem foi.
    Gabriela sentiu ligeira tontura e as pernas bambas. A emoo foi tanta que no conseguiu responder.
    -        Est me ouvindo?
    -        Sim - murmurou ela.
    -        Voc est bem? Sua voz est fraca.
    -        No tenho conseguido dormir nem me alimentar depois do que aconteceu. Se tudo estiver esclarecido, ficarei bem.
    -        Temos que conversar sem que ningum saiba. No diga nada a ningum. Pode vir encontrar-se comigo agora?
    -        Na empresa?
    -        No. Nossa conversa precisa ser sigilosa. Passarei perto de sua casa para apanh-la.
    - Aqui no. Roberto  muito ciumento e pode no gostar.
    -        Onde ento?
    -        Na praa que fica a quatro quadras daqui. Sabe onde ?
    -        Sei. Vou sair agora. Pode esperar.
    Gabriela sentiu seu estmago dar sinal e lembrou-se de no haver jantado na vspera nem tomado caf da manh. Procurou Nicete e pediu:
    - Preciso sair. Enquanto me visto, pode me arranjar uma xcara de caf com leite?
    -        Claro. O que aconteceu? A senhora parece melhor, est at corada!
    -        Por ora no posso contar. Tive uma notcia muito boa. Na volta eu explico. Se Roberto aparecer, diga apenas que fui dar uma volta, fazer umas compras. 
No fale do telefonema do Dr. Renato.
    Arrumou-se rapidamente, engoliu o caf com leite, comeu a generosa fatia de bolo que Nicete colocara ao lado e saiu. Caminhou a passos rpidos at a praa. Ainda 
no teria dado tempo para ele chegar, ento Gabriela sentou-se em um banco para esperar.
    Mesmo sem saber o que acontecera, sentia-se aliviada. Finalmente saberia quem fez aquela maldade, poderia voltar ao emprego.
    Quando viu o carro de Renato aproximar-se, levantou-se e foi at ele, que parou, abriu a porta e ela entrou.
    -        Espero que esteja melhor - disse ele.
    -        Fiquei aliviada depois que falei com o senhor.
    - Vamos procurar um lugar sossegado para conversar.
    Ele deu algumas voltas e parou sob uma rvore em uma rua deserta e residencial. Gabriela olhou para ele esperando. Renato comeou:
    -        O que vou dizer  muito grave. Atinge a ns dois.
    - Como assim? O senhor disse que descobriu quem falsificou os cheques.
    -        Com isso resolvemos um problema mas descobrimos outro.
    -        O senhor me assusta!
    -        No  esse meu intento. Eu disse que iria investigar. Para isso contratei um detetive. Hoje  tarde ele apareceu e trouxe este relatrio.
    Renato tirou alguns papis do porta-luvas e entregou-os a Gabriela.  medida que ela lia, seu rosto foi empalidecendo e seu corpo comeou a tremer.
    -        No posso crer! Isto no pode ser verdade. Roberto no pode ter feito isso!
    - Pois fez. Gioconda e ele. Movidos pelo cime. O que me espanta  que eles no se conheciam. Como puderam juntar-se para tramar tudo isso?
    Seja pela tenso dos ltimos dias, seja pela emoo daquela descoberta, Gabriela rompeu em soluos. Penalizado, Renato apanhou um leno, oferecendo-o.
    -        Sinto muito. Sei que ama seu marido e imagino como se sente.
    Gabriela soluava sem conseguir dominar-se. Renato segurou sua mo para dar-lhe coragem, dizendo:
    -        Acalme-se, Gabriela. Reconheo que  uma situao muito triste, porm verdadeira.
    Precisamos aceitar os fatos e decidir as providncias a tomar. Penso que no pode ficar assim. Hoje fizeram isso, amanh faro coisa pior. Temos que encontrar 
coragem para decidir.
    Aos poucos Gabriela parou de soluar e enxugou os olhos. Por fim disse:
    -        Sinto que tem razo. Mas confesso que no sei o que fazer. Est doendo muito saber que Roberto foi capaz de fazer isso comigo. Ele viu como eu fiquei 
arrasada, ele sabia como essa suspeita me machucaria. Mesmo assim, no titubeou em me fazer passar por essa vergonha. Pensei que ele me amasse, agora vejo que no. 
Quem ama no age dessa forma. Eu seria incapaz de fazer isso a qualquer pessoa, muito menos a ele.
    -        Tenho certeza disso. Quanto a mim, decidi me separar de Gioconda. Nunca comentei abertamente com ningum, mas nossa vida em comum tornou-se desagradvel. 
Arrependi-me de haver casado com ela. H anos venho suportando essa unio por causa das crianas. Agora no d mais. Sinto que no poderei mais conviver com ela. 
Vou procurar meu advogado para tratar da separao.
    Gabriela ficou olhando para ele enquanto pensava em como seu casamento se transformara nos ltimos tempos.
    - Roberto sempre foi ciumento - considerou -, mas piorou muito depois que perdeu o dinheiro. Vivia pedindo para eu deixar o emprego, mas nunca imaginei que chegasse 
a tanto.
    - Pensei em dar queixa  polcia. Eles usaram um falsrio profissional. Isso  crime. Por outro lado, trata-se da me dos meus filhos e do seu marido. No sei 
como proceder.
    - Uma coisa eu sei, Dr. Renato. Vou deixar Roberto. Para ser bem sincera, o amor que sentia por ele j no era mais o mesmo. Fiz o que pude para salvar nosso 
casamento. Mas agora no d mais.
    -        Nesse caso, o mais urgente seria consultarmos um bom advogado. Pretendo conseguir a guarda dos meus filhos. Gioconda no tem condies de tomar conta 
deles. Voc poderia voltar ao trabalho amanh, conforme havamos combinado?
    - Sim. Agora mais do que nunca preciso do emprego.
    -        Ser seu enquanto quiser. Vou chamar um bom advogado e amanh mesmo faremos uma reunio com ele, expondo os fatos e pedindo orientao. Enquanto isso, 
ser melhor fingirmos que no estamos sabendo de nada.
    - No sei se vou conseguir. S de pensar nele, sinto vontade de brigar.
    - Se quisermos agir de maneira adequada, ser melhor controlarmos nossos mpetos e cuidarmos das providncias que precisaremos tomar. Nossos filhos merecem esses 
cuidados. Eles devem ser atingidos o menos possvel nesta triste histria.
    -        Tem razo. Agradeo a confiana que tem em mim. Se no fosse isso, nunca teramos descoberto a verdade.
    -        Sempre tive uma boa intuio e ela me dizia que voc seria incapaz de fazer uma coisa dessas.
    Gabriela suspirou aliviada, mas apesar disso sua cabea doa, e ela considerou:
-        Vou para casa tomar um comprimido e tentar descansar.
- Quer ir comer alguma coisa?
    -        No, obrigada. O caf que tomei de manh embolou em meu estmago.
    -        Posso compreender. Gostaria de recompens-la de alguma forma. H alguma coisa que posso fazer por voc?
    -        Eu gostaria de voltar ao trabalho ainda hoje. No quero ficar em casa sem fazer nada com esses pensamentos tumultuando minha cabea.
    -        No seria melhor descansar?
    - Acha que eu conseguiria? O trabalho vai me ajudar a suportar essa triste descoberta.
    -        Nesse caso, pode ir. Vou ver se consigo que o advogado v ao nosso encontro hoje mesmo. Vou lev-la para casa.
    -        Se temos que guardar segredo por enquanto, ser melhor deixar-me na praa onde nos encontramos.
    Renato concordou e levou-a at l. Depois que a deixou, sentiu-se triste. A irresponsabilidade de Gioconda levou-os quela situao to desagradvel. Claro que 
Roberto teve culpa tambm, mas, se ela no concordasse, nada daquilo teria acontecido.
    O        que mais Gioconda estaria fazendo que ele ignorava? De quem fora a idia do desfalque? Quem conhecia o falsrio profissional?
    Talvez fosse melhor pedir a Egberto que continuasse investigando para descobrir mais informaes.
    Quando Gabriela chegou ao escritrio, Renato informou-a que o advogado viria em seguida. Assim que ele chegou, conforme o combinado, Gabriela introduziu-o na 
sala de Renato. Quando ia sair, ele a impediu:
    -        Fique, Gabriela. O assunto diz respeito a voc tambm. Sente-se.
    Quando os viu sentados, Renato contou tudo ao Dr. Altino, que ouviu em silncio. Renato finalizou:
    -        O caso  delicado. Confio na sua capacidade profissional e gostaramos que cuidasse de tudo. Tanto eu quanto Gabriela desejamos a separao. Eu pretendo 
obter a guarda dos meus filhos. Como faremos isso?
    -        Para cuidar do caso, preciso saber toda a verdade. Posso fazer uma pergunta indiscreta?
-        Claro.
    -        Nunca houve um caso entre o senhor e D. Gabriela?
     -        Nunca. Garanto que nosso relacionamento tem sido muito bom, mas exclusivamente de trabalho.
     -        Muito bem. O senhor quer a guarda dos filhos. Para isso esse ponto precisa ficar claro. Suponho que D. Gabriela tambm pretenda ficar com os filhos.
     -        Sim, doutor respondeu ela.
     -        Geralmente a guarda dos filhos menores fica com a me, exceo feita somente em caso de mau comportamento.
        -        Se depender disso, ningum me tirar os filhos - disse ela. Est certo. Nesse caso, cada um tem que conversar com seu cnjuge e tentar uma separao 
amigvel. Seria o melhor, a fim de evitar um escndalo. Acho que  isso que ambos desejam.
-        . Por causa das crianas.
     Gabriela ficou pensativa por alguns instantes, depois disse:
     -        Vou falar com Roberto. No sei se ele vai concordar. Sempre foi muito apegado. Vai pedir perdo, querer outra chance, sinto que no ser fcil.
     -        Gioconda tambm vai dar trabalho. Vai fingir-se doente, infernizar a vida dos meninos, chorar, fazer-se de vtima. S de pensar nisso, fico nervoso.
     -         uma situao que tero que enfrentar. H outro meio: dar parte  polcia e justificar a separao mediante as provas. O falsrio seria responsabilizado 
e  bem possvel que o juiz desse uma sentena favorvel a vocs dois.
     - Meu primeiro impulso foi de fazer isso. Contudo repugna-me levar a me de meus filhos  polcia. Prefiro resolver de maneira amigvel.
     -        Nesse caso, cada um deve conversar com o cnjuge, dizer que sabe de tudo e pedir a separao. Estarei esperando o que decidirem para tomar as providncias.
     Depois que o advogado se foi, Gabriela considerou:
     -        No vai ser fcil.
     - Temos que tentar. Hoje mesmo falarei com Gioconda. Quero resolver tudo o quanto antes.
     - Eu tambm. No suportaria ficar calada. Quanto mais penso, mais fico indignada.
     -        Vou para casa falar com ela. So trs horas. Se desejar sair, tambm pode ir.
     -        No. Roberto s estar em casa  noite. Ficarei at o fim do expediente.
     Renato saiu. As crianas estavam no colgio, por isso ele e a mulher poderiam conversar  vontade. Ele temia que Gioconda fizesse cena diante dos meninos.
    Chegou em casa e encontrou-a na sala lendo. Vendo-o, levantou-se surpreendida:
        -        Voc em casa a esta hora? Aconteceu alguma coisa? Precisamos conversar. Vamos at o quarto.
    -        Que foi? Est com uma cara... Alguma coisa com os meninos?
    Ele no respondeu. Subiu para o quarto e Gioconda acompanhou
o.        Uma vez l dentro, Renato fechou a porta  chave. Indicou uma cadeira para que ela se sentasse e sentou-se por sua vez.
    -        Sei de tudo, Gioconda. No adianta fingir.
    Ela empalideceu e murmurou:
    - Tudo o qu?
    -        O que voc e o marido de Gabriela fizeram. O desfalque, a falsificao dos cheques, tudo.
    Gioconda sentiu a vista toldar e teria cado se Renato no a segurasse. Assustada, procurou recuperar-se. Tinha de saber o que estava acontecendo. Respirou fundo 
e levantou os olhos para ele, dizendo com indignao:
    -        O que est dizendo? Que calnia  essa? Quem lhe contou essa mentira? Foi ela, essa mulher que est tentando nos destruir?
    - No adianta fingir. O detetive deu-me todas as provas. Eis o relatrio. Tudo que vocs fizeram est relacionado aqui, horrios, conversas. Veja estas fotos. 
Voc e Roberto juntos. Como  que se conheceram? Qual dos dois tramou essa falcatrua?
    Gioconda no encontrou palavras para responder. Percebeu que haviam sido descobertos, estavam perdidos. Tentou comov-lo.
    -        Foi ele quem me procurou dizendo que voc e Gabriela eram amantes. Foi ele quem fez tudo. Eu concordei, mas estou arrependida. Estava at pensando em 
contar a voc.
    - Jamais faria isso. No acredito em nada que me diz. Voc  uma perversa, que no teve escrpulo de envolver uma moa honesta que trabalha para viver, uma me 
de famlia, como voc, que tem dignidade.
    Gioconda enfureceu-se:
    - Voc a defende e me acusa! Eu, sua prpria mulher. Voc est cego de amor por ela. Esse amor ainda vai destru-lo.
    -        Voc est louca! Se quer saber, admiro Gabriela, porm nunca fomos amantes. O que est nos destruindo  seu ciume.
    -        Sou uma mulher trada! Como quer que suporte isso?
    - No adianta falar mais. H muito que nossa vida em comum est se deteriorando. Tenho tentado continuar vivendo a seu lado por causa dos meninos, mas agora 
voc realmente exagerou.
    No estou disposto a suportar seu cime infundado. Devemos nos separar.
     Gioconda levantou-se nervosa, agarrando o marido pelo brao.
     -        No, isso no. Pelo amor de Deus! No faa isso! Talvez eu tenha exagerado, mas  pelo muito que eu o amo. Por favor, separao no.
     -        Estou decidido.  melhor que concorde logo. Faremos tudo de forma amigvel. Dividirei o que tenho com voc e nada vai lhe faltar. Se quiser, poder 
ficar com esta casa e tudo que h dentro. Eu me mudarei. Mas as crianas iro comigo.
     -        No. O que pensa que eu sou? Quer tirar at meus filhos? Acha justo? Nunca irei aceitar uma separao.
     -        Se no quiser, serei forado a ir  polcia e dar queixa. O falsrio ser preso, voc e Roberto respondero pelo que fizeram. Com voc no vivo mais. 
Acabou, Gioconda. Acabou. Pense e escolha. Tem at amanh para decidir.
     Ele saiu do quarto e Gioconda agoniada atirou-se na cama chorando em desespero. Precisava fazer alguma coisa. Mas o qu?
     Apanhou o telefone e ligou para Roberto. Assim que ele atendeu, disse chorando:
     - Roberto, eles descobriram tudo. Estamos perdidos!
     -        Como?! Quem descobriu o qu?
     -        Renato contratou um detetive, que descobriu o que fizemos. Renato quer separar-se de mim e tirar meus filhos.
     Roberto sentiu que as pernas bambearam. Tentou reagir:
     -        Acalme-se. Conte tudo. Gabriela sabe?
     - Sim. Ele a defende e me acusa. Acha que pode ser isso? Ah! Mas garanto que no vai ficar assim. Gabriela  culpada de tudo. Ela vai me pagar. Voc vai ver!
     -        Calma. No piore as coisas.
     - No vou suportar uma separao. Antes eu acabo com sua mulher. Era isso que eu deveria ter feito.
     -        No seja louca. Converse com seu marido. Ele est zangado, mas vai refletir melhor, acabar perdoando. No se precipite...
     -        Vou resolver as coisas do meu jeito!
     Gioconda desligou e Roberto nervoso imediatamente ligou para casa. Gabriela s deveria retornar ao trabalho no dia seguinte.
     Nicete atendeu e explicou:
     -        D. Gabriela est no escritrio. Recomeou a trabalhar hoje depois do almoo.
    Ele desligou nervoso. Olhou o relgio. Gabriela deixaria o escritrio dentro de meia hora.
    Gioconda poderia tentar alguma coisa contra ela. Apanhou um txi, foi at l, ficou esperando no saguo, perto da porta do elevador.
    Gabriela saiu e ele a pegou pelo brao.
    -        O que est fazendo aqui? - perguntou ela.
    -        Vamos para casa. Temos que conversar.
    Quando estavam saindo da porta, ele viu Gioconda parada do lado. Tudo aconteceu muito rpido. Ela tirou o revlver da bolsa e apontou-o para Gabriela. Roberto 
imediatamente colocou-se na frente da esposa, gritando desesperado:
    - No atire, Gioconda! Largue essa arma!
    Mas era tarde. Ela disparou quatro tiros, atingindo Roberto, que caiu. Gabriela sentiu a vista toldar e perdeu os sentidos.
    Gioconda aproveitou a confuso que se estabeleceu e fugiu. Uma colega de Gabriela correu a ampar-la enquanto Roberto gemia estirado na calada.
    Imediatamente apareceu um guarda, que de pronto chamou uma ambulncia e reforo policial. Gabriela voltou a si e assustada olhou em volta para as pessoas que 
estavam ao seu redor, penalizadas, e logo se lembrou do que havia acontecido, perguntando  sua colega que a estava amparando:
    - E Roberto? Ele precisa de ajuda. Pelo amor de Deus, no o deixem morrer! Onde ele est?
    -        Acalme-se, Gabriela. Ele est aqui do lado. A ambulncia j deve estar chegando.
    Gabriela olhou em volta e viu Roberto gemendo, estirado no cho. Ningum vai fazer nada?
    Ele est ferido
    - Por favor, me ajudem a socorr-lo.
    O policial aproximou-se:
    - Calma. Estamos tratando de tudo. Tentei estancar a hemorragia, mas  melhor no tocar nele. O socorro est a caminho
    Algum trouxe um copo com gua para Gabriela, que, trmula, bebeu alguns goles. Ela se debruou sobre Roberto, dizendo aflita:
    Roberto, fale comigo. Por favor! Abra os olhos.
    Ele perdera os sentidos. Assustada, Gabriela chorava desconsolada. A ambulncia chegou, os dois foram colocados dentro e ela partiu rumo ao hospital enquanto 
dois policiais investigavam o que havia acontecido, procurando testemunhas.
    A colega de Gabriela que havia sado com ela pelo elevador havia presenciado tudo. Depois de relatar ao policial o que vira, subiu novamente ao escritrio e 
ligou para Renato.
    - Dr. Renato, aconteceu uma desgraa! D. Gioconda tentou matar Gabriela, mas atingiu o marido dela que veio esper-la e colocou-se na frente.
    Renato empalideceu.
    - Onde eles esto?
    - A ambulncia levou-os para o hospital. Os tiros no atingiram Gabriela mas o marido dela est muito ferido. A polcia continua arrolando testemunhas.
    - Vou para ai imediatamente. Obrigado por me avisar.
    Quando Renato chegou ao local, a polcia estava l  sua espera. As testemunhas haviam contado que fora Gioconda quem atirara, e Marisa informara que seu patro 
estava a caminho.
    Ouvindo as informaes dos policiais, Renato parecia estar vivendo um pesadelo. Sentiu-se culpado. Sabendo como Gioconda era descontrolada, deveria ter tido 
mais cuidado. Mas nunca pensou que ela fosse capaz de uma loucura daquelas.
    - O senhor sabe se o ferimento de Roberto  grave?
    - Ele levou quatro tiros, est mal. Onde est sua esposa?
    - Eu estava em casa e no a vi sair. At aquele momento, ela no havia voltado.
    - Vamos at l.
    - Eu pretendia ir at o hospital ver como eles esto.
    - Eles esto sendo cuidados. Precisamos encontrar sua esposa.
    Renato no teve outro remdio seno obedecer. Marisa tentou confort-lo:
    - J sei o nome do hospital em que eles esto. Vou para l imediatamente e telefono para sua casa contando tudo.
    Renato agradeceu. Suas mos tremiam na direo do carro, enquanto a polcia o acompanhava. Estava preocupado com as crianas. Precisava tir-los de casa a fim 
de poup-los, porm no teve como fazer isso.
    Quando entraram, Renato encontrou Maria nervosa:
    - Dr. Renato, estou preocupada. D. Gioconda chegou em casa descontrolada, mandou arrumar as malas das crianas correndo, arrumou a dela, juntou todas as jias, 
colocou tudo no carro e saiu com eles.
    - Saiu? Por que no tentou impedir?
    - Tentei falar com o senhor, mas a linha do escritrio estava sempre ocupada. Ela no estava bem.
    A polcia entrou e Renato esclareceu:
       - Gioconda enlouqueceu, Maria. Temo pelas crianas.
    O        policial pediu fotos dela e das crianas, e, enquanto um ficava na casa, os outros foram para a delegacia. Renato no sabia o que fazer. Imediatamente 
ligou para seu advogado explicando o que estava acontecendo e pedindo que fosse  polcia informar-se.
    Depois, dirigiu-se ao policial:
    - Vou at o hospital. Preciso saber como esto.
    -  melhor ficar aqui. Podemos precisar do senhor.
    - No posso ficar aqui sem saber de nada.
    - Vou me informar.
    O        policial ligou para o hospital enquanto Renato angustiado esperava. Depois disse:
    -        A moa no est ferida. Ele se colocou na frente e a salvou. Ele, porm, est sendo operado. Est mal.
    -        Preciso ir at l.
    -        Vai ter que esperar. Meu chefe quer que v  delegacia prestar declaraes.
    Renato chamou Maria e pediu:
    -        Se Gioconda der alguma notcia, ligue para este telefone.  da delegacia. Este outro  do hospital. Estarei em um desses dois lugares. Quando puder 
eu telefono.
    Depois que eles saram, Maria, nervosa, resolveu rezar. Foi para o quarto, ajoelhou-se diante do pequeno oratrio e pediu ajuda para aquela famlia. Com eles 
h alguns anos, gostava das crianas e no queria que nada lhes acontecesse.
    Era madrugada quando finalmente Renato conseguiu ir at o hospital, onde Gabriela, recostada em uma poltrona, esperava.
    Vendo-o, ela se levantou, dizendo aflita:
    - Por favor, Dr. Renato. Faa alguma coisa! Nunca pensei que isso pudesse nos acontecer!
    - Nem eu. Foi uma tragdia. Sinto-me culpado. Deveria saber que Gioconda  doente. Eu podia ter sido mais cuidadoso. Nunca pensei que ela chegasse a esse extremo.
    - Roberto est mal. Estou esperando sem saber o que est acontecendo. Ele est na UTI e no momento no pode receber visitas.
    - Disseram-me que estavam fazendo uma cirurgia.
    - . Parece que terminou h pouco. Mas  s o que sei. Eu quero v-lo, saber de tudo.
    - Vou providenciar para que nada falte a ele. Voc tambm precisa descansar. No pode passar a noite toda nessa cadeira.
     -        Ficarei aqui at poder v-lo. Ele me salvou a vida! Se no fosse ele, talvez eu estivesse morta...
     -        Nem fale uma coisa dessas!
     Nesse instante, Georgina chegou aflita. Aproximou-se de Gabriela, gritando nervosa:
     -        Viu o que voc fez? Est satisfeita agora?
     Gabriela olhou surpreendida para a sogra.
     -        O que est dizendo?
     -        Isso que ouviu. Sempre desconfiei de voc. Sabia que traria a desgraa para Roberto. Se ele me ouvisse, no teria se casado com voc.
     Renato interveio:
     -        Acalme-se, senhora. No agrave a situao.
     -        Meu filho est mal e voc quer que eu me acalme? Meu nico filho, meu tesouro. Como acha que eu me sinto sabendo que a mulher do amante dela tentou 
mat-Lo? Ah, mas eu contei tudo ao policial que foi  minha casa.
     Gabriela estava trmula e Renato percebeu que ela estava prestes a desmaiar.
     -        Venha, Gabriela. Voc precisa de um pouco de ar fresco. Vendo que ela mal podia suster-se em p, pediu: - Apie-se em mim.
     Voltando-se para Georgina, Renato considerou:
     -        Peo-lhe que respeite este momento de dor.  hora de rezar. Se teme pela vida de seu filho,  o que deveria estar fazendo.
     Georgina mordeu os Lbios e no respondeu. Seu olhar enfurecido seguiu-os pelo corredor at que desaparecessem no jardim.
     -         o cmulo. Eles perderam o senso e a vergonha. Onde j se viu? Pobre Roberto, que no tem como se defender dessa traio. Eles vo pagar, l isso 
vo.
     Ela no duvidava que Gabriela estava traindo o marido. Por isso Roberto se mostrara to nervoso ultimamente. Por que ele se colocara na frente de Gabriela quando 
a mulher de Renato disparara os tiros? Por que apesar de tudo tentara salvar-lhe a vida?
     Com isso ela no podia se conformar. Agora ele estava l, entre a vida e a morte, enquanto os dois estavam juntos, talvez at comemorando a vitria.
     Georgina no viu que duas sombras escuras a abraaram satisfeitas, apenas sentiu que um dio profundo contra aqueles dois a envolvia, provocando nuseas e dor 
de cabea.
     Sentou-se em uma poltrona ruminando seu dio, pensando em fazer tudo para que eles pagassem pelo mal que tinham feito a seu filho.

Captulo 15

    Uma vez no jardim, Gabriela respirou fundo tentando reagir. Renato conduziu-a a um banco, fazendo-a sentar-se.
    -        Vou buscar um caf e alguma coisa para comer.
    -        No, por favor. Estou enjoada. No quero nada.
    -        No pode ficar sem comer.
    - No agora. Estou com medo. Se Roberto morrer, nem sei o que farei.
    -        Vamos conservar a calma. Ele  forte, saudvel, vai conseguir superar.
    -        Estou pensando nas crianas. Como ficaro quando souberem? Ainda mais com D. Georgina inventando histrias...
    - Espero que a polcia localize Gioconda. Ela est nervosa, alterada, as crianas devem estar assustadas. No sei o que disse a elas. Receio que lhes acontea 
alguma coisa mais grave.
    -        Meu Deus, que desgraa! Arrependo-rne de no ter deixado o emprego.
    -        Isso no mudaria nada. Ele continuaria ciumento onde quer que voc fosse trabalhar. Gioconda faria o mesmo. O cime  uma doena grave capaz de Levar 
 desgraa aqueles que se deixam dominar por ele.
    - Estou me sentindo um pouco culpada.
    - No diga isso. Ns no fizemos nada de mau. Sempre respeitamos nossos compromissos conjugais. Eles no tinham nenhum motivo para fazer o que fizeram. Ns no 
podemos nos responsabilizar pela loucura deles.
    - Voc est certo. No temos do que nos culpar. Eles fizeram tudo. Eu fui injuriada, caluniada, ofendida. As palavras de D. Georgina me fizeram mal. Como sempre, 
ela tenta me responsabilizar por tudo de ruim que acontece ao filho. Ignora que quem errou foi ele, que eu  que tenho de perdoar o que ele fez.
    -        Infelizmente, ele se acumpliciou com Gioconda sem notar o quanto ela  desequilibrada. Se ele foi esper-la na sada do escritrio foi porque percebeu 
que ela tinha inteno de fazer alguma coisa contra voc. Estava L para impedi-la, tanto que salvou sua vida.
-        E foi abatido em meu lugar! Meu Deus, at parece um pesadelo!
- Sente-se melhor?
-        Sim. Vamos entrar. Quero saber como ele est.
- Vamos.
    Ela se levantou e foram andando devagar at o corredor onde ficava a UTI. Renato conduziu-a at um banco e disse:
-        Fique aqui. Vou tentar saber como ele est.
    Gabriela concordou e ele foi at o mdico que havia operado Roberto, esperando que ele terminasse o que estava fazendo e pudesse atend-lo.
    Conversaram e ele ficou sabendo que o estado de Roberto era muito grave. Apenas duas balas o haviam acertado, porm uma se alojara no pulmo esquerdo e por pouco 
no atingira o corao, o que o teria matado instantaneamente. A outra perfurara os intestinos, alojando-se na bacia. Haviam retirado um pulmo e as balas, porm 
ele se encontrava inconsciente. O mdico disse que ele tanto poderia reagir como entrar em coma. Haviam feito o possvel e era preciso esperar para saber como o 
organismo reagiria.
    Renato procurou Gabriela e informou:
    -        Falei com o mdico que o operou. Ele disse que fez tudo que podia e agora s nos resta esperar.
    - O estado dele  muito grave?
    -        No vou engan-la.  grave, mas no desesperador. O mdico no sabe como o organismo vai reagir. Temos que esperar.
    Gabriela suspirou agoniada.
    -        Esperar, nesse caso, vai ser uma agonia.
    - Temos que pensar no melhor. Ele vai superar. Precisamos ter esperana.
    -        Tem razo. Precisamos acreditar que ele vai ficar bom.
    -        No adianta ficarmos aqui, porque eles no vo permitir que voc o veja.  melhor irmos para casa e voltarmos amanh cedo.
    - No. Quero ficar. No posso abandon-lo nesta hora.
    - Voc precisa se cuidar. Ele vai melhorar e precisar da sua ajuda para ficar bom. Depois, h as crianas. Se ficar, vai esgotar suas energias e amanh, se ele 
estiver melhor, voc no estar em condies de ajud-lo.
    - No adianta ir embora. No vou conseguir dormir. Ficando aqui tenho a impresso de que estou fazendo alguma coisa.
    - Nesse caso tambm ficarei. A polcia sabe que estou aqui e vai me avisar assim que encontrar Gioconda.
    - No precisa fazer isso. Eu ficarei bem. A enfermeira j me ofereceu um sof discreto para eu repousar.
       -  que eu tambm no vou agentar ficar em casa pensando que as crianas esto acompanhando Gioconda na fuga. Nem quero pensar no que lhes pode acontecer.
    Gabriela suspirou. Georgina apareceu no corredor e olhou para ela com raiva. Gabriela fechou os olhos e tentou ignor-la.
    -        Ela j se foi - informou Renato, depois de alguns instantes.
    -        O pior  ficar aqui com ela por perto.
    -        No vai se livrar dela to cedo.
    -        Reconheo que deve estar desesperada.  alucinada pelo filho. Imagino sua dor. Por isso no respondo quando me agride. Mas estou no limite da minha 
pacincia. Peo a Deus que ela no se aproxime de novo.
    -        Falei com a administrao, e informaram-me que vai vagar um quarto. Est reservado para voc, apesar de o hospital estar lotado. S iro precisar dele 
se ocorrer alguma emergncia. Dessa forma, voc no ter que passar a noite no sof.
    - No precisava se incomodar.
    -         o mnimo que posso fazer depois do que minha esposa fez. H telefone, banheiro, e voc ficar mais  vontade. Depois, quando Roberto melhorar, precisar 
mesmo de um quarto.
    Obrigada. Eu aceito. Assim D. Georgina no me incomodar.
    - Isso mesmo. Quando o quarto estiver pronto, seremos avisados. Apesar do esforo de Renato, o quarto s ficou livre s sete da manh, e passava das oito quando 
Gabriela finalmente pde acomodar-se. Ligou para Nicete, colocou-a a par de tudo e informou-se sobre as crianas.
    Pediu-lhe que, depois que eles fossem para escola, ela lhe levasse algumas roupas.
    Renato telefonara vrias vezes para a delegacia, porm eles no tinham nenhuma notcia de Gioconda. Depois de um ltimo telefonema, dirigiu-se para o quarto 
de Gabriela a fim de despedir-se. Queria ir at sua casa tomar um banho, trocar de roupa. No corredor, Georgina abordou-o, entregando-lhe um jornal e dizendo:
    - Veja o que vocs conseguiram fazer  minha famlia. Deus  justo e vai lhes dar o castigo que merecem.
    Saiu chorando antes que Renato pudesse responder. Ele abriu o jornal e viu na primeira pgina o retrato de Gioconda com a manchete: "Mulher trada tenta matar 
a amante do marido mas atinge o marido dela". Abaixo havia a descrio dos fatos, em que se lia que "tendo descoberto a relao do marido com a secretria, a esposa 
atirara nela. Porm o marido trado colocara-se na frente e estava morrendo no hospital".
    Irritado, Renato amassou o jornal. Voltou para o quarto, e Gabriela, vendo-o, perguntou:
    -        O que foi? Voc est plido. Roberto piorou?
    -        No. No foi nada.
    Renato dobrou o jornal e fingiu indiferena, porm Gabriela desconfiou:
    -        O que h nesse jornal? Por que o amassou desse jeito?
    - Nada que valha a pena. Esses reprteres no sabem de nada.
    Gabriela apanhou o jornal, abriu-o e leu a notcia. Sua voz estava trmula quando disse:
    - Havia esquecido essa possibilidade. Eles esto prejulgando. Preciso impedir que meus filhos vejam isto.
    -        As pessoas esto sempre prontas a condenar. Assim como esse jornalista, muitos dos nossos conhecidos vo pensar a mesma coisa. Temos que estar preparados. 
O escndalo foi brutal. No h como escapar da maledicncia popular.
    -        Tenho que falar com as crianas. Eles precisam saber que sou inocente. Talvez seja melhor no irem  escola hoje. Vou ligar novamente para Nicete.
    -        Faa isso.
    Renato deixou-se cair em uma cadeira, segurando a cabea entre mos desanimado. Por que Gioconda fizera aquela loucura?
    Gabriela ligou para casa, mas ningum atendeu. Olhou o relgio e disse angustiada:
    -        A esta hora eles j devem estar na escola. Nicete saiu, est vindo para ca.
    Renato levantou a cabea e respondeu:
    -        Tenha calma. Pode ser que ningum conte nada a eles.
    -         o que estou pedindo a Deus. Eles tero que saber, mas eu gostaria que fosse por mim, no atravs da maldade dos outros.
    - Voc pelo menos pode conversar com eles. Eu no posso. Isso est me deixando louco!
    Gabriela olhou para ele penalizada:
    -        Estava to mergulhada em minha dor que nem sequer tive tempo de imaginar o que voc deve estar sentindo.
    - Estou atrasado, perdido, agoniado.
    -        Precisamos ter foras para enfrentar esta tragdia que ainda no sabemos como vai acabar.
    -        Espero em Deus que Roberto melhore. Seja como for, no nos resta outro recurso.
       -  melhor ir para casa, tomar um banho e descansar um pouco. Se eu tiver alguma notcia, telefonarei.
    Depois que Renato se foi, Gabriela deixou-se cair na cama, desanimada. Apesar de tudo, no se sentia culpada. Ela nunca trara o marido. Sempre respeitara sua 
famlia. Aquela loucura um dia teria de ficar esclarecida. Temia que os filhos sofressem. Sabia que precisava reagir, ser forte, mas ao mesmo tempo sentia-se impotente. 
Diante do que acontecera, quem acreditaria que nunca houve nada entre eles?
    As lgrimas rolaram pelo seu rosto e ela as deixou cair livremente. Depois, exausta, adormeceu. Acordou com algumas batidas na porta. Deu um pulo assustada e 
viu o rosto de Nicete espiando.
    -        Pode entrar.
    -        Que horror, D. Gabriela. Ainda no acredito que isso aconteceu!
    -        Foi horrvel! As crianas foram  escola?
    -        Eu vi o jornal e achei melhor levar os dois para brincar em casa da Alcina.
    -        Fez bem. Eu liguei, mas voc j havia sado. Acha que eles no vo incomodar sua prima?
    -        Ela adora os dois. Depois, tem a Claudete para brincar.
    -        Obrigada, Nicete.
    -        Como vai o Seu Roberto?
    -        Mal, mas tenho esperanas de que melhore.
    -        Fao votos. Trouxe algumas roupas.
    -        Vou tomar um banho para ver se tira um pouco o cansao. Estou moda. Parece que levei uma surra. Meu corpo todo di.
    -         nervoso. Posso imaginar.
    -        Depois vamos saber como est Roberto. Foi operado e ainda no me deixaram v-lo. Est na UTI. O que voc disse para as crianas?
    -        Nada. Apenas que vocs no iriam dormir em casa.
    -        Pretendo contar a verdade a eles assim que puder. Precisam saber que sou inocente. Juro que nunca tive nada com o Dr. Renato, nem com qualquer outro. 
Sou uma mulher honesta.
    -        Sei disso. Mas sei tambm que o cime  um monstro que cega e pode causar muito mal.
    Depois de tomar um banho e arrumar-se, Gabriela saiu com Nicete em busca de notcias de Roberto. Ela ficou no corredor da UTI e abordou uma enfermeira que passava:
    -        Por favor, sou esposa de Roberto Gonalves, que foi operado esta noite. Desejo v-lo, saber como est.
    -        Infelizmente na mesma. No acordou ainda da anestesia.
    -        Quero v-lo.
    -  melhor falar com o mdico. Ele logo estar aqui e poder informar melhor. S ele pode dar permisso para a senhora v-lo.
    - Por favor! Deixe-me espiar como ele est.
    - No posso fazer isso. Quer que eu perca meu emprego? Gabriela conformou-se e decidiu esperar pelo mdico.
    -         melhor se alimentar - aconselhou Nicete. A senhora est muito abatida.
    -        No quero nada.
    -        Faa fora pelo menos de tomar um caf com leite, comer um pozinho com manteiga. Se a senhora adoecer, quem vai cuidar de tudo?
    Gabriela deixou-se conduzir  lanchonete e, apesar de no sentir fome, tomou o caf com leite, comeu o po e sentiu-se melhor. Compreendeu que Nicete tinha razo. 
Ela precisava preservar suas foras. No sabia o que poderia acontecer.
    Renato chegou em casa e encontrou Maria inconformada. Ela havia lido os jornais, mas no comentou. Pensava que, se seu patro arranjara outra mulher, tivera 
bons motivos. No gostava de Gioconda. S continuava na casa por causa das crianas, que ela queria muito bem, e da generosidade do patro, que lhe pagava um salrio 
muito bom.
    -        Alguma notcia de Gioconda ou das crianas?
    - No, senhor. Eu ia lhe perguntar a mesma coisa. At agora nada. A polcia est procurando-os.
    -        Meu Deus! As crianas devem estar assustadas! Clia  to sensvel! Depois, D. Gioconda deve estar fora de si, para fazer o que fez...
    -        Nem quero pensar nisso, Maria.
    - Vou acender uma vela para Nossa Senhora dos Aflitos. Quando a polcia os encontrar, o que vai acontecer com D. Gioconda?
    -        Ter que responder pela sua loucura. Infelizmente no vou poder evitar esse desgosto.
    Estou muito cansado, Maria. Vou tomar um banho e depois irei at a delegacia.
    - Vou preparar um caf reforado. O senhor no dormiu a noite toda, precisa refazer as energias.
    Depois de se barbear, tomar um bom banho e trocar de roupas, Renato sentiu-se menos cansado. Maria tinha razo. Sentia um vazio no estmago que chegava a doer, 
precisava comer alguma coisa.
    Sentou-se  mesa e comeu tudo que ela colocou em sua frente. O telefone tocou. Maria ia atender, mas Renato correu e pegou o aparelho. Era o delegado.
    - Tenho notcias para o senhor. Sua mulher foi encontrada e detida na rodovia Ferno Dias, perto de Belo Horizonte. As crianas esto bem. Nossos homens esto 
trazendo-os para c.
    - Irei para a imediatamente. Tem certeza de que as crianas esto bem?
    - Tenho, fique tranqilo. No precisa apressar-se. Eles vo demorar pelo menos trs ou quatro horas.
    Renato resolveu ligar para seu advogado e contar a novidade. Pediu-lhe para cuidar do caso.
    Apesar da repulsa que sentia pelo que Gioconda fizera, no poderia abandon-la  prpria sorte. Era sua mulher, me de seus filhos.
    Como dispunha de tempo, passou pelo hospital para saber de Gabriela. Encontrou-a desanimada e triste. Falara com o mdico, que no lhe permitira entrar no quarto 
de Roberto.
    Renato contou-lhe que Gioconda fora encontrada, finalizando:
    - Pedi ao Dr. Altino que acompanhe o caso. Pelo menos ficaremos informados de tudo.
    Quando Renato partiu para ir  delegacia, Nicete aproveitou para sair com ele. Gabriela queria que ela levasse Guilherme e Maria do Carmo para casa.
     Uma vez na rua, considerou:
     - O Seu Roberto est muito mal. A enfermeira disse que no voltou da anestesia. Isso no  bom. Est demorando demais. O mdico no nos deixou entrar no quarto 
dele.
     Renato passou a mo pelos cabelos em um gesto nervoso.
     - Vamos pedir a Deus que ele se recupere. Ele no pode morrer. At onde vai esta loucura?
     Vendo-o afastar-se angustiado, Nicete meneou a cabea com tristeza. O que seria das duas famlias se o pior acontecesse?
     Renato foi at a delegacia e o delegado informou que eles j estavam chegando. A polcia descobrira o carro na estrada, tentara fazer com que ela parasse. Porm 
ela no obedeceu e acelerou. Percebendo o quanto ela estava nervosa, os policiais, por causa das crianas, pediram reforo pelo rdio e logo apareceu outro carro 
policial em sentido contrrio, e ela finalmente parou.
     Depois de pedir-lhe os documentos, prenderam-na. As crianas estavam plidas e assustadas, porm os policiais conversaram com naturalidade e tentaram acalm-las.
Ricardinho queria saber o que estava acontecendo, por que eles estavam viajando sem o pai. O policial prometeu que quando chegassem saberiam de tudo e que seu pai 
os estava esperando.
     Colocaram Ricardinho e Clia no carro da polcia, dizendo:
     - Vocs j andaram em uma viatura?
     - No - respondeu Ricardinho.
     - A mame no vem junto? - perguntou Clia, aflita.
     - Ela vai, mas no neste carro. Um policial vai dirigir o carro dela de volta. A me de vocs est muito cansada,  perigoso dirigir assim.
     Eles concordaram e iniciaram a viagem de volta. Passava das cinco da tarde quando finalmente chegaram  delegacia.
     - Esto chegando - avisou o delegado.
     Renato saiu para esper-los. Havia combinado com o delegado que as crianas no entrariam na delegacia. Como os policiais afirmaram que eles estavam bem, bastava 
que eles declarassem isso. Renato os levaria para casa no carro de Gioconda. Ela ficaria detida. O Dr. Altino j estava esperando. As crianas, assim que desceram 
do carro, correram a abraar o pai, e Gioconda vendo-os gritou furiosa:
     - Conte para eles o que voc fez. Diga todo o mal que me causou.
     Renato no respondeu, e os policiais levaram-na rapidamente para dentro.
     - Pai, o que est acontecendo? Por que a mame foi presa? indagou Ricardinho, tentando segurar as lgrimas.
     - Pai, faa alguma coisa. No quero que a mame fique presa! -disse Clia chorando e agarrando-se a ele.
     Renato sentiu um n na garganta, mas reagiu. Ele no podia deixar-se abater.
     - O Dr. Altino est cuidando dela. Vamos embora. Em casa conversaremos.
     Ricardinho contou que a me havia chegado em casa aflita mandando Maria arrumar as malas deles enquanto ela cuidava da sua. Depois disse-lhes que precisavam 
viajar porque estavam em perigo. Colocara-os no carro e pegara a estrada. Estava nervosa e no conversava. Tarde da noite haviam parado em um pequeno hotel em uma 
cidadezinha e foram para o quarto. Ela havia comprado lanche e eles comeram. Ficaram l at o dia amanhecer, depois reiniciaram a viagem.
     Uma vez em casa, Renato subiu com eles pedindo que tomassem um banho.
     - Ns vamos, pai - garantiu Ricardinho -, mas antes precisamos saber o que est acontecendo.
     - Est bem, meu filho. Sentem-se aqui e vamos conversar.
    Quando os viu acomodados, Renato continuou:
    -        Vocs sabem como sua me  ciumenta. O cime faz a pessoa imaginar coisas que nunca aconteceram.
    -        Eu sei como  - tornou Ricardinho. - A mame tem um modo de ver muito diferente. Ela torce tudo que a gente fala.
    -        Pois . Ela sentia cime de Gabriela, minha funcionria. Eu juro para vocs que eu nunca tive nada com ela. Gabriela  uma mulher casada, honesta, tem 
dois filhos e ama muito seu marido.
    Mas, como Gioconda, o marido dela tambm sente cime dela. Bem, os dois se conheceram e acharam que eu estava namorando Gabriela. Ontem sua me pegou um revlver 
e foi esperar Gabriela na sada do escritrio. Mas Roberto, que  o marido dela, tambm foi. Ento ele viu quando Gioconda ia atirar em Gabriela e tentou impedir. 
Colocou-se na frente e levou os tiros. Est no hospital.
    Clia chorava e Ricardinho abraava o pai, assustado.
    - Ela vai ficar presa para sempre? - perguntou Clia.
    -        No. Mas o tempo que ficar l depende da justia. Por isso, ns precisamos ser fortes.
    Sua me agiu sem pensar nas conseqncias. Alis,  bom que saibam toda a verdade: eu havia decidido me separar de sua me.
    -        Voc no gosta mais dela? - perguntou Clia.
    - No se trata disso.  que ns no conseguimos mais viver em paz. Eu penso de um jeito e ela de outro. No somos felizes.
    -        Sei disso e tinha medo de que um dia acontecesse. Eu tambm no consigo falar com ela a srio. Aprendi a no entrar nos jogos dela. A Clia cai direitinho.
    -        Eu gosto dela. No queria que ela ficasse triste ou doente. Quando eu fazia alguma coisa ruim, ela passava mal. Ento eu fazia tudo do jeito que ela 
queria.
    -        Sua me  como uma criana que nunca cresceu. E como criana vai ter que responder pelo que fez para poder crescer.
    -        E agora, pai, o que vai ser de ns se ela ficar presa e demorar a voltar? - indagou Clia com voz trmula, tentando reter as lgrimas.
    Renato abraou-a com carinho, puxou Ricardinho tambm e prometeu:
    -        Eu estou aqui e farei de tudo para que vocs estejam bem. Nunca os deixarei.
    -        Eu queria que a mame voltasse... - retrucou Clia chorando.
    Renato afastou-os um pouco e, segurando a menina pelos ombros, olhando-a nos olhos, disse com voz firme:
     -        Na vida, minha filha, precisamos ser fortes, estar preparados para superar todos os desafios. Voc  inteligente e eu sei que vai cooperar. Apesar 
do que houve, ns somos uma famlia. Um precisa apoiar o outro.
     -        Mas sem a mame no ser a mesma coisa.
     -        No diga isso. Sua me agiu sem medir as conseqncias, agrediu uma pessoa, no temos como impedir que responda pelo que fez. Mas ainda  a me de 
vocs, e o melhor que tm a fazer  rezar por ela para que se recupere. A esta hora j deve estar arrependida e lamentando.
     Ricardinho meneou a cabea, dizendo triste:
     -        Quando ela se fingia de doente ou queria nos obrigar a fazer as coisas, muitas vezes eu quis fazer com que ela entendesse que isso no era bom. Mas 
ela ficava mais zangada, no me ouvia, e continuava.
     -        Agora no vale a pena criticar.
     -        Mas eu era como ela. Quando voc conversou comigo, me mostrou as vantagens de dizer a verdade sem medo, e eu aprendi. Nunca mais menti para voc.
     -        Mas continuou a fazer isso com ela - retrucou Clia.
     -         que ela s entendia dessa forma.
     -        Discutir no adianta. De hoje em diante, serei me e pai ao mesmo tempo. Sempre estarei pronto e por perto para ajud-los. Agora vo tomar banho. O 
jantar logo estar pronto.
     Eles obedeceram e Renato deixou-se cair extenuado em uma poltrona. Apesar de arrasado e temeroso de que a situao de Roberto se agravasse, o que tornaria o 
problema muito pior, tentou reagir. Dali para a frente sabia que teria de suportar muitos problemas, por isso mesmo no podia entregar-se  depresso.
     Gabriela, a cada meia hora, ia at a UTI em busca de notcias, mas Roberto continuava na mesma. Ficou esperando o mdico e assim que ele chegou abordou-o perguntando 
sobre o estado de seu marido.
     A resposta foi evasiva:
     -        Por enquanto ele est agentando. Vamos ver.
     -        Disseram-me que ele ainda no voltou da anestesia. Isso no natural.
     -        Seu marido est em pr-coma. No vou engan-la. Estamos vivendo momentos decisivos.
     - O estado em que est tanto pode evoluir para o coma profundo e a morte como pode lev-lo a recuperar a conscincia e ficar bem.
     Gabriela segurou o brao do mdico nervosa.
     -        H alguma coisa que possamos fazer para salv-lo?
    - Acalme-se. Estamos fazendo todo o possvel para isso. Seu marido  jovem, forte, saudvel. Tem muitas probabilidades de conseguir. Vamos manter a calma e esperar 
confiantes.
    Depois de agradecer ao mdico, Gabriela ia voltando para o quarto quando foi abordada por uma atendente:
-        D. Gabriela, h um mdico que deseja v-la.
-        Acabei de falar com o mdico que operou meu marido.
-        Ele no  do hospital. Pediu para entregar-lhe este carto.
Gabriela leu: Dr. Aurlio Dutra, mdico psiquiatra.
       Surpreendida, perguntou:
       - Onde est ele?
       - No hall da esquerda.
    Gabriela foi at l com o carto nas mos. Aurlio esperava-a e levantou-se do banco, aproximando-se:
    - Eu sou Aurlio, amigo de Roberto. Podemos conversar?
    -        Claro - concordou ela, admirada.
    No corredor prximo ao quarto de Gabriela havia um pequeno hall com algumas poltronas. Foram at l e sentaram-se.
-        O senhor  amigo de Roberto?
-        Ele nunca lhe falou a meu respeito?
- No.
Aurlio sorriu levemente e considerou:
    - Foi o que pensei. Ontem mesmo fiquei sabendo o que lhe aconteceu e vim informar-me sobre seu estado. J conversei com o mdico dele.
    Gabriela lembrou-se da matria do jornal e remexeu-se na poltrona um pouco constrangida. Ele continuou calmo:
    - Seu marido foi meu cliente e ficamos amigos.
    -        No sabia que ele havia procurado um...
    -        Mdico da alma - completou Aurlio.
       Gabriela suspirou e respondeu:
       - H momentos na vida em que todos precisamos de um.
    - Por isso vim procur-la. Desejo oferecer-lhe meu apoio neste momento difcil por que esto passando.
    - Obrigado, doutor. Para dizer a verdade, eu me sinto perdida. No sei o que ser da minha vida e dos meus filhos daqui para a frente. Se ele morrer, ser uma 
grande perda; se ele viver, nosso relacionamento no ser fcil.
    Aurlio olhou srio para ela e considerou:
    -        O cime  mau conselheiro e arruina qualquer relao.
    -        O senhor sabe?
    -        Sim. Certa tarde eu me dirigia ao estacionamento para pegar meu carro quando vi uma aglomerao e um homem cado. Imediatamente fui prestar socorro. 
Era Roberto. Passara o dia todo procurando emprego, no havia comido nada e desmaiara. Prestei os primeiros socorros e ele voltou a si. Ainda tonto, disse que precisava 
buscar os filhos na escola. Era distante dali e levei-o at l. Fomos conversando pelo caminho. Ele estava atravessando uma situao difcil. Convidei-o para me 
procurar no consultrio.
     -        Ele nunca me falou nada...
     -        Seu marido  muito orgulhoso. Sentiu vergonha.
     -        No deve ter sido fcil para ele ter se submetido a um tratamento psiquitrico. Refiro-me  maneira como foi educado.
     -        A princpio estava constrangido, mas depois nos tornamos amigos. Seu marido  um homem bom. O problema de educao  srio. Pensando em proteger os 
filhos, muitas mes transferem para eles os prprios preconceitos.
     -        J que  amigo de Roberto, gostaria que soubesse a verdade. Nunca tra meu marido.
     -        Vim aqui para oferecer meu apoio  senhora e a ele. No precisa me dizer nada.
     -        Obrigada. Mas preciso falar. O que aconteceu foi um lamentvel engano. Uma injustia no s para comigo mas para com o Dr. Renato, meu patro, que 
sempre me respeitou, que nunca atravessou os limites de uma relao de trabalho. Quando ele soube que Roberto perdera tudo e no arranjava emprego, ofereceu-me novas 
oportunidades de trabalho. Progredi na empresa  custa do meu esforo e consegui ganhar mais. Ao invs de agradecer, Roberto ficou irritado com meu sucesso. Tanto 
que eu nem podia comentar com ele detalhes do que estava fazendo.
     -        Ele se sentia incapaz, primeiro por ter menos instruo que a senhora, depois por haver sido enganado pelo scio e no ter formao profissional para 
arranjar emprego. Seu sucesso no trabalho fazia-o acreditar mais ainda na prpria incapacidade.
     -        Isso eu posso entender. O que me deprime e revolta  o fato de Roberto pensar que eu estivesse me vendendo por dinheiro, perdendo a dignidade, enlameando 
minha famlia para subir na vida. Isso no posso tolerar.
     -        Sua indignao  justa. Porm tenho certeza de que, quando ele se restabelecer, tudo ser esclarecido.
     -        Meu retrato nos jornais, o escndalo. O adultrio  mais condenado na mulher. Depois do que houve, quem acreditar em minha inocncia? Meus filhos 
tero que enfrentar a maledicncia.
    -        Que idade tm?
    - Guilherme oito, Maria do Carmo seis.
    -        Precisa conversar com eles, contar a verdade. Prepar-los para enfrentar o que poder acontecer.
    -        Quando vi o jornal, no os deixei ir  escola. Mas logo tero que voltar.
    Gabriela suspirou fundo e passou a mo pela testa, como querendo evitar os pensamentos dolorosos. Aurlio interveio:
    -        As crianas percebem muito mais do que os adultos admitem. Seus filhos j devem ter notado o cime do pai e por certo vo compreender e ajud-la a superar 
este momento. Depois, o tempo passa, as pessoas esquecem com facilidade. Dentro de algum tempo, ningum mais se lembrar de nada.
    -        O pior  que no sabemos o que ainda falta acontecer. E se Roberto morrer? Ficarei sozinha com as crianas. D. Gioconda ficar presa. Tenho certeza 
de que o Dr. Renato no vai me demitir. Mas terei condies de continuar no emprego depois de tudo? A maldade dos outros vai continuar me caluniando, dizendo que 
estou me aproveitando da ausncia dela. Como sustentarei minha famlia se perder meu emprego?
    Gabriela sentiu que as lgrimas desciam pelo seu rosto e deixou-as correr livremente. Aurlio ofereceu-lhe um leno, dizendo com voz calma:
    -        Chore, Gabriela. Est doendo e voc precisa jogar fora essa dor. Ela continuou soluando por alguns minutos, depois parou, enxugou os olhos e tornou:
    -        Desculpe, doutor. Sou forte. No choro por qualquer coisa. Mas desta vez no consegui me controlar.
    -        Eu sei. Mas Roberto est vivo. Vamos esperar pelo melhor. Ele vai se curar.
    -        Estou rezando para isso. Desejo que fique bom logo. Entretanto, no vou mais suportar sua desconfiana. Pretendo separar-me dele.
    -        Posso fazer-lhe uma pergunta?
    - Fale.
    -        A senhora deixou de amar seu marido?
    Gabriela ficou pensativa por alguns instantes, depois respondeu:
    -        No sei. Casamos por amor. Sempre o amei muito. Mas ultimamente ele tem se mostrado diferente, desconfiado, deixou de ser aquele moo alegre, confiante, 
bom, pelo qual me apaixonei.
    Agora, depois de tudo que ele fez, sinto tanta indignao, tanta raiva. Chego a pensar que meu amor acabou.
     -        Pelo que me contaram, ele se colocou na sua frente quando ela atirou, salvou sua vida.
     -        Reconheo isso. Mas ele ajudou a provocar o que aconteceu.
     Gabriela contou ao mdico sobre o desfalque e finalizou:
     -        Eles arranjaram um falsificador profissional. S no fui presa porque o Dr. Renato me conhecia bem, sabia que eu seria incapaz de uma coisa dessas 
e mandou investigar. Muitas coisas ainda precisam ser esclarecidas. No sabemos como meu marido e D. Gioconda se conheceram e tramaram tudo. O fato  que ele sabia 
que ela pretendia me matar, por isso foi me esperar na sada do trabalho. Ele no costumava fazer isso. Por que foi exatamente naquela tarde?
     Aurlio fitou-a srio. Roberto havia ido longe demais. Na nsia de conservar o amor da mulher, talvez a houvesse perdido para sempre.
     -        Seja como for, Gabriela, de nada adianta ficar se atormentando imaginando o futuro. O melhor ser cuidar da sua sade, conservar o equilbrio emocional. 
Preparar-se para enfrentar seja o que for e ir em frente. Seus filhos precisam da sua fora. E Roberto ainda mais. Tenho certeza de que no se negar a ajud-lo 
a superar essa fase. Quando ele tomar conscincia do mal que provocou, ficar em crise. Vai precisar de apoio. O arrependimento di e o remorso destri a vontade 
de viver.
     -        Tem razo, doutor. Vou reagir. No tomarei nenhuma deciso antes de Roberto recuperar a sade.
     -        Vejo que entendeu. Recebeu meu carto. Se precisar desabafar, conversar, procure-me.
     Tem em mim um amigo.
     -        Obrigada, doutor. Fico-lhe muito grata pelo seu interesse. Suas palavras deram-me grande conforto.
     Aurlio saiu e Gabriela foi mais uma vez tentar informar-se sobre o estado de Roberto. Ele continuava na mesma.

Captulo 16

    Gabriela acordou assustada e olhou para o relgio. Eram seis horas e o dia j havia amanhecido. Levantou-se rpida. Dormira mais de oito horas. Vencida pelo 
cansao, deitara vestida pretendendo descansar um pouco.
    Lavou-se depressa, arrumou-se e quando se preparava para sair em busca de notcias uma enfermeira bateu levemente e entrou.
    - Aconteceu alguma coisa? - indagou preocupada.
    - O mdico deseja v-la na sala de consultas. Sabe onde ?
    - Sim.
    Com o corao descompassado, Gabriela entrou na sala do mdico.
    - Como est meu marido, doutor? J acordou?
    - Infelizmente, D. Gabriela, o estado de seu marido agravou-se esta madrugada. Est em coma.
    - Por que no me avisaram? Eu estava cansada, peguei no sono. Meu Deus! Eu no podia ter dormido.
    - A senhora estava exausta e foi melhor ter descansado. Vou permitir que visite seu marido.
    - Ele vai morrer, doutor?
    - Seu estado  grave, alm disso h uma infeco generalizada que no conseguimos debelar.
    A senhora precisa ser forte.
    Gabriela sentiu as pernas bambearem e o mdico amparou-a, obrigando-a sentar-se.
    - Se continuar assim, no permitirei que v v-lo.
    - Por favor, doutor. Foi o choque, mas prometo me controlar. Desejo v-lo.
    - Est bem. Se desmaiar l dentro, pode atrapalhar o atendimento ao seu marido.
    - Eu quero v-lo.
    O mdico conversou com ela mais alguns minutos, deu-lhe um calmante e quando a viu mais controlada levantou-se dizendo:
    - Venha comigo.
    Com o corao aos saltos, Gabriela entrou na UTI esforando-se para controlar a emoo.
    Vendo o marido inconsciente, ligado aos aparelhos de controle, respirando de maneira irregular, Gabriela sentiu que as lgrimas desciam pelas suas faces.
    Aproximou-se do leito, segurou a mo do marido e inclinou-se, dizendo ao seu ouvido:
    -        Roberto, neste momento difcil de nossas vidas, eu juro por Deus que sempre lhe fui fiel. Nunca o tra. No nos deixe agora. Reaja.
    Ele apertou a mo dela com fora e Gabriela olhou para o mdico dizendo admirada:
    -        Ele ouviu minhas palavras, apertou minha mo.
    O        mdico aproximou-se de Roberto, abriu-lhe as plpebras, os lbios, auscultou-lhe o corao, depois disse srio:
    -         impossvel, senhora. Ele est inconsciente.
    -        Mas ele apertou minha mo.
    -        Deve ter sido algum espasmo. Ele no tem condies fsicas de responder a nada.
    -        Posso ficar aqui com ele?
    -        Melhor no. A enfermeira ficar o tempo todo e nos avisar no caso de alguma mudana.
    -        Mas eu gostaria de ficar...
    - No  bom para ele. Precisa de sossego. Depois, no caso de precisar de um atendimento urgente, sua presena poder prejudicar. O paciente est em primeiro 
lugar. Ele precisa de toda a ateno.
    Gabriela deixou a UTI abatida. Uma atendente aproximou-se:
    -        Deixei a bandeja do caf em seu quarto. A senhora precisa se alimentar.
    Gabriela foi para o quarto. Sentia um vazio no estmago e muita inquietao, O que seria de sua vida se Roberto morresse? A esse pensamento sentiu tontura e 
resolveu reagir. Tinha de ser forte. Seus filhos precisavam dela.
    Serviu-se de caf com leite, comeu um pozinho. O que fazer enquanto esperava?
    Telefonou para casa e conversou com Nicete sobre as crianas, informando-a sobre o estado de Roberto.
    - Vou levar os dois para a casa da Alcina e logo estarei a.
    -         melhor ficar com eles em casa.
    -        A senhora no pode ficar sozinha agora. Fique tranqila, estaro bem l. No vou agentar ficar aqui quando a senhora est passando por tudo isso.
    - Faa como quiser - concordou por fim. A presena de Nicete lhe daria conforto.
    Eram oito horas quando Renato bateu na porta do quarto. Estava plido e assustado.
-        Roberto est em coma! - foi dizendo Gabriela assim que o viu.
-        Fui informado assim que cheguei. E voc, como est?
    Ela deu de ombros, respondendo:
    -        O que posso dizer? Arrasada. Isso parece um pesadelo, uma mentira. Como esto as coisas em sua casa?
    -        As crianas bem. Conversei com elas e expliquei tudo. Ricardinho compreendeu. Clia est inconformada. O advogado acompanhou o depoimento de Gioconda. 
Ela no falava coisa com coisa, por isso o delegado resolveu interrog-la novamente hoje.
    -        Meu Deus! At onde nos levar essa loucura?
    -        O Dr. Altino me preveniu de que ns dois precisaremos depor no inqurito.
    -        Ainda isso?
    -        Infelizmente no podemos evitar.
    -        No vou sair daqui enquanto ele no melhorar.
    -        O delegado ainda no marcou nada. O Dr. Altino vai nos dar orientaes.
       - Pretendo falar a verdade. No temos nada a esconder. Isso mesmo. Ele vai nos orientar quanto s providncias legais e ao inqurito.
    Gabriela suspirou inquieta.
    Depois de bater ligeiramente, Nicete entrou no quarto. Aps os cumprimentos, indagou:
-        Alguma novidade?
-        No - respondeu Gabriela. - Ele continua na mesma.
-        Deus vai nos ajudar e ele vai ficar bom.
-        Estamos rezando por isso - tornou Renato.
     Roberto continuava em coma na UTL. Enquanto seu corpo lutava para manter-se vivo, seu esprito, agitado, lutava para entender o que estava acontecendo.
    Quando foi atingido pelos tiros, conservou a conscincia, sentiu que havia sido ferido e, apavorado, vendo-se estirado na calada ao lado de Gabriela, que desmaiara, 
imaginou que ela tambm havia sido atingida.
    Apesar do seu esforo para manter-se consciente, perdeu os sentidos. Ento comeou para ele um perodo de inquietao, no qual se mantinha entre a semiconscincia 
e a lucidez. Queria ficar lcido, acordar, saber o que estava acontecendo, porm no conseguia.
     Momentos havia em que perdia completamente a conscincia, outros em que via seu corpo deitado na cama do hospital e ficava desesperado. Teria morrido?
     Quando freqentou o centro esprita, disseram-lhe que a vida continuava depois da morte do corpo e que a pessoa se sentia viva, como se ainda estivesse na carne.
     Roberto no queria morrer. Apesar dos problemas que enfrentava, nunca lhe passara pela cabea deixar o mundo. Pensava nos filhos, e as lgrimas desciam pelas 
suas faces sem que pudesse evitar.
     Angustiado, atirava-se sobre o corpo, querendo dar-lhe vida, mas ao fazer isso sentia dores e acabava perdendo a conscincia. Acordava novamente, como se estivesse 
vivendo um pesadelo.
     Queria saber a verdade, ver Gabriela, os filhos, dizer que estava vivo e que no desejava deix-los.
     Por que havia acontecido isso com eles, por qu? Com medo de perder a conscincia, Roberto no se atirou mais sobre o corpo. Assim, acabou percebendo que estava 
no hospital. Via a enfermeiras fazendo o atendimento, e, quando o mdico chegava, ficava do lado, ouvindo o que ele dizia.
     Assim descobriu que seu estado se agravava a cada hora e, apavorado, no sabia o que fazer.
     Entrar no corpo novamente era intil, apenas conseguia perder a conscincia e sentir-se mal.
     O que fazer, ento?
     Arrependia-se de haver-se envolvido com Gioconda. No pensara que fazendo isso colocaria em risco a vida de Gabriela.
     Naquela tarde ele se sentiu mais forte. Pensou que estivesse melhor, mas assustado viu que a enfermeira chamou o mdico e que este constatou o coma.
     Quando Gabriela entrou na UTI, o esprito de Roberto estava l. Vendo-a abatida porm ilesa, sentiu-se aliviado. Aproximou-se dela comovido e ouviu quando ela 
disse emocionada:
     - Roberto, neste momento difcil de nossas vidas, eu juro por Deus que sempre lhe fui fiel.
     Nunca o tra. No nos deixe agora. Reaja.
     Foi acometido de incontrolvel emoo. Sem pensar em mais nada, atirou-se sobre o corpo no desejo de voltar  vida. Sentiu-se mal, tonto, com dores pelo corpo, 
mas por alguns segundos teve a mo de Gabriela entre as suas e apertou-a com fora. Depois, perdeu a conscincia.
     Acordou algum tempo depois olhando ansioso em volta,  procura de Gabriela. Mas ela no estava no quarto. Recordou-se das palavras dela, e todo o seu cime, 
sua dvida, desapareceu como por encanto.
     Em seu lugar apareceu o remorso, a certeza de que em sua loucura provocara a tragdia que estavam vivendo. Por que se deixara envolver pelo cime daquela forma? 
Por que esquecera toda a dedicao, o amor, o carinho que Gabriela manifestara todos os anos em que viveram juntos?
    O remorso di, e Roberto viveu horas de angstia e arrependimento, O que fazer agora para remediar o mal que fizera? Por mais que pensasse, no conseguia encontrar 
sada. Estava preso quele quarto, tendo  sua frente seu corpo semidestrudo lutando para manter-se vivo. E se ele no conseguisse? E se por fim ele morresse, cortando 
definitivamente o vnculo que tinha com o mundo? O que seria dele dali para a frente? Se ao menos a morte fosse o fim de tudo, o esquecimento, odes-canso eterno, 
talvez fosse bom.
    Mas, pelo que estava percebendo, o esprito tem vida prpria e pode continuar vivendo sem estar na carne. Teria de sofrer aquele pesadelo para sempre?
    No auge do desespero, sentindo que precisava encontrar uma sada, lembrou-se de Deus. Ajoelhou-se, dizendo entre lgrimas:
     -        Meu Deus! Grande foi meu erro, minha cegueira, minha loucura. Menti, envolvi Gabriela em uma tragdia, acabei com minha vida. Sei que no mereo sua 
misericrdia, mas estou arrependido. Peo uma nova oportunidade. Ajude-me! Permita que eu volte  vida e possa reparar esse erro. Enlameei o nome da me de meus 
filhos, da mulher que jurei amar e defender a vida inteira! Preciso voltar, pedir que me perdoe, reparar todo o mal que causei! Sei que vai me ajudar.
     S o senhor pode me tirar deste pesadelo terrvel. No me abandone!
    Naquele momento Roberto sentiu ter sido arremessado para outro lugar. Viu-se em uma sala em penumbra, onde algumas pessoas oravam em silncio. Ele conhecia aquelas 
pessoas. Cilene estava entre elas.
    Emocionado, aproximou-se dela, dizendo:
     -        Cilene, sou eu, Roberto. Voc me atendeu e me ajudou muitas vezes. Vim pedir auxlio.
     Estou desesperado.
    Repetiu a frase algumas vezes e ouviu quando ela disse em voz alta:
     -        Est aqui um esprito que precisa de ajuda. Vamos orar.
    Ento Roberto sentiu uma espcie de tontura e viu que estava ao lado de uma senhora que no conhecia. Disse aflito:
     -        Por favor, tenho que falar com algum, me atendam. Eu freqento aqui. Vocs j me ajudaram muito.
     Admirado, percebeu que a senhora repetia suas palavras em voz alta e todos estavam ouvindo. Continuou:
-        Meu corpo est em coma no hospital. Preciso que me ajudem. No quero morrer. Errei, mas estou arrependido. Por favor, vocs falam com os espritos de luz, 
me ajudem. Eu preciso viver, tenho dois filhos para criar. Tudo aconteceu por minha culpa.
    Cilene respondeu com voz calma:
    -        Estvamos orando por voc. Temos acompanhado seu caso pelos jornais.
    -        No sei o que disseram, mas Gabriela  inocente. Sempre me foi fiel. Oh, o cime! Se eu pudesse voltar atrs... Foi por causa dele que armei a cilada 
que nos precipitou nesta tragdia. Eu desejo viver, defender Gabriela e criar meus filhos! Preciso dessa oportunidade para desfazer todo o mal.
    -        Acalme-se, Roberto. Acima de nossa vontade est a de Deus. S ele poder fazer o que pede. Todavia, estamos intercedendo por voc. Procure no agravar 
sua situao mergulhando no desespero ou na revolta. Sempre que tomamos alguma atitude, no sabemos bem at onde ela nos levar. Mas a vida  mestra e deseja nossa 
felicidade. Vamos confiar no futuro, pedir a Deus que nos abenoe e que permita sua recuperao.
    -        Diga que vou ser atendido.
    -        Vamos pedir. O resultado pertence a Deus. Mas saiba que, acontea o que acontecer, tudo ser para o melhor. Confie, ore e espere. Procure cultivar a 
confiana. Vai acontecer o melhor.
    Naquele momento Roberto viu o esprito de uma mulher de meia-idade, cujos cabelos grisalhos estavam rodeados por uma aurola de luz prateada. Ela se aproximou 
dele, dizendo com doura:
    -        Vamos ajud-lo agora, acalmar seu corao. S a harmonia pode nos ajudar nos momentos difceis. Por isso, voc vai pensar no bem e manter a confiana.
    Ele quis falar, mas no conseguiu. Ela estendeu as mos sobre a cabea dele, e delas saam energias coloridas que entravam pelo seu coronrio. Ele sentiu grande 
bem-estar. Naquele momento, toda a sua angstia desapareceu. Em sua mente ele viu como em um filme todos os momentos importantes de sua vida.
    Ela se aproximou de uma senhora presente, dizendo:
    -        Vamos ajudar. Procurem Gabriela no hospital e tragam-na aqui.
    -        No a conheo - tornou Cilene -, no sei se vir.
    -        V at l e ns a ajudaremos a traz-la.
    Cilene prometeu ir falar com ela. Roberto, aflito, olhou para o esprito da mulher que o socorrera, ansioso para perguntar, mas com medo de saber se iria morrer 
ou viver. Ela olhou em seus olhos e disse:
    - O momento  de orao e f. Faa sua parte, mentalize luz e evite dramatizar. Entregue o resultado nas mos de Deus na certeza de que, embora nem sempre as 
coisas sejam como desejamos, sempre acontece o melhor. Devo dizer que precisamos muito da sua fora e da sua f.
     importante que nos ajude.
    -        Est bem - respondeu ele em pensamento, dominado pela energia agradvel que vinha dela. S no quero perder a conscincia outra vez.
    -        Acalme-se. Voc agora vai dormir um pouco. Quando acordar, se sentir melhor.
    Ficaremos do seu lado, acontea o que acontecer.
    Cilene saiu da reunio pensando em como saber em qual hospital Roberto estava. Procurou a ficha de atendimento de Roberto e encontrou o nmero do telefone de 
sua casa. Olhou o relgio: passava das nove da noite.
    Ligou e Nicete atendeu. Cilene perguntou por Gabriela. Meu nome  Nicete, trabalho aqui. D. Gabriela est no hospital com o marido. Quem est falando?
    -        Cilene, uma amiga do Sr. Roberto. Poderia me dizer em que hospital eles esto? Pretendo visit-los.
    -        O Seu Roberto no pode receber visitas. Pode deixar o telefone que eu falo com a D. Gabriela.
    -        Preciso ir at l com urgncia. Minha visita no  apenas de cortesia. Trabalho no centro esprita que o Sr. Roberto freqentava. Oramos por ele e recebemos 
a incumbncia de ajudar espiritualmente no seu tratamento.
    Apesar de estranhar que Roberto houvesse freqentado um centro esprita, Nicete informou o endereo do hospital imediatamente. Ela tambm estava rezando, pedindo 
ajuda aos espritos.
    -        Eles esto precisando muito. Deus abenoe vocs por essa ajuda.
    Cilene convidou um companheiro do centro a acompanh-la at o hospital. Meia hora depois, ela e Hamlton, seu companheiro de trabalho espiritual, batiam na porta 
do quarto de Gabriela.
    Uma atendente que passava informou que ela estava na lanchonete. Eles foram at l e um funcionrio indicou a mesa onde Gabriela e Renato conversavam. Ele havia 
insistido para que ela se alimentasse, tomasse pelo menos um caf com leite.
    Sabendo que precisava conservar suas foras, Gabriela concordara. Havia terminado e se preparavam para voltar ao quarto quando os dois se aproximaram.
    -        D. Gabriela?
    Admirada, ela assentiu com a cabea. Cilene continuou:
    - Meu nome  Cilene, e este  Hamlton. Somos amigos do Sr. Roberto, seu marido. Precisamos conversar com a senhora em particular. Pode nos dar alguns momentos 
de ateno?
    - Claro. Mas... poderia esclarecer melhor? No me lembro de vocs.
    - A senhora no nos conhece. Somos do centro esprita onde seu marido fazia tratamento.
    Gabriela olhou admirada para Renato. Roberto nunca lhe falara nada sobre o assunto. Renato interveio:
    - Meu nome  Renato, sou amigo da famlia. O que desejam?
    - Gostaramos de conversar a ss com ela. O assunto  delicado.
    - O Dr. Renato est nos ajudando. Pode falar.
     melhor irmos at o quarto - sugeriu Renato. - Aqui h muito barulho.
    Uma vez no quarto, Cilene comeou:
    -        H mais ou menos um ano, atendi seu marido no centro esprita onde somos voluntrios. Ele estava desesperado por haver sido roubado pelo scio. Conversamos 
e pedi a ele que freqentasse nossas reunies de energizao e ajuda. No sei se os senhores sabem como funciona.
    - J ouvi falar - respondeu Gabriela. - Nicete, minha empregada, costuma ir a um centro de vez em quando.
    - Pois bem. Soubemos o que aconteceu pelos jornais e ontem em nossa reunio espiritual colocamos o nome dele para nossas oraes. Ento eu vi o esprito de Roberto 
do meu lado.
Gabriela levantou-se da cadeira, assustada:
    - Como assim? Ele ainda no morreu. Sempre ouvi dizer que eles se comunicam depois da morte.
    Hamlton interveio:
    - Em certas circunstncias, fazem isso sem terem morrido.
    -         difcil acreditar disse Renato, que nunca se interessara por esse tipo de fenmeno.
    -        Mas ele ficou do meu lado implorando ajuda. Disse que seu corpo estava em coma no hospital e que ele no queria morrer. Disse tambm que tudo aconteceu 
por culpa dele, que foi ele quem armou toda a cilada que resultou nesta tragdia. Que est arrependido. Que agora sabe que voc  inocente e que sempre lhe foi fiel. 
Que seu cime foi a causa de tudo. Implorou nossa ajuda.
Gabriela deixou-se cair na cadeira, emocionada:
    -        Ento ele ouviu o que eu lhe disse na UTI. Eu sei que ouviu. Ele apertou minha mo. Meu Deus! Ele est consciente!
    -        Os mdicos garantem que uma pessoa em coma no ouve nada. Isso no pode ser! - disse Renato.
    -        Ento os mdicos esto enganados, e ele no est em coma -tornou Gabriela. - O que sei  que ele apertou minha mo e eu senti que ele entendeu o que 
eu disse e acreditou em mim. Eu jurei que nunca o havia trado. O que mais ele lhe disse?
    -        Que deseja viver para reparar seu erro, para defender voc e criar seus filhos.
    -         verdade! Eu acredito. Diga-me: o que podemos fazer para ajud-lo?
    - Nossos guias pediram que voc v orar conosco em nossa reunio.
    - Quando? No quero sair daqui enquanto ele no melhorar.
    - O quanto antes, melhor. Vai demorar pouco mais do que uma hora entre ir e voltar.
    - Posso lev-la - ofereceu Renato.
    Hamlton olhou srio para ele e respondeu:
    -  bom mesmo. O senhor tambm precisa muito da ajuda espiritual. Seus filhos esto muito atingidos emocionalmente. Eles fazem o possvel para no o preocupar, 
porm esto sofrendo.
    Vejo uma menina chorosa, mas o menino fecha-se no quarto e chora agoniado. Quer parecer forte, mas est cheio de medo e de dvidas.
    Renato ia dizer algo, mas desistiu. Como aquele homem podia saber detalhes do comportamento de seus filhos se ele no tinha dito nada? Bem que desconfiava das 
atitudes de Ricardinho, mostrando-se cordato, alegre, disposto. Suas olheiras indicavam que ele no estava to bem quanto queria parecer.
    - Eles tambm precisariam ir at l?
    - No momento, no. O desequilbrio emocional deles vem de muito tempo. As crianas so sensveis s energias dos pais. Saiba que um relacionamento perturbado 
no lar acaba sempre os atingindo. A insegurana de sua esposa afetou-os bastante.
    - De fato. Minha mulher sempre foi insegura... No sei o que dizer.
    -        V com D. Gabriela e vamos orar juntos pelo bem-estar das duas famlias.
    - Obrigado - disse Renato, comovido. - Amanh estaremos l.
    Depois que eles se foram, Gabriela olhou para Renato sem saber o que dizer.
    - Estou to admirado quanto voc - tornou ele. - O que eles nos disseram me impressionou muito. Em poucas palavras o rapaz descreveu todos os meus problemas 
com Gioconda.  difcil acreditar no que disseram, mas eles no nos conhecem, como podem saber tanto sobre nossas vidas?
    -        Faz tempo que Nicete me pede para ir a um centro esprita. Apesar de respeitar as crenas dela, nunca levei a srio. Roberto, no entanto, estava indo 
l e nunca me disse.
    -        Roberto  reservado. No falou do centro nem do psiquiatra.  mesmo. Houve um tempo em que ele andou muito deprimido, mas depois foi melhorando. Ultimamente 
comeou a ganhar dinheiro novamente e eu pensei que a crise houvesse passado. Mas o cime derrubou-o novamente, e desta vez foi pior.
    -        Sempre agentei os desentendimentos com Gioconda porque acreditava que uma separao iria desestruturar nossa famlia, que as crianas seriam muito 
prejudicadas. Agora, vendo os resultados, notando o sofrimento dos meus filhos, tenho minhas dvidas. Arrastar um casamento errado e destrutivo como o meu talvez 
tenha sido a pior coisa que fiz.
    Gabriela ficou pensativa por alguns instantes, depois, olhos perdidos em um ponto distante, considerou:
    -        Uma separao sempre traz sofrimento para a famlia. O que resta saber  o que machuca mais. Tenho pensado muito nisso. Pretendo ficar ao lado dele 
at que recupere a sade, depois vou me separar. Quando a confiana acaba, no resta mais nada.
    Renato fitou-a triste e no respondeu. A tragdia tomara conta das duas famlias e ele estava to deprimido quanto ela. No se sentia em condies de dar opinio. 
Pretendia defender Gioconda na justia, apoila dando-lhe bons advogados, mas j se considerava separado. Assim que o caso dela fosse julgado, ele partiria para 
uma separao judicial.
    Iria brigar pela posse dos filhos. Depois do que ela fizera, talvez isso no fosse difcil de conseguir. Gioconda no tinha condies para educar os filhos.
    Gabriela continuou:
    -        O ideal teria sido escolher melhor a pessoa com a qual queramos nos casar. Muitos casamentos esto errados desde o comeo.
    - Tem razo. O difcil  ter discernimento na hora de escolher. Deixamo-nos levar pela atrao fsica, pelos interesses pessoais, pelos nossos sonhos de ter 
uma famlia ideal. Projetamos nossos desejos em algum que "parece" ser tudo que desejamos. Assumimos papis sociais pretendendo impressionar o parceiro e no temos 
como avaliar o que cada um  de verdade. Com o tempo e a convivncia, percebemos o quanto a pessoa  diferente do que havamos imaginado. Ento vem a rotina, a insatisfao.
    - E a desiluso. Mas  tarde. O mal j est feito. E os filhos  que sofrem pela nossa inexperincia.
    - Gioconda disse que deseja falar comigo. Eu no vou. Prefiro que o advogado trate de tudo.
    Gabriela suspirou angustiada. Reconhecia que Renato estava em uma situao delicada.
    - Nossos visitantes esto certos. S Deus pode nos socorrer, aliviar nossa dor. J pensou se Roberto morrer?
    - Isso no pode acontecer. Voc tem razo. Est na hora de rezar. Pela primeira vez em minha vida me sinto impotente diante dos fatos. No podemos nos entregar 
ao desnimo, pensando no pior. Essa tempestade vai passar e a calma voltar em nossas vidas.
    - Vamos perguntar sobre Roberto - lembrou Gabriela.
    - Sim. Vamos, e depois vou embora. As crianas podem precisar de mim.
    Roberto continuava na mesma. Depois que Renato se foi, Gabriela foi para o quarto. A visita de Cilene e Hamlton confortara-a. Saber que havia pessoas que compartilhavam 
sua dor e desejavam ajud-la fazia-a sentir-se apoiada. Era uma esperana  qual ela queria apegar-se.
    Deitou-se e pensou em Deus. Nunca fora muito inclinada  religio. Sua me era catlica praticante, mas Gabriela, apesar de respeitar sua crena, no se detinha 
pensando nisso.
    Seu temperamento prtico e objetivo rejeitava as regras, os rituais e os mistrios com os quais seus adeptos tentavam explicar o inexplicvel. No era uma pessoa 
mstica.
    Por isso nunca fora a um centro esprita, como aconselhava Nicete, nem a uma igreja catlica, como sua me gostaria. Tinha sua prpria maneira de olhar a vida. 
No era descrente. Acreditava que o universo,  sempre perfeito mantendo o equilbrio dos astros e de tudo; a natureza, com sua versatilidade, suas leis inexorveis; 
tudo isso era comandado por uma fora maior.
    Porm no se detinha pensando nisso, porque acreditava no ter discernimento para entender.
    Pensava que, se isso fosse preciso, a vida lhe daria esse conhecimento.
    Agora, depois do que soubera de Roberto, mil perguntas iam-lhe  mente. Pela primeira vez detinha-se nos mistrios da vida e da morte, querendo saber como era 
aquilo.
    Se Roberto pde deixar o corpo em coma no hospital e foi em busca da ajuda dos amigos, era porque ele no dependia do corpo fsico para estar consciente. O que 
o impedia de voltar quele corpo e tornar  vida? Por que, apesar de estar consciente do prprio estado, no conseguia acordar?
    Quanto mais pensava, mais desejava que o tempo passasse depressa. Talvez na noite seguinte, quando fosse ao encontro de Cilene e Hamlton, as respostas comeassem 
a aparecer.
    Estendeu-se na cama ainda vestida, porque pretendia saber de Roberto de madrugada.
    Decidiu rezar. Fechou os olhos e pensou na fora que move o universo. Essa era sua concepo de Deus. Evocou essa fora e abriu seu corao pedindo ajuda e esclarecimento.
    Nem sequer percebeu que adormeceu e, pela primeira vez depois de muito tempo, mergulhou em um sono reparador.

Captulo 17

    Gabriela acordou assustada e olhou em volta. A atendente havia entrado no quarto trazendo o caf. O dia estava claro e ela olhou o relgio admirada. Eram seis 
e meia.
    Levantou-se rpido. Como pudera dormir tanto? Lavou-se, tomou um gole de caf preto e saiu em busca de notcias de Roberto. Por que no havia acordado antes? 
Certamente o cansao a fizera dormir demais.
    No corredor da UTI, procurou por uma enfermeira, que, vendo-a, disse:
    - Seu marido ainda no acordou.
    Continua em coma?
    - Sim.
    Demonstrando desnimo, Gabriela passou a mo pela testa. A enfermeira continuou:
    - No fique triste. Pelo menos o estado dele no se agravou. Est resistindo. Nesses casos, j  um bem.
    - Obrigada.
    Gabriela voltou ao quarto e procurou se alimentar. Cilene tinha razo: quando Roberto melhorasse, iria precisar muito dela. Depois, havia as crianas. Precisava 
estar forte.
    Renato ligou na hora do almoo para saber notcias e combinou que iria ao hospital busc-la para irem ao centro esprita.
    Nicete deixou as crianas na escola e foi ao hospital. A pedido de Gabriela, ela conversou com a diretora do colgio, contando-lhe o que acontecera, pedindo-lhe 
para dar especial ateno s crianas e as deixou assistir s aulas diante da promessa de que no s cuidariam delas como a diretora falaria com as professoras para 
que no permitissem nenhum comentrio sobre o que acontecera com seus pais.
    - No gostaria que perdessem o ano - comentou Gabriela.
    - A diretora ficou muito sensibilizada. Garantiu que durante o recreio cuidar deles pessoalmente.
    - Nesse caso, fico mais tranqila.
    Gabriela contou a visita dos mdiuns e o que havia acontecido.
    - Graas a Deus! Ento era l que o Seu Roberto ia. Eu reparei que ele tinha dia certo para chegar mais tarde. Que bom.
    -  difcil acreditar numa histria dessas. Mas como  que eles podiam saber o que eu tinha dito a ele na UTI? Depois, tenho certeza de que Roberto ouviu, porque 
apertou minha mo.
    -        Os mdicos no acreditam.
    -        Disseram que era impossvel. Quem est em coma no ouve nada.
    -        Mas o esprito dele ouviu. Nesse caso, ele estava fora do corpo e consciente.
    -        Como pode ser isso?
    -        Ns somos espritos, D. Gabriela. Alm do corpo de carne, temos o corpo astral.
    -        Ser?
    -        Claro.  com ele que samos todas as noites quando nosso corpo de carne adormece.
    Muitas vezes visitamos outros mundos durante o sono. A senhora nunca sonhou que estava voando?
    -        J, mas da a acreditar...
    - Nunca se perguntou com que olhos a senhora enxerga quando sonha? Seu corpo de carne est dormindo e tem os olhos fechados...
    -        Nunca pensei nisso.
    -         hora de pensar. Cada pessoa tem sua hora de ser chamada para entender da vida espiritual. Faz tempo que eu percebi que vocs estavam sendo chamados. 
Por isso pedia para a senhora ir ao centro.
    -        Voc est exagerando. Tudo aconteceu por causa do cime.
    -  verdade. Mas faz tempo que as coisas no estavam bem entre vocs. Quando isso acontece, est na hora de parar e pensar. Vocs viveram bem durante anos, mas, 
desde que o Seu Roberto foi roubado pelo scio, tudo comeou a mudar.
    -        Isso  verdade. Mas essas coisas acontecem a qualquer um. No vamos torcer os fatos.
    Neumes era desonesto, e um dia isso teria que acontecer. Roberto foi ingnuo deixando tudo nas mos dele.
    -        A senhora est vendo as coisas como elas parecem ser. Tenho aprendido que, quando a vida coloca desafios em nosso caminho,  hora de mudar. A vida  
sbia. Se vocs no tivessem que passar por isso, ele teria descoberto a tempo e desfeito a sociedade.
    Gabriela sacudiu a cabea:
    -        Voc est sendo fatalista. Roberto errou e por isso estamos passando por tantos problemas.
    -        Concordo com a senhora. Mas o erro  a forma de a vida nos ensinar. Por isso, quando algo nos acontece de mau, o jeito  tentar descobrir o que a vida 
pretende nos ensinar com isso.
    Nada nos acontece por acaso. Tudo  resultado das nossas atitudes. Mas, quando descobrimos quais as atitudes que no so boas e nos esforamos para mud-las, 
evitamos que o erro se repita. Aprendemos a lio e pronto. Tudo volta ao normal de forma melhor.
   Gabriela ficou pensativa alguns instantes. Depois disse:
    -        O que voc diz tem lgica. Mas o que a vida queria nos ensinar com aquele scio ladro?
    -        Isso eu no sei. S a senhora e o Seu Roberto  que podero dizer. O que sei  que para cada um o mesmo acontecimento funciona de maneira diferente. 
Para mim foi como um alerta.
    Desde o comeo eu sentia que o Seu Neumes no era gente boa. Dizer isso agora parece bobagem. Ele sempre foi educado, me tratou bem. Mas eu sentia que alguma 
coisa dentro de mim rejeitava aquele homem.
    -         curioso, mas isso eu tambm sentia. Vrias vezes tentei alertar Roberto, que confiava demais nele.
    -        Ns temos intuio. No centro eles me ensinaram que nosso esprito sente se as energias das pessoas so boas ou ruins. E tenta nos prevenir atravs 
da intuio. Com o caso do Seu Neumes, eu aprendi que, quando sinto essa rejeio, no devo confiar na pessoa. Por isso, agora, dou ateno ao que estou sentindo 
e tomo meus cuidados.
    -        Ns sentimos, mas Roberto no. Se isso fosse verdade, ele tambm teria sentido e reagido a tempo.
    -        No pode generalizar. Cada um tem um grau de sensibilidade desenvolvida. Ns temos mais do que ele. As pessoas no so iguais.
    -        . Pode ser. Bom, agora vamos ver o que vai acontecer.
    -        Se eu pudesse, iria com vocs a esse centro. Deve ser muito bom, para fazer um trabalho desses. Mas tenho que ficar com as crianas.
   Depois eu conto tudo.
   - Os meninos querem vir aqui. Esto sentindo muito a sua falta.
    -        Diga-lhes para terem pacincia. Quando Roberto melhorar, irei v-los.
    -         isso que tenho prometido a eles.
   Nicete foi embora e Gabriela estendeu-se na cama. Renato havia-lhe trazido algumas revistas, mas ela no sentia vontade de ler. O momento que estava vivendo era 
difcil, e no conseguia pensar em outra coisa.
   Estava apreensiva quanto ao futuro. Se Roberto sobrevivesse, o que faria? Depois do que ele fizera, no poderia continuar vivendo a seu lado. Como confiar em 
um homem que prometera proteg-la e no titubeara em falsificar sua assinatura para que ela fosse tida como ladra?
   Ao pensar nisso, estremecia e sentia que seu amor por ele havia terminado. Apesar disso, no queria que ele morresse. Como continuar trabalhando com Renato se 
isso acontecesse? Seria muito pior. Gioconda seria condenada, passaria anos na priso, e ela ficaria constrangida em continuar na empresa. De todas as maneiras, 
sua vida nunca mais seria a mesma.
    Comeou a pensar que, acontecesse o que acontecesse, o melhor seria ela ir para outra cidade com os filhos e recomear a vida. Desejava esquecer. Isso no aconteceria 
se continuasse a trabalhar com Renato, tendo sempre o olhar acusador das pessoas diante dos olhos e principalmente o dio de Gioconda e de Georgina.
    Esquecer seria uma bno. Quando tudo passasse, era isso que ela iria fazer.
    Renato chegou para busc-la meia hora antes do combinado. Ele tambm estava ansioso para ir ao centro. Acreditava em Deus, mas no nos homens. Para ele, religio 
era coisa dos homens.
    Deus mandava os profetas, os iniciados, os sbios, e atravs deles fazia revelaes sobre a espiritualidade, porm os homens interpretavam essas revelaes conforme 
os prprios interesses e criavam as religies. Preconceituosas, inimigas entre si, brigavam competindo sobre quem estava com a verdade, chegando s guerras e  violncia.
    Temia o fanatismo. Por isso tinha sua prpria maneira de demonstrar f. Acreditava que, sendo honesto, justo, tolerante, teria a proteo de Deus.
    Entretanto, o que Hamlton lhe dissera revelara um lado que ele desconhecia. No momento mesmo em que se encontrava em uma encruzilhada, tendo de tomar decises 
difceis que influenciariam o futuro de seus filhos, sentia que precisava de algo mais.
    Naquela manh havia ido  delegacia a pedido do advogado de Gioconda. Ela estava desesperada. No se alimentava e pedia incessantemente a presena do marido.
    O delegado pedira a Altino que o fosse buscar para conversar com ela. Apesar de no desejar v-la, Renato resolveu ir. Ele e o advogado foram conduzidos a uma 
sala, e logo depois Gioconda, amparada por um policial, entrou.
    Estava plida, com profundas olheiras, havia emagrecido. Vendo-o, correu para ele gritando nervosa:
    - Renato, quero ir embora! Leve-me para casa. No quero mais ficar aqui.
    - No posso. Voc vai ter que ficar.
    - No. Por favor! Quero ver as crianas... No agento mais. Por que voc fez isso comigo?
    Por qu?
    Renato, que a princpio ficara penalizado, afastou-se, dizendo:
    -        Eu no fiz nada. Voc e Roberto tramaram tudo. Agora ele est entre a vida e a morte, e voc presa. No posso fazer nada.
    - Eu no queria atirar nele. Por que ele se colocou entre mim e ela?
    -        Porque ele sabia que ela  inocente e arrependeu-se do que fez.
    Gioconda trincou os dentes com raiva:
    -        Inocentes? Pensa que eu acredito? Eu s estou arrependida de haver atirado nele, mas, se tivesse sido nela, eu estaria feliz. Ela me roubou tudo que 
eu tinha e me reduziu ao que sou agora.
    A voz de Renato estava fria quando respondeu:
    - Voc est louca. Se continuar agindo dessa forma, no haver advogado que consiga tir-la da cadeia. Gabriela  inocente, e voc uma irresponsvel. Fez tudo 
sem ter a mnima prova.
    Destruiu no s sua vida, mas tambm a de todos ns. Duas famlias, quatro crianas marcadas pela sua leviandade.
    -        Voc quer me deixar aqui para ficar livre. Agora o caminho est aberto para vocs dois.  isso que no posso suportar!
    -        Vim v-la para tentar ajud-la. Mas estou constatando que  impossvel. Voc no est em seu juzo perfeito. Depois do que fez, trate de se acalmar 
e enfrentar as conseqncias. O Dr. Altino vai fazer sua defesa.  s o que posso fazer por voc. Enquanto continuar agindo dessa forma, no voltarei mais aqui. 
No adianta mandar me chamar. O tempo da chantagem acabou.
    Aqui, ningum mais vai lhe dar ouvidos. Pode se fazer de doente o quanto quiser.
    -        No me deixe aqui, por favor. Eu fao o que voc quiser. Estou disposta a perdoar tudo.
    -        No preciso do seu perdo. Sou inocente. Agora preciso ir. O melhor que tem a fazer  agentar firme e no agravar sua situao com a justia.
    -        No me abandone, Renato. Sou sua mulher, a me de seus filhos.
    -        No a estou abandonando. Ter tudo que precisa para se defendet. Mas quem decide agora no sou eu,  a justia. Nada posso fazer. Pense nisso e trate 
de assumir a responsabilidade pelos seus atos. Voc no  mais uma criana. Apesar de tudo, no vou abandon-la. Mas no espere apoio pelo que fez. Isso  impossvel.
    Ela fez meno de agarr-lo, mas o advogado interveio conciliador:
    -        Acalme-se, D. Gioconda. Desse jeito iremos embora e no vamos poder conversar.
    Ela se voltou para ele, aflita:
    -        Ele quer me deixar aqui! No tem pena do meu sofrimento!
    -        No seja injusta. A senhora est presa e s a justia poder dar-lhe liberdade. Seu marido est se esforando para ajud-la, apesar do seu gesto. Eu 
vim a pedido dele para trabalhar para libert-la, e no momento isso  impossvel. A senhora foi presa em flagrante, est descontrolada.
    Apesar de ser primria, o juiz determinou que aguarde o julgamento na priso porque entende que a senhora poder atingir outras pessoas. Seu rancor, sua atitude, 
tornou mais complicada a situao que j era difcil. Como seu advogado, aconselho-a a moderar sua linguagem, a tentar manter-se calma. O delegado sugeriu o tratamento 
psiquitrico. Se aceitasse e colaborasse com um tratamento nesse sentido, talvez pudssemos atenuar sua pena.
    -        Eu no sou louca. Fiz isso porque estava ferida pela traio.
    -        Pode alegar cime para justificar-se, contudo seu rancor, ma vontade, descontrole emocional, no est ajudando em nada. Se concordar com a visita do 
psiquiatra e submeter-se a um tratamento, poderemos alegar que agiu sob forte emoo e no tinha condies de controlar-se.
    -        Quer que eu diga que sou desequilibrada? Nesse caso, quem vai acreditar em mim? Eles se dizem inocentes. Agindo assim, ficarei desacreditada. Depois, 
eu no sou uma louca que fantasiou as coisas. Sou uma mulher que foi vtima de adultrio e perdeu o controle.
    -        Pense bem, D. Gioconda. Roberto est em coma no hospital. Se ele morrer, sua situao ficar muito pior. Poder pegar uma pena de muitos anos.
    Gioconda olhou para o marido, gritando nervosa:
    - Voc vai permitir isso? Vai deixar que eu seja condenada e passe anos na priso?
    - No tente jogar a culpa sobre mim, como sempre faz. Nada tenho a ver com o que aconteceu. Nunca tive nada com Gabriela, que uma mulher honesta e preocupada 
com a prpria famlia. Voc criou tudo, fez tudo e agora vai responder pelo que fez. Ningum poder ajud-la se no cooperar. Agora preciso ir. Se concordar com 
a ajuda psiquitrica, pagarei as despesas.
    Gioconda comeou a chorar em desespero, e Renato saiu da sala dizendo ao advogado:
-        Estou  disposio para o que precisar. At logo.
    Saiu sentindo a cabea pesada, o peito oprimido. Quando se viu na rua, respirou fundo na tentativa de refazer um pouco as foras. Sentia-se deprimido, irritado.
    Gabriela, vendo-o, notou logo que no estava bem.
    - Aconteceu alguma coisa? Voc est abatido.
    - Estou deprimido. Fui com o Dr. Altino  delegacia falar com Gioconda. Ela estava desesperada e o delegado me pediu que fosse conversar com ela.
    Como Gabriela no respondeu, ele prosseguiu:
    - Gioconda est descontrolada. Pensei que estivesse arrependida, mas no. Continua rancorosa, acreditando que foi trada.
    - Ela est tentando justificar o que fez. Quer colocar a culpa sobre ns.
    - Isso mesmo. Quer que eu a leve para casa, como se no houvesse feito nada. O delegado sugeriu a ajuda de um psiquiatra. Ela no quer.
    - Sua mulher sempre teve um comportamento neurtico. Um tratamento adequado talvez tivesse evitado esta tragdia.
    - As coisas foram acontecendo aos poucos. Apesar do descontrole dela, nunca imaginei que chegasse a este ponto. Mas e Roberto, melhorou?
       Continua na mesma. Estou com medo. No quero que morra. Eu tambm no. Estou ansioso para ir a esse centro. Vamos, que est na hora.
    No centro, foram recebidos por Hamlton, que os encaminhou para uma sala iluminada por uma fraca luz azul. No meio, um crculo de pessoas sentadas tendo ao centro 
um banquinho vazio.
    No canto, algumas cadeiras vazias, e Hamlton pediu que se sentassem. Ouvia-se uma msica suave, e Gabriela, assim que se sentou, sentiu que estava exausta. 
Sua resistncia chegara ao limite e ela deixou correr livremente as lgrimas que, em profuso, lavavam seu rosto.
    Renato sentiu que uma brisa leve o tocava, comovendo-o, fazendo-o lembrar-se de Deus.
    Pensou nos filhos, e pela primeira vez em sua vida pediu a Deus que o inspirasse a encontrar o jeito melhor para resolver os problemas que o afligiam.
    Nunca havia sentido, como naquele momento, o quanto era frgil e limitado, o quanto se via impotente para decidir o rumo que daria  sua vida e  de seus filhos, 
dali para a frente. Mas, ao mesmo tempo, era confortador saber que em algum lugar do universo havia seres bondosos e sbios, capazes de ajud-lo, e que ele poderia 
esperar por dias melhores.
    Hamlton tocou o brao de Gabriela e ela se levantou. Ele a conduziu para o meio do grupo e f-la sentar-se no banquinho e ficou do lado de fora.
    No mesmo instante, algumas pessoas remexeram-se na cadeira, inquietas. Gabriela sentiu que seu desespero aumentava, teve vontade de levantar-se e sair correndo. 
Olhou para Hamlton e fez meno de levantar-se, mas ele lhe fez um sinal para que continuasse sentada.
    Gabriela fechou os olhos, tentando controlar-se. Estava apavorada. Parecia-lhe que algo terrvel estava para acontecer.
    Uma mulher comeou a rir e Gabriela abriu os olhos assustada. Ela comeou a falar:
    -        Vejam s como ela est agora!  assim que eu quero. Seu lugar  no cho. No adianta vocs tentarem impedir. Tudo est consumado! Isso no vai adiantar, 
vocs no podem fazer nada.
    Hamlton interveio:
    -        No seja to rancorosa. Por isso voc est sofrendo.
    -        Engana-se. Estou muito bem. Tudo est saindo como eu quero. Dentro em pouco ele voltar para mim. Ento, ficaremos juntos para sempre.
    -        Cuidado. Interferir na vida alheia tem seu preo.
    -        Estou disposta a pagar. Ele est cego, no se recorda de mim, todos os seus pensamentos so para ela. No posso suportar isso depois de tudo que ela 
fez. Ser que ele no v que  uma traidora?
    -        No estamos aqui para julgar voc nem ningum. O passado est morto. Tudo mudou. Por mais que queira, nunca poder faz-lo voltar.
    -        Ele  meu! No vou me conformar nunca em ceder o lugar a ela, essa malvada que o tomou de mim! Levei anos tentando fazer com que ele enxergasse a verdade.
    -         voc quem precisa ver a verdade. Ningum  de ningum. As pessoas so livres para escolher o prprio caminho. O amor  espontneo. No se pode forar 
os sentimentos.
    -        Ele me amava! Se no fosse por ela, ainda estaria pensando em mim!
    -        Por que insiste em forar uma situao? Isso s vai lhe trazer sofrimento. Voc diz que est bem, mas sua aparncia indica o contrrio. Est abatida, 
envelhecida, acabada, inquieta, cansada.
    Ns queremos tratar de voc. Chega de se machucar. Est precisando de conforto, de amizade. Essa enfermeira pede que a acompanhe para um tratamento.
    -        No quero sair do lado dele. Quando deixar o corpo, estarei esperando. Trabalhei muito para isso, no irei embora de forma alguma.
    -        Como tem tanta certeza de que ele vai deixar o corpo? S Deus tem o poder sobre a vida e a morte.
    -        Estou do lado dele para que queira vir comigo. Vocs no sabem de nada. Ele vai me acompanhar. Seremos felizes para sempre.
    -        Voc no vai mais voltar para o lado dele.
    -        Eu quero ir embora! - gritou ela com raiva. - Por que me aprisionam neste corpo?
    -        Por que agora voc no voltar mais ao hospital. Essa enfermeira a levar para um lugar de tratamento.
    -        No quero! Vocs esto se intrometendo em minha vida.
    -        Aceite a ajuda que esto lhe oferecendo. No jogue fora esta oportunidade. No est cansada de sofrer? Aceite a mo que ela lhe est estendendo. Estamos 
pensando no seu bem.
    -        Esto pensando no bem dela.
    - Tambm. A vida trabalha no bem de todos. Ningum pode ser feliz escolhendo a infelicidade.
    Comece agora a pensar em voc. Cuide da sua vida, que tem estado abandonada h tantos anos. Chegou a hora de pensar nas escolhas que tem feito ao longo do tempo 
e em como se envolveu nos problemas que a atormentam.
    -        Ela foi culpada de tudo que nos aconteceu.
    -        Pare de culpar os outros pelos erros que cometeu. Olhe para trs no para julgar os outros mas para notar como voc atraiu o sofrimento que a atormenta. 
A causa da sua dor est dentro de voc, no fora. Busque a verdade. Pense, analise, sinta. Pea a Deus que a inspire. Faa alguma coisa por voc, pela sua felicidade.
    Nunca mais serei feliz!
    -        Enquanto continuar pensando assim, no ser mesmo. Precisa entender que h que plantar para colher. Confiar na vida, buscar o otimismo, esquecer o passado, 
j que no d para mud-lo, buscar motivao para recomear. Voc pode.
    Por alguns instantes ela ficou em silncio. Depois disse baixinho:
    -        No agento mais. Estou ficando tonta, fraca, preciso descansar.
    -        V com a enfermeira e pense no que eu lhe disse.
    A mulher calou-se. Hamlton entrou no meio da roda e estendeu as mos sobre Gabriela, que emocionada chorava baixinho. Enquanto ele orava em silncio, ela foi 
se acalmando e, por fim, respirou fundo e sentiu que se libertava de um grande peso.
    Hamilton tocou levemente em seu brao. Ela se levantou e ele a conduziu de volta a seu lugar. Chamou Renato para que se sentasse no meio da roda.
    Ele obedeceu. O que significava tudo aquilo? Por que aquela mulher acusara Gabriela daquela forma? Eles no haviam feito nada. Eram inocentes.
    Um rapaz comeou a bocejar e remexer-se na cadeira. Depois disse:
    -        O que  isso? De benfeitor a cmplice! Quem diria? Estou surpreso! Nem eu imaginei tanto cinismo. Ainda bem que estou atento. Desta vez ele no vai 
destruir a vida de minha filha. Estou pronto a defend-la. Ela  to frgil! Precisa de mim! S eu a compreendo. Ela minha menina.
    Ningum vai lhe fazer mal. No permitirei.
    -        O que voc quer com ele?
    -        O que  de direito. Ele tem de tir-la daquela priso. No posso permitir que ela continue l, abandonada, sofrida, sozinha. A noite ela chora e eu 
fico desesperado. Ele quer dormir, no vai conseguir. Como pode ter paz enquanto ela est l, sofrendo? Vim s para dar um aviso. Ele que trate de tir-la de l 
se no quiser que acontea algo pior.
    -        Por que ao invs de ameaar voc no trata de ajudar?
    -        Porque eu o odeio.  por sua culpa que ela est l.
    -        Isso no  verdade. Ele tem feito tudo para ajud-la. Mas, se gosta mesmo dela e quer ajud-la, precisa mudar de atitude, reconhecer que ela est l 
porque se deixou levar pela revolta e pelo cime. Voc no poder tir-la agora. Ele tambm no. A vida quer que ela perceba que a violncia s agrava os problemas. 
Ela ter que ficar l at entender isso.
    -        Eu no quero. Ela est sofrendo.
    -        Est aprendendo. Voc precisa entender que sua filha deve crescer, amadurecer. No  fraca, apenas no sabe usar a prpria fora. Voc faria melhor 
se, ao invs de culpar os outros, analisasse sua forma de amar. Superprotegendo sua filha, impede-a de desenvolver a prpria fora interior. Torna-a fraca, incapaz 
de enfrentar os desafios que a vida traz. Ns desejamos ajud-la, mas de maneira adequada. Pense nisso. Agora v com esse amigo que est do seu lado.
    O rapaz fez silncio, e Hamlton, depois de impor as mos sobre Renato, conduziu-o novamente ao lado de Gabriela. Ele estava intrigado com o que ouvira. Estava 
claro que eles falavam de Gioconda. Como podiam saber tanto a respeito dela? Ali, ele no conhecia ningum.
    Eles foram convidados a deixar a sala. Cilene esperava-os do lado de fora.
    Sente-se melhor? - indagou, dirigindo-se a Gabriela.
    -        Sim. Estou aliviada. Mas intrigada. Nunca fiz mal a ningum, porm a moa falava com raiva, culpando-me. No entendi.
    -        O importante  que se sinta melhor. Nesses tratamentos os mdiuns sofrem a influncia dos espritos que esto ligados a vocs de outras vidas. Eu no 
estava na sala e no sei o que ocorreu.
    Depois pedirei a Hamlton que lhe explique melhor. No momento  bom no dar importncia ao que ouviu ali para no os atrair de volta. Seja o que for que disseram, 
perdoe, reze, esquea.
    -        Est bem.
    -        Gostaria de falar com Hamlton - disse Renato. Tambm fiquei intrigado.
    -        Ele no pode atender agora e vai demorar. H outros casos em atendimento. Tenho certeza de que ele falar com vocs assim que for oportuno. Sente-se 
mais tranqilo?
    -        Sim. Fiquei aliviado.
    -        Vamos confiar e esperar o melhor. Vo com Deus.
    Eles saram em silncio. Apesar de Cilene haver pedido para no falarem no assunto, Renato considerou:
    -        Eles descreveram Gioconda perfeitamente. Como sabiam que no tenho conseguido dormir?
    -        Estou pensando em Roberto. Pelo que entendi, quem falou por aquela mulher  um esprito.
    Disse que o est esperando. Ser que Roberto vai morrer?
    - Hamilton respondeu que s Deus tem o poder de dar ou tirar a vida. Concordo com ele.
       - Mas eu no fiz nada. Por que aquela mulher me acusa? Melhor no falarmos nisso. Cilene pediu.
       - Tem razo. Vamos esperar pelas explicaes de Hamlton.
    Uma vez no hospital, depois se informar do estado de Roberto, que continuava na mesma, Renato despediu-se. Com a ausncia de Gioconda, ele ficava em casa com 
as crianas todo o tempo disponvel.
    Passava das onze, e seus filhos estavam dormindo. Foi at o quarto de Clia. Maria, que dormia na cama ao lado, vendo-o, levantou-se.
-        Ento, Clia deu muito trabalho?
    -        Passou o dia agitada. No quis comer. Eu e Ricardinho tentamos distra-la o tempo todo. Agora  noite consegui que comesse um pouco e viemos para c. 
Contei uma histria, e ela dormiu logo. Ricardinho tambm foi se deitar. Disse que estava com muito sono.
    - Obrigado, Maria. Vou ao quarto dele. Se ela acordar durante a noite, pode me chamar.
    -        Sim, senhor.
    Ricardinho tambm estava dormindo, e Renato foi para o quarto. Sentia-se cansado.
    Preparou-se para dormir, apanhou um livro, deixou o abajur aceso e deitou-se. Nos ltimos dias estava difcil pegar no sono e ele recorria  leitura para esquecer 
um pouco os problemas que o preocupavam.
    Abriu o livro e comeou a ler. Mas aos poucos, sem que fizesse qualquer esforo, seus olhos se fecharam, o livro escorregou de suas mos e ele adormeceu.

Captulo 18

    Depois que Renato se foi, Gabriela tirou os sapatos, afrouxou a roupa e deitou-se vestida, como fazia todas as noites no hospital, pronta para qualquer emergncia.
    Sentia-se mais calma. Reconhecia que, de alguma forma, recebera ajuda. Mas ao mesmo tempo questionava-se sobre o futuro. O que lhe estaria reservado? E se aquela 
mulher conseguisse mesmo lev-lo e ele morresse?
    Tentou reagir. Cilene aconselhara-a a cultivar pensamentos otimistas, precisava controlar-se.
    Fosse o que fosse que lhes acontecesse, teria de enfrentar. Seus filhos precisavam de apoio, ela estava disposta a ampar-los com amor e disposio. Depois de 
haver decidido isso, fechou os olhos e adormeceu.
    Acordou com o rudo da atendente trazendo a bandeja do caf. O dia havia amanhecido e ela se levantou rapidamente. Lavou-se e mesmo antes do caf foi informar-se 
sobre o estado do marido.
    Ao chegar ao corredor da UTI, viu que a enfermeira estava na porta do quarto de Roberto dizendo a dois mdicos que se aproximavam:
    -        Depressa, doutor!
    Gabriela correu assustada, mas a porta fechou-se antes que ela chegasse. Roberto teria piorado?
    No podia esperar. Bateu nervosa. A enfermeira entreabriu a porta e Gabriela disse logo:
    - O que est acontecendo? Vi quando chamou os mdicos. Quero entrar para ver meu marido.
    A enfermeira saiu, encostou a porta e respondeu:
    -        Calma. Ele est bem.
    -        No queira me enganar. vi quando pediu para irem depressa.
    - Sim.  que me pareceu que ele estava acordando.
    - Quer dizer que...
    - No posso afirmar nada. Os mdicos esto examinando-o.
    -        Deixe-me entrar. Quero saber o que est havendo.
    - Acalme-se. No comente com os mdicos, por favor, mas acho que ele est melhor.
    -        Tem certeza?
    - Isso s eles podero dizer. Tenha um pouco de pacincia.
    A porta abriu-se e um dos mdicos chamou a enfermeira. Ela entrou, fechou a porta e Gabriela ficou esperando do lado de fora.
    Pouco depois a enfermeira reapareceu e, vendo Gabriela, disse:
    -        Preciso ir buscar um medicamento. Eles esto esperando. Acho que seu marido est saindo do coma.
    Gabriela sentiu as pernas bambearem. Procurou o banco mais prximo e sentou-se. A enfermeira voltou logo e entrou na UTI. Gabriela continuou esperando. Depois 
de alguns minutos, a porta abriu-se e um dos mdicos fez sinal para Gabriela se aproximar.
    -        Seu marido saiu do coma. Perguntou pela senhora.
    -        Posso v-lo?
    -        A senhora est muito nervosa. O estado dele ainda  delicado. Est muito fraco.
    - Por favor. Desejo falar com ele. Estou emocionada, mas sei me controlar.
    -        Ele precisa de repouso absoluto. Se puder acalm-lo, vou permitir que entre. Sei de tudo que aconteceu. Se for para falar do que houve, melhor no ir.
    -        No, doutor. Apesar do que ele fez, salvou minha vida. Depois, desejo que se recupere.
    Ele precisa saber que estou bem.
    -        Nesse caso, pode entrar.
    Gabriela entrou no quarto e aproximou-se do leito. Roberto!
    Ele abriu os olhos e, vendo-a, disse baixinho:
    -        Perdo, Gabriela. Estou arrependido. Ela segurou a mo dele e respondeu:
    Eu sei. No se preocupe com isso agora. Est tudo bem.
    -        Voc est bem? No ficou ferida?
    - No. Agora que voc melhorou, tudo est bem. Vamos esquecer o que passou.
    -        No posso. Est doendo ainda dentro de mim. quando vi Gioconda com a arma apontada contra voc, quase enlouqueci.
    -        Acalme-se. Tudo j passou. No falemos disso agora. Se continuar, os mdicos no vo me deixar ficar aqui. Voc precisa se recuperar em paz.
    -        E as crianas?
    - Esto bem. Rezando por voc, pela sua recuperao.
    -        No quero morrer agora. No me deixe, Gabriela. Sei que fiz tudo errado, mas, por favor, no me abandone.
    Lgrimas corriam pelo rosto dele, e o mdico interveio:
    -        Se continuar assim, no vou permitir que ela fique.
    -        No, doutor, por favor. No quero que ela saia mais daqui.
    - No seja egosta. Sua esposa tem sido de uma dedicao a toda prova. Desde que est aqui, ela no saiu do hospital, no tem dormido direito, fica pelos corredores 
informando-se sobre sua sade, querendo v-lo. Est esgotada e por isso no vou permitir que fique aqui todo o tempo.
    Poder visit-lo, mas ambos precisam refazer-se.
    - Estou bem, posso ficar.
    -        No ser bom para ele. Enquanto estiver na terapia intensiva, estar sob cuidados permanentes da encarregada. Uma pessoa a mais poder prejudicar a 
recuperao. Prometo que, quando sair da UTI, ir para o quarto dela e ficaro juntos. Agora, ela precisa ir, e voc descansar.
       - Est bem - concordou ele. - Mas quando ela vai voltar? Depois do almoo. Pode esperar.
       - Estou feliz que esteja melhor. Vamos obedecer ao mdico. Ele tem razo. Voltarei depois do almoo. Fique com Deus.
    -        Estarei esperando. Se falar com as crianas, diga que mandei um beijo.
    Ela concordou e sorriu. Saiu, e o mdico acompanhou-a.
    -        Ele est fora de perigo? - indagou ela.
    - Ainda no. No conseguimos eliminar a infeco, mas agora acredito que poder se curar.
    No podemos nos descuidar. Ele est muito frgil, e uma complicao agora seria perigosa.
    -        Entendo. Pode contar comigo, doutor. Farei tudo como o senhor determinar.
    - Assim  melhor. Agora trate de descansar. Vou lhe trazer umas vitaminas. Precisa recuperar foras.
    -        Obrigada.
    Ela foi para o quarto. O caf estava frio, mas ela tomou assim mesmo. Comeu po com manteiga. Sentiu-se melhor. Roberto mostrara-se arrependido e certo de que 
ela o perdoaria.
    Naquele momento, Gabriela sabia que no podia tomar nenhuma atitude com relao ao que ele fizera.
    No desejava mais continuar vivendo com ele. Estava cansada de seu cime. Sentia-se sufocada. Precisava respirar, sentir-se livre daquele peso. Mas no momento 
no podia falar sobre isso.
    Queria que ele se recuperasse. Quando estivesse bem, poderiam voltar ao assunto e decidir.
    Ligou para Renato, contou que Roberto havia melhorado.
    -        Finalmente - respondeu ele. No sabe o peso que tira de mim.
    -        Tambm me sinto aliviada. Ele acordou, mas os mdicos disseram que ainda corre perigo. A infeco no est cedendo. Mas sair do coma j foi um grande 
passo.
    -         verdade. Finalmente uma boa notcia.
    Gabriela ficou silenciosa durante alguns segundos, depois considerou:
    -        Voc acha que nossa ida ao centro teve alguma coisa a ver?
    -        No sei. Pode ser coincidncia. Em todo caso, amanh voltaremos l. Vamos ver o que acontece. Seja como for, esta noite dormi melhor. As crianas tambm 
estavam mais calmas.
    Comeo a pensar que, de fato, eles nos ajudaram de alguma forma.
    -        Tem razo. Ontem, depois que voc foi embora, deitei vestida, porque pretendia ir  UTI de madrugada, como tenho feito desde que estamos aqui. Mas s 
acordei de manh, quando a atendente trouxe o caf. Preocupada, fui correndo saber notcias e j encontrei a enfermeira chamando os mdicos. Ele havia sado do coma.
    -        Ele vai se recuperar, voc vai ver. Este pesadelo vai passar.
    -        Assim espero.
    -        Passarei no hospital no fim da tarde. Se houver alguma novidade, ou se precisar de alguma coisa, ligue para o escritrio.
    Depois que desligou, Gabriela tomou um banho e foi dar uma volta pelo jardim do hospital. O dia estava bonito e ela respirou com prazer a brisa leve que a envolveu.
    Apesar de o hospital estar lotado e o movimento de carros ser grande, o jardim estava florido e calmo. Gabriela recostou-se na mureta que guarnecia a pequena 
escada de acesso ao prdio, observando algumas borboletas que volteavam uma roseira, pousando aqui e ali, nas rosas entreabertas.
    Sentia-se muito melhor. De vez em quando algumas perguntas sobre o que fazer no-futuro incomodavam-na, mas ela reagia, tentando no pensar no assunto. Lembrava-se 
dos filhos, sua maneira de ser, seus rostinhos ingnuos, descobrindo a vida, e renovava seu desejo de cuidar deles com dedicao e carinho. Tudo poderia mudar, menos 
esse propsito. Acontecesse o que acontecesse, ela faria tudo por eles.
    -        O que est fazendo a fora? Aconteceu alguma coisa com meu filho?
    Arrancada de seu mundo interior pela voz irritante e desagradvel de Georgina, Gabriela no entendeu a pergunta.
    -        O que disse?
    - No adianta falar com voc. Por que no vai embora? Depois do que fez, deveria estar na cadeia, como aquela louca que atirou nele. Um dia voc vai pagar por 
tudo.
    Georgina subiu as escadas pisando firme e entrou no prdio. Gabriela entrou tambm e foi procurar um dos mdicos que estavam tratando Roberto.
    -        Doutor, no deixe a me de Roberto entrar na UTI. Ela est descontrolada e pode perturb-lo.
    -        Vou conversar com ela.
    -        Por favor. Ela me odeia, nunca me suportou e me culpa pelo que aconteceu. No consegue se controlar.
    -        Sei de tudo. O Dr. Renato contou-me como aconteceu. Fique tranqila. Tenho observado sua dedicao a seu marido. Por Outro lado, D. Georgina tem nos 
dado trabalho. Tem sido difcil fazer com que ela aceite nossa opinio. Farei o possvel para evitar qualquer problema. Vou permitir que veja o filho, mas estarei 
junto e a farei prometer que no falar nada sobre o que aconteceu.
    Gabriela agradeceu e foi para o quarto. No desejava encontrar-se novamente com a sogra.
    Bateram na porta e ela atendeu:
    -        Meu nome  Arcelino Borges. Sou o delegado que est cuidando do inqurito sobre o atentado que sofreram. Soube que seu marido saiu do coma e vim v-lo. 
Antes, porm, desejo conversar com a senhora. Este  o meu escrivo.
    -        Entrem, por favor.
    -        Eu pretendia intim-la para prestar declaraes na delegacia. Mas, como vim ver seu marido, tomaremos suas declaraes aqui mesmo.
    -        Sentem-se. Estou  disposio.
    -        Gostaria que fizesse uma narrativa dos fatos.
    Gabriela contou tudo, desde que Roberto fora roubado pelo scio. O escrevente anotava.
    Quando ela terminou, o delegado perguntou:
    -        H mais alguma coisa que gostaria de acrescentar?
    - Sim. Estou magoada com o noticirio dos jornais. Eles no so verdadeiros. Gostaria que publicassem a verdade. No quero que meus filhos se sintam constrangidos 
no colgio, por uma mentira.
    -        Infelizmente, senhora, nada poderemos fazer. Quando terminar o inqurito, a justia tomar conta do caso. D. Gioconda ser julgada. Nessa ocasio a 
verdade vai aparecer e tudo ficar esclarecido.
    -        As pessoas se apressam a julgar sem se preocupar com a verdade. Imaginam, tomam posies e julgam-se com o direito de expressar suas opinies sem pensar 
que podem estar prejudicando gente inocente.
    -        Reconheo que isso acontece. Mas ns temos que ouvir todas as pessoas, e cada uma d sua verso. Nossa funo  fazer o inqurito e encaminhar  justia. 
Agora vamos tomar as declaraes de seu marido. Ele  pea importante desse processo.
    -        Ele saiu do coma hoje cedo, mas ainda no est fora de perigo. Os mdicos recomendaram muito cuidado. Ele no pode se emocionar.
    -        Fique tranqila. Vou conversar com o mdico e ver como poderemos fazer isso sem prejuzo para o estado dele.
    -        Obrigada.
    Depois que eles se foram, Gabriela sentiu-se inquieta. Teria de suportar os interrogatrios na justia. Georgina e Gioconda iriam contar de seu jeito, e ela 
teria de suportar as acusaes que fariam.
    Por mais que afirmasse a verdade, as pessoas iriam duvidar. Percebia isso nos ltimos dias at nas enfermeiras, que, quando a viam ao lado de Renato, olhavam 
com malcia.
    Quando aquilo iria acabar? Quando teria de volta sua tranqilidade e a de seus filhos? Quanto mais pensava, mais sentia que no poderia continuar trabalhando 
na empresa de Renato. Mas ao mesmo tempo perguntava-se: seria justo prejudicar-se por causa da maldade alheia?
    Tinha a conscincia tranqila. Por que deveria perder um emprego, em que estava progredindo, por causa dos outros?
    Esses pensamentos lhe tiravam a calma e ela se esforava para no entrar na revolta ou na depresso. Felizmente Roberto estava melhorando. Isso poderia simplificar 
tudo.
    Como seria seu depoimento? E se ele quisesse justificar sua conduta insinuando que ela o trara?
    Teve vontade de apanhar os filhos e ir para bem longe, morar em outra cidade, onde ningum os conhecesse e onde pudesse refazer sua vida em paz. Mas no podia 
fazer isso, pelo menos enquanto a situao no se resolvesse.
    Nicete veio logo aps o almoo, trazendo roupas limpas. Gabriela informou-a da melhora de Roberto.
    -        Com a ajuda espiritual, tudo vai melhorar.
    -        De fato. Senti-me bem e Roberto melhorou. Mas pode ter sido uma coincidncia.
    -        No seja resistente. Agradea. Como foi ontem no centro?
    Gabriela contou o que acontecera e finalizou:
    -        No entendi por que aquela mulher me acusava. Nunca fiz mal a ningum. Nem sequer a conheo.
    -        Isso pode ter acontecido em outra encarnao.
     - Como posso ser responsabilizada por uma coisa da qual no lembro? Nem tenho certeza de que a reencarnao existe.
     - Para entender esses assuntos  preciso estudar. H pessoas que pesquisaram e escreveram livros comprovando que a reencarnao um fato. Ao nascer de novo, 
a vida no nos deixa lembrar o passado. Nossa passagem por aqui fica mais fcil sem o peso das recordaes tristes, sem as mgoas.
     - Voc acredita que nascemos de novo?
     - Acredito. Sem isso no haveria como explicar as diferenas entre a vida das pessoas. No acha?
     - E. Ento voc acredita que eu possa mesmo ter feito mal a essa mulher em outra vida?
     - No sei. As vezes esses espritos perturbados se aproveitam da nossa falta de memria do passado, falam mentiras para nos deixar deprimidos e poder nos dominar. 
Uma vez fui a um centro e um esprito se comunicou dizendo que eu o havia assassinado em outra vida. Eu nem me abalei. Respondi que, se eu fiz isso, no me lembrava 
e por isso no me sentia culpada. Se fosse verdade mesmo, o dia em que eu lembrasse pediria perdo. Porque hoje eu tenho certeza de que seria incapaz de matar ou 
ferir algum.
     - Voc no teve medo?
     - No. Os espritos desencarnados so pessoas que viveram neste mundo. A morte no os faz mudar. No tenho medo deles. Respeito, mas no temo. Depois disso, 
ele foi embora e nunca mais me perturbou. Se fosse verdade o que ele disse, teria ficado me amolando. Como no ca na armadilha dele, desistiu e se foi.
     - Voc acha que essa mulher mentiu?
     - No sei. Mas, mesmo que fosse verdade, se a senhora no lhe der crdito, ela no ter foras para prejudic-la.
     - Voc acha que ela teve culpa no que nos aconteceu?
     - Isso eu no saberia dizer. Mas ela pode ter alimentado os pensamentos de cime do Seu Roberto ou da D. Gioconda, pode ter sugerido coisas.
     - Nesse caso, ela influenciou mesmo. Isso no  justo. Ns no os podemos ver. Como nos defender?
     - Eles so espritos desequilibrados que exploram as fraquezas das pessoas.  o nico poder que tm. Quando ficamos firmes no bem, usamos nosso bom senso, buscamos 
a verdade, eles no tm como nos atingir. Dando fora aos nossos pontos fracos, podemos estar dando fora a eles.
    -        De fato, se Roberto no fosse to inseguro, ciumento, nada disso teria acontecido.
    -  o que eu digo. Nenhum esprito teria tido foras para envolv-los. Claro, a presena deles torna maior o problema. O cime dele, somado s energias maldosas 
de algum, ficou insuportvel.
    - Isso posso entender. Mas e eu? Sempre procurei fazer o bem. Tenho sido esposa sincera, dedicada, honesta. Por que aconteceu isso comigo?
    -        Isso eu no sei. Mas minha me costuma dizer que quando a gente atrai uma pessoa ciumenta em nossa vida  porque merecemos.
     - Mas eu no mereo. Sempre fui honesta, nunca tra Roberto, nem em pensamento.
     - Merecer no quer dizer que a senhora o tenha trado. Mas pode ter merecido por outros motivos. Seno, Deus, que  justo, no lhe teria dado um marido ciumento.
    -        Assim fica difcil entender essa justia. Por que eu teria merecido isso se minha conscincia no me acusa de nada? Voc tem sido testemunha do meu 
esforo para ajudar minha famlia.
    - As vezes no entendemos o porqu das coisas. Mas eu tenho f e sei que Deus  perfeito e nunca permitiria uma injustia.  por isso que eu digo que, se a senhora 
casou com um homem ciumento, precisava passar por esse desafio. Essas coisas acontecem para nos ensinar algo.
     Gabriela ficou pensativa por alguns instantes, depois disse:
     - Olhando por esse lado, d para entender a perfeio de Deus e as injustias que acontecem no mundo.
     - Eu penso que tudo  justo, ns  que enxergamos como injustia porque no compreendemos os motivos. Eu, quando alguma coisa ruim me acontece, procuro perceber 
o que aprendi com ela. Assim, posso entender um pouco por que a vida me deixou passar por aquilo.
     - Vou pensar no que voc disse. Gostaria de compreender para poder resolver o que fazer daqui para a frente.
     Depois que Nicete se foi, Gabriela foi saber do estado de Roberto. O mdico permitiu que ela entrasse na UTI.
     - Poder ficar uma hora, mas j sabe as condies. Nada de emoes fortes.
     Encontrou Roberto inquieto e com febre. A infeco persistia. Vendo-a, ele respirou fundo, dizendo baixinho:
     - Ainda bem que voc veio. Isto aqui  um inferno. No via a hora que voc chegasse.
     Gabriela sentou-se ao lado da cama, dizendo:
    -        O mdico no quer que eu fique muito tempo para no o cansar. Tenho estado aqui no hospital.
    -        Ele no sabe de nada. Sua presena me faz bem, apesar de me lembrar da loucura que eu fiz.
    -        No vamos falar nisso agora, seno o mdico me levar embora. Voc precisa se recuperar. Para isso precisa de calma e pacincia.
    -        Preciso saber como as coisas esto. E Gioconda, onde est? Ela est louca, pode voltar a qualquer momento. Eu falei ao delegado, ele garantiu que ela 
est presa, mas no sei se  verdade.
    Pode ter dito isso s para me acalmar.
    -        Ela est presa, sim. Desde o dia seguinte ao atentado. Agora acalme-se. No estou correndo nenhum perigo. Alis, ela est arrependida do que fez. Pelo 
que sei, no sair da priso to cedo.
    -        Ainda bem.  melhor que fique l. Minha me veio me ver. Ela tem perturbado voc?
    -        No. Ela est muito nervosa por sua causa.
    -        Sei como ela . Deve estar culpando voc, como sempre fez. Eu disse a ela que a culpa foi toda minha. Espero que tenha acreditado.
    -        No se preocupe com isso. No temos nos encontrado. Aluguei um quarto e, quando no venho aqui, fico nele. Ela no vai l.
    -        No queria que nada disso tivesse acontecido. S desejava que deixasse o emprego.
    Afinal, sou seu marido. Seria pedir muito isso?
    -        Se continuar falando nisso terei que sair. O mdico no quer que falemos nesses assuntos.
    Quando voc ficar bom, conversaremos e tudo ser esclarecido.
    -        Gioconda est presa. E ele?
    -        O Dr. Renato? Est sofrendo. As crianas esto dando trabalho por causa da me.
    Principalmente a menina. Depois, Gioconda est desequilibrada. Ele quer que o mdico a trate, mas ela se recusa.
    -        Ele tem vindo aqui?
    -        Tem. Disse que vai pagar todas as despesas, uma vez que foi sua mulher quem o feriu.
    Roberto apertou os lbios contrariado.
     -        Preferia que ele no fizesse isso. Afinal, tambm fui culpado.
     -        No temos recursos para pagar este hospital. Seu tratamento tem sido o melhor possvel, por ordem dele. Graas a isso voc est melhorando.
     -        No queria dever minha vida  generosidade dele.
     - No seja criana. Ele ficou muito abalado com o fato de sua esposa haver feito isso. Se voc tivesse morrido, a situao dela seria pior. Ele est fazendo 
isso no s por achar que  justo mas tambm para ajud-la. Disse que seria horrvel seus filhos terem uma me assassina.
     Um brilho de emoo passou pelos olhos de Roberto.
     -        Posso entender. Mas eu me sentiria melhor se pudesse pagar minha despesa aqui.
     -        Faa como quiser. Quando voltar ao trabalho, tiver dinheiro, poder fazer isso.
     -        Voc ainda est com muita raiva de mim?
     -        No vamos falar nisso agora. Apesar do que fez, salvou minha vida.
     Ele segurou a mo dela, apertando com fora:
     -        Se voc tivesse ficado ferida ou morrido, eu teria enlouquecido. Minha vida sem voc seria impossvel.
     -        Vamos mudar de assunto. Nada aconteceu, voc est melhorando.  nisso que precisa pensar. Guilherme e Maria do Carmo esto loucos para v-lo. Mas o 
mdico s vai permitir quando sair da UTI.
     -        Tambm estou com saudade. O que disse a eles?
     -        A verdade. Os jornais publicaram mentiras e fui forada a conversar com eles, explicar o que havia acontecido.
     - Disse que eu ajudei Gioconda a fazer o desfalque para culp-la?
     -        No. Disse apenas que Gioconda  desequilibrada e ciumenta, que vive imaginando coisas do marido. Como eu trabalho prxima ao Dr. Renato, imaginou 
que ele estava me namorando, ento tentou me matar, voc apareceu e me salvou.
     Os olhos de Roberto brilharam emocionados.
     - Foi muito nobre de sua parte.
     - Voc no merecia. Fiz isso por eles. No quero que percam o respeito ao pai.
     -        Voc  muito melhor do que eu. No sei como fui capaz de julg-la mentirosa. Prometo que nunca mais farei isso.
     -        Agora trate de descansar. Precisa obedecer aos mdicos para se recuperar logo.
     - Quero ir para casa o quanto antes.
     -        Ento trate de cooperar. Vamos esquecer esses assuntos tristes e pensar que logo estar melhor.
     A enfermeira entrou, olhou os controles, tomou a temperatura, fez anotaes no pronturio.
     Depois que ela saiu, Roberto pediu:
     -        Se eu ficar quieto, voc fica mais um pouco?
     -        Sim. Para que os mdicos me deixem ficar mais aqui, voc precisa ficar mais calmo quando estou neste quarto. Assim, ele concordar que eu fique.
     Segurando a mo dela, ele fechou os olhos e adormeceu. Gabriela deixou-se ficar ali, desejando que ele ficasse bom logo para que pudesse retomar sua vida e 
decidir o que fazer.
     S foi para o quarto no fim da tarde. Logo depois Renato chegou. Estava nervoso, preocupado. Gioconda estava dando trabalho na delegacia, e o delegado tinha-lhe 
dito que havia pedido a visita de um psiquiatra do manicmio judicirio. Renato pediu que ele suspendesse o pedido e comprometeu-se a arranjar um que se encarregasse 
de trat-la.
     - No sei a quem procurar.
     -         aquele mdico que veio aqui? Disse que Roberto fazia terapia com ele. Pareceu-me bom. Deixou um carto.
     Ela apanhou o carto e deu-o a Renato, que exclamou:
     - Dr. Aurlio Dutra! Eu conheo este. Estive certa vez em seu consultrio para falar sobre Gioconda.
     - Que coincidncia!
     -        Naquela poca ele disse que a terapia s daria resultado se Gioconda tambm se submetesse ao tratamento. Ela no quis. Irritou-se quando sugeri que 
fosse ao consultrio dele. Eu devia ter insistido. Se ela tivesse ido,  bem provvel que nada disto tivesse acontecido.
     -        Teria sido melhor mesmo. Mas agora, diante das circunstncias, ela ter que aceitar.
     -        Amanh mesmo falarei com ele. Trata-se de um homem culto, e alm disso me parece que entende desses fenmenos espirituais.
     -        Veio espontaneamente, tentou me ajudar, disse palavras confortadoras,  um homem humanitrio.
     -        Alm disso conhece o histrico de Gioconda. Conversamos bastante sobre as atitudes dela. Gostaria muito que ela refletisse no que fez, percebesse seus 
pontos fracos, desenvolvesse bom senso.
     -        No ser fcil. Mas, diante do que est passando e ter ainda que suportar, vai precisar de muita coragem, pacincia, humildade.
     -        Essas so qualidades que Gioconda no tem. Contudo, espero que com um tratamento ela possa pelo menos suportar as conseqncias de suas atitudes sem 
revolta.
     -        Quanto tempo voc acha que ela poder ficar presa?
     - No sei. O advogado acha que, se ficar provado o desequilbrio mental, poder alegar crise emocional e conseguir uma pena mnima, condicionada ao tratamento 
psiquitrico.
     -        Roberto vai se recuperar, e isso poder ajudar.
     -        Segundo o Dr. Altino, o que vai pesar  a inteno de matar. O fato de Roberto no ter morrido poder ser atribudo  falta de experincia dela com 
uma arma, ou mesmo  alterao emocional, mas o crime est consumado na forma como foi planejado e executado. Ela ser julgada atravs dessa ptica.
    - Eu gostaria que tudo isso j tivesse acabado. O delegado tomou meu depoimento e o de Roberto, mas disse que vai nos chamar de novo.  desgastante reviver essa 
histria. D. Georgina me odeia e vai apoiar a verso de Gioconda. As duas vo dizer que tivemos um caso. Ser nossa palavra contra a delas. A imprensa e as pessoas 
esto sempre prontas a criticar, sem se interessar pela verdade. Penso em meus filhos. Eles tero que suportar isso de novo.
    Renato suspirou fundo. Ele tambm se preocupava com seus filhos. Vamos precisar de coragem. Ns dois sabemos que somos inocentes. Temos a fora da sinceridade. 
J que falamos nisso, confesso que muitas vezes me senti atrado por voc. Pela sua beleza, inteligncia, coragem, honestidade. Precisei me esforar para no me 
apaixonar. Voc  a mulher que sonhei ter por esposa. Cada dia que chegava em casa, era inevitvel a comparao entre voc e Gioconda. Mas eu resisti. Consegui superar 
esse sentimento porque no gostaria de desvi-la do seu caminho, interferindo em sua vida. Conformei-me em aceitar a minha realidade, reconhecendo que tudo poderia 
ter sido diferente se eu a houvesse conhecido antes de estarmos casados.
    Gabriela ouvia em silncio, cabea baixa, na tentativa de esconder seu rosto ruborizado e algumas lgrimas que comeavam a cair. Renato levantou-se e finalizou:
    - Desculpe. Estou sendo inconveniente. Espero que compreenda o que estou tentando dizer. Eu a respeito e admiro. Nunca me passou pela cabea a idia de assedi-la. 
Sabia que voc nunca aceitaria e que iria embora. Optei pelo prazer de usufruir da sua amizade e companhia, ainda que fosse somente no campo profissional.
    Gabriela no respondeu. As palavras morriam em sua garganta e ela no sabia o que dizer.
    Renato aproximou-se e levantou o rosto dela com delicadeza.
    - Sem querer, fiz voc chorar. Esquea tudo que eu disse. Estes dias tm sido muito difceis para mim. tenho questionado muito minha vida, meu casamento. No 
tenho o direito de perturbar voc com meus problemas. Chega os que a esto atormentando. Desculpe. Fique tranqila. No voltarei mais a este assunto. No devemos 
temer a maldade alheia. Basta-nos saber que fomos vtimas do desequilbrio de Roberto e Gioconda. Eles  que precisam responder  prpria conscincia pelo que fizeram. 
Ns estamos limpos e nossa dignidade nos basta. No se atormente mais. Iremos at o fim dizendo a verdade.
     - Tem sido difcil para ns dois - disse ela, fitando-o sria. - Sinto-me confortada pela sua sinceridade. Nunca esquecerei suas palavras. Todo o tempo tenho 
evitado compar-lo a Roberto. Tenho certeza de que ele perderia longe, o que tornaria mais difcil minha vida ao lado dele. No farei isso agora. Cada um  um, e 
a comparao sempre ser injusta. Seja o que for que estiver para acontecer ainda, estou decidida a enfrentar de cabea erguida. Voc me deu a coragem de que eu 
precisava. Obrigada.
     Os olhos de Renato brilharam comovidos mas ele se controlou, dizendo:
     - Acho que est na hora de jantar. Aceitaria comer alguma coisa? Estou com muita fome.
     Ela sorriu e concordou. Lavou o rosto, retocou a maquiagem e acompanhou-o  lanchonete.
     Sentia-se calma e mais otimista. Dentro de seu corao comeava a brotar a certeza de que tudo iria passar e dias melhores viriam.

Captulo 19

    Nos dias que se seguiram, Roberto foi melhorando. Saiu da UTI e foi para o quarto comum. A princpio crivava Gabriela de perguntas sobre o que havia acontecido 
durante os dias em que ficara inconsciente, mas ela, depois de resumir os fatos com simplicidade, disse-lhe que no queria mais falar no assunto e recusava-se a 
responder novas indagaes.
    - Estou fazendo o que posso para esquecer tudo. No quero falar mais sobre isso. Vamos mudar de assunto.
     -        Estou preocupado com as despesas. Estava comeando a trabalhar e no tenho reservas.
     -        O Dr. Renato est pagando tudo.
     -        No gosto que faa isso.
     -        No temos opo. Depois, ele considera justo, uma vez que foi Gioconda que o feriu.
     - Eu tambm sou responsvel pelo que aconteceu. No  justo que s ele pague.
     -        Vamos deixar as coisas assim e no arranjar mais problemas do que os que j temos. Ele responsabiliza a esposa e quer pagar.
     -        Eu contribu para que ela se descontrolasse. O cime  um fogo destruidor. Sei como pode nos enlouquecer. Apesar de eu nunca ter imaginado que ela 
pudesse chegar a esse ponto.
     -        Chega de falar nisso.
     -        A cada dia que passa, vendo sua dedicao, sinto-me mais culpado. Diga que me perdoa e que tudo voltar a ser como antes.
     -        J disse que quero esquecer, deixar a poeira assentar, colocar a cabea no lugar.
     -        Diga que me ama e que me perdoa!
     -        No me pressione. Tenho estado com os nervos  flor da pele. Preciso de um tempo para pensar.
     -        Para qu? Voc sabe que no poderei viver sem voc. Diga que nunca vai me deixar.
     -        No quero falar nisso agora. Se continuar assim, irei para casa agora.
     -        Desde que vim para o quarto voc no tem dormido mais no hospital. Antes ficava aqui a noite toda.
     -        Agora que est fora de perigo, preciso cuidar das crianas.
     -        Nicete far isso muito bem. Eu preciso de voc.
     -        Tenho vindo todos os dias. Preciso cuidar um pouco de mim. Aproveitei para tirar frias, mas dentro de uma semana terei que voltar ao trabalho.
     -        Pretende voltar quele escritrio?
     -        Claro. Voc ainda no pode trabalhar. No posso perder o emprego.
     Ele olhou para ela com tristeza.
     -        Pensei que, depois do que houve, no voltasse mais l.
     -        Preciso trabalhar.
     -        Poderia encontrar outro lugar.
     - Pensei ter entendido que voc est arrependido e acredita que somos inocentes.
    - E estou. Tenho certeza de que voc sempre me foi fiel. Mas  que, depois do que houve, as pessoas vo falar. A maldade alheia  terrvel. No quero que ningum 
faa comentrios maliciosos a seu respeito.
    Gabriela apertou os lbios tentando segurar a onda de revolta que a envolveu. Tentou se acalmar. Depois disse:
    - Se isso fosse verdade, voc no teria me feito passar por ladra.
    - Eu estava louco! Por favor, esquea isso...
    - Deixe-me em paz. Depois do que fez, no tem condies de exigir nada de mim nem de me dar conselhos sobre como proceder. No vou deixar meu emprego, me esconder, 
como se fosse culpada. Sou inocente, sou um mulher honesta que vive do trabalho. No admito que ningum julgue meus atos, muito menos voc.
    Ela estava trmula e seu rosto indignado, coberto de rubor.
    - Est bem. No precisa se irritar. Voc far como quiser. No direi mais nada sobre o assunto.
    -  melhor assim. Agora vou para casa. As crianas no esto indo bem na escola. Preciso ajud-las.
    Depois que ela se foi, Roberto ficou pensativo. Nos dias em que ficara inconsciente, lembrava-se de ter sonhado que vagava por diversos lugares. Lembrou-se do 
medo que sentira julgando que houvesse morrido. Recordou-se das palavras de Gabriela afirmando que sempre lhe fora fiel e de como ele se emocionara sentindo que 
ela dizia a verdade.
    Em meio  sua angstia, pensara em Cilene, pedindo que o ajudasse. Depois vira-se naquela conhecida sala do centro esprita e pedira ajuda. Uma senhora bonita 
falara com ele, aconselhara-o, acalmara-o dizendo que Gabriela era inocente. Ento, ele se sentira melhor.
    Apesar disso, de vez em quando a dvida comeava a aparecer e ele voltava a sentir-se angustiado. Gostaria de ver aquela mulher de novo, descobrir que no fora 
um simples sonho. Ele desejava tanto que Gabriela o amasse e lhe fosse fiel, que talvez houvesse forjado aquele sonho.
    Tudo poderia ter sido uma alucinao.
    Quando esse pensamento o assaltava, sentia-se inseguro, nervoso, deprimido.
    Apesar de Gabriela ter cuidado dele com dedicao, havia nela algo diferente que o fazia sentir-se inquieto. Sentia que ela no havia perdoado. Talvez tivesse 
deixado de am-lo. E se ela resolvesse deix-lo?
    Remexia-se no leito, inquieto. Algum bateu levemente na porta e Roberto mandou entrar.
    A porta abriu-se e Cilene entrou com Hamlton. Ele sabia que Gabriela e Renato estavam freqentando o tratamento espiritual duas vezes por semana.
    -        Como vai, Roberto? - disse ela, aproximando-se. - Lembra-se de Hamlton?
    -        Estou melhor. Como vai, Hamlton?
    - Bem. E voc, mais calmo?
    -        Nem tanto. H momentos em que me sinto inseguro, nervoso. Mas sentem-se, por favor.
    Eles se sentaram nas cadeiras ao lado da cama e Roberto continuou:
    - Hoje, por exemplo, estou angustiado. No sei o que .
    -        No deve dar ouvidos aos maus pensamentos - disse Hamlton. -  preciso afastar as ms influncias.
    -        Minha vida est muito ruim. Depois do que fiz, nem deveria me queixar.
    -        No mesmo - respondeu Cilene. - Voc s tem a agradecer a Deus pela ajuda que recebeu. Sabe que sua vida esteve por um fio.
    -        Talvez fosse melhor ter morrido...
    Hamlton olhou para ele com seriedade.
    -        No seja ingrato nem se faa de vtima. Voc colheu o que plantou, e olhe que no foi por falta de aviso.
    -         que Gabriela est mudada. No gosta mais de mim.
    -        O que esperava? Ela no confia em voc. Se deseja reconquistar a confiana dela, ter que ser paciente. Voc tem uma mulher sincera e dedicada. Se continuar 
no a valorizando, poder perd-la.
    -        No diga isso nem brincando. No saberia viver sem ela.
    -        Ento trate de controlar seu cime e agradecer a Deus pela mulher que tem.
    -        Vocs esto contra mim.
    -        De forma alguma - respondeu Hamlton. - Estamos do lado de ambos. Torcemos pela felicidade de vocs e de seus filhos.
    -        Ela e Renato tm ido ao tratamento.
    -        Sim. E voc tambm dever ir, quando se levantar - tornou Cilene.
    - Irei. Preciso reencontrar a paz.
    -        Para isso h que ser mais otimista. Viver no bem, no dar fora aos pensamentos negativos.
    Se no se esforar para conseguir isso, nem o tratamento espiritual dar resultado, porque os espritos de luz no conseguiro ajudar. Tenha em mente que precisa 
fazer sua parte. E, agora,  reconhecer que o cime  a causa de seus problemas. Se deseja viver com sua esposa, ter felicidade, paz, vai ter que confiar nela e 
no aceitar qualquer pensamento contrario.
    - Gostaria de ter essa confiana. Por que ser que no consigo?
    -        Talvez precise de uma terapia, descobrir por que se desvaloriza, julgando que no merece o amor dela. Por que o brilho natural que ela possui o incomoda 
tanto a ponto de desejar que ele se apague?
    - No desejo isso.
    - Deseja, sim. No quer que se arrume, que trabalhe fora, que as outras pessoas a achem bonita, inteligente, atraente.
    -        No gosto que ela chame a ateno.
    -        Precisa reconhecer que esse carisma  natural nela. Conheceu-a assim e apaixonou-se exatamente por causa disso. Por que deseja mudla? No vai conseguir. 
Vai oprimi-la, pression-la, deix-la infeliz, e acabar por separ-los definitivamente.
    -        Morrerei se isso acontecer.
    Hamlton sorriu:
    -        Voc  muito dramtico. Assim fica difcil enxergar as coisas como so. Mas sua esposa  uma mulher digna, muito consciente do prprio valor. Se tentar 
engan-la, acabar por perd-la.
    Agora vamos orar juntos, pedindo a Deus que o ajude a compreender.
    Roberto fechou os olhos enquanto os dois em p, um de cada lado da cama, estendiam as mos sobre ele. Hamlton colocou a mo direita sobre a cabea dele, orando 
em silncio.
    Roberto sentiu aumentar a opresso. Remexeu-se inquieto e de repente no conseguiu conter as lgrimas que brotavam em profuso, descendo-lhe pelas faces.
    Os dois continuavam orando em silncio. Aos poucos Roberto foi serenando e por fim suspirou aliviado. A opresso havia passado. Cilene entregou-lhe o copo com 
gua que deixara na mesa de cabeceira.
    -        Beba - disse. - Vai sentir-se melhor.
    Ele obedeceu, depois disse:
    - Obrigado. Sinto-me aliviado.
    Os dois sentaram-se novamente e Hamlton considerou:
    - Voc precisa aprender a conservar o equilbrio interior.
    -         difcil. Os pensamentos aparecem e eu fico nervoso. Acho que algum esprito fica me perturbando.
    Hamilton sorriu quando respondeu:
    -        Ao contrrio. Na maioria das vezes as pessoas  que perturbam os espritos. Do fora aos pensamentos ruins, alimentam tragdias, ficam deprimidas, 
ento acabam atraindo espritos sofredores, atravs da sintonia. Depois se justificam culpando os espritos pelos seus problemas.
    No deixa de ser uma boa desculpa.
    -        No estou fazendo isso. Esses pensamentos aparecem de repente, do nada, ento me perturbo. So eles que se aproximam e me envolvem.
    -        Muita gente pensa como voc, mas no  verdade. Esses pensamentos no aparecem do nada. Vm do seu subconsciente, onde suas crenas j se automatizaram. 
Voc os programou, acreditando neles. Por isso os espritos superiores tm-nos alertado que para conseguir a paz e conserv-la  preciso desprogramar velhas crenas 
erradas e substitulas por outras mais verdadeiras.  um trabalho que leva tempo e que s voc pode fazer.
    -        Nesse caso, no precisaramos da ajuda dos espritos. Hamlton sorriu e respondeu:
    -        Quando conseguirmos a serenidade, viveremos trocando energias com outros seres, sem dependncia ou submisso, com naturalidade e alegria. Mas isso est 
ainda muito distante de todos ns. Por enquanto, precisamos da ajuda uns dos outros.
    Cilene interveio:
    -        O processo  simples. Os pontos fracos que alimentamos, nossa falta de f na vida, nossa insegurana, a idia de que somos falveis e fracos, criam 
energias negativas que atraem espritos que pensam da mesma forma. Mas a presena deles ao nosso lado aumenta o volume dessas energias e nos faz sentir muito pior. 
Dores, arrepios, enjo, falta de ar, corpo pesado, sonolncia, inquietao, tristeza, depresso. Ento vamos ao centro e l esses espritos so ajudados, afastados. 
Nossa aura  limpa e revitalizada. Sentimo-nos muito bem. Durante alguns dias ficamos timos. Mas, depois, tudo recomea. Parece no ter fim.
    -        Isso vai acontecer enquanto voc no melhorar o padro de seus pensamentos - completou Hamlton. - Antigamente eu questionava por que a vida permite 
que pessoas que fazem o bem passem por essas perturbaes. Depois comecei a notar que cada pessoa atraa a companhia de espritos de acordo com suas fraquezas. O 
que gosta de beber, um alcolatra; o de jogar, um viciado compulsivo; o guloso, um comilo.
    -        Eu, espritos ciumentos - completou Roberto. - Mas isso no ajuda. S agrava o problema.
    -        Ao contrrio.  o mesmo princpio da vacina, que imuniza pelo prprio veneno.  o espelho que a vida faz, exagerando para que voc perceba seu ponto 
fraco e procure venc-lo.
    Roberto ficou calado por alguns instantes, depois disse:
    -        Quer dizer que o que aconteceu comigo foi isso?
    -        Sim. O exagero de Gioconda quase provocou uma tragdia. Foi um alerta para que voc perceba o mal que est fazendo a si mesmo.
    - Apesar do que esto me dizendo, quando sinto cime no consigo me controlar. Imagino at cenas da traio.
    -         por isso que voc precisa ir ao centro receber auxlio energtico. Mas, como dissemos, essa ajuda  temporria, apenas para dar-lhe oportunidade de 
perceber a verdadeira causa.
    -        No sei por que sinto isso. Gabriela  atraente, mas reconheo que nunca me deu motivo para tanto...
    Ele parou pensativo, lembrando-se que a vira dentro do carro com um homem.
    -        O que foi? - indagou Hamlton.
    -  que certa vez eu estava dentro de um nibus quando a vi passar dentro de um carro de luxo, com um homem.
    - Tem certeza de que era ela? disse Cilene.
    - Foi rpido, o vestido era diferente, mas era ela.
    - Conversou com ela sobre isso? - indagou Hamilton.
    -        No tive coragem. Depois, Gabriela nunca iria confessar.
    -        Foi s essa vez? perguntou Cilene.
    -        No. eu a vi de novo no carro do patro, mas no consegui ver com quem estava. Apenas o motorista.
    -        Tambm no disse nada a ela - notou Cilene.
    - No. Para qu? Ela iria mentir. Foi depois disso que meu cime ficou insuportvel.
    - Voc imaginou coisas, julgou sem tentar saber a verdade. A mulher que viu com um homem no era sua esposa. Se fosse, voc teria reconhecido o vestido. Depois 
a viu no carro do patro, sozinha com o motorista. Ela deveria estar fazendo algum servio para a empresa.
    -        Voc acha isso?
    -        Claro. Tenho certeza de que sua esposa nunca teve nada com o Dr. Renato. O relacionamento deles  bom, mas apenas profissional. O cime  mau conselheiro, 
faz ver coisas que no existem - tornou Hamlton, srio.
    -        Como pode ter tanta certeza? At alguns dias atrs eu tambm pensava isso, mas, no sei, de ontem para c tenho me sentido inquieto, angustiado, e o 
cime voltou a me incomodar.
    -        Sua esposa  digna e de confiana. Se no reagir mandando embora esses pensamentos, seu relacionamento com ela estar em perigo. At agora Gabriela 
tem suportado suas desconfianas tentando faz-lo entender que ama a famlia e no tem outros interesses. Mas nota-se que est no limite de sua resistncia. Ela 
pode desejar a separao.
    -        Nem fale uma coisa dessas. Ela no disse que me perdoou, mas, vendo sua dedicao, a maneira como tem me tratado, creio que conseguiu superar. Logo 
voltaremos para casa e nossa vida ser como antes. S no queria que ela voltasse a trabalhar naquela empresa. Ela no aceita ficar em casa. Se quer trabalhar eu 
at concordo, mas no l. Se ela continuar, j pensou os comentrios?
    Hamilton olhou nos olhos de Roberto e disse srio:
    - Se continuar pensando assim, no haver reconciliao. Roberto sobressaltou-se:
Os espritos esto dizendo isso? Ela no vai me perdoar?
    -        Eu estou dizendo isso. Sou seu amigo, e tenho experincia de lidar com pessoas. Voc est machucando sua mulher, ferindo seus sentimentos. Ela no fez 
nada errado. Ao contrrio, tem sido boa esposa e trabalhado para manter a famlia. Como acha que ela se sente com sua ingratido? Pense nisso, Roberto. Acorde antes 
que seja tarde demais.
    Roberto ficou calado por alguns instantes. Depois disse:  ou tentar. Mas preciso de ajuda.  difcil para mim.
    -        Nem tanto - garantiu Cilene.  s mandar embora qualquer pensamento de cime. Nessa hora deve repetir: "Isso no  verdade. Gabriela  honesta e merecedora 
de respeito. No acredito nisso
    -        Faa isso e ns vamos ajudar com nossas preces.
    Depois que eles se foram, Roberto continuou pensando. Por que ele sentia tanto cime? Gabriela tinha classe, palavra fcil e inteligncia, enquanto ele no havia 
estudado, sentia-se desajeitado e sem graa nos lugares mais finos onde ela ficava muito  vontade. Tinha inveja dela. Reconhecia isso.
     Teria sido melhor que ela houvesse resistido ao seu assdio e no tivessem se casado. Ele nunca iria sentir-se igual a ela. A figura de sua me apareceu em 
sua mente. Ela o amava a seu modo, mas era uma mulher ignorante, sempre falando mal dos outros, implicando com Gabriela.
     Sentiu raiva da me. Se fosse instruda, ela o teria educado melhor. Ele e a me, por mais bem vestidos que estivessem, sempre pareciam desajeitados, enquanto 
Gabriela, um vestido simples a deixava elegante. Ela nunca era acanhada. Estava sempre bem, fosse em uma casa de luxo ou em uma pobre. Como ela conseguia isso?
     Naquele momento reconheceu que ao lado dela sempre se sentia menos. No que ela o tratasse mal. Ao contrrio, era sempre atenciosa, educada, dava-lhe considerao. 
Mas isso o deixava com mais raiva, acentuando a superioridade dela.
     Pela primeira vez Roberto notou o quanto a diferena de instruo o tornava inseguro.
     Quando a conheceu, ficou fascinado. Apaixonou-se  primeira vista. Quando ela correspondeu ao seu amor, sua me no aprovava o casamento e disse:
     - Ela no serve para voc.  moa fina, estudada, cheia de mimos e delicadezas. Voc  pobre, deixou a escola para trabalhar. No vai dar certo.
     - Eu gosto dela, me. Estou apaixonado. Ela aceitou meu pedido. Vamos nos casar.
     Georgina sacudiu a cabea negativamente:
     - No faa isso. Voc vai sofrer. Deixe essa moa de lado. Voc precisa de uma mulher do nosso meio, feita para o lar, disposta a criar os filhos como eu criei 
vocs.
     Mas ele no ouviu. Por que se deixou levar pela paixo? Sua me estava certa. Desde os tempos de namoro sentia esse cime terrvel. Naquele tempo conseguiu 
ocultar. Pensou que depois do casamento, sabendo que estavam unidos para sempre, esse sentimento acabaria.
     Mas no acabou. Mesmo nos momentos de relacionamento ntimo, sabendo que ela correspondia ao seu amor, ele se sentia angustiado, imaginando que outro homem 
poderia desej-la. Era um tormento.
     Sentindo as lgrimas descerem pelas faces, Roberto percebeu que, apesar do amor que os unia, nunca havia sido feliz. A desconfiana, o medo, a insegurana sempre 
estiveram presentes, no permitindo que vivesse em paz.
     Por que ele sentia isso? Por qu? Deus salvou-lhe a vida, mas sua alma continuava doente. O que fazer para acabar com aquele suplcio?
     Nada o satisfazia. Quando estava com ela, temia que ela o deixasse; quando longe, suspirava pela sua presena.
     Lembrou-se do Dr. Aurlio. Ele tentou ajud-lo. Quando sasse do hospital, iria procur-lo. Gabriela contou-lhe que o mdico o fora visitar, interessado em 
sua sade. Era uma pessoa boa que desinteressadamente o ajudou.
     Lembrou-se de que, apesar de ser sincero com o mdico, nunca abrira completamente o corao, falando tudo que lhe ia na alma. Agora se sentia sem coragem para 
continuar vivendo como antes. Precisava dos conselhos de como se libertar da priso na qual havia entrado.
     Certa vez Cilene lhe tinha dito que Deus o mdico das almas. Nunca foi um homem de f, mas agora, cansado de tanto sofrimento, estava disposto a procurar a 
ajuda espiritual no centro esprita.
     L encontrou amigos sinceros, interessados em ajud-lo, sentiu-se aliviado, confortado. Talvez esse fosse o caminho da cura. Roberto estava decidido a tentar.
     Dez dias depois, o mdico deu a boa nova: Roberto receberia alta no dia seguinte. As crianas receberam a notcia com alegria. Finalmente o pai voltaria para 
casa recuperado. Elas o haviam visitado nos ltimos dias. Gabriela levava-os e aproveitava para ficar menos tempo no hospital, j que tinha de lev-los de volta.
     Roberto notava que ela evitava ficar sozinha com ele, e, quando no conseguia evitar, no permitia que ele falasse nos problemas.
     Essa atitude dela o deixava mais inseguro. Mas, notando que ela ficava nervosa quando tentava conversar, decidiu que s o faria quando voltassem para casa.
     Quando Gabriela deu a notcia em casa, todos vibraram de alegria. Nicete prometeu fazer comida especial e colocar flores nos vasos.
     Vendo o entusiasmo deles, Gabriela ocultou sua preocupao. Sabia que estava chegando o momento em que teria de decidir o futuro. Se por um lado estava aliviada 
por Roberto haver se recuperado, por outro temia que ele procurasse sua intimidade.
     Cada vez que ele a olhava com amor e desejava acarici-la, Gabriela recordava-se do que passou por causa do desfalque e sentia vontade de brigar.
     O que Roberto sentia por ela no era amor. Era paixo, possesso, necessidade de domnio, usando meios excusos para conseguir o que queria, sem nenhum respeito 
pelos seus sentimentos, pela sua dignidade. Ele a usara para conseguir seus fins.
    Em ateno ao que o mdico lhe dissera, tentou contemporizar. Mas agora ele estava voltando para casa, retomariam a vida normal, porm Gabriela sentia que nada 
seria mais como antes.
    Roberto teve alta ao meio-dia, e Gabriela arrumou tudo para deixarem o hospital. Nicete e as crianas esperavam-nos em casa, com um almoo festivo.
    Roberto havia se levantado um pouco nos ltimos dois dias, mas ainda se sentia fraco.
    Apoiado no brao de Gabriela, deixou o hospital depois de despedir-se das enfermeiras.
    Enquanto caminhavam pelo corredor, ele disse comovido:
    - Muitas vezes duvidei que esse dia chegasse. Estou muito feliz por voltar para casa. Logo tudo ser como antes.
    Gabriela no respondeu. Caminharam at o txi que os esperava. Roberto sentia-se alegre.
    Rever a casa, os filhos, suas coisas, deixou-o de bom humor. Assim que estivesse mais fortalecido, recomearia a trabalhar.
    O almoo decorreu alegre e depois Gabriela preparou o quarto para que ele descansasse. As crianas saram e Roberto no se conteve:
    - Gabriela, deite-se comigo um pouco. Tenho sentido saudade. Fique comigo.
    - No posso. Tenho muito que fazer. Amanh deverei voltar ao trabalho. Preciso preparar minhas roupas, colocar tudo em dia.
    Ele franziu o cenho.
    - Por que est me evitando? Pensei que tudo estivesse esquecido.
    - Eu gostaria, mas no consigo. Temos que conversar, esclarecer nossa situao. Sempre que toco no assunto, voc recusa.
    Gabriela fitou-o seriamente e decidiu:
    - Se insiste, vou ser bem sincera, alis como sempre fui. Cada vez que se aproxima querendo me acariciar, fico nervosa e me recordo daquele desfalque. Evitei 
falar no assunto para poupar sua sade. Por mais que voc jure que me ama, no acredito. No  essa forma de amar que eu aceito.
    Por isso, j mudei minhas coisas para o quarto de Maria do Carmo e pretendo dormir l.
    Roberto segurou a mo dela nervoso.
    - No faa isso comigo. No me abandone. Estou arrependido. Nunca mais farei nada que a desgoste.
    - No posso. Respeito meus sentimentos.
    -        Voc est sendo egosta. No est respeitando os meus sentimentos. Eu errei, mas paguei pelo meu erro. Quase perdi a vida.
    -        Sempre respeitei voc. No sou egosta por cuidar de mim. Entenda que no estou fazendo isso para puni-lo. Estou sendo sincera. No posso mentir. Eu 
confiava cegamente em voc. Quando descobri que no era confivel, perdi o referencial. Faltou cho sob os meus ps.
    Ele pensou em Renato e a desconfiana reapareceu. Ela estaria apaixonada por ele? Por que aquele homem se mostrou to solcito, tendo pago tudo, dado conforto 
a ela, frias temuneradas e tanta ateno?
    Mas ele no disse nada. Naquele momento, no podia mencionar isso. Baixou os olhos mostrando-se triste e disse com humildade:
    -        Sei que no mereo voc, mas reflita, ns temos uma famlia, filhos que precisam de ns. Depois, eu j disse: estou arrependido. Nunca mais terei cime, 
eu prometo. Estou sendo sincero, pelo muito que eu a amo, mereo outra oportunidade.
    -        Vou pensar. Mas no me pressione. Depois do que passamos, preciso de paz.
    Ela saiu do quarto e ele se deitou. Apesar de Gabriela estar arisca, enquanto ela estivesse morando com ele na mesma casa, no havia motivo para se preocupar. 
Com o tempo, ela acabaria esquecendo, aceitando seus carinhos e tudo ficaria bem. Cheio de esperana, Roberto fechou os olhos e logo adormeceu.

Captulo 20

    Na manh seguinte, Gabriela levantou-se cedo e, depois de organizar o trabalho da casa com Nicete, foi para o escritrio.
    Quando chegou, havia flores em sua mesa e tambm um carto de Marisa dando-lhe as boas-vindas em nome dos colegas. Ela abraou a amiga, agradecida.
    Renato ainda no havia chegado, e ela aproveitou o tempo para arrumar suas coisas, retomando os assuntos em andamento.
    Passava das dez quando ele chegou. Gabriela notou que ele emagrecera e havia tristeza em seus olhos.
    Ele parou na sala dela, dando-lhe as boas-vindas. E finalizou:
    -        Tenho alguns contratos para voc redigir. Vou preparar os dados e depois a chamarei.
    Uma hora depois, ele a chamou e entregou-lhe alguns papis, explicando alguns pontos que tinham prioridade. Por fim perguntou:
    -        Como vo as coisas em casa?
    -        Roberto est bem.
    -        Bom. No se esquea de que amanh  dia de tratamento no centro. Voc vai?
    -        Sim. Est me fazendo bem. Tenho me sentido menos ansiosa, mais calma e com mais coragem.
    -        Reconheo que tem me ajudado. As coisas no esto nada fceis em casa. Ricardinho  mais amadurecido, se controla e procura me ajudar. Mas Clia tem 
andado chorosa, triste e sem vontade de estudar.
    -        Ela era mais apegada  me?
    -        Era mais passiva. Aceitava as ordens de Gioconda sem questionar, o que no acontecia com Ricardinho.
    -        Deve estar se sentindo insegura.
    -        Eu conversei com o Dr. Aurlio, que me indicou uma terapeuta para ajud-la. Amanh ser a primeira sesso. Ontem o advogado informou-me que o delegado 
encerrou o inqurito e indiciou Gioconda. Ela vai ser mandada para o presdio. Ele no conseguiu que ela esperasse o julgamento em liberdade. Apesar de ser primria, 
continua descontrolada e rancorosa. O Dr. Aurlio solicitou que ela fosse transferida para um sanatrio judicirio e est aguardando as determinaes do juiz.
    -        Ela no est arrependida?
     - S lamenta haver atingido Roberto em seu lugar.  somente isso que ela fala.
     Gabriela ficou pensativa alguns instantes, depois disse:
     - Roberto continua me pedindo para deixar o emprego. Eu recusei. Preciso trabalhar, gosto daqui. Depois, no fizemos nada de mau. Mas agora, depois do que me 
disse, reconheo que talvez seja melhor eu ir embora. Assim, ela ficar mais calma.
     - No  justo. Voc  uma tima funcionria. Gioconda  neurtica e voc no pode se prejudicar, entrar no jogo dela.
     -  que estou me sentindo constrangida. Ela cismou comigo e no ter paz enquanto eu estiver aqui.  melhor eu comear a procurar outro emprego. Se me ajudar, 
ficar mais fcil.
     Renato levantou-se nervoso.
     - No faa isso. Por que a maldade tem que triunfar? Somos pessoas honestas, no temos do que nos envergonhar. Gioconda no est em seu juzo normal.
     -  capaz que ela no fique presa muito tempo. Roberto contou-me que se recusou a formalizar uma queixa contra ela. Disse a verdade ao delegado. Ela estava 
fora de si. Se eu for embora, ela vai ficar calma, e quando sair vocs podero viver em paz.
     - No, Gabriela. Minha deciso est tomada. Assim que ela melhorar, pretendo formalizar a separao. Nossa vida em comum tornou-se impossvel. No tenho condies 
de continuar vivendo ao lado dela.
     - E as crianas?
     - Gostaria que ficassem comigo. Mas acatarei o que o juiz decidir. Se ele determinar que fiquem com ela, estarei vigilante para que no os influencie a seu 
modo. Ricardinho no me preocupa,  maduro, sabe proteger-se muito bem. Mas, como eu j disse, Clia  passiva, insegura, influencivel. A presena da me tem-lhe 
sido nociva, infelizmente.
     Gabriela suspirou e no respondeu logo. Hesitou um pouco e depois disse:
     - Entendo como se sente. Eu tambm no consigo esquecer o que houve. Cada vez que Roberto se aproxima, recordo-me do desfalque e desejo que se afaste. Sua presena 
me faz mal.
     - No  fcil mesmo. Mas vocs se amam, e com o tempo tudo ainda pode se acomodar.
     Quando existe amor, fica mais fcil. Quanto a mim, o amor j acabou faz tempo. Havia respeito, amizade, mas agora isso tambm no existe mais. Por isso, entre 
ns a separao  inevitvel.
     Gabriela olhou preocupada para ele. Ela tambm sentia que seu amor por Roberto morrera havia muito tempo. Mas no teve coragem de falar. O que ele estava sentindo 
com relao  esposa era o mesmo que ela sentia com relao ao marido.
     As atitudes de Roberto revelaram lados ignorados de sua personalidade incompatveis com seu temperamento. Era franca, gostava de sinceridade. Para relacionar-se 
intimamente com algum, ela precisava confiar. Por mais que Roberto lhe jurasse nunca mais mentir, ela no conseguia acreditar.
     - Lamento - respondeu ela. -  triste quando uma famlia se separa.
     - Foi esse pensamento que me fez agentar o casamento at agora. Mas cheguei a um ponto em que no consigo suportar a proximidade dela, suas crises, sua depresso, 
seu cime. Desejo viver em paz. Ela no vai se conformar com meu afastamento. Por isso pretendo me separar legalmente. Assim, com o tempo, ela ter que aceitar o 
irremedivel.
     Gabriela deixou a sala de Renato pensando no futuro. Ia chegar um momento em que ela seria forada a tomar uma atitude. Tambm ela desejava paz e percebia que 
ao lado de Roberto isso seria impossvel.
     Ele no suportaria viver na mesma casa com ela sem se relacionar intimamente. Gabriela notava que ele pensava nisso desde que voltara para casa. Mas ela sentia 
o oposto. Repugnava-lhe qualquer contato ntimo com ele.
     O que aconteceria quando ele notasse sua rejeio? Ela no fazia aquilo de propsito para puni-lo. A averso brotava de dentro do seu ser. Parecia-lhe que aquele 
Roberto que havia amado no existia mais. Em seu lugar estava um desconhecido, capaz de qualquer coisa, em quem ela no podia confiar.
     Tentou esquecer o assunto e mergulhou no trabalho, O dia passou na rotina, mas, quando ela saiu no fim da tarde, resolveu passar no centro esprita. Foi procurar 
Cilene para conversar.
     Discreta, sempre procurou resolver seus problemas sozinha, mas agora sentia a cabea atordoada, confusa.
     Cilene revelara-se pessoa equilibrada e bondosa. Alm disso, recebia ajuda espiritual. Ela precisava de uma orientao.
     Cilene ainda no havia chegado, mas Gabriela foi informada de que logo ela estaria l. Resolveu esperar. Assim que chegou, Cilene abraou-a com carinho.
     - Hoje no  dia do meu tratamento, mas eu vim para conversar com voc.
     Cilene levou-a a uma pequena sala e sentou-se a seu lado, dizendo:
     - Fale, o que est acontecendo?
     Gabriela no conseguiu conter o pranto. As lgrimas desciam pelo seu rosto. Cilene segurou sua mo com carinho e esperou que ela se acalmasse.
     Quando ela conseguiu parar de chorar, abriu seu corao. Contou-lhe o que sentia e finalizou:
     -         doloroso querer a separao por causa das crianas. Pensei que com o tempo essa impresso desagradvel passasse. Mas no passou. Sinto que no vou 
tolerar a intimidade dele.  um sentimento que brota dentro de mim todas as vezes que ele se aproxima tentando me acariciar.
     -        Ele errou, mas salvou-lhe a vida.  ciumento, mas possui outras qualidades.  dedicado  famlia, ama-a muito. Deseja seu perdo. No gostaria de dar-lhe 
outra oportunidade?
     -        Pensei nisso, porm noto que ele ainda sente muito cime. Tenta controlar-se, mas continua querendo que eu abandone o emprego. No quero fazer isso. 
Tenho direito de trabalhar, gosto de ter meu prprio dinheiro. Depois, nunca lhe dei motivo para desconfiana.
     -        Ainda sente amor por ele?
     - Estou confusa. S sei que no desejo sua intimidade. No tome nenhuma deciso enquanto estiver confusa. Confie em Deus e ore pedindo para mostrar-lhe a verdade. 
Precisa reavaliar seus sentimentos, trabalhar intimamente seus medos, saber o que vai em seu corao. S depois disso conseguir decidir o que  melhor para voc 
agora.
     -        Tenho medo de que ele deseje forar a situao.
     -        Se ele fizer isso, seja sincera. Abra seu corao como fez comigo. Pea a ele que tenha pacincia. Diga-lhe que no deseja tomar decises apressadas 
para arrepender-se em seguida.
     Voc quer fazer o melhor para todos.
     -        Espero que ele entenda isso.
     -        Vai entender. Ele sente o peso de sua culpa. Sabe que precisa ser paciente se quiser reconquistar sua confiana. Lembre-se de que no precisa tomar 
nenhuma deciso agora. Deixe nas mos de Deus. Tenho certeza de que, quando for o momento certo, tudo ficar claro. Venha, vamos  sala de passes.
     Gabriela saiu do centro aliviada. Entrou em casa e Nicete foi a seu encontro, dizendo:
     -        Ainda bem que chegou. O Seu Roberto est nervoso com sua demora. Queria que eu ligasse para o escritrio. Custei a acalm-lo.
     Gabriela esforou-se para controlar a contrariedade. Foi para o quarto apanhar roupas para tomar um banho.
    -        Ainda bem que chegou - disse ele. - Voc demorou e fiquei preocupado.
    -        No devia.
    -        Voc no avisou que ia demorar. Tantas coisas ruins acontecem de repente nesta cidade...
    -        No aconteceu nada. Vou tomar um banho e ver o jantar.
    Roberto queria saber onde ela havia ido, mas no teve coragem de perguntar. Gabriela notou, mas ficou calada. Sabia que se contasse ele iria duvidar, e no estava 
disposta a suportar mais desconfiana.
    Ele esperou que ela voltasse, tentando fingir que estava alegre e despreocupado. Precisava ser paciente. Gabriela ainda estava muito revoltada. Se notasse que 
ele continuava sentido cime, no o perdoaria.
    Foi para a sala e brincou com os filhos, procurando ser amvel. Gabriela desceu e foi ver o jantar. Roberto foi  cozinha e, aproximando-se dela, disse:
    -         bom estar em casa, ter voc circulando por aqui, cuidando de nossa famlia com carinho.
     tudo que eu mais quero na vida.
    Tentou abra-la, mas ela fingiu que no viu e esquivou-se, movimentando-se com naturalidade. Os braos dele penderam ao longo do corpo e ele comentou:
    -        O que eu mais quero  que voc me perdoe e que tudo volte a ser como antes.
    -        Eu preciso de tempo - respondeu ela. - Por favor, respeite meus sentimentos.
    -         que eu a amo. Quando me aproximo de voc, desejo tom-la nos braos, beij-la.
    -        Por favor, Roberto. No se aproxime, que estou ocupada. As panelas esto quentes e no posso me distrair.
    -        Voc est me evitando. Mas no faz mal. Vou esperar. No precisa ficar nervosa. No vou fazer nada que a desagrade.
    Ela colocou toda a ateno nas panelas e disse com naturalidade:
    -        Pode ir sentar-se  mesa, que j vamos servir. Veja se as crianas lavaram as mos.
    Ele obedeceu. Aquele comportamento dela era temporrio. Com o tempo Gabriela haveria de esquecer. Ento tudo seria como antes.
    Mas ela no esqueceu. Os dias foram passando e Gabriela continuava arisca. Roberto melhorou e comeou a visitar alguns clientes para retomar suas atividades.
    Gabriela dedicou-se ao trabalho tanto na empresa quanto em casa, na tentativa de esquecer seu problema pessoal.
     Na empresa, Renato procurava dispensar a Gabriela um tratamento respeitoso e formal, exclusivamente profissional. Ela manifestara desejo de deixar a empresa 
e ele no desejava isso.
     No era justo que, depois de tudo que haviam enfrentado, ainda fossem punidos por algo que no cometeram.
     Encontravam-se algumas vezes no centro esprita onde iam para tratamento espiritual, trocavam cumprimentos e s. No ficavam juntos nem conversavam a respeito.
     Gabriela sentia-se bem com essa atitude dele. Para ela, respeito era fundamental.
     De vez em quando pedia notcias de Gioconda, que continuava internada na clnica psiquitrica. Aurlio, a pedido de Renato, cuidava do tratamento dela.
     A cada dia Gioconda mostrava-se mais deprimida. O fato de estar afastada da famlia, respondendo a processo na justia, a atitude do marido, que no a apoiava 
reconhecendo que ela fizera tudo por amor, deixava-a angustiada e triste. Ele no a amava. Certamente ainda estava apaixonado por Gabriela. Por que no a despedira? 
Por que insistia em t-la na empresa?
     Aurlio ouvia suas queixas e tentava mostrar-lhe que estava enganada, mas ela no acreditava.
     Ele argumentava:
     - Se ele tivesse um caso com ela, poderia v-la  vontade fora da empresa. No precisaria mant-la empregada, tendo que dissimular diante dos outros funcionrios. 
Depois do escndalo, se eles se amassem teriam aproveitado para irem viver juntos. Mas eles no queriam nada disso. Ela estava enganada. Eles nunca haviam tido um 
caso.
     Quanto mais Aurlio falava, mais Gioconda se irritava. Ele conversara com Renato a respeito:
     - Ela est obcecada pelo cime. No ouve nada. Fica difcil tentar qualquer terapia. Ela est imersa no crculo vicioso das prprias iluses, alimentando as 
imagens que criou em sua mente, e no deseja sair.  melhor dar um tempo para ver se ela reage.
     - Por favor, continue, doutor. Pelo menos enquanto o juiz no marca a primeira audincia.
     Tenho medo de que ela seja mandada para o presdio. L tudo ser mais difcil.
     - O pior  que ela fala para quem quiser ouvir que odeia Gabriela e quando sair ir vingar-se dela.
     - Pelo amor de Deus! Ela continua dizendo isso?
     - Continua. Eu e o Dr. Altino j lhe pedimos que nunca mais repita isso, mas parece que ela quer se destruir. A que ela fala mais.
     -        Gioconda sempre foi masoquista. Gosta de colocar-se na posio de vtima, acredita com isso despertar a simpatia dos outros.
     -        Ao contrrio. Ela est se prejudicando. Quer ver as crianas.
     -        Tenho evitado. Na ltima vez que eles a visitaram, tentou coloc-los contra mim dando sua verso dos fatos. Meus filhos ficaram muito perturbados. 
Ricardinho menos, mas Clia ficou abatida, sem apetite, perdeu o sono. Ela  sensvel. Est muito abalada. Eu lhes disse que Gioconda est doente, tendo alucinaes, 
e por isso deve ficar no hospital.
     -        Fez bem.
     -        No falta quem faa aluses maldosas no colgio. Tenho pensado at em deix-los estudar em casa enquanto esta situao continuar.
       Voc deve conversar muito com eles, dar-lhes seu apoio. Eles esto inseguros. A figura da me  importante na infncia.
     -        As vezes fico perdido. No sei o que dizer.
       Sempre a verdade. Eles precism saber que podem confiar em voc. No queira mascarar os fatos, tentando suavizar as coisas. As crianas tm sensibilidade 
aguada e vo perceber que esto sendo enganadas. O melhor  ser sincero, falar do que vai em seu corao. Isso far com que fiquem mais unidos e fortes para superar 
qualquer crise.
       Tem razo. Sempre os ensinei que no devem mentir, que podem confiar em mim. Agora tenho que fazer exatamente o que lhes ensinei.
     Apesar do esforo que fazia, Renato sentia-se triste, preocupado com o futuro. Gabriela notava, mas sabia que no poderia fazer nada.
     Nos ltimos tempos ela pensava seriamente em abandonar tudo, separar-se do marido, arranjar emprego em outra cidade. Precisava esquecer, tocar a vida para a 
frente. Criar os filhos com tranqilidade, longe da maledicncia dos outros.
     Porm o advogado aconselhara-a a esperar o julgamento de Gioconda. Assim teria tempo para refletir e resolver o que fazer. Ela havia concordado, mas  medida 
que o tempo passava ela percebia que teria de tomar uma deciso.
     Roberto estava cada dia mais insistente, queria retomar o relacionamento ntimo. Ela, porm, sentia que a proximidade do marido a incomodava.
     Certa noite, depois que as crianas foram dormir, ele a procurou. Estava decidido a resolver o problema.  tarde havia passado na casa da me e ela fora impiedosa.
     No sei como voc tolera viver ao lado de uma mulher que o despreza. Depois do que fez, ela deveria beijar o cho onde voc pisa. Mas no. Voc arriscou a vida 
para salv-la, quase morreu, mas ela no reconhece nada. Faz-se de vtima. Outro, ao invs de pedir perdo, a teria castigado.
     -        Gabriela no fez nada. Foi tudo intriga de mulher ciumenta. Onde h fumaa h fogo.
     Como ela iria cismar se no houvesse visto nada? Voc que  cego, ela manipula como quer.
    -        Chega de falar nisso. Mudemos de assunto.
    -        No posso aceitar ver voc se rastejando por uma mulher que no vale nada. Todo mundo comenta que voc est acobertando a traio dela porque o patro 
 rico.
    Roberto sentiu o rosto vermelho de indignao:
     -        Quem est dizendo uma coisa dessas?
    -        Alguns conhecidos meus. S eu sei o que tenho ouvido de comentrios. Por que no se separa dela?  o que deveria fazer.
     -        Voc no sabe o que est dizendo. Eu amo Gabriela. Sem ela no posso viver. Depois, h os filhos.
      melhor ficarem com voc. Eles podem sofrer a influncia da me. Se quiser, eu posso tomar conta deles.
     -        Ainda vou provar para voc que est errada. Gabriela  sincera e nunca me traiu.  melhor no ficar espalhando essas coisas por a.
     - Eu? No gosto de falar da vida alheia, muito menos da famlia. Roupa suja se lava em casa.
     -        , mas fica repetindo esses boatos. Fique sabendo que Gabriela  inocente. Um dia todos vo se arrepender de haver levantado essa calnia. Vou embora, 
estou cansado dessa conversa.
     Ele saiu de l irritado, pensando que ela poderia ter razo. Se Gabriela fosse inocente mesmo, por que se recusava a ter relaes com ele? Certamente estava 
apaixonada por outro.
     A figura de Renato aparecia em sua mente, bem-posto, rico, educado, culto. Era natural que ela se apaixonasse. Tinha um marido pobre, sem instruo, de aparncia 
rude.
     Nervoso, passou a mo pelos cabelos e pensou:
     -        Se eu tivesse morrido, teria sido melhor. Tudo estaria resolvido. No vou suportar o desprezo dela. Se Gabriela for viver ao lado de outro, eu os matarei.
     Chegou em casa mais cedo e esperou ansioso que a esposa voltasse. No estava disposto a esperar. Queria resolver tudo naquela noite.
     Depois que as crianas caram no sono, Roberto foi ao quarto de Maria do Carmo, onde Gabriela dormia, e chamou-a, dizendo:
     -        Venha, precisamos conversar.
    Ela sentiu um aperto no peito e tentou evitar:
    -        Estou cansada, com sono. Falaremos amanh.
    -        No. Tem que ser hoje. No vou esperar mais. Venha.
    Ele estava plido e ela decidiu atender. Acompanhou-o at o quarto do casal.
    -        Aconteceu alguma coisa? Voc est plido.
    -        Estou cansado de esperar que voc decida nossas vidas. Eu amo voc. Sempre amei. Por causa desse amor, quase enlouqueci, fiz coisas que no devia, errei 
mas paguei pelo meu erro.
    Quase morri. Quero recomear nossa vida juntos. Somos uma famlia. No podemos continuar separados dentro da mesma casa. Estou enlouquecendo com seu desprezo. 
No  justo o que est fazendo comigo. No sei mais o que fazer para que me perdoe. No acha que sofri o bastante?
       Todos sofremos. Mas no posso ir contra meus sentimentos. O que voc fez provocando aquele desfalque calou fundo em meu corao. Sou sua esposa, sempre o 
amei e procurei fazer o melhor para nossa famlia, confiava em voc e nunca o julguei capaz de me colocar naquela armadilha. Quando penso nisso, sinto que seu amor 
 uma farsa. Um sentimento de posse, de vaidade, competio, em que voc pretende provar a seu modo que  melhor do que eu. E, para isso, no titubeou em me colocar 
l embaixo, como se eu fosse uma ladra.
    -        Isso no  verdade! Eu a amo!
    -        No. Voc quer me dominar para se sentir forte. Isso no  amor.
    -         voc quem no me ama mais e est inventando histrias. Por isso me repele, no aceita meu arrependimento.
    Gabriela ficou pensativa por alguns instantes, depois respondeu:
    - Talvez tenha razo. Eu no o amo mais. Talvez nunca o tenha amado verdadeiramente. Eu amava o homem que eu pensei que voc fosse, mas esse no existia. Eu 
estava enganada.
    -        Se me amasse de verdade, teria compreendido, perdoado. O verdadeiro amor  compreensivo, bom.
    - O verdadeiro amor deseja a felicidade do ser amado, nunca sua destruio para satisfazer uma vaidade.
    Roberto tentou abra-la dizendo:
    -        No faa isso comigo, Gabriela. D-me uma chance de provar o quanto a amo. Sinto vontade de beij-la, acarici-la, como antigamente.
    Ela se deixou abraar e ele procurou seus lbios, beijando-a com ardor. Ele a acariciou procurando despertar-lhe o interesse, porm Gabriela no correspondeu. 
Permaneceu quieta, fria, deixando que ele extravasasse sua emoo.
    Roberto no conseguiu controlar a raiva. Sacudiu-a com fora, dizendo nervoso:
    - Sei por que me recusa. Voc prefere seu amante.  por causa dele que me rejeita. Diga a verdade.
    Ela no respondeu. As lgrimas desciam pelas suas faces e naquele momento ela chorou sua desiluso, a falncia do seu casamento e de seus sonhos de juventude. 
Teve certeza de que dali para a frente eles nunca poderiam ser felizes juntos. Disse apenas:
    -        Voc continua o mesmo. Seu arrependimento  falso como seu amor. Deixe-me em paz.
    Havia alguma coisa no tom de voz dela que o deixou em pnico. Percebeu que a havia perdido e tentou voltar atrs.
    -        Perdo, Gabriela. Nem sei o que digo. Voc me deixa louco. No v que estou desesperado?
    -        Estou cansada. Mas sinto que no temos mais nada em comum. Desejo me separar.
    - No faa isso comigo. No suportarei viver sem voc!
    -        Ter que se acostumar. Com o tempo perceber que foi melhor assim.
    -        E as crianas, o que dir a elas?
    -        A verdade.
    -        Essa sua atitude me deixa mais inseguro e enciumado. Levanta suspeitas.
    -        Isso  problema seu. Minha conscincia est em paz. Nunca tive um amante, nem penso em ter.
       - Quer separar-se para ficar sozinha? Quer que eu acredite nisso? Voc  livre para acreditar no que quiser. Sou dona de minha
vida e tenho o direito de escolher como viver.
    Vendo que ela se retirava, ele cerrou os punhos e disse colrico:
    -        Saiba que, se eu a vir ao lado de outro, acabo com os dois. Ela saiu sem responder. A atitude dele provava que nunca mudaria. Ela no queria continuar 
vivendo daquela maneira. Seus filhos precisavam de paz e ela desejava que tivessem boa educao. Viver em um lar perturbado por brigas e desconfianas constantes 
iria prejudic-los. Alm disso, ela queria ser feliz, poder voltar para casa sem se sentir vigiada, julgada, enganada.
    Foi para o quarto, mas no conseguiu dormir. Precisava decidir o que fazer de imediato. Mil idias tumultuavam sua cabea sem que ela encontrasse soluo. S 
tinha certeza de uma coisa: seu relacionamento com o marido havia terminado e no haveria volta.
    Roberto, depois que Gabriela deixou o quarto, ficou arrasado. Por que ele se precipitara? Por que no havia esperado que o tempo passasse at que ela esquecesse 
tudo?
    A culpa fora de sua me, sempre interessada em destruir Gabriela. Por que lhe dera ouvidos?
    Estava cansado de saber que ela era encrenqueira. Vrias vezes tentara prejudicar Gabriela.
    E agora, o que fazer? Ela teria coragem de separar-se dele? Claro, dinheiro no lhe faltaria. Ganhava bem, e, depois, talvez at seu chefe a protegesse e lhe 
custeasse as despesas.
    A esse pensamento estremeceu de raiva, Isso no podia ficar assim. No podia permitir que destrussem sua famlia. Precisava fazer alguma coisa. Mas o qu?
    Pensou em matar o rival, mas logo reconheceu que isso de nada adiantaria. No queria acabar seus dias na cadeia. Precisava encontrar algo que os afastasse, sem 
que soubessem de sua interferncia.
    Deitou-se mas no conseguiu dormir. Inmeros planos passavam em sua mente e ele no conseguia encontrar o que procurava.
    Sua cabea estava confusa, seu peito ansioso e angustiado, seu corpo dolorido e inquieto. Ele no percebeu que dois vultos escuros o enlaavam satisfeitos, trocando 
olhares maliciosos.
    - Vamos faz-lo dormir - disse um.
    - Isso mesmo. Esta noite ele ir conosco. Quando acordar, ter todas as idias de que precisa.
    Rindo, eles colocaram a mo em sua testa e Roberto sentiu que seus olhos se fechavam. Ainda tentou resistir, mas no conseguiu. Em poucos instantes seu corpo 
adormeceu e seu esprito saiu sem perceber o que estava acontecendo.
    Viu-se em um lugar escuro e mido em frente a uma porta semi-aberta. Entrou e dentro da sala sua me conversava com um homem alto, moreno. Vendo-o, Georgina 
tomou-o pela mo e levou-o at o homem.
    - Meu filho, este  meu amigo Joo, que vai ajud-lo a resolver todos os seus problemas. Eu pedi e ele vai atender.
    Joo olhou nos olhos de Roberto e perguntou:
    - Voc est disposto a tirar aquele homem do seu caminho?
    Roberto pensou em Renato e respondeu:
    - Estou. Diga o que devo fazer.
    - Sua me pediu e vou ajudar, mas voc tem de prometer que far tudo que eu disser.
    - Farei. Voc garante que Gabriela no vai saber que fui eu?
    -        Garanto. E fao mais. Ela vai voltar a ficar apaixonada por voc. No  isso que quer?
    -         o que mais quero. Se fizer isso, serei seu escravo, farei o que
    Georgina interveio:
    -        Eu pedi para ajudar meu filho, mas no para que ele voltasse com a mulher. No quero isso.
    -        Voc far o que eu quiser - respondeu Joo, olhando srio para ela. - Eu sei o que  melhor para ns. E  bom tratar de aceitar sua nora. Ela vai ficar 
obediente e voc no ter motivos para odi-la.
    -        Ela j me arrasou em outra vida. Quero tir-la do nosso caminho.
    Joo riu e respondeu:
    -        Sei o que estou fazendo. Voc ter de obedecer. Vai querer me enfrentar?
    Georgina estremeceu
    -        No, de jeito nenhum.  que eu...
    -        Ento no discuta. Tem de obedecer. - E voltando-se para Roberto perguntou: E voc, quer que eu o ajude a recuperar o amor de sua mulher e a livrar-se 
do seu rival?
    -         o que eu mais quero.
    -        Eu posso conseguir isso, mas teremos que fazer um pacto. Voc trabalhar para mim quando eu precisar.  justo, no acha?
    -        Pode contar comigo.
    Roberto acordou sentindo uma estranha sensao de queda. Abriu os olhos e pensou:
    -        Que sonho estranho!
    Lembrou-se de que no centro lhe haviam falado dos espritos que fazem pacto com os homens. Teria sido isso? Eles diziam que era perigoso. Mas e se fosse verdade 
mesmo? E se ele houvesse se encontrado com um esprito poderoso que o ajudasse a reconquistar Gabriela? Ainda bem que ele dissera que sim. Era o que ele mais desejava.
    Fosse o que fosse, sentia-se mais fortalecido, mais confiante. Com tal ajuda, tudo iria dar certo.

Captulo 21

     O despertador tocou e Gabriela acordou, mas no sentiu vontade de se levantar. Apesar de ter dormido a noite toda, ainda sentia sono. Seus olhos se fechavam 
e ela precisou fazer muito esforo para levantar. Sentia-se cansada e seu corpo doa.
     No sabia o que estava acontecendo. Fazia uma semana que havia tomado a deciso de separar-se de Roberto, porm no tomara nenhuma iniciativa. Sempre que pensava 
nisso, era tomada por um desnimo irresistvel e acabava deixando para depois.
     Durante o dia no trabalho, sentia-se atordoada, a cabea pesada, confusa, precisava ler vrias vezes os contratos para entender o que estava escrito. No se 
sentia nada bem.
     Renato percebeu e perguntou:
     - O que voc tem, est doente?
     - No. Estou cansada. Deve ser conseqncia de tudo que passamos. Agora  que est se refletindo.
     - Voc est abatida.  melhor procurar um mdico.
     - No  preciso. Logo vai passar.
     - Estive no centro ontem, e Hamlton perguntou por voc. Disse que no tem ido ao tratamento.
     - No sei se isso adianta. Tenho ido e no melhorei. Decidi parar por algum tempo.  noite, quando chego em casa, ainda tenho que cuidar da famlia.  muito 
trabalho e no tenho vontade de sair.
     Renato no respondeu. Ele se sentia muito bem fazendo aquele tratamento. Comprara alguns livros e estava estudando os fenmenos espirituais com interesse. J 
que ficava em casa cuidando dos filhos, aproveitava para ler, e a cada dia se sentia mais motivado.
     At as crianas haviam melhorado, estavam mais calmas. Ele tinha conversado com os filhos sem omitir nada do que acontecera e pedira que orassem pela me, para 
que ela entendesse a verdade. Clia, que era mais agarrada a Gioconda, agora o procurava constantemente, mostrando-se carinhosa e atenciosa, ouvindo com interesse 
o que ele dizia.
     Apenas Gioconda continuava irredutvel, ora com raiva e revolta, ora com depresso e tristeza. Mas em nenhum momento arrependida do que fizera. Aurlio continuava 
atendendo seu caso, porm com pouco resultado prtico.
    Renato conversava muito com Hamlton, que o aconselhara a ter pacincia e a continuar orando em favor dela. Ele fazia isso de corao. Entendera que Gioconda 
estava atravessando um processo difcil, do qual s sairia quando conseguisse compreender a verdade.
    Gabriela esforava-se para fazer seu trabalho. As horas demoravam a passar e ela olhava constantemente para o relgio, ansiosa por ir para casa. Uma vez l, 
deitava-se no sof sem coragem para fazer nada.
    Roberto preocupava-se com o estado dela, aconselhando-a a pedir uma licena e descansar.
    Naquela tarde, ao chegar em casa vendo-a estendida no sof, aproximou-se dizendo preocupado:
    - Voc no est bem. Acho que deve procurar um mdico.
    - No  nada, s cansao.
    Ele alisou o rosto dela com carinho, dizendo triste:
    - No gosto de v-la assim. Voc sempre foi disposta, ativa... Alguma coisa est errada.
    - No h nada.
    Ele insistiu e no dia seguinte no a deixou ir trabalhar, para levla ao mdico. Depois do exame, o mdico concluiu que ela estava estressada e anmica, aconselhando-a 
a tirar frias.
    - No posso. J perdi muitos dias este ano - disse ela.
    Porm a cada dia Gabriela sentia-se mais fraca e indisposta. Certa noite Roberto no a deixou ir dormir no quarto de Maria do Carmo.
    - Voc vai dormir em nossa cama. L ter maior conforto e eu estarei a seu lado todo o tempo.
    Ela estava cansada demais para discutir. Deitou-se na cama do casal. Quando Roberto se deitou ao lado dela e a abraou, ela no o repeliu. Sentia-se to fraca 
e sozinha que achou confortante sua proteo.
    Roberto, sentindo-a deitada ao seu lado, sentiu o ardor da paixo queimando seu corpo, porm controlou-se. Agora que as coisas estavam melhorando, precisava 
ir devagar para no estragar tudo.
    Porm acordou no meio da noite, ardendo de desejo, e abraou-a com paixo. Gabriela acordou sentindo os beijos do marido em seus lbios e o abrao vido de seu 
corpo. Uma onda irresistvel de paixo acometeu-a.
    Abraou-o com fora e correspondeu aos seus carinhos como nunca fizera, revelando um ardor com o qual ele nunca havia sonhado. Entregaram-se s emoes sem pensar 
em mais nada que no fosse aquele fogo ardente que lhes queimava o corpo, e procuraram satisfazer a nsia de prazer que os motivava.
     Ela parecia insacivel. Quando finalmente conseguiram se acalmar, Roberto, inebriado de felicidade, disse comovido:
     - Gabriela, voc ainda me ama. No importa o que diga, voc me quer. Nunca me amou como nesta noite. Estou extasiado. No existe mulher como voc!
     Gabriela, cabea confusa, disse apenas:
     - No sei o que aconteceu. Tudo est diferente. Nunca senti nada assim antes. Sinto-me outra pessoa.
     - Agora que voc descobriu que me ama, nunca mais nos separaremos. Voc  minha e ser sempre minha. Vou fazer voc muito feliz.
     Ouvindo-o, Gabriela sentiu o peito oprimido, uma vontade enorme de fugir, sair correndo para bem longe, e comeou a chorar.
     - Voc est emocionada - disse ele, acariciando-lhe o rosto.
Eu tambm estou. Hoje comea para ns uma vida nova. Seremos felizes para sempre.
     No dia seguinte, Gabriela telefonou para o escritrio dizendo que no estava passando bem e iria ficar em casa. Nicete olhava-a preocupada. No estava gostando 
do que via. Gabriela plida, sem foras, parecia um rob deixando-se conduzir sem nenhuma reao. Nunca a vira assim.
     No fim da tarde, Roberto chegou eufrico. Um cliente que estava com um projeto de construir um grande edifcio no Rio de Janeiro convidara-o para mestre de 
obras. Ofereceu-lhe moradia e carro, bom salrio e, alm disso, pagaria excelente comisso sobre o material utilizado.
     Deixar So Paulo com a famlia era o que ele mais desejava. Longe de Renato e at de sua me, a ss com Gabriela, tudo estaria definitivamente resolvido. Aceitou 
logo e preparou tudo para a mudana.
     Gabriela no reagiu. Aceitou tudo com indiferena. Roberto foi empresa e pediu que ela fosse dispensada.
     Inconformado, Renato tentou falar com Gabriela. Conversou pelo telefone e ela lhe disse que no se sentia bem para trabalhar e que iria ficar algum tempo em 
casa.
     Ele no achou natural. Na audincia de julgamento de Gioconda, Roberto compareceu e apresentou um atestado mdico dizendo que Gabriela estava doente, pedindo 
que a poupassem.
     Foi atendido. Ele se apresentou, deu sua verso dos fatos, procurando defender Gioconda e, por fim, ela foi julgada portadora de doena mental, devendo continuar 
internada no manicmio judicirio at que uma junta mdica a examinasse e a declarasse em condies de viver em sociedade.
     Renato procurou Hamlton e contou o que se passava.
    -        Infelizmente - esclareceu ele ela se deixou envolver. Trata-se de obsesso.
    -        Estou preocupado. Gostaria de fazer alguma coisa para ajud-la.  uma mulher extraordinria.
-        Voc a admira.
-        Muito. Meu maior desejo  que ela seja feliz.
     -        Voc a ama. Um amor incondicional.
     -        Por favor, no diga isso. Gabriela no pode saber. No quero atrapalhar sua vida.
     - Fique tranqilo. No se constrnja. O que voc sente  amor verdadeiro. E luz na alma.
     Renato abraou-o comovido.
     -        Voc  meu amigo. L meu corao como um livro aberto. Obrigado por compreender.
     - No fique triste. Vamos continuar trabalhando em favor deles. Acontea o que acontecer, no podemos perder a f. Deus est no comando de tudo e vai nos ajudar.
     Renato saiu de l confortado. H muito havia percebido que amava Gabriela, porm no queria pensar nisso. As coisas estavam muito complicadas, havia as crianas 
e ele no queria piorar tudo ainda mais. Depois, Gabriela nunca demonstrara o mnimo interesse por ele e no havia por que pensar que um dia pudesse ser correspondido.
     Decidiu ocultar seus sentimentos e procurar esquecer. Talvez a desiluso com Gioconda, a solido, o desconforto de um relacionamento desagradvel estivessem 
estimulando-o. Gabriela era o tipo de mulher que sempre admirara. Inteligente, bonita, digna. sua presena o encantava, seu sorriso o deixava de bem com a vida.
       A separao deixava-o triste. Conformara-se em guardar o que sentia, mas a presena dela a seu lado no trabalho, sua dedicao e postura com a famlia estimulavam-no 
a dar o melhor de si na orientao dos prprios filhos. Queria que ela o admirasse.
       - Agora, ela partiria e ele talvez nunca mais a visse. Sua vicia se tornaria vazia e triste. Nem sequer poderia visit-la. Roberto no aceitaria, e ele no 
desejava criar problemas entre os dois.
       Queria que ela fosse feliz, mas ao mesmo tempo sentia que com Roberto seria difcil.
       Era uma situao delicada e ele reconhecia que Hamlton estava certo. S lhe restava rezar, pedir a Deus que o ajudasse a esquecer e que ela fosse feliz.
       Uma semana depois, Roberto mudou-se para o Rio de Janeiro com a famlia. A casa era confortvel, e ele se esforou para torn-la mais bonita. As crianas 
estavam felizes, Nicete desdobrava-se para agradar Gabriela, que no reclamava de nada, mas tambm no se alegrava.
    Durante o dia continuava aptica, sem vontade de fazer nada, mas  noite, quando Roberto se deitava a seu lado, ela se transformava. Abraava-o com ardor, e 
a paixo os dominava. Era uma sede que nunca acabava.
    A princpio ele se inebriara com a atitude dela, mas com o tempo percebeu o quanto ela havia mudado. As vezes parecia outra pessoa. Perdera a espontaneidade, 
falava pouco. Estava plida, apagada, sem vida. Comeou a preocupar-se. No queria que ela adoecesse.
    Roberto agora no tinha dvida. Tivera mesmo aquele encontro com aquele esprito que prometeu ajud-lo. Ele havia modificado tudo. Era-lhe grato. Desejava procur-lo 
para conversar.
    Mas como fazer isso?
    Pensou, pensou e decidiu procurar um terreiro. Um pedreiro que trabalhava com ele na construo do prdio havia-lhe contado que freqentava um lugar onde um 
mdium de grande poder atendia a todos, realizando os desejos.
    Uma noite foi at l. O movimento era grande e ele pediu uma consulta. Deram-lhe um carto com um nmero, e ele esperou. Meia hora depois, um rapaz chamou-o, 
dizendo:
     sua vez. Pode entrar.
    Ele entrou em uma pequena sala cheirando a ervas. Em p, a um canto, o pai de santo, olhos fechados, charuto entre os dedos, esperava.
    -        Entre, meu filho.
    Roberto aproximou-se e ele continuou:
    -        Veio fazer um pedido. O que ?
    Roberto contou o que lhe acontecera e finalizou:
    -        Quero um novo encontro com aquele esprito.
    -        Para qu? As coisas no esto como voc queria?
    -        Esto, mas Gabriela no est bem. Anda abatida, mudou muito, no quero que fique doente.
    -        Seu protetor est aqui e vai conversar com voc.
    Ele pigarreou, tossiu, depois disse com voz um pouco diferente:
    -        Pensei que voc tivesse vindo me agradecer.
    -        Eu agradeo muito. Mas estou preocupado com Gabriela.
    -        No a tem todas as noites apaixonada na cama?
    -        Sim, mas no parece natural. Ela est area. No se importa com nada. Anda estranha.
    O        outro deu uma gargalhada, depois disse:
    - O que voc esperava? Se ela ficasse como estava, no ia querer mais ficar ao seu lado. Foi preciso muito trabalho para domin-la. E voc, ao invs de ser grato, 
est reclamando. No gosto nada disso. Ns fizemos um pacto. Eu cumpri a minha parte, agora est na hora de voc cumprir a sua.
     -        Estou pronto a fazer o que quiser, mas quero que ela volte a ser alegre e saudvel como antes.
     -        E que lhe seja fiel, que o ame e s veja voc neste mundo. Se ela voltar a ser como era, vai embora no dia seguinte. E isso que quer?
     -        No, senhor.
     -        Voc est me saindo muito exigente. Na hora de pedir fica humilde; depois que tem, comea a ficar cheio de coisa. Eu sou muito poderoso. Sabia que 
queria falar comigo e trouxe-o aqui porque  a casa onde eu trabalho. Eu sou o chefe aqui e todos precisam obedecer. De hoje em diante voc vai comear a prestar 
servio aqui. Pai Jos vai lhe dizer o que precisa fazer.
     -        No sei o que eu poderia fazer aqui para ajudar. Estou disposto a pagar minha dvida com voc. Mas eu gostaria de pedir sua ajuda para que Gabriela 
pelo menos conversasse comigo como antes.  possvel?
     -        Voc no est sendo um filho obediente. No costumo mimar ningum. Vai ter que trabalhar duro.  s o que posso dizer. Depois vamos ver. Eu sei o que 
 melhor para voc. Se me obedecer, tudo correr bem. Mas cuidado: se romper o pacto, vai se arrepender.
     -        No pretendo fazer isso. Sou grato mesmo. Gabriela est comigo e no trabalha fora.  tudo que eu queria.
     -        Sem falar que  noite ela  toda sua... - disse ele malicioso.
     -        . De fato. Ela nunca foi to amorosa.
     -        Sei o que estou dizendo. Se me obedecer, tudo correr bem. No se esquea de que eu sei de tudo que se passa com voc. Conheo at seus pensamentos. 
Por isso, cuidado. Nem pense em me deixar. Agora vou embora.
O pai de santo estremeceu, mudou a postura, depois disse:
- Voc queria, ele veio. Sabe que isso  difcil? Esse exu no se comunica com facilidade. Ns trabalhamos para ele. E voc agora vai trabalhar para ns.
    -        No sei o que fazer. Nunca trabalhei com essas coisas.
       - Mas na hora do aperto soube nos procurar. No venha agora com essa. Voc j sabe muita coisa de outras vidas. Hoje fica at o fim dos trabalhos e volta 
depois de amanh para comear. Eu lhe direi o que fazer.
       Ele passou a i-no pela testa de Roberto, que ficou tonto e quase caiu. O pai de santo riu e chamou seu ajudante, que estava parado na porta, dizendo:
     -        Este est pronto. Leve-o para o meio da roda e prepare-o. Vai cair logo.
     Roberto foi levado para o salo onde o batuque ia forte e vrios mdiuns incorporados trabalhavam atendendo s pessoas. Colocaram-no no meio de uma roda de 
mdiuns e ele sentiu a cabea rodar, caiu e perdeu os sentidos.
     Quando acordou, as pessoas estavam saindo e ele se levantou assustado. Aproximou-se de um senhor e perguntou:
     -        O que aconteceu comigo? Eu desmaiei.
     -        No  nada disso. Voc ficou incorporado pelo seu guia.
     -        No  possvel, isso nunca me aconteceu.
     O outro riu e respondeu:
     -        Sempre h uma primeira vez.
     Roberto procurou a pessoa que o tinha atendido e perguntou:
     -        O que aconteceu comigo? Por que perdi os sentidos?
     -        O seu guia tomou posse do seu corpo. Voc precisa trabalhar com ele.
     -        Mas eu no sei. Nunca fiz nada disso.
     -        O guia disse que voc vai trabalhar aqui. Ele o avisou.
     -        , ele disse. Mas no pensei que fosse assim.
     -        Mas . De agora em diante voc est comprometido com ele. Se quer que sua vida v para a frente, tem de fazer tudo como ele quer. Seno...
     -        Seno o qu?
     -        Ele d castigo. Eu aconselho a no desobedecer.
     Roberto saiu de l pensando em tudo. No gostava daquele ambiente cheirando a ervas, cheio de fumaa, nem dos tambores batendo.
     No podia negar que fora atendido em seus pedidos, mas, apesar disso, as coisas no estavam correndo como gostaria. No se sentia feliz vendo Gabriela indiferente 
a tudo, sem cuidar da prpria aparncia, das crianas, da casa, como antes. Ela sempre tivera bom gosto, capricho.
     Agora, era Nicete quem procurava cuidar de tudo. A casa andava triste, nada era como antes.
     E se ele no obedecesse ao esprito, o que poderia acontecer? Gabriela iria embora?
     Amea-lo no seria uma forma de domin-lo? Sua esposa o amava. Tinha certeza. Se ela no o amasse, no seria to ardente, mesmo que estivesse sob a influncia 
daquele esprito.
     No seria melhor abandonar tudo aquilo? Ele no queria ir trabalhar naquele terreiro. No gostava. Depois, sentira-se mal, tonto, parecia que no pisava no 
cho, o estmago enjoado, o corpo pesado.
     No, ele no queria fazer aquilo. Mas e se fosse verdade o que o esprito lhe dissera? E se fosse castigado?
     Um arrepio de medo percorreu-lhe o corpo. Pareceu-lhe ouvir a voz dele dizendo:
     - Cuidado. Sei tudo que se passa com voc, at seus pensamentos. No tente me desobedecer.
     Roberto sentiu a cabea doendo, e os calafrios incomodavam-no. Passou a mo pela testa.
     Estaria com febre?
     No. Sua testa estava fresca. Eram mais de onze da noite. O que diria a Gabriela ao chegar to tarde? Entrou em casa imaginando uma desculpa, mas no foi preciso. 
Gabriela j havia se deitado e estava dormindo.
     Apenas Nicete estava acordada e perguntou-lhe se precisava de alguma coisa. Ele disse que no, e ela foi dormir.
     Roberto foi  cozinha, tomou um copo de gua e foi se deitar. Sentia o peito oprimido, o corpo pesado, a cabea atordoada. Precisava descansar. No dia seguinte 
pensaria no que fazer.
     Pensou, pensou, mas ficou dividido entre o medo e a vontade de no ir. O pedreiro que o levara ao terreiro foi incisivo:
     -        Voc precisa obedecer.  para seu bem. Eu estava mal, minha mulher me traa, estava doente. Fui l e tudo mudou. Consegui mand-la embora, melhorei 
de sade e at estou ganhando melhor.
     -        Voc tambm precisou trabalhar l?
     - No. Eu at gostaria, isso  uma honra. Mas no sirvo. No tenho o dom. J voc deve ter capacidade. Logo no primeiro dia o puseram na roda para trabalhar. 
Nunca vi isso antes.
         Sabe o que , Onofre, eu no dou para isso. No gosto de ficar l, eu passo mal. Cheguei a desmaiar.
     Onofre meneou a cabea, dizendo srio:
     - Isso  assim mesmo. Quando o guia chega, toma o corpo, voc precisa deixar. Vai ver que resistiu e ele precisou usar a fora.
     - Sa de l com dor de cabea, o corpo pesado.
     - Claro. Ao invs de aceitar e agradecer, ficou criando caso. Eles so poderosos, sabem o que esto fazendo. Voc precisa respeitar a vontade deles, ter f.
     - Tambm no  assim. No gosto que mandem em mim.
     - Ento no devia de ter pedido nada a eles.
     - Comeo a pensar que voc tem razo. No devia mesmo.
    -        Mas, j que pediu, tem que honrar o compromisso. No d mais para voltar atrs.
    Roberto ficou se debatendo na dvida at o momento em que deveria ir l para comear a trabalhar. Quando chegou a hora, decidiu ir. No se sentiu com coragem 
de desistir. Acontecesse o que acontecesse, estava disposto a enfrentar.
    Aurlio procurou Renato e informou que Gioconda havia comeado a melhorar. Informada de que Gabriela deixara a empresa e se mudara com a famlia para o Rio de 
Janeiro, ficou satisfeita.
    Pela primeira vez desde que fora detida, ela ficou calma. Perguntou pelos filhos, demonstrando maior interesse, deixou de ameaar Gabriela para quem quisesse 
ouvir.
    Ao contrrio, garantia que agora ela poderia viver em paz com a famlia. Tornou-se obediente, sensata, mostrando intenso desejo de voltar para casa.
    -        Quero ir embora, cuidar de minha famlia. Estou curada. No preciso mais ficar no hospital.
    -        Tenha um pouco mais de pacincia - disse Aurlio.
    - O juiz no me condenou. No estou presa. Ele sabe que sou inocente. Fiquei fora de mim por causa daquela mulher. Agora que ela est longe, estou em paz. Por 
favor, Dr. Aurlio, ateste que estou curada para que eu possa ir para casa.
       - A senhora est melhorando, mas ainda precisa de tratamento. No faa isso comigo. O senhor sabe que eu no sou louca.
    -        No depende de mim. Para que possa sair daqui, ser preciso que uma junta mdica lhe d alta e ateste sua sanidade.
    -        Ento diga ao meu advogado e arranje isso. Preciso ir o quanto antes.
    -        A senhora ainda no est preparada para um exame desses. Eu a estou ajudando e, quando achar que  hora, convoco os especialistas.
    Gioconda irritou-se:
    -        O senhor est contra mim. O que eu lhe fiz?
    - No diga isso. Saiba que, se pedirmos o parecer deles e o resultado for negativo, s poderemos pedir outro exame depois de um ano.  isso que quer?
    - Nesse caso vou ficar doente de tristeza. Eles tero de me mandar para casa.
    -        Se fizer isso, ser pior. Eles no vo se deixar levar. Tenha pacincia e trate de melhorar, ficar mais positiva.
    -        Ela gosta de se fazer de vtima - disse ele a Renato.
    -        Sempre foi assim. Por qualquer coisa ela ia para a cama fazendo-se de doente e tentava controlar todo mundo.
    -        Apesar disso, noto que est melhor. Pode ser que tenha alta mais depressa do que espervamos.
    -        Prefiro que fique l o maior tempo possvel. Fora dali, ela vai me dar mais trabalho. Meu advogado vai entrar na justia com pedido de divorcio.
    -        Essa notcia poder piorar seu estado.
    -        Por isso ainda no fiz nada. No posso esperar mais. Quero resolver tudo antes que ela deixe o hospital. Tenho estado angustiado por causa disso. Ela 
vai querer ficar com os filhos, e isso me preocupa muito.
       De fato, D. Gioconda no est em condies de conviver bem com os filhos.
       Vai envenen-los, torcendo os fatos como sempre fez. Eles mudaram muito depois que ela saiu de casa. Clia est mais segura de si, mais equilibrada. Tenho 
conversado muito com ela. A volta de Gioconda, com seus joguinhos emocionais, suas chantagens, vai prejudic-los.
    -         uma situao delicada. Voc vai precisar continuar conversando com eles o mais possvel.
    -        Quando ela voltar para casa, no estarei mais l. Vou me mudar.
    -        As crianas ficaro com ela?
    -        Esse  meu dilema. Como me ela tem direito a ficar com eles. Mas tenho medo dessa convivncia.
    -        Poder mover uma ao judicial alegando o estado emocional dela. Mas isso vai contribuir para que ela fique pior.
    -        No  o que eu quero. Gostaria muito que ela realmente ficasse mais equilibrada.
     -        Talvez possa contratar uma professora, uma governanta, que assuma o controle de tudo.
    -        Com o gnio que Gioconda tem, isso no ser fcil. Ela no vai aceitar.
     -        Podemos arranjar as coisas para que ela no se sinta menosprezada. Essa pessoa ter que ser muito bem escolhida, ter jeito para lidar com ela. Talvez 
eu possa arrumar isso. Conheo uma enfermeira que desempenharia bem essa tarefa.
     -        Seria muito bom. Tenho estado angustiado pensando nisso. No venho dormindo direito, acordo no meio da noite, perco o sono. Tenho pesadelos.
       No se pressione para resolver o futuro. Tudo tem sua hora, e muitas vezes a soluo no depende de ns. A vida  sbia e tem seus prprios caminhos. Deixe 
o tempo correr. Aos poucos tudo se encaminhar para o lugar certo.
    -        . Meu amigo Hamlton diz sempre isso.
    Naquela noite Renato procurou Hamlton. Sentia o peito oprimido. Gabriela no lhe saa do pensamento.
    -        Estou muito preocupado - disse assim que se viram a ss. -Tenho tido alguns pesadelos em que Gabriela me pede socorro. Est plida e diz que vai morrer. 
Desejo socorr-la, mas quando me aproximo ela se dissolve. Tento ach-la, mas no consigo. Fico correndo de um lado a outro desesperado, acordo passando mal, corao 
batendo descompassado, corpo molhado de suor.
    -        Cilene e eu tambm temos pensado muito nela. As notcias que conseguimos com nossos amigos espirituais nos deixam apreensivos.
    -        Precisamos fazer alguma coisa. Pea a eles que nos ajudem.
    -        Esto ajudando. Precisamos ter pacincia. Eles sabem o que esto fazendo.
    - Nem sequer tenho o endereo deles. A me diz que no sabe onde esto, no sei se diz a verdade. O fato  que Roberto sumiu com a famlia.
    -        Estivemos com D. Georgina. Ela diz a verdade. Est revoltada com a atitude do filho, que se mudou prometendo mandar o endereo e, at agora, nada.
    - Sinto vontade de mandar algum investigar e depois ir at l, saber como vo as coisas.
    -        No se precipite. Continue freqentando os trabalhos espirituais sem desanimar. Gabriela est sendo ajudada, tenho certeza. Vamos confiar e esperar.
    Na tarde seguinte, Hamlton ligou para Renato e avisou:
    -        Nossos mentores marcaram uma reunio especial para Gabriela e pediram que voc comparecesse.
    -        Quando?
    -        Hoje s oito da noite.
    -        Estarei l.
    Renato desligou o telefone pensativo. Sentia-se ansioso, angustiado. E se estivesse enganado?
    E se Gabriela houvesse se reconciliado com o marido, se sentisse feliz e ele estivesse fantasiando coisas? A saudade e o medo de nunca mais a ver no estariam 
criando iluses sobre eles?
    No seria melhor esquecer aquele amor impossvel?
    Mas apesar disso no esquecia. Os pesadelos, o rosto dela pedindo ajuda, tudo isso o angustiava.
    O telefone tocou. Era Aurlio.
    - A junta mdica ficou de fazer uma avaliao de Gioconda daqui a uma semana. Se eles derem alta, ela poder sair logo.
    Renato desligou o telefone apreensivo. Ele conversou com a enfermeira que o mdico indicara e teve boa impresso. Tratava-se de uma mulher de meia-idade, inteligente, 
instruda, apta para tomar conta de Gioconda e das crianas. Combinaram que ela iria para sua casa na semana seguinte, para ir se familiarizando com as crianas 
e com sua rotina. Aurlio queria que quando Gioconda chegasse j a encontrasse cuidando de tudo.
    Renato planejava transferir-se para um apartamento de sua propriedade cujo inquilino se mudara para o exterior. Mandou pint-lo e mobili-lo do seu gosto. Ficaria 
pronto dali a poucos dias.
    No conseguiu trabalhar o resto da tarde. Sua vida estava mudando e ele se sentia apreensivo por causa das crianas.
    No havia ainda conversado com os filhos sobre sua separao de Gioconda. Notava que Ricardinho e mesmo Clia no desejavam que ele se mudasse. Mas teriam de 
aceitar. Falaria com eles, abriria seu corao. teriam de entender.
    Faltavam alguns minutos para as oito quando Renato encontrou Hamlton no centro esprita.
    Foi conduzido a uma sala em penumbra, onde Cilene j estava em companhia de algumas pessoas sentadas ao redor de uma mesa grande. Oravam em silncio.
    Alguns livros sobre a mesa, uma jarra com gua e copos, um vaso com flores. Havia uma cadeira vazia, e Hamilton pediu a Renato que se sentasse nela.
    Cilene proferiu ligeira prece pedindo ajuda espiritual para as pessoas cujos nomes estavam sobre a mesa.
    Renato sentiu aumentar sua angstia. Sua respirao estava diferente, queria sair dali, mas conteve-se. Cilene pediu que continuassem orando em silncio.
    De repente, uma senhora disse com voz calma:
    -  um caso de obsesso. Quem conhece mentalize as pessoas envolvidas. Vejo um casal sendo vampirizado. Ela, hipnotizada, est fora da realidade. Ele fez pacto 
com uma entidade perigosa para conseguir seus fins. Vamos precisar de tempo para tentar ajudar.
    - Veja se consegue ir mais fundo - pediu Hamlton.
    A mdium ficou em silncio por alguns segundos, depois disse:
    -        Eu vejo a moa se debatendo em um corredor escuro, procurando sada sem conseguir.
    Est pedindo socorro.
    Renato olhou para Hamlton. Era assim que ele via Gabriela em seus sonhos.
    Hamlton aproximou-se dele, dizendo baixinho:
    -        Calma, Renato. No se deixe impressionar. Continue mentalizando Gabriela. Veja-a saudvel e alegre, cheia de luz.
    Ele obedeceu. De repente outro mdium estremeceu e comeou a rir. Depois disse:
    -        Vocs podem fazer o que quiserem, mas no vo conseguir nada. Este  um trabalho de quem sabe. Vocs so fracos, no podem nada. Desistam e no se metam 
onde no so chamados.
    -        Vocs esto interferindo no destino das pessoas. S Deus tem esse poder.
    -        Ns somos poderosos.  bom que saibam com quem esto se metendo.
    -         melhor refletir sobre o que esto fazendo. Vocs querem ser mais do que Deus, e isso no vai dar bom resultado. A vida responde s nossas atitudes. 
Parem enquanto  tempo, para que no venham a sofrer as conseqncias.
    Ele riu sonoramente, depois respondeu ironico:
    -        Ai que medo! Vocs esto enganados. Ficam a rezando, iludindo-se, querendo ajudar os outros sem ter como. Cuidado. Ns podemos dar o troco.
    - No temos medo de voc. Estamos do lado do bem maior. A favor da vida. Por que no faz o mesmo? Voc serve a um chefe que o escraviza. Sou u que o estou advertindo. 
Voc no veio aqui por vontade prpria. Foi trazido por uma fora maior para ouvir o que temos a dizer.  um primeiro contato. Queremos que libertem esse casal. 
Desistam de mant-los sob seu controle.
    -        Essa  boa! Voc querendo nos dar ordens... Acha que vamos obedecer?
    -        Seria bom que obedecessem. Olhe em volta e ver quem est conosco, comandando nossos trabalhos.
    O        mdium remexeu-se na cadeira, depois gritou nervoso:
    - O que  isto? Uma cilada? No havia aqui ningum a no ser vocs, e de repente aparece toda essa gente? Tirem essa luz da minha frente. Pretendem me cegar? 
Quero ir embora, no gosto dessa luz. Deixem-me sair.
    - Est vendo com quem vocs esto envolvidos? Ns temos interesse em liberar esse casal.
    Vamos deix-lo ir para que procure seu chefe e d nosso recado.
    -        Ele no vai querer ouvir. Ao contrrio, vai me castigar, dizer que fraquej ei. Ele  duro, sabe? Vou sair, mas no darei recado algum.
    -         melhor obedecer. Est vendo esse soldado do seu lado?
    -        O que  isso? Ele vai me prender?
    -        No. Ele vai com voc.
    -        Estou prisioneiro! No posso aparecer l com ele. Vai dizer que delatei nosso esconderijo.
    -        Ele conhece seu esconderijo. ELe vai, mas ficar oculto. Ningum do seu grupo o ver.
    -        Tenho medo. No quero ir.
    -         melhor obedecer. Ele vai proteg-lo. No tenha medo. Se fizer tudo como dissemos, ter nossa ajuda. No gostaria de melhorar sua vida? Viver em liberdade, 
cuidar de seus problemas, do seu bem-estar, em outro lugar?
    -        At que eu gostaria. Mas tenho uma dvida com ele. Eu no posso ir.
    - Com nossa ajuda, poder. Mas  preciso que deixe de querer se meter na vida dos outros.
    Cada um tem seu caminho. Se voc cuidar do seu progresso, sua vida mudar para melhor.
    -        Ser? No est me enganando?
    -        Experimente e ver. Agora v. Continuaremos orando por voc.
    Ele se foi. Hamlton fez uma prece de agradecimento e encerrou a sesso. As luzes acenderam-se. Tomaram um pouco da gua. Renato aproximou-se de Hamlton.
    -        E ento? - perguntou.
    -        Voc ouviu. Eles esto sendo manipulados por entidades ignorantes. Hoje demos o primeiro passo para libert-los.
    -        Eles devem ser poderosos. Gabriela sempre foi pessoa equilibrada, tem bom senso, mas mesmo assim eles a dominaram.
    -        Isso no  verdade. O mal se utiliza dos pontos fracos das pessoas para domin-las. As pessoas impressionveis, as que se julgam fracas, que se deixam 
dominar pelo medo, as que se culpam pelos erros, so manipulveis por eles. Conhecem seus pensamentos ntimos, fazem sugestes mentais. Assim minam a resistncia 
dessas pessoas e as dominam. No se deixar envolver pelo negativismo, procurar ser otimista, o primeiro passo para libertar-se deles.
    -        Seria bom que todos soubessem disso. Eu penso que deve ter acontecido isso com Gioconda.
    -        Eles exploraram o cime dela e continuaro a fazer isso enquanto ela no mudar. Os espritos ignorantes usam as pessoas para seus fins, mas no podemos 
esquecer que no existe vtima. Cada um  obrigado a provar o resultado de seu prprio veneno. No  assim que a vida cura?
    -        Mas as pessoas no conhecem isso. Gioconda jamais acreditaria. Vive dominada pelo cime e pela revolta. O marido de Gabriela tambm. Mas e Gabriela? 
No  uma vtima? Sempre foi boa esposa, honesta, interessada no bem da famlia. Como se deixou envolver por esses espritos?
    -        Para responder a essas perguntas teramos que conhecer todos os pensamentos dela, suas vidas passadas, seus compromissos familiares. O que sei  que 
a vida faz tudo certo. Se ela no precisasse aprender alguma coisa com essa experincia, teria sido poupada. Por que ser que
a pessoa atrai um companheiro ciumento? Voc mesmo, por que ter atrado para o seu lado uma mulher como Gioconda?
    -        No sei. Coincidncia. As pessoas mudam depois do casamento.
    -        As pessoas revelam-se como so,  o que quer dizer. Mas antes, mesmo no perodo do namoro, elas do muitas dicas. A maioria das pessoas, porm, no 
quer enxergar, prefere iludir-se acreditando que poder fazer tudo dar certo. Claro que h o lado humano, terreno, as convenincias. Mas isso  s aparncia.  preciso 
ir mais fundo e descobrir quais atitudes suas atraram uma pessoa como Gioconda.
    - No sei. Ela era bonita, alegre, valorizava-me. Pensei que poderamos ser felizes.
    -         o que parece. Mas por trs h seu temperamento. Pessoas exuberantes, que brilham, alegres, vistosas, que so notadas onde chegam, costumam atrair 
companheiros ciumentos.
    -        Por que ser?
    -        O ciumento  algum que se julga menos do que os outros e tenta aparentar o que no .
    Para isso se torna perfeccionista, no se permite errar, gosta de ser notado.  comum apaixonar-se por quem tem brilho prprio, representa tudo que ele gostaria 
de ser. No se satisfaz com um relacionamento normal, quer mais, quer para si as qualidades que v no outro. Como isso  impossvel, sente-se inseguro, tem medo 
de perder, e isso se torna verdadeira obsesso.
    -        O que diz tem lgica. Gabriela  exatamente assim, como voc diz, e Roberto se sente menos. Tudo piorou depois que ele perdeu o dinheiro e ela assumiu 
a despesa da famlia. Mas esse  o temperamento dela, no lhe cabe culpa alguma por ser assim. Alis, ela no se exibe, ela  o que . Por que teria que pagar esse 
preo?
    -        Hoje ela usa seus atributos na medida certa. Mas e ontem? Como teria agido em outras vidas? O equilbrio  conquista que cada um faz com o tempo. Como 
ela teria se tornado o que ?
    -        Comeo a entender. Em outras vidas ela poderia ter usado seu carisma sem bom senso.
    -        E com isso ter se envolvido em situaes inacabadas que est retomando agora para solucionar.
    -        E eu? No tenho o carisma nem o brilho de Gabriela. Por que atra Gioconda?
    -        No tente escapar. Voc tambm  um esprito inteligente, brilha onde aparece, um vencedor.
    -        No sei, vou meditar sobre isso.
    -        Depois de amanh faremos outra sesso para Gabriela, na mesma hora. No deixe de vir.
    Renato despediu-se e saiu. A noite estava estrelada e fria. Onde estaria Gabriela naquele momento? Teria tido alguma melhora?
    Ele se sentia mais leve e melhor. Pelo menos estavam fazendo alguma coisa para ajud-la.
    Com esse pensamento, foi para casa. Queria ver as crianas e descansar.

Captulo 22

    Renato consultou o relgio e levantou-se. Estava na hora de ir ao centro. Fazia trs meses que eles haviam feito aquela sesso em favor de Gabriela e, apesar 
de no terem ainda tido notcias dela, continuavam.
    s vezes Renato desanimava, mas tanto Cilene quanto Hamlton o aconselhavam a ter pacincia e f. O problema era grave. A orientao espiritual era que o casal 
estava sendo assistido e eles fazendo o possvel, mas era preciso esperar.
    Clara, a enfermeira, tinha comeado a trabalhar como governanta na casa de Renato, mostrando-se atenciosa, prestativa, porm firme e organizada. A princpio 
as crianas, habituadas a fazer o que queriam, haviam estranhado a nova disciplina.
    Clara, no entanto, conversava com os dois, explicando o porqu de cada coisa, mostrando-lhes que a organizao e a ordem facilitam a vida. Carinhosa porm firme, 
sabia valorizar os pontos positivos de cada um. Aos poucos eles perceberam que ela desejava que aprendessem o melhor e desfrutassem de uma vida mais feliz.
    Tornaram-se seus amigos, procurando-a para conversar, contar suas dvidas e receios, alegrias e aspiraes.
    Assim, Renato viu satisfeito que Clara era a pessoa ideal para ajud-lo na difcil tarefa de educar os filhos. Quando Aurlio avisou que Gioconda passara no 
teste e logo iria para casa, Renato conversou com as crianas preparando-as para o que iria acontecer.
    Disse-lhes que os amava muito, mas que, apesar disso, teria de se mudar. Clia agarrou-se a ele nervosa:
    - Pai, eu quero ir com voc.
    - Eu gostaria muito. Mas sua me esteve muito doente. Est se recuperando, vai voltar para casa e precisa muito da nossa ajuda.
       Nesse caso voc tem que ficar! - disse ela inconformada.
       No, filha. Minha presena s vai perturb-la ainda mais. Quero que saibam a verdade. H muito o nosso relacionamento no vinha bem. Para um casal viver junto, 
 preciso que haja amor, e isso entre ns acabou. Se eu ficar, ela vai exigir de mim demonstraes de carinho que no poderei dar. E isso vai deix-la doente de 
novo. Ela sabe que vamos nos separar. E, quando o tempo passar e ela se recuperar, vai sentir que foi melhor assim.
    -        Voc vai nos abandonar... - disse Clia chorando.
    Renato abraou-a com carinho:
    -        De jeito nenhum. Voc e Ricardinho tero sempre todo o meu amor e ateno. Nada vai mudar entre ns. Apenas vou morar em outra casa, mas vocs podero 
ir ficar comigo l o tempo que quiserem, e nos veremos todos os dias.
    -        Eu gostaria de ir com voc! - disse Clia com voz triste.
    Ricardinho, que ouvia calado, olhos midos, interveio:
    -        Papai tem razo, Clia. Ele precisa se mudar, mas ns teremos que ficar para ajudar mame a melhorar.
    -        Ele bem que podia ficar...
    -        Se eu ficar, ela no vai se recuperar logo. Se vocs a abandonarem, ela sofrer muito e poder piorar. Ela est doente, sua cabea est confusa, mas 
sempre os amou muito. Cada vez que algum vai visit-la no hospital, s fala em vocs, na saudade que sente, o quanto gostaria de estar em casa.
    Clia baixou a cabea pensativa e Ricardinho argumentou:
    -        Ns somos crescidos e temos que ajudar o papai. Vamos fazer tudo como ele quer.
    Depois, no vai ser ruim. A mame brigava muito com ele e agora no vai ter com quem brigar.
    -        Vai brigar comigo e com voc...
    -        Mas ns vamos nos esforar para que ela no fique nervosa. Quando isso acontecer, no vamos ligar. Sabemos que ela  doente e que precisamos ter pacincia.
    - Isso mesmo, meu filho - concordou Renato, comovido. - Ela dever chegar no sbado.
    O Dr. Aurlio vir com ela. Eu no estarei aqui e Clara cuidar de tudo. Depois, vocs tm meu telefone. Liguem-me e contem-me como vo as coisas. Ficarei em 
casa esperando a ligao.
    Qualquer coisa que quiserem, podem me chamar.
    No sbado cedo, ele se mudou para o apartamento. Havia combinado tudo com Aurlio e Clara. Queria que Gioconda ficasse confortvel e se sentisse bem.
    Fazia quinze dias que Gioconda voltara para casa e tudo havia corrido conforme ele previra.
    Antes de sua alta no hospital, Aurlio a havia prevenido de que Renato no estaria em casa quando ela voltasse.
    A princpio ela se revoltou, mas ele aos poucos a convenceu de que Renato estava muito chocado com o que havia acontecido, desejava a separao. Se ela no aceitasse, 
se revoltasse, os mdicos do hospital no atestariam sua melhora e ela teria de ficar l muito tempo.
    Esse argumento a convenceu. Estava cansada, queria ir para casa. Sentia falta dos filhos, do conforto a que estava habituada, das suas coisas, da liberdade que 
perdera.
    Por isso, mostrou-se cordata, disse haver esquecido seu dio por Gabriela, estar arrependida. Levou vida normal, calma, obedeceu a enfermeiras e mdicos, e finalmente 
conseguiu voltar para casa.
    Contudo, sua liberdade era condicional. Deveria submeter-se a novos exames a cada trs meses para nova avaliao. Ela sabia que, se demonstrasse qualquer desequilbrio, 
poderia ser internada novamente.
    Por isso se controlava. Porm, dentro do seu corao, ainda havia
o        dio por Gabriela. Confortava-a saber que ela havia se mudado com
a famlia para o Rio de Janeiro e que ningum, nem mesmo a me de
Roberto, sabia o endereo.
    Com Gabriela distante, o perigo havia passado. Renato, tendo perdido o amor daquela mulher, se arrependeria do que havia feito e um dia a procuraria, pedindo 
para voltar. Ento, ela seria feliz e realizada. Finalmente havia vencido a rival.
    Para isso, precisava ser cordata, mostrar pacincia, mansido, arrependimento. E isso ela sabia fingir muito bem.
    Depois, Renato era prdigo no sustento da famlia e o advogado informara-a de que ele lhe daria uma mesada para as despesas pessoais enquanto no estabelecessem 
as normas legais da separao.
    Como eram casados em comunho de bens, Renato encarregara o Dr. Altino de fazer a avaliao dos bens. Ele pretendia dar a Gioconda a parte a que ela tinha direito, 
para que pudesse manter-se.
    Gioconda no tinha profisso e nunca havia trabalhado fora. No teria como se sustentar.
    Alm disso, ele desejava manter um relacionamento com ela o mais calmo possvel, por causa dos filhos.
    Ele precisaria se desfazer de alguns imveis, porm sua empresa estava bem, e com o tempo conseguiria aumentar novamente seu patrimnio. Desejava cuidar de si, 
viver em um ambiente calmo, onde pudesse fazer o que lhe aprouvesse. Reconhecia que a rotina do casamento, o temperamento de Gioconda, seus joguinhos manipuladores 
haviam transformado sua vida em uma desagradvel sucesso de problemas dos quais ele procurava escapar isolando-se, e assim foi perdendo o prazer das pequenas coisas 
do dia-a-dia, das msicas que gostava de ouvir na penumbra da biblioteca, saboreando um copo de vinho, relaxando e sentindo a vibrao gostosa que aquilo provocava. 
Da leitura de um bom livro, do qual saboreava as tiradas inteligentes e argutas de um bom escritor. Do prazer de uma conversa interessante com os amigos, ou simplesmente 
deixar-se ficar na sala de estar em silncio, sem pensar em nada, usufruindo o momento de calma e de harmonia interior.
    Havia muito tempo ele deixara de fazer essas coisas, porque quando estava em casa Gioconda seguia-o por toda parte, monopolizando sua ateno, reclamando quando 
ele desejava ficar s, interrompendo-o quando estava lendo ou ouvindo msica, dizendo-se abandonada e mal-amada.
    Para no ouvir suas queixas, ele preferia demorar mais na rua, depois do expediente do escritrio, para reduzir ao mximo sua presena em casa.
    Apesar de todos os problemas que estava vivendo, da preocupao com o bem-estar dos filhos, da saudade de Gabriela, da inquietao quanto ao seu destino, Renato 
sentiu-se bem no novo apartamento.
    L tudo era do seu gosto, havia silncio, calma, harmonia. Podia fazer tudo sem se preocupar em incomodar ningum ou at no fazer nada, deixar-se ficar quieto, 
relaxado, dono de si.
    Naqueles quinze dias percebeu o quanto seu relacionamento com Gioconda o infelicitara.
    Sentiu-se livre, leve.
    Assim que voltou para casa, Gioconda tentou marcar um encontro com ele, a pretexto de resolver a situao da famlia. Porm, quando ela telefonou, Renato disse-lhe 
francamente que no havia nada para falar. Tudo estava claro com o advogado, e se ela precisasse de alguma coisa deveria dirigir-se a ele.
    -        Mas eu quero conversar com voc! Estou arrependida do que fiz. Eu estava fora de mim.
    Gostaria de contar-lhe o que passei.
    -        No precisa.
    -        Quero pedir-lhe perdo. Fui injusta com voce.
    -        No h nada a perdoar. J passou.
    - Se fosse verdade, voc viria conversar, voltaria para casa e tudo ficaria bem.
    - No guardo rancor, acredite.  melhor aceitar a verdade. Nosso casamento acabou. Nunca mais voltarei para casa. Trate de esquecer, refazer sua vida como quiser.
    -        Vai ver que j arranjou outra mulher...
    -        V? Voc no mudou nada. Vou desligar.
    -        No quero ficar sozinha aqui. A casa est diferente. Clara tomou conta de tudo, as crianas gostam mais dela do que de mim.
    -        Esses so problemas que voc vai ter que resolver. Minha parte j fiz. Clara  excelente e est cuidando de tudo muito bem. Voc no vai precisar se 
preocupar com nada.  tudo que posso fazer.
    Ela comeou a chorar.
    - O que vai ser de mim agora sem voc? O que fazer de minha vida, s, abandonada?
    - Isso  problema seu. Voc  uma mulher inteligente, adulta, capaz de cuidar da prpria vida.  melhor deixar de bancar a vtima, o que voc no . Perturbou 
duas famlias, quase matou uma pessoa, fez-se de coitada e controlou os psiquiatras para conseguir a liberdade. Coragem voc tem at demais. Trate de usar essa fora 
para reconstruir sua vida sem mim. Eu j estou fora.
    - Voc se arrepender de me humilhar dessa forma.
    - A verdade di, mas pode curar. Pense nisso.
    Ela desligou o telefone sem responder. Renato suspirou, tentando expulsar a sensao desagradvel que a conversa lhe provocara.
    Mais tarde o advogado ligou dizendo que Gioconda estava muito zangada e que nunca mais permitiria que ele visse os filhos, ao que Renato respondeu:
       Diga-lhe que, se colocar meus filhos contra mim, impedir que me visitem, corto a mesada dela. Talvez assim ela recupere a calma.
    Mais tarde Altino ligou para dizer que ela havia chorado, reclamado, se lamentado e no fim concordou em fazer o que Renato queria.
    Enquanto se dirigia ao centro esprita para a sesso, Renato pensava nos ltimos acontecimentos. Apesar de no ter notcias de Gabriela, de estar freqentando 
o centro nos ltimos meses, no perdia a f.
    Agora mais do que nunca acreditava na interferncia dos espritos na vida das pessoas. Sabia o quanto era importante manter bons pensamentos, fazendo o possvel 
para vencer os desafios que a vida lhe trazia, mas reconhecia seus limites, e, os problemas que no conseguia resolver, entregava nas mos de Deus.
    Seu amor por Gabriela no era correspondido, mas, mesmo que o fosse, nunca poderiam ser felizes. Havia os compromissos de famlia.
    Roberto no aceitaria uma separao, tornaria a vida dela um inferno. Os filhos sofreriam. No era isso que ele desejava para ela.
    Depois, ela amava o marido, estava decepcionada, mas com certeza o havia perdoado, retomado a vida normal. Talvez nem se lembrasse dele.
    Apesar disso, no era seu sentimento de amor por ela que o angustiava. Quando pensava nela, recordava seu rosto, seu sorriso, sua espontaneidade, sentia agradvel 
calor no peito. Sentir esse amor dava-lhe prazer, alegria, motivao para ser melhor com as pessoas. Havia-se conformado em guardar esse segredo para sempre.
    A angstia, a inquietao, era por no saber o que havia acontecido com ela, se estava bem, se era feliz.
    Quando ia ao centro, orava pela felicidade dela. Naquela noite, quando chegou  sala de reunies, estava na hora de comear. Ocupou o lugar que lhe foi destinado 
e, quando o dirigente iniciou a prece, pareceu-lhe v-la na sua frente, plida, magra, mos estendidas, pedindo ajuda, igual acontecia em seus sonhos.
    Emocionado, Renato em pensamento rogou aos espritos presentes que a ajudassem. Naquele momento ele teve certeza de que ela estava sofrendo, precisando de auxlio. 
As lgrimas desciam pelo seu rosto e ele implorava a Deus que ela pudesse voltar a ser a moa alegre, saudvel, bem-disposta que sempre fora.
    Um rapaz comeou a falar:
    - Desejamos agradecer a perseverana de vocs neste caso. Graas a ela, estamos avanando em nossos propsitos. Dentro em breve tero notcias deles. No se 
preocupem com o que lhes disserem. As vezes parece que tudo est pior, mas isso representa o comeo da cura. Peo-lhes que continuem firmes. Confiem em Deus e creiam 
que nada acontece por acaso. A vida  a grande mestra que nos ensina sempre, nos torna mais conscientes, nos faz amadurecer. Guardemos o corao em paz e em orao.
    Quando as luzes se acenderam, Renato procurou Hamlton.
    -        Hoje eu vi Gabriela na minha frente, como aparece nos meus sonhos. Estava mal, pedia ajuda. Teria sido minha imaginao? Eu estava preocupado com ela.
    -        No foi. Eu tambm a vi. Seu esprito foi trazido aqui para fortalecimento.
    -        Ela veio mesmo?
    -        Sim. Nossos mentores a tiraram do corpo e trouxeram para tratamento. Ela recebeu foras para resistir  magnetizao dessas entidades que a esto envolvendo.
    -        Fiquei emocionado. Senti que era ela.
    - No permita que as emoes o dominem. Reaja. Pense que ela est sendo atendida e que logo teremos notcias.
    -        Eles disseram isso. Mas at agora nem o investigador que contratei conseguiu descobrir algo.
    - Ao contratar o investigador, voc usou os recursos de que pode dispor, fez sua parte.
    Entretanto, eu sei que h outros interesses em jogo. S descobriremos alguma coisa quando for a hora. No se esquea de que Gabriela e Roberto esto sendo auxiliados 
pelos nossos mentores desde o incio. Eles possuem uma viso mais completa dos acontecimentos, conhecem as vidas passadas, as verdadeiras causas de tudo. Sabem que 
os desafios de cada um so determinados pelas suas necessidades de amadurecimento. Respeitam o ritmo e o arbtrio deles. Conforme suas atitudes, eles agem.
    -        Mas eles esto sendo manipulados por entidades perigosas das quais tm dificuldade de se livrar. Esperar no ser falta de caridade?
    -        Ningum  vtima, Renato. De alguma forma eles atraram essas entidades. No temos condies de julgar, nossa viso  parcial e muitas vezes est deformada 
pelas crenas erradas que o mundo nos ensinou. A vida  amorosa, sbia, perfeita. Jamais permitiria uma injustia.
    - No  isso que nos parece neste mundo.
    -        Parece, mas no . Falta-nos conhecimento para poder avaliar adequadamente. Mas, acreditando que o universo  perfeito, que foi criado por um Deus que 
no erra, chegaremos a esta concluso.
       Vemos tanta gente boa sofrendo...  difcil entender.
        verdade. Mas nossos conceitos de bondade esto limitados pelas regras da sociedade e na maioria delas os verdadeiros valores da alma esto invertidos. Nossa 
cabea est cheia de regras e costumes que variam de pas a pas, o que prova sua precariedade.
       Como poderemos entender melhor?
       Acabando com os preconceitos. Valorizando o que sentimos, aprendo a ouvir nossa alma.
       Usando o bom senso. Descobrindo nossas qualidades mas olhando nossos pontos fracos sem medo. So eles que determinam os desafios que a vida vai nos trazer.
-        Conhecer nossas fraquezas no vai nos levar  depresso?
-        No se fizer isso sem culpa e desejar fortalecer esses pontos.
- De que forma?
-        Dando-se fora. Jamais se criticando ou ficando contra voc.
-        A culpa  difcil de carregar.
        - Se dramatizar, sim. Mas, se olhar para um erro pensando em no o cometer de novo, se livrar dela e aproveitar a lio. Entendeu?
       - Sim. Olhando a vida dessa forma, tudo fica mais fcil. Estou at me sentindo mais leve.
    -        Isso mesmo. Procure visualizar nossos amigos alegres e felizes. Pense que tudo est bem e s vai acontecer o melhor.
-        Est certo. Se tiver alguma novidade, ligue-me.
    Renato foi para casa sentindo-se mais tranqilo. A conversa com Hamlton fizera-lhe enorme bem.
    Naquela mesma noite, Roberto chegou em casa passava da uma e meia da madrugada.
    Sentia-se cansado e nervoso. Estava voltando do terreiro onde trabalhara desde as sete da noite. Naqueles meses conversara com Pai Jos pedindo que o liberasse 
daquela tarefa, mas no conseguiu.
    Se ele no pagasse o que devia com trabalho, seria castigado. Perderia tudo e ainda ficaria muito mal. Embora contrariado, Roberto no se atrevia a desistir. 
L desempenhava vrias tarefas desagradveis com animais, comidas, fazendo entrega em cemitrios, na mata, no mar.
    Roberto cumpria o que lhe mandavam por obrigao e medo. No meio da roda no ficava mais inconsciente. Ouvia tudo que estava falando, percebia o que fazia, mas 
no conseguia parar.
    Era como se estivesse do lado, observando.
    Apesar de cansado, tomou um banho e foi se deitar. Gabriela dormia e ele acendeu o pequeno abajur de sua mesa de cabeceira, olhando-a preocupado. Ela havia emagrecido 
muito e estava plida.
    Conversara com Pai Jos, pedira-lhe um remdio. Nicete todos os dias preparava o ch com as ervas que ele havia receitado, mas Gabriela continuava na mesma, 
alheia a tudo, emagrecendo e sem apetite.
    As crianas andavam nervosas, brigando entre si, dando trabalho para Nicete quando estavam em casa e arrumando confuso no colgio.
    Roberto deitou-se e apagou a luz. Isso no era vida. Ele conseguiu o que desejava, porm no se sentia feliz. O preo estava sendo muito alto. Ele queria Gabriela 
bonita, alegre, saudvel, e ela estava se acabando. Ela no conversava com as crianas e ele tambm no tinha tempo para isso.
    Trabalhava o dia inteiro e trs vezes por semana precisava ir ao terreiro, que tinha horrio para comear mas nunca para acabar.
    Muitas vezes os trabalhos avanavam pela noite adentro e no raro precisavam sair para fazer despachos  meia-noite.
    Roberto sentiu saudade do tempo em que ele tinha seu depsito de materiais de construo, sua famlia estava bem. Neumes era culpado de tudo. Roubara seu dinheiro 
e deixara-o na misria, tendo de suportar a vergonha de ver sua famlia mantida pela mulher. Isso ele nunca iria perdoar.
    Nunca mais vira aquele safado. Se o encontrasse, ele o faria devolver tudo. Foi ento que teve a idia de falar com Pai Jos sobre ele. Afinal, estava trabalhando 
no terreiro e tinha o direito de pedir ajuda.
    Por que no pensara nisso antes? Eles eram poderosos. Apesar dos problemas que estava enfrentando, haviam revertido completamente sua situao. Pediria que fizessem 
um trabalho para que Neumes aparecesse e lhe devolvesse seu dinheiro. Queria tambm que ele fosse castigado. Era justo.
    Conversou com Pai Jos, que prometeu fazer o que ele queria. Roberto sentiu-se confortado.
    Logo estaria rico, poderia reabrir seu negcio. Era o que ele mais desejava. Pai Jos dissera-lhe que com o tempo Gabriela iria melhorar. Roberto acreditou. 
Conformou-se em dever-lhe mais aquele favor. Afinal, tinha de ir l mesmo e, j que no podia se afastar, pelo menos usufruiria daquele pacto.
    Nicete estava cada dia mais preocupada. No se conformava com as mudanas de Gabriela, das crianas e do prprio Roberto, que se tornara sisudo e no brincava 
mais com as crianas.
    Ela sentia o ambiente pesado e muitas vezes tinha pesadelos, acordava cansada, corpo dodo, aflita. Sabia que Roberto estava trabalhando no terreiro e que no 
ia l para fazer nada de bom.
    Ela sabia que havia terreiros onde s ajudavam as pessoas, confortando, aconselhando, tentando curar as doenas. Mas o lugar que Roberto estava indo no era 
desses.
    Percebia pelos resultados. As coisas na casa estavam cada vez piores. Nos ltimos dias ficara impressionada com a apatia de Gabriela. Guilherme pisara sobre 
um caco de vidro e cortara a sola do p. O sangue corria e Nicete tratara logo de socorr-lo, chamando Gabriela.
    Ela se limitou a olhar, e no saiu do lugar. Apavorada, Nicete lavou o ferimento e percebeu que o corte no tinha sido fundo. Fez um curativo e logo o menino 
estava bem.
    Gabriela nem sequer perguntou o que havia acontecido. Continuou sentada no sof, olhar fixo e distante. Assustada, Nicete recolheu-se em seu quarto e rezou, 
pedindo ajuda. Aquela situao no podia continuar. Precisava fazer alguma coisa.
    No conhecia ningum no Rio de Janeiro. Como Gabriela estava indiferente a tudo, era ela quem estava tendo de assumir todas as responsabilidades da famlia. 
Havia conversado vrias vezes com Roberto, pedindo-lhe que tomasse providncias, que levasse Gabriela ao mdico, porm ele lhe respondia que ela estava bem e no 
precisava.
    A quem recorrer? Pensou em Georgina. Roberto no lhe dera o novo endereo. Ela no era confivel. Sempre falava mal de Gabriela e desejava prejudic-la. O que 
fazer?
    Decidiu procurar na escrivaninha de Gabriela. Era l que ela costumava fazer as contas e guardar os documentos da famlia. Abriu uma gaveta e comeou a procurar. 
No encontrou nada.
    Foi ao guarda-roupa e pegou a bolsa de Gabriela, que ela costumava usar para ir trabalhar.
    Sentou-se na cama, abriu a bolsa e virou-a de cabea para baixo. O que havia dentro dela caiu sobre a cama, porm um pequeno papel dobrado foi ao cho.
    Nicete apanhou-o e leu: Centro Esprita Luz do Caminho. L havia o nome de Gabriela e a indicao para um tratamento espiritual. Atendente Cilene. Havia endereo 
e telefone.
    Nicete recolocou tudo na bolsa e em seguida foi ao telefone. Discou o nmero e pediu para falar com Cilene. Depois de alguns instantes ela atendeu.
    -        Meu nome  Nicete, estou falando do Rio de Janeiro. Trabalho na casa da D. Gabriela.
    Tenho em mos um papel do centro assinado por voc. Sabe de quem se trata?
    - Claro. Graas a Deus voc ligou. Como vai ela?
    -        Mal. No sei o que fazer. Precisamos muito de ajuda.
    Em poucas palavras Nicete contou o que estava acontecendo e finalizou:
    - Por favor, ajudem. No sei mais o que fazer.
    -        Acalme-se. Preciso do endereo.
    Nicete falou e ela anotou. Depois esclareceu:
    - Desde que vocs se mudaram estamos fazendo trabalhos em favor de todos. Os espritos nos informaram que vocs precisavam de ajuda. Mas estava difcil, porque 
nem sequer sabamos o endereo. Obrigada por nos ter informado. Voc  a nica pessoa da casa que no foi dominada por essas entidades. Fique firme. Ser nosso apoio 
a. No se deixe envolver pelo desnimo. Continue mentalizando luz e orando. Amanh  noite  dia da nossa reunio em favor de vocs. L pelas oito e meia da noite, 
procure se ligar conosco. Ponha gua numa jarra e ore. Depois de meia hora, d um copo dessa gua a Gabriela e o restante d jeito que toda a famlia beba. Entendeu?
    - Sim. Farei tudo direitinho. S de falar com voc, sinto-me aliviada. Muito obrigada.
    -        Assim que tiver alguma orientao, ligarei.
    Cilene desligou o telefone e procurou Hamlton para contar a novidade. Imediatamente ele ligou para Renato.
    -        Bem que eles nos avisaram! - disse ele. E agora, o que faremos?
    -        Amanh vamos pedir orientao. O caso  delicado. Teremos que trabalhar com eles.
    -        Tenho vontade de ir l imediatamente tentar trazer Gabriela e os filhos de volta.
    - No pode interferir dessa forma. Ela est com o marido. Vamos esperar at amanh  noite.
    Voc nos ajuda mais no se deixando envolver pelas emoes. Controle-se. Vamos precisar de serenidade para oferecermos apoio ao trabalho dos espritos. Pense 
que tudo vai ficar bem, mentalize todos com sade e paz.
    - Vai ser difcil esperar at amanh...
    - Tudo tem sua hora. Domine a ansiedade, que s serve para atrapalhar. Conserve a confiana, procure o equilbrio. Contamos com a ajuda preciosa dos nossos amigos 
espirituais. Portanto faa sua parte.
    - Est certo. Vou me esforar.
    Renato desligou o telefone sentindo o corao bater descompassado. Finalmente sabia onde ela estava! Sentia vontade de ir at l proteg-la, mandando para longe 
todos os que a estavam perturbando.
    No sabia os detalhes, mas imaginava que o estado dela teria se agravado, para Nicete haver procurado ajuda. Meu Deus! Quando terminaria aquela confuso?
    Estava resignado a no a ver mais, porm desejava que ela estivesse feliz. Era s o que pensava. Faria o que pudesse para que ela ficasse bem.
    Pensando assim, foi para seu quarto, sentou-se na cama, fechou os olhos e comeou a rezar pedindo pelo bem-estar de Gabriela e das crianas. Era o que ele podia 
fazer naquele momento.

Captulo 23

    Na tarde seguinte, Renato ligou para Aurlio. Os dois haviam se tornado muito amigos. Nos momentos mais difceis, Renato procuravao para desabafar e sempre saa 
aliviado.
    Aurlio era um estudioso no s do comportamento mas tambm da vida. No trato com os pacientes, vivenciara experincias que escapavam  lgica mdica. Desde 
o incio de sua carreira habituara-se a questionar os fatos, buscando entender como eles ocorreram e por qu.
    Suas pesquisas o levaram ao estudo da mediunidade e da interferencia dos espritos desencarnados na vida das pessoas. No tinha mais dvidas a respeito da sobrevivncia 
do esprito aps a morte e da reencarnao.
     Como amigo de Renato, travou conhecimento com Cilene e Hamlton. A simpatia foi recproca e logo estabeleceram laos de amizade. Aurlio ficara vivo havia 
cinco anos e morava sozinho na casa que pertencia a sua famlia. Seus dois filhos estavam casados.
     Discreto mas muito interessado nos problemas humanos, ele gostava de reunir os amigos em sua casa para uma boa conversa. Eram poucos os que privavam de sua 
intimidade. Renato, Hamlton e Cilene estavam fazendo parte desse grupo.
     Reuniam-se ora em casa de Renato, ora em casa de Aurlio para um jantar agradvel e depois se entregavam ao prazer da boa conversa.
     Quando Aurlio atendeu, Renato confidenciou:
     - Ontem tivemos notcias de Gabriela e Roberto. - Contou o que havia acontecido e finalizou:
     - Hoje  noite faremos uma reunio no centro para pedir orientao. Eles nos haviam dito que teramos noticias.
     - De fato. Parece que o grupo est bem entrosado.
     - Voc nunca foi l. Hamilton j o convidou.
     -  verdade. Acontece que eu prefiro ficar de fora. No desejo me sugestionar.
     - Assim voc perde ocasio de experimentar.
     - Nesses lugares as pessoas dizem que  preciso ter muita f. Sabe como eu sou: se estiver l, vou querer observar tudo, ficar Com os olhos abertos para no 
perder nada. Sou questionador, voc sabe. Eles acham que  falta de f. Por isso no vou a essas sesses. Gosto das manifestaes espontneas.
    -        At certo ponto concordo. Principalmente quando h fanatismo. Porm l o grupo  muito bom. Tm bom senso. No aceitam as coisas sem as estudar. Ainda 
penso que voc deveria ir.
    Alm de nos dar apoio, tenho certeza de que suas energias vo contribuir com o trabalho.
    -        Est certo. Voc me convenceu.
    -        Passarei em sua casa s sete e meia.
    Quando Renato e Aurlio entraram na sala da reunio, o ambiente em penumbra, os mdiuns sentados ao redor da mesa indicavam que estava na hora de iniciar.
    Hamlton ficou em p enquanto Cilene acomodava os recm-chegados nos dois lugares vagos ao redor da mesa. Depois ela se sentou novamente e Hamlton fez ligeira 
prece pedindo ajuda para as pessoas cujos nomes estavam sobre a mesa.
    O        ambiente era de paz. Depois de alguns minutos de silncio, um rapaz comeou a falar:
    -        Meu nome  Elvira. Tenho muito interesse neste caso. Agradeo a ajuda que esto dando e espero poder retribuir de algum modo, prestando servio nesta 
casa. Vocs receberam notcias do casal. Era o sinal que espervamos para tomar algumas iniciativas. Como vocs sabem, a vida trabalha pelo bem de todos os envolvidos. 
Contudo, se algum resiste preferindo permanecer nas iluses do mundo, deixamos que siga o rumo que escolheu na certeza de que a vida tem meios de lev-lo aonde 
precisa ir. No  justo que os outros que j esto maduros fiquem  merc de energias negativas por causa de um. O que querem perguntar?
    -        O que poderemos fazer para ajudar? - disse Hamlton.
    -        Vamos orientar. Antes vou contar-lhes uma histria. No comeo do sculo passado, em
    Paris, havia uma jovem de rara beleza, filha de famlia abastada, que lhe dera esmerada educao. Tocava piano, falava vrios idiomas, conhecia todas as regras 
da corte, onde brilhava e conquistava coraes.
    Seu pai, entretanto, no era nobre e sonhava casar a filha com algum que pudesse dar-lhe um ttulo de nobreza. Homem astucioso, conseguira as boas graas de 
uma duquesa, que tomara Gabrielle como sua dama de companhia.
    Ela, porm, no era ambiciosa como o pai. Sonhava com um casamento de amor. Um dia apaixonou-se por um jovem mercador e foi correspondida. Sabendo que o pai 
jamais concordaria com o casamento, planejaram fugir.
    Uma das damas de companhia da duquesa, cheia de inveja pelo sucesso que Gabrielle fazia, descobriu tudo e delatou-os ao pai dela.
    Cheio de indignao, ele prendeu a filha na cela de um convento. O assunto foi muito comentado, e um conde, que estava muito apaixonado por ela, procurou o pai 
e pediu-a em casamento. Radiante, ele aceitou. Ela no queria, mas o pai obrigou-a, ameaando a vida do seu amado. Ela casou. A amante do conde, abandonada com o 
casamento dele, jurou vingana.
    O conde, muito apaixonado, esforou-se para conquistar Gabrielle procurando fazer-lhe todas as vontades. Ela, no entanto, ficava aptica e triste. Desprezado 
por ela, o marido sentia um cime doentio. Acabou por prend-la no castelo sob a vigilncia de sua me, uma mulher interesseira que, irritada com a atitude da nora, 
fazia tudo para perturb-la.
    Valorizando o filho, julgava que ningum chegava  altura de merec-lo. Gabrielle, alm de plebia, ainda se dava ao luxo de recus-lo.
    O jovem mercador, sabendo que sua amada estava sofrendo maus-tratos, decidiu salv-la.
    Planejou com dois amigos ludibriar a vigilncia e libert-la. Armou um ardiloso plano e depois de certo tempo conseguiu o que pretendia.
    Raptou Gabrielle e com a cumplicidade dos amigos conseguiu levla para a Itlia, onde passaram a viver juntos, O conde Alberto ficou desesperado e jurou vingana.
    Contratou pessoas para procur-los, at que conseguiu descobrir onde moravam. Indignado, armou vrios homens e foi  procura deles. Chegaram  noite e imediatamente 
invadiram a casa onde o casal dormia. Raul, o jovem mercador, tentou impedi-los de levar Gabrielle, mas foi derrubado com violenta pancada. Caiu desacordado. No 
quarto ao lado, uma criana chorava assustada. Gabrielle gritava desesperada:
    Soltem-me. Meu filho est chorando. Larguem-me.
    Mesmo debatendo-se vigorosamente, eles a levaram. Uma hora depois, Raul acordou e, dando conta do ocorrido, deixou o filho com a ama, armou-se e saiu  procura 
dos raptores.
    Conseguiu alcan-los em uma estalagem onde se haviam recolhido. Ficou  espreita e, quando todos dormiam, entrou sorrateiro. Ouviu vozes e reconheceu Gabrielle 
discutindo com o conde. Aproximou-se. Ele a acusava de traio, dizendo que ela teria o castigo que merecia.
    Gabrielle implorava que a deixasse em paz, dizendo-lhe que tinha um filho pequeno que precisava dela. Irritado, Alberto tentou agarrla, dizendo:
-        Voc  minha mulher. Vou fazer de voc o que quiser.
     Abraou-a tentando beij-la. Raul abriu a janela do quarto e pulou para dentro, gritando:
     - Solte-a. Deixe-a em paz.
     Alberto voltou-se para ele e imediatamente pegou a espada, mas nessa hora Raul, que tinha um revlver na mo, atirou. Alberto caiu e logo o sangue molhou o 
assoalho. Gabrielie chorava em pnico.
     Raul ajudou-a a pular a janela e, enquanto as pessoas que ouviram o tiro arrombavam a porta do quarto, ele apanhou o cavalo, colocou Gabrielle na garupa, montou 
e partiu a galope.
     Chegando em casa, arrumou os pertences e partiu com o filho e a jovem ama, que era rf e disps-se a acompanh-los.
     Elvira fez uma pausa, enquanto os presentes emocionados no se atreviam a dizer nada. Foi Hamlton quem quebrou o silncio:
     - Voc est falando de Gabriela. Os outros personagens fazem parte do processo que enfrentamos hoje.
     - Isso mesmo - concordou ela. O esprito do conde viu-se no astral revoltado, planejando vingana. Raul, alm de roubar-lhe a mulher amada, tirara-lhe a vida. 
Augusta, sua ex-amante, ajudava-o nessa empreitada. Eu sofri muito. Laos de amor me prendem a Alberto. Tivemos ligaes em vidas passadas, nas quais comeamos por 
uma louca paixo e acabamos por sublim-la quando o recebi como filho. Tentei de todas as formas que ele me ouvisse e concordasse em perdoar. Tenho amigos que me 
ajudam e todos nos empenhamos para que ele compreendesse que  intil lutar contra a fora das coisas. Que essa atitude s traz sofrimento. Mas ele no me ouviu. 
Descobriu onde o casal vivia, colou-se ao rival com inteno de destru-lo.
     Raul tornou-se nervoso, irritado, ora sentindo-se inquieto, ora caindo em apatia, desmotivado para o trabalho.
     Aos poucos foi perdendo o entusiasmo pela vida e lembrando-se do rival que havia assassinado. Comeou a v-lo ameaador, cobrando o que lhe devia. Gabrielle 
fazia tudo para traz-lo  razo, porm a cada dia ele ficava pior.
     Eles haviam tido quatro filhos, e GabrielLe, notando que Raul se descuidava do trabalho, substitua-o enquanto ele ficava no quarto dormindo ou andando inquieto 
pelas ruas da cidade. Eles haviam montado pequena Loja de onde tiravam o sustento. Raul foi ficando pior e GabrielLe assumiu inteiramente o negcio, tendo por ajudante 
Nina, a rf que haviam recolhido e que a apoiava em tudo.
     Raul nunca se recuperou. Foi enfraquecendo e acabou morrendo antes dos quarenta anos.
     Quando acordou no astral, Alberto esperava-o cheio de dio, satisfeito com o que conseguira.
     Vendo-o, Raul atacou-o enraivecido e os dois rolaram, agredindo-se mutuamente.
    No pudemos separ-los naquele momento. Levamos tempo at que Raul, cansado, sofrido, arrependido, aceitou nossa ajuda e foi recolhido em um lugar de recuperao. 
L, estudou, recuperou-se, aprendeu que, para se libertar da sua ligao com Alberto, precisava perdoar.
    Porm s o conseguiu quando entendeu que cada pessoa  o que  e s tem condies de fazer o que sabe. Ele se julgava com direito ao amor de Gabrielle porque 
ela o amava. Via o conde como um intruso que se valera de sua fortuna para roubar-lhe a mulher amada. Por isso no sentiu culpa quando a raptou. Contudo, o conde 
tornara-se marido dela e viu-se no direito de t-la de volta. Como tudo  relativo ao entendimento de cada pessoa, os dois, cada um por sua vez, acreditavam que 
estavam com a razo.
    Foi preciso tempo para que ambos entendessem que ningum  de ningum e que sentir amor no d o direito de agarrar-se ao ser amado e a esse pretexto manipular 
sua vida cobrando retribuio. Para conquistar a paz, precisavam ceder e mudar de atitude. Isso s aconteceu quando Gabrielle voltou para o astral, compreendeu as 
necessidades de cada um e resolveu trabalhar pelo entendimento de todos. S assim teriam equilbrio para seguir adiante.
    Alberto no se conformava em notar que, apesar do ttulo de nobreza que ostentara no mundo, Raul era mais bonito, inteligente, culto do que ele. Acreditava que 
por isso Gabrielle o preferira.
    Gabrielle, desejando ajud-lo, concordou em reencarnar, aceit-lo como marido, ficar um tempo a seu lado a fim de motivar-lhe a auto-confiana, o sucesso. Acreditava 
que, depois desse tempo, ele teria condies de progredir por si mesmo. Ento ela estaria livre para ficar ao lado de Raul, a quem realmente amava.
     Alberto preparou-se para a nova encarnao, feliz por poder contar com a companhia dela.
     Apesar de saber que ela amava outro, no fundo guardava a esperana de poder conquist-la definitivamente.
     Gabrielle foi aconselhada pelo seu orientador espiritual a no mergulhar naquela aventura. Ela, porm, sentia-se culpada por haver casado com ele e depois t-lo 
abandonado e pela tragdia que os envolvera.
     Seus orientadores concordaram, porqanto sabiam que ela no teria paz enquanto no se livrasse daquela sensao de culpa que a atormentava.
     A me de Alberto, apegada ao filho, sentindo que no o ajudara como deveria, prontificou-se a receb-lo novamente. Reencarnou e recebeu o nome de Georgina. 
Alberto nasceu e teve o nome de Roberto. Conforme o combinado, casou-se com Gabriela, porm no conseguia dominar o cime. A sensao de traio, de perda, ainda 
estava muito forte em seu inconsciente.
    Gabriela foi se desiludindo e compreendendo que ningum muda ningum. A presena dela ao lado dele, ao invs de ajud-lo, fazia-o recordar-se mais dos problemas 
passados.
    Sua atitude fazendo-a passar por autora do desfalque f-la ter certeza de que ele ainda no estava pronto para mudar. Entrou em depresso. Roberto sentiu que 
a havia perdido. Ao invs de conformar-se, voltar atrs e tentar reconquist-la provando o quanto a amava, persistiu no desejo de domin-la. Para isso, fez um pacto 
com algumas entidades perigosas que os esto explorando. Infelizmente essa  a situao hoje.
    Renato sentia o corao bater descompassado. Tinha certeza de conhecer essa histria e de haver feito parte dela. Teve vontade de perguntar se Raul tambm havia 
reencarnado. Mas no teve coragem.
    Hamlton perguntou:
    -        Eles esto em condies de serem libertados?
    -        Ele ainda no. Voc sabe: pediu a ajuda dessas entidades, recebeu favores, comprometeu-se de livre vontade. Agora, ter que colher os resultados dessas 
atitudes. Nada poderemos fazer.
    Todavia, ela, apesar de tudo, fez a parte que lhe cabia. Manteve-se fiel, procedeu dignamente.
    -        Nesse caso no poderia ter sido poupada?
    -        No. Ela se julgava capaz de influenci-lo, faz-lo mudar. Isso uma iluso. As pessoas s mudam quando amadurecem e decidem-se a isso. Ela no foi 
poupada justamente para que se livrasse dessa iluso, percebesse a verdade.
    -  um difcil desafio... - comentou Hamlton.
    -        Sim, mas muito proveitoso. A iluso de que ela poderia intervir no processo de evoluo dele a fez sentir-se culpada. A verdade  que cada um erra por 
sua prpria cabea, ningum  responsvel pelo erro dos outros. O conde, mesmo sabendo que ela amava outro, desposou-a. Ele tambm estava iludido pensando que com 
o tempo poderia conquist-la. Ficou frustrado e no entendeu que um casamento como o dele s poderia dar no que deu. Ao invs de enfrentar a verdade, muitos preferem 
manter a iluso, e isso  que atrai sofrimento. Toda planta que meu pai no plantou ser arrancada. Sbias palavras de Jesus. Todas as iluses sero destrudas. 
Porque a verdade  luz,  imutvel,  felicidade. Quando os homens entenderem isso, iro se poupar de muitos sofrimentos. Eu gostaria de indicar algumas providncias 
para esse caso.
    - J temos o endereo. Poderemos ir visit-los.
    - Vocs no. O mdico que vocs conhecem e que  nosso amigo, embora no se recorde de ns no momento, poder ir at l no prximo sbado, como se fosse ao acaso. 
Uma vez l, ns o inspiraremos como agir. Fiquemos firmes. Em breve voltaremos. Deus os abenoe.
    Continuaram em prece silenciosa por mais alguns minutos, depois Hamlton encerrou a reunio.
    Quando as luzes se acenderam, Aurlio no se conteve. Abraou Hamlton, dizendo comovido:
     -        Que maravilha! Nunca assisti a nada igual.
     -        Parece que Elvira mencionou voc - respondeu ele.
     -        Eu senti que falava comigo. Estou  disposio.
    Renato interveio:
     -        Estou emocionado! Tive vontade de perguntar muitas coisas!
     -        Eu sei - disse Hamlton. - Voc tambm viveu essa histria.
    Renato baixou a cabea tentando esconder o brilho de algumas lgrimas.
     -        Uma coisa me intriga... - disse Aurlio.
     -        O qu? - perguntou Hamlton.
     -        A reencarnao deles foi programada pelos mentores espirituais. Mas Roberto no soube aproveitar como poderia. O que vai acontecer agora?
     -        Os programas so feitos antes da reencarnao direcionados s necessidades de aprendizagem de cada um. Porm o aproveitamento varia de acordo com as 
atitudes que escolherem durante a estada aqui. O livre-arbtrio  respeitado - esclareceu Hamlton.
     -        Nesse caso - considerou Aurlio -, ela vai ser ajudada mas ele no.
     -        Voc no entendeu. Todos sempre so ajudados. Neste momento, a ajuda para ele ser a de perceber os prprios enganos, e isso s ser possvel experimentando 
os resultados desagradveis de suas atitudes. A desiluso ajuda a eliminar os falsos valores e a reconhecer os verdadeiros.
     -        A vida tem seus prprios meios de ensinar - tornou Aurlio.
     -        Quando voc vai ao Rio? - indagou Renato.
     -        Neste fim de semana, conforme eles pediram. O assunto  urgente e  melhor no perder tempo.
     -        Gostaria de ir junto - disse Renato.
     -  melhor no - interveio Hamlton. - O Dr. Aurlio ir sozinho. Manteremos contato todo o tempo.
     - Pensei em ir junto, mas manter-me incgnito. No pretendo aparecer para eles.
    - Mesmo assim, Renato. Voc se esquece de que essas entidades percebero sua presena e isso poder despertar suas suspeitas, inutilizando nosso esforo. Nesses 
casos precisamos seguir  risca a orientao dada. Controle sua ansiedade. Tudo acontecer na hora certa.
    Cilene juntou-se a eles e combinaram os detalhes. Aurlio viajaria no sbado pela manh e  tarde iria at a casa de Gabriela fingindo no saber que estavam 
ali. O resto ficaria por conta dos espritos.
    Naquela noite Renato no conseguiu dormir logo. A histria de Gabriela no lhe saa do pensamento. Hamlton dissera que ele tambm estava l. Pelo amor que sentia 
por Gabriela, ele s poderia ter sido Raul, o homem que ela havia amado.
    A esse pensamento, ele estremecia de emoo. Nesse caso, ela tambm o amara. Por que nunca notara nada? Ela o teria substitudo por Roberto?
    No, ele estava delirando. No podia ter sido Raul. Se o fosse, ela certamente teria demonstrado algum interesse. Se houvesse notado que ela o queria, no teria 
conseguido dominar a atrao que sempre sentira.
    Precisava perguntar para Hamlton se de fato ele havia sido Raul. Dominado por contraditrios sentimentos, finalmente adormeceu.
    Sonhou que estava parado em frente a uma pequena casa, cujo jardim cheio de flores o emocionou. Ele conhecia aquele lugar. Abriu o pequeno porto, subiu os degraus 
que o levavam  varanda e abriu a porta principal.
    Entrou. A sala era simples mas acolhedora. Renato sentia-se emocionado. Naquele momento uma jovem veio correndo ao seu encontro e abraou-o, beijando-lhe os 
lbios com amor.
    Era Gabriela. Um pouco diferente da que ele conhecia, mas ele sabia que era ela. Apertou-a de encontro ao peito, beijando-lhe os cabelos com carinho.
    - Estava esperando ansiosa para contar a novidade. Vamos ter um filho!
    Nesse momento, ele ouviu uma criana chorando enquanto alguns homens entravam na sala e o agrediam. Ele olhou em volta e viu seu corpo no cho enquanto Gabriela 
era levada aos gritos por aqueles homens.
    Tudo foi rpido. Ele tentou ver para onde eles haviam ido, porm no conseguiu. Viu-se perambulando solitrio e aflito por um lugar triste, sombrio, enquanto 
uma voz gritava:
    - Assassino! Assassino! Eu me vingarei.
    Renato acordou suando frio. Levantou-se, foi at a cozinha tomar gua. Agora no tinha mais dvida. Ele fora Raul. Gabriela o havia amado. E agora, depois de 
tudo, como estaria seu corao?
    Um dia se recordaria do amor que sentira por ele?
    Passou a mo pelos cabelos, nervoso. Mesmo que ela viesse a saber do passado e esse amor ainda estivesse dentro do seu corao, nunca poderiam ser felizes. A 
vida os havia separado. Ela estava casada, tinha filhos.
    Tambm havia Gioconda. Ela nunca lhes daria paz. Era intil sonhar. Precisava conformar-se em continuar esperando. Talvez, quando tudo estivesse nos devidos 
lugares, a vida lhes desse oportunidade de ficarem juntos usufruindo desse amor.

Captulo 24

     Roberto entrou desanimado no terreiro. Apesar de estar ganhando muito dinheiro na construo dos prdios, a situao em casa continuava difcil.
     Gabriela estava mudada. Desleixada, indiferente, passava o dia inteiro estendida no sof, a custo atendendo Nicete, que lhe pedia para ajudar com as crianas. 
Quando o fazia, demonstrava-se sem pacincia, desatenta, nervosa.
     Maria do Carmo e Guilherme mostravam-se irritados, brigavam por qualquer motivo, solicitando a interveno de Nicete.
     Hamlton havia telefonado para Nicete informando que estavam trabalhando em favor deles.
     Era para ter pacincia e esperar. Ela se esforava para manter tudo em ordem, porm muitas vezes sentia-se indisposta, cabea atordoada, corpo pesado, com sensao 
de desnimo. Nesses momentos, rezava, reagia.
     Roberto, no terreiro, olhou em volta do galpo, onde alm dos mdiuns estavam as pessoas para serem atendidas.
     - Vamos logo, Roberto. Voc est atrasado. Ns temos disciplina. Pai Jos no gosta que chegue tarde.
     Roberto dissimulou a contrariedade, entrou no meio dos outros prontos para o trabalho da noite. O batuque e os cantos comearam.
     Agora ele no perdia mais a conscincia. Seu corpo estremecia, ele rodava, depois comeava a falar. Sabia que era seu guia. Conforme lhe foi ensinado, fazia 
de tudo para no interferir, mas era difcil. No gostava de ficar de Lado observando enquanto algum dominava seu corpo.
     De repente uma mulher aproximou-se dele, dizendo:
     - Falei com Pai Jos e ele disse que voc vai me ajudar.
     - O que posso fazer por voc? - perguntou Roberto.
     - Vim pedir ajuda para meu marido. Ele tem outra mulher. Quer sair de casa para viver com ela, o ingrato. Quando era pobre, me valorizava. Depois que ficou 
rico, no sirvo mais. Eu quero que ele a deixe, mas tambm quero que sofra muito, que perca dinheiro.
     - Voc  casada com ele?
     -Sou.
     - Nesse caso voc vai perder tambm.
    -        No faz mal. Durante esses anos de casada fui guardando dinheiro. Tenho economias.
    Quero que Neumes perca tudo.
    Roberto sobressaltou-se:
    -        Voc disse Neumes? Por acaso seu nome  Antnio?
    -        Sim. Como sabe?
    -        Eu sei muitas coisas. O dinheiro dele  maldito. Foi roubado.
    -        Sim. Ele fugiu, deixou o scio na misria.
    -        A polcia esteve procurando-o.
    -        Ele mudou de nome. Abriu outro negcio em meu nome.
    - Ele precisa devolver ao antigo scio o dinheiro que roubou.
    -         voc quem ter de fazer isso. Ele nunca vai querer.
    - Aqui est escuro. V l fora, escreva o nome e o endereo dele e volte aqui.
    Ela foi e voltou em seguida. Roberto estava radiante. Finalmente iria conseguir vingar-se do ex-scio. Pegou o papel que ela entregou, prometeu ajud-la, encaminhou-a 
ao companheiro, explicou-lhe o que iria precisar para fazer o trabalho. Era ele quem estipulava o preo e a forma de pagamento.
    Depois que ela se foi, Roberto procurou Pai Jos e contou-lhe a novidade.
    -        Voc pediu, eu trouxe. Agora vamos faz-lo pagar por tudo.
    Roberto exultou. Finalmente teria de volta o que lhe fora roubado. Poderia reabrir seu negcio.
    -        Tenho o endereo dele. Vou at l cobrar o que me deve.
    - No precisa. Ele vai vir aqui. Vamos esperar a mulher trazer o dinheiro. Faremos o trabalho e tudo dar certo.
    No dia seguinte, Antnia levou o dinheiro e comearam a fazer o trabalho. Roberto s apareceu no salo quando estava escuro. Antnio foi colocada no meio da 
roda e eles comearam as rezas. Quando ela saiu, uma hora depois, pensava ter resolvido seus problemas.
    - Agora que ele j est amarrado, voc pode ir  casa dele - disse Pai Jos a Roberto. 
    Mas v prevenido, porque ele  traioeiro.
    - Isso eu sei. Pode deixar, sei o que fazer.
    Ele riu satisfeito. No dia seguinte telefonou para casa de Neumes e foi informado que ele s voltaria no fim da tarde.
    Apanhou o revlver que ficava na gaveta do vigia no prdio em construo, verificou que estava carregado e guardou-o no bolso.
    Eram quase seis horas quando Roberto tocou a campainha. Foi Neumes quem abriu aporta.
    Vendo-o, estremeceu e tentou fech-la. Roberto, porm, empurrou-a com fora e ele no conseguiu segur-la.
     -        Vim buscar o que me deve - disse com raiva.
     -        Eu no tenho dinheiro. Posso explicar o que houve.
     -        No precisa. Eu sei. Voc roubou todo o meu dinheiro e deixou todas as dvidas. Vai me pagar ou se arrepender.
     -        Espere a, vai ter que ter pacincia. No tenho dinheiro aqui comigo.
    Roberto sacou o revlver e ameaou:
     -        Voc me paga ou vai para o inferno agora.
     -        Est bem. No precisa nada disso. Todo dinheiro que eu tenho est no banco. Posso dar um cheque.
     -        No confio em voc. Pode querer me enganar. Vou ficar aqui. Amanh quando o banco abrir iremos juntos retirar o dinheiro. Pode ter certeza de que desta 
vez voc no me far de bobo.
     -        Faa como quiser. Mas, pelo amor de Deus, guarde essa arma. Antnia est para chegar.
     No quero que ela se assuste.
     -        Est bem. Mas a qualquer atitude suspeita, eu vou atirar. No facilite.
    Sentou-se no sof da sala. Neumes olhou-o temeroso. Aquele louco bem poderia atirar. Ele precisava se defender. Tentou ganhar tempo.
    - Precisa saber que estou arrependido. Aquele dinheiro no deu sorte. Se pudesse voltar atrs, nunca teria feito aquilo.
     -        Voc no sabe os problemas que eu tive por causa do que me fez. Comi o po que o diabo amassou, precisei fechar a loja, fiquei desempregado, cheio 
de dvidas. Minha me me atormentou, quase perdi minha mulher, sofri todas as humilhaes. Sinto vontade de acabar com voc agora mesmo.
     -        Acalme-se. J disse que estou arrependido e vou devolver tudo. Olhando o rosto plido de
     Neumes, Roberto teve vontade de esbofete-lo. Conteve-se. Depois que tivesse o dinheiro nas mos, lhe daria um bom corretivo. Ele merecia.
    Neumes viu o brilho rancoroso nos olhos de Roberto e pensou:
    "Ele quer acabar comigo. Tenho que sair desta."
    Antnia chegou e surpreendeu-se com a presen de Roberto. Passou pela sala e foi logo para a cozinha. Percebeu o que estava acontecendo. Bem feito! O trabalho 
do terreiro estava surtindo efeito. Agora ele teria de devolver tudo que havia roubado, ficaria sem dinheiro. Ela estava vingada!
    Tratou de fazer o jantar como sempre. Pretendia ficar fora daquela discusso. Quando a comida ficou pronta, foi at a sala onde os dois estavam calados, cada 
um sentado em um canto, e disse com naturalidade:
    - O jantar est pronto. Voc vai jantar conosco, no ?
    - No se preocupe comigo, Antnia. Lanchei antes de vir e no tenho fome. Podem ir comer.
    Neumes foi para a sala de jantar e ela colocou a comida na mesa. Ele estava calado. De repente, disse baixinho:
    - Converse comigo e faa de conta que eu estou aqui comendo. Vou ao escritrio e j volto.
    Ela deu de ombros e ficou calada. No pretendia ajud-lo em nada. Ele olhou para ela com raiva, levantou-se procurando no fazer rudo e foi ao escritrio que 
ficava ao lado. Rapidamente apanhou o revlver na gaveta da escrivaninha, colocou-o no bolso da cala e voltou  mesa de jantar.
    Assim que acabou de se sentar, Roberto apareceu na soleira. Vendo-os  mesa, resmungou:
-        O silncio estava me intrigando. Pensei que no estivessem ai.
     -        Voc deveria comer um pouco - disse Neumes com naturalidade.
    Roberto no respondeu. Voltou  sala e sentou-se novamente no sof. A noite ia custar a passar, mas ele agentaria. Se facilitasse, aquele malandro seria bem 
capaz de fugir. As horas foram passando. Antnia disse boa noite e foi dormir.
     -        Estou com sono comentou Neumes. Vou para o quarto dormir. Voc pode descansar no sof.
     -        Voc no vai a lugar nenhum. Vai ficar aqui no sof. Se est pensando em fugir, desista.
     No vou tirar os olhos de voc o resto da noite.
     Neumes dissimulou o rancor e fingiu aceitar.
     -        Est enganado. Desta vez no vou fugir. Mas, se prefere assim, ficarei aqui.
     O relgio marcava uma hora quando Neumes se levantou de repente, sacou o revlver e gritou:
     - Sabe de uma coisa? No vou pagar coisa nenhuma.
     Roberto, apanhado de surpresa, apanhou o revlver disposto a atirar, mas Neumes foi mais rpido e apertou o gatilho duas vezes, atingindo-o. Roberto ainda teve 
tempo de atirar, mas a bala perdeu-se na parede da sala e ele caiu em uma poa de sangue. Antnio acudiu apavorada e gritou:
     -        Voc o feriu. Meu Deus! Vamos chamar uma ambulncia. Mas era tarde. Roberto, olhos vidrados, exaurindo em sangue, perdeu os sentidos. Antnia, assustada, 
tornou:
     - E agora, o que vai ser de ns? Ele est morto!
     - Telefone para a polcia. Matei em legtima defesa. Ele invadiu nossa casa para me matar.
     Veja: ele atirou, e s no me matou porque fui mais rpido do que ele.
     No mesmo instante em que Antnia telefonava para a polcia, Gabriela acordou gritando apavorada. Nicete levantou-se e correu para socorr-la:
     -        D. Gabriela, o que foi?
     -        Nicete, um pesadelo horrvel. vi Roberto em uma poa de sangue e dois homens mal-encarados riam satisfeitos. Tenho medo deles. Roberto est em perigo.
     -        Acalme-se. Foi apenas um pesadelo. No aconteceu nada. Vou buscar um copo d'gua.
     Gabriela levantou-se e agarrou as mos dela com fora.
     -        No quero ficar sozinha. Por favor, Nicete, fique comigo. Onde est Roberto?
     Nicete foi forada a dizer que ele no voltara para casa ainda.
     -        Est vendo? Eu tenho certeza de que alguma coisa aconteceu. Por favor, ajude-me.
     -        Vamos  cozinha. Tente se acalmar. As crianas esto dormindo e podem se assustar.
     Ela obedeceu. Seu corpo tremia como se estivesse com frio. Nicete pegou um xale e jogou-o em seus ombros. Na cozinha, f-la sentar-se e disse:
     -        Vou fazer um ch de cidreira. A senhora vai tomar bem quentinho. Precisa reagir. Vai ver que logo mais o Sr. Roberto estar em casa. No aconteceu 
nada.
     Mas o dia clareou e ele no apareceu. A medida que o tempo passava, Nicete dissimulava a preocupao. Roberto no era homem de dormir fora de casa. Alguma coisa 
podia mesmo ter acontecido.
     Passava das cinco da tarde quando o telefone tocou e a informao chegou. Roberto havia sido assassinado. Nicete sentiu a cabea rodar, mas controlou-se. Deu 
todas as informaes que a polcia pediu. Quando desligou o telefone, no soube o que fazer.
     Como dar aquela notcia  famlia? Sentiu o peito oprimido, falta de ar. Abriu a porta e saiu  rua para respirar um pouco e acalmar-se. Estava parada no porto 
quando um homem se aproximou dizendo:
     -        Voc  Nicete, no ? Eu a conheo. Aqui  a casa de Roberto e Gabriela?
     Ela fitou-o surpreendida. Ele se apresentou:
     -        Eu sou o Dr. Aurlio, amigo da famlia.
       - Agora o estou reconhecendo. Doutor, foi Deus quem o mandou aqui. Estou desesperada.
       Inteirado do ocorrido, Aurlio abraou-a, dizendo:
       - Quem tem f est amparado. Vamos entrar. Podem contar comigo. Acalme-se.
       - Tenho que dar esta notcia! J pensou? As crianas vo sofrer!
       Pobre do Seu Roberto, no merecia esse fim.
       - Vamos pedir a Deus que nos ajude. Precisamos de serenidade.
       Procure controlar-se.
       Eles entraram. Gabriela, vendo-o, correu a abra-lo, dizendo emocionada:
       - Dr. Aurlio, o senhor aqui? Aconteceu alguma coisa a Roberto?
       Ele no veio dormir em casa. Esta noite tive um pesadelo terrvel!
       Ele a abraou, dizendo a Nicete:
       - Cuide das crianas. Ns vamos conversar na sala.
       Nicete indicou o caminho. Ele tomou Gabriela pelo brao, conduziu-a ao sof e sentou-se a seu lado. Ela passou a mo pela testa, dizendo admirada:
       Estou me sentindo estranha. De repente parece-me ter acordado de um longo sono.  difcil explicar.
       - No  preciso tanto. Eu deveria dizer-lhe que cheguei at aqui por acaso. Contudo, diante do que aconteceu, tenho que lhe dizer a verdade. Vim a pedido 
de Cilene e Hamlton seguindo uma orientao espiritual.  preciso que tenha calma para ouvir o que tenho a dizer.
       - O que ? No tenho andado bem. Minha cabea tem estado pesada, no conseguia pensar com clareza. Sinto-me deprimida, fraca, sem prazer de viver. De repente 
perdi a vontade de lutar.
       - Voc precisa reagir. Tem dois filhos que dependem de voc. Depois, ainda  moa, ter muitos anos pela frente. Acontea o que acontecer, no pode se deixar 
abater. E uma mulher forte e inteligente.
       - Por que est me dizendo tudo isso? Tenho um triste pressentimento. Onde est Roberto?
       - Ele se envolveu em uma briga. Descobriu onde morava o ex-scio, armou-se e foi procur-lo. Parece que ficou ferido.
       Gabriela levantou-se sobressaltada:
       De novo?  grave?
       - . Pode ter acontecido o pior.
       - Eu sinto que j aconteceu... Ele est... - ela no conseguiu terminar.
       - Est morto, Gabriela.
    Ela se deixou cair no sof novamente e no conseguiu articular nenhuma palavra. Aurlio foi  cozinha, apanhou um copo de gua com acar e deu-o a ela, dizendo:
    - Vamos, beba. Voc precisa ser forte. Teremos que falar com as crianas.
    Ela segurou o copo. Suas mos tremiam tanto que Aurlio a ajudou. Ela tomou alguns goles, depois disse:
    - Eu sempre pedi a Roberto que o perdoasse. Infelizmente ele nunca esqueceu. Como foi que aconteceu?
    -        Ainda no sabemos os detalhes. A polcia ligou para dar a notcia. Nicete conversou com eles.
    - Meu Deus! O que faremos agora.
    -        Estou aqui para ajud-la.
    A campainha tocou e logo Nicete apareceu na sala, dizendo:
    - H um policial a. Quer conversar com a senhora.
    -        Mande-o entrar disse Aurlio.
    As crianas apareceram assustadas e correram a abraar a me, perguntando pelo pai:
    -        Ele foi ferido de novo? disse Guilherme.
    -        Est no hospital? tornou Maria do Carmo.
    Gabriela abraou-os dizendo triste:
    - Infelizmente ele est muito mal. - Vendo que o policial entrava com Nicete, pediu: - Vo com Nicete, que preciso conversar com este senhor.
-        Eu quero ficar, me - reclamou Guilherme. Eu tambm - completou Maria do Carmo.
    Nicete abraou-os, dizendo:
    - Venham, sua me precisa conversar com este senhor.
    -         verdade - esclareceu Gabriela. Assim que terminarmos, contarei tudo a vocs, eu prometo.
    O policial estava constrangido. Sua misso no era nada fcil. Aurlio apresentou-se, pediu-lhe que se sentasse.
    - Preferimos dar essas notcias pessoalmente. Mas, como foi a empregada quem atendeu, adiantamos o assunto. A senhora j sabe o que aconteceu.
Gabriela concordou com a cabea. Aurlio pediu:
- Gostaramos de saber como foi.
    -        O assassino est detido na delegacia. Ele nos esclareceu que foi scio da vtima, que se desentenderam e ele foi procur-lo armado, disposto a mat-lo. 
Alegou que atirou em legtima defesa.
    -        Ele roubou meu marido e fugiu. Por causa disso perdemos a loja, ficamos sem nada. Meu marido esteve desempregado. Foi muito difcil.
    -        Ele no lhe disse o que pretendia fazer?
    -        No. Eu no sabia que ele havia encontrado Neumes. Se eu soubesse, teria feito tudo para evitar a briga.
    - Ele foi armado  casa do desafeto e tentou atirar, mas a bala se perdeu. O outro foi mais rpido. Quando chegamos, no havia nada a fazer.
    Gabriela chorava trmula e o policial comentou:
    -        As pessoas no entendem que a violncia no resolve nenhum problema. Vocs tm filhos, pelo que observei.
    - Dois menores, O que faremos agora?
    -        Sinto muito, senhora. Geralmente a famlia  a maior vtima. Compreendo sua dor, mas vamos precisar de sua presena na delegacia para reconhecer o corpo.
    Gabriela levantou-se assustada. Aurlio interveio:
    - Ela ir prestar declaraes. Eu sou amigo da famlia e a vtima era meu cliente. Eu mesmo farei o reconhecimento.
    - Est bem. Gostaria que nos acompanhasse agora.
    -        Ela est muito chocada. Poderemos deixar para amanh?
    O        policial pensou um pouco, depois tornou:
    -        Agora j  noite mesmo. Podem ir amanh cedo.
    O        policial despediu-se depois de anotar algumas informaes. Gabriela estava trmula. As crianas abraaram-na aflitas.
    Aurlio aproximou-se deles, dizendo:
    -        Sentem-se aqui do meu lado. Vou contar-lhes tudo.
    Gabriela olhou preocupada para ele, mas o mdico considerou:
    -        A verdade sempre  melhor.
    Nicete, no canto da sala, no conseguia impedir que as lgrimas lhe descessem pelas faces enquanto Gabriela torcia as mos angustiada.
    Aurlio colocou um de cada lado, segurou as mos deles e com voz calma contou a histria do desfalque e da briga entre seu pai e Neumes. Eles ouviam sem perder 
nenhuma palavra, olhos emocionados mas esforando-se para manter o controle. Aurlio finalizou:
    -        O pai de vocs perdeu.
    - Ele j esteve muito mal, vai se recuperar - disse Maria do Carmo.
    -        No, minha filha. Infelizmente essa briga ele perdeu. E j partiu.
    Guilherme, olhos marejados, disse emocionado:
    -        Quer dizer que ele est...
    - Sim. Ele se foi para outro mundo. A morte  como uma viagem. O corpo morre, mas o esprito continua vivo, conserva seu corpo astral e esse corpo  prprio 
para viver nesse mundo para onde ele foi.
    - Ele no vai voltar mais? - indagou Maria do Carmo chorosa.
    - Voc sabe que todos ns um dia tambm faremos essa viagem. Ento, l, encontraremos com aqueles que amamos e que partiram antes de ns. E preciso ter pacincia 
e esperar a hora de ir para l. Enquanto isso, vocs precisam ajudar sua me a enfrentar a nova situao.
    Eles se levantaram e abraaram a me, beijando-a com carinho, como a dizer que eles estavam juntos para enfrentar e decidir os destinos da famlia.
    Nicete aproximou-se de Aurlio, dizendo emocionada:
    - Foi Deus mesmo que o enviou. No sei o que teria sido de ns sem a sua ajuda.
    - Gabriela est muito plida. Preciso que v  farmcia buscar alguns medicamentos. Ela precisa descansar. O dia amanh ser exaustivo.
    Ele fez anotaes no receiturio e ela saiu em busca dos remdios. Aurlio conversou com os trs, procurando ajud-los. As crianas fizeram perguntas. Queriam 
saber como era o mundo para onde o pai estava indo, como se vivia l.
    Aurlio havia lido muito a respeito do astral, mas, apesar de ficar muito interessado, questionava sua veracidade. Entretanto, depois da sesso no centro com 
Hamlton e de como os fatos estavam se desenrolando, todas as suas dvidas haviam sido dissipadas.
    Agora, tinha certeza de que ele fora mesmo enviado para fazer aquele trabalho. Os espritos sabiam o que iria acontecer com Roberto e mandaram-no para socorrer 
a famlia. Sentia-se agradecido a Deus, emocionado por estar sendo um instrumento da vontade divina.
    Com essa certeza no corao, conversou com as crianas contando o que ele sabia sobre a vida nas outras dimenses. Olhando seus rostinhos confiantes, emocionados, 
Aurlio sentiu que dali para a frente daria novo sentido  sua vida. Ser instrumento dos espritos de luz era gratificante, fazendo-o sentir-se til, realizado.
    Quando Nicete retornou, pediu-lhe que fizesse uma sopa substanciosa e conseguiu que cada um tomasse um pouco. Depois ministrou um calmante a Gabriela e s saiu 
de seu lado quando a viu adormecer.
    As crianas dormiram abraadas a Nicete, que no as largou em nenhum momento. A casa estava em silncio e Aurlio telefonou para Hamlton. Foi com emoo que 
o colocou a par dos acontecimentos, pedindo-lhe que continuassem orando por eles.
    Ligou tambm para Renato. Sabia que ele estava ansioso. Contou o que havia acontecido, ao que ele tornou:
    - Vou imediatamente para a. Vocs precisam de ajuda.
    - Estou conseguindo controlar a situao. Confesso que estou emocionado e agradecido a Deus por ter me dado esta misso. Gostaria que viesse, mas quero lembrar 
que prometemos fazer tudo de acordo com as instrues dos espritos. Antes de decidir, ser melhor falar com Hamlton. Ele j est sabendo de tudo.
    - Est bem. Eles nos aconselharo sobre o que ser melhor.
    Renato desligou o telefone com o corao batendo forte. O que iria acontecer agora? Gabriela continuaria morando no Rio? No seria melhor a famlia voltar a 
So Paulo? Mil perguntas passavam pela sua mente.
    Como ela reagiria  morte do marido? Ela o amava e deveria estar sofrendo muito. Se ao menos ele pudesse aliviar aquele sofrimento! Pensou nas crianas. Eles 
tinham quase a mesma idade dos seus filhos. Como estariam? Pensou em Roberto e sentiu-se penalizado. E se fosse ele que tivesse partido, como seus filhos ficariam?
    Passava da meia-noite, e Renato resolveu esperar pela manh seguinte para conversar com Hamlton. Deitou-se, mas foi difcil pegar no sono.
    Pensava no destino de Roberto, que, tendo conseguido escapar da morte pelas mos de Gioconda, havia encontrado o fim atravs de outra pessoa. Ele estaria destinado 
a morrer assassinado?
    No encontrava resposta, mas de certa forma sentia-se aliviado por Gioconda no haver sido a assassina. Apesar de suas fraquezas, ela fora poupada de perpetrar 
aquele crime.
    O dia estava clareando quando ele conseguiu adormecer. Acordou duas horas depois, levantando-se apressado. Eram sete horas. Precisava ir ao escritrio tomar 
providncias para o caso de ter de se ausentar.
    Ele desejava ir imediatamente para o Rio, mas decidiu falar com Hamlton, avisando-o.
    Enquanto ele se preparava para sair, Hamlton ligou.
    - Eu e Cilene estamos indo para o Rio - informou ele.
    - Eu tambm vou - disse Renato.
    - Nesse caso iremos juntos.
    - Vou passar no escritrio e dentro de uma hora estarei no aeroporto. Encontro-os l.
    Passava das onze horas quando os trs chegaram em casa de Gabriela. Nicete atendeu-os avisando que Aurlio e Gabriela haviam ido  delegacia. Os trs dirigiram-se 
imediatamente para l.
Ela estava prestando declaraes em uma sala reservada, e os trs ficaram esperando. Meia hora depois, Gabriela e Aurlio apareceram. Vendo-os, ela se emocionou.
    Eles mal conseguiram falar. Foi Aurlio quem informou:
    - Vamos precisar de um advogado. H providncias que s ele poder tomar.
    - Vou ligar para o Dr. Altino. Ele vir imediatamente.
    - timo. Foi bom terem chegado. Podero levar Gabriela para casa. Terei que ir fazer o reconhecimento do corpo.
    -        Irei com voc - disse Hamlton.
    -        Eu tambm. Desejo ajudar nas providncias para o sepultamento - tornou Renato.
    -  melhor voc ficar com elas. Agora s vamos reconhecer o corpo, saber quando estar liberado. Voc sabe, s vezes eles demoram. Assim que tivermos as informaes, 
voltaremos e ento providenciaremos o resto.
    Gabriela, Cilene e Renato foram para casa. Gabriela estava abatida, calada. Cilene, vendo o ar preocupado de Renato, disse-lhe baixinho:
    -        Ela est sob efeito de um calmante forte que o Dr. Aurlio lhe deu. Renato no respondeu. Estava chocado com sua magreza e abatimento. Gabriela estava 
muito diferente da moa bonita que sempre fora.
    Sentia que ela precisaria de um bom tratamento a fim de recuperar a sade. Falaria com Aurlio para que ela fizesse todos os exames necessrios.
    Uma vez em casa, Cilene pediu a Gabriela que fosse dormir um pouco. Ela, porm, recusou.
    Estava preocupada com as crianas, no desejava separar-se delas nem para ir dormir.
    Nicete havia servido o almoo para as crianas e insistiu para que Gabriela comesse um pouco. Ela no quis. Finalmente, Cilene convenceu-a a ir com os filhos 
para o quarto descansar.
    Nicete havia preparado mais comida e convidou-os a comer um pouco.
    - No se preocupe conosco, Nicete. Iremos a algum restaurante. Eu fiz bastante comida, Dr.
    - Renato.
        -        No queremos lhe dar trabalho interveio Cilene. Fiz com prazer. Depois, eu precisava me ocupar. Fiz as crianas me ajudarem para que se distrassem.
       - Nesse caso vamos aceitar - respondeu Renato.
    No fim da tarde, Hamilton e Aurlio voltaram. Gabriela e as crianas ainda estavam descansando. Eles se reuniram na sala para decidir o que fazer.
    Aurlio esclareceu:
    -        Gabriela contou ao delegado toda a histria da sociedade de Neumes com Roberto e o que aconteceu depois. Ela no sabia que o marido havia encontrado 
o ex-scio. Neumes ficar detido at o delegado terminar o inqurito. Porm, devido aos antecedentes do caso, o prprio delegado nos aconselhou a arranjar um bom 
advogado para pleitear a devoluo de tudo que Neumes roubou. Ser uma forma de amparar a viva e os filhos.
    -         justo - concordou Hamlton.
    -        J liguei para o Dr. Altino. Amanh cedo ele estar aqui. Eu acompanhei os problemas da famlia por causa desse roubo. Alm disso, Neumes tirou a vida 
de Roberto. A justia tem que ser feita. Ele ter que devolver tudo com correo.
    -        Ser que ele ainda tem esse dinheiro? Pode ter gastado tudo.
    - O delegado acha que tem. Mora em uma bela casa, com luxo, Parece que tem um negcio tambm- esclareceu Aurlio.
    Eles continuaram conversando, procurando encontrar o melhor meio de ajudar aquela famlia a enfrentar os desafios do momento. Apesar da situao trgica, um 
pensamento unia-os em um sentimento de harmonia e paz. Estavam amparados pelos amigos espirituais e pela misericrdia divina, que nunca desampara ningum.
    Em seus coraes guardavam a certeza de que tudo aconteceria pelo melhor.

Captulo 25

     Gabriela colocou as malas no quarto, olhando em volta com tristeza. Se a situao fosse diferente, ela teria procurado outra casa para morar. Fazia trs meses 
que Roberto se fora, e ela precisava economizar.
     Na pressa de ir embora para o Rio de Janeiro, Roberto havia alugado a casa para um militar amigo por preo irrisrio. Quando ele morreu, a famlia ainda estava 
morando l, porm, no ltimo ms, o militar fora transferido para o nordeste e havia se mudado.
     Gabriela ficara morando no Rio esperando a deciso da justia na cobrana do dinheiro que Neumes havia roubado. Em seu depoimento, Antnia contou como ele dera 
o desfalque e onde estava o dinheiro.
     Apesar da tese de legtima defesa que seu advogado defendera, pedindo que ele, por ser primrio, esperasse o julgamento em liberdade, Neumes no conseguiu sair 
livre por causa dos antecedentes do caso.
     O juiz no o deixou em liberdade, alegando que ele havia fugido do scio uma vez e que poderia fugir novamente. Por isso teve decretada a priso preventiva.
     Neumes ficou arrasado. Sua mulher, cheia de raiva por causa de Jurema, desejava que ele mofasse na priso. Por isso, ele e seu advogado conversaram com Altino 
tentando um acordo.
     Neumes devolveria a Gabriela o dinheiro de Roberto e ela retiraria a queixa do desfalque.
     Aconselhada por Altino, Gabriela concordou. Aquele dinheiro a ajudaria a manter a famlia.
     Pretendia procurar emprego, porm ainda no se sentia bem. Os exames revelavam que estava com profunda anemia. Precisava tratar-se.
     Depois, as crianas estavam na escola e no podiam perder o ano. Na verdade, ela desejava voltar a morar em So Paulo. Seus parentes moravam no interior, e 
assim ficaria mais prxima a eles.
     Neumes conseguiu liberar o dinheiro e Gabriela, a conselho de seu advogado, deixou uma parte para as despesas da casa e aplicou o restante. Precisava pensar 
no que fazer com ele. Sentia-se aturdida, sua cabea ainda estava conturbada, no conseguia pensar com clareza como antigamente.
     Quando sua casa em So Paulo ficou vaga, ela se mudou imediatamente. As crianas haviam terminado o ano letivo.
     Rever a casa onde vivera com o marido a fez recordar o passado, porm reagiu. Pensou em pint-la, mudar algumas coisas, para apagar as lembranas. A vida continuava 
e ela no desejava olhar para trs.
     Sacudiu os ombros como que para jogar fora todas as tristes recordaes e tratou logo de ajudar Nicete a acomodar as coisas. Notando que as crianas estavam 
tristes, chamou-as dizendo com voz firme:
     -        Esta casa para ns est cheia de recordaes. Mas o que passou acabou e no volta mais.
     Vamos guardar em nossas lembranas todas as coisas boas daqueles tempos. Ns amamos seu pai e desejamos que ele seja muito feliz nesse mundo para o qual ele 
se mudou. Mas se ficarmos tristes ele tambm ficar. Ele tem o direito de ser feliz e ns tambm. Por isso, de hoje em diante, nesta casa faremos o possvel para 
conservar a alegria. Vamos cooperar com ele. Vendo-nos alegres, ele se sentir feliz.
     Eles concordaram com a cabea, e Gabriela continuou:
     -        Agora vamos trabalhar. Precisamos arrumar tudo no lugar. Pretendo reformar a casa.
     Comecem a planejar como querem o quarto. O resto da casa  por minha conta, mas cada um vai escolher como quer seu quarto.
     Diante da novidade, os dois se entusiasmaram e comearam a planejar as mudanas. Vendo-os trabalhando na arrumao e planejando o futuro, Nicete no se conteve:
     -        Foi a melhor coisa que poderia ter feito. Eles esto muito melhor.
     -        Eu disse a verdade. Nossa vida mudou e temos que aceitar com boa vontade.
     Trabalharam o dia inteiro, e Nicete, que havia ido s compras no fim da tarde, preparou o lanche. As crianas estavam cansadas e dormiram logo. Nicete e Gabriela 
continuaram a colocar as roupas no lugar.
     -        Amanh irei ao mercado. A senhora tem que se alimentar muito bem. No pode viver de lanche.
     -        Estou bem nutrida. Na prxima semana farei novos exames e, se o Dr. Aurlio me liberar, comearei a procurar trabalho.
     -        Pretende voltar  empresa do Dr. Renato?
     Ela hesitou um pouco, depois respondeu:
     -        No sei. Ele sempre foi muito bom. Mas h sua mulher. Tremo s em pensar que ela pode perturbar nossa vida de novo.
     -        Eles esto separados desde quando ela atirou no Seu Roberto. Ele me disse.
     Gabriela parou um instante, pensativa, depois respondeu:
     -        Ele  uma boa pessoa. Merecia coisa melhor.
     - Com a senhora ele tem sido muito dedicado. Quando soube da morte do Seu Roberto, largou tudo e foi dar apoio  famlia. Pagou todas as despesas. Sabe como 
, naquela hora ficamos perdidos, sem saber o que fazer.
     - De fato, ele nos ajudou muito. Pedi ao Dr. Altino que fizesse um levantamento de tudo quanto ele e o Dr. Aurlio gastaram, para devolver. Felizmente temos 
dinheiro para pagar.
    -        Isso me deixou pensando. Deus fecha uma porta mas abre outra. J pensou se esse dinheiro no tivesse voltado?
    -        Tem razo. Reconheo que apesar de tudo tivemos muita ajuda espiritual. Na prxima semana pretendo ir ao centro falar com Cilene, ver o que me aconselha.
    -        Eu gostaria de ir tambm. No esqueo que, quando recebi a notcia da morte do Seu Roberto, fiquei sem flego. Faltou o ar, eu no sabia como lhes contar.. 
Sa para a rua tentando respirar melhor e l, como num passe de mgica, encontrei o Dr. Aurlio. Nunca esquecerei esse milagre.
    -        Abenoada hora em que ele apareceu naquele dia. Eu estava em estado de choque. Sabe, Nicete, h momentos em que me parece estar acordando de um pesadelo. 
As vezes no consigo me lembrar do que fiz neste ltimo ano. Isso me intriga.
       Ouvi o Seu Hamlton dizer que, enquanto morvamos no Rio, eles aqui sabiam que as coisas no estavam bem. O Dr. Aurlio foi at l naquele dia a pedido deles.
    -        Tem certeza?
    - Tenho. Ele e o Dr. Renato iam ao centro rezar por todos ns. De fato, as coisas naquele tempo andavam muito mudadas. A senhora estava diferente, estranha. 
O Seu Roberto freqentava um terreiro e voltava de madrugada.
    - Roberto? Tem certeza? Nunca notei.
    -        Eu lavei muita roupa branca dele.
    -        Por que nunca me disse nada?
    -        A senhora no conversava mais. Andava sempre com sono, cansada. Pensei que soubesse.
    Gabriela ficou pensativa. Roberto nunca fora dado a religio. Mas Nicete no costumava mentir.
    -        O que teria ele ido fazer em um terreiro?
-        Eu acho que ele trabalhava l. Ia trs vezes por semana. Trabalhava como?
    -        Isso no sei. Mas ele mudou muito nos ltimos tempos. A senhora no percebeu?
    -        No. Para dizer a verdade, tudo ainda me parece um sonho. E como se eu tivesse me tornado outra pessoa.
    Nicete sacudiu a cabea, pensativa:
    -        O que aconteceu tambm me parece estranho. De repente tudo mudou. As crianas ficaram diferentes, a senhora, o Seu Roberto, tudo. At parece macumba. 
Seria bom a senhora conversar com o Seu Hamlton. Desconfio que ele pode explicar muitas coisas.
    -        . Tambm acho.
    Naquela noite, deitada em seu quarto, apesar de cansada, Gabriela no conseguia esquecer sua conversa com Nicete. De fato, depois que Roberto se recuperara do 
ferimento, ela comeara a se sentir mal. Seu comportamento se modificara. Havia um detalhe que a intrigava. De repente, sentira aumentar seu desejo sexual de maneira 
insacivel.
    Mesmo durante o dia, quando Roberto no estava, ela se sentia excitada tendo pensamentos erticos esperando ansiosamente o momento de ir para a cama com o marido.
    Seu relacionamento sexual com Roberto havia sido satisfatrio nos primeiros anos de casamento. Depois, seu interesse por ele diminura por causa do excessivo 
cime e da desconfiana que ele demonstrava. Quando descobriu que ele fora o autor do desfalque, percebeu que no podia mais viver ao lado dele.
    Havia planejado que, quando ele se recuperasse do ferimento, iria pedir a separao. No o amava mais. Sempre que ele a tocava, sentia repulsa.
    Gabriela sentou-se na cama assustada. Lembrava-se perfeitamente desse fato. Como explicar seu sbito interesse sexual pelo marido? Como entender essa paixo 
repentina que nunca conseguia saciar completamente?
    Sempre fora pessoa equilibrada. Nunca se sentira arrastada por um desejo que no conseguisse dominar. Reconhecia que era sensata. O que havia acontecido com 
ela?
    Sentiu-se oprimida. Levantou-se, foi  cozinha e tomou um copo de gua. Havia ali um mistrio que precisava decifrar. A ida de Roberto ao terreiro teria alguma 
coisa a ver com isso?
    Passou a mo pelos cabelos, pensativa. Talvez estivesse exagerando. Ela comeara a sentir isso antes de se mudarem para o Rio. A no ser que...
    - No pode ser. Ele no seria capaz de uma coisa dessas!
    Depois, no acreditava em macumba. Isso era crendice. Foi para o quarto e deitou-se. Tentou dormir, mas no conseguiu. Lembrou-se de que Roberto havia sido capaz 
de faz-la passar por ladra sem nenhum pudor. Quem fora capaz disso bem que poderia ter se valido de magia para domin-la. Ele no desejava a separao. Pressentia 
que ela pensava em deix-lo.
    Apesar das dvidas, sentia que de alguma forma ele havia se utilizado da ajuda dos espritos do mal para conseguir o que queria.
    Lgrimas desceram-lhe pelas faces. Um sentimento de tristeza a acometeu:
    - Por que Deus permitiu isso? No era justo. Sempre fui esposa dedicada, fiel, cumpridora das minhas responsabilidades. Por que fui to castigada?
    Sentia-se impotente, invadida, usada. Naquele momento, alguma coisa dentro dela se rebelou.
    Tinha o direito de se defender da maldade dos outros. No se sentia culpada de nada, no merecia ser manipulada daquele jeito.
    Sentou-se novamente na cama, cerrou os punhos e disse em voz alta:
    - Eu sou boa e forte. Ningum vai me dominar ou destruir. Vou reagir, refazer minha vida, ser feliz. Eu mereo. Amanh mesmo falarei com Hamlton para esclarecer 
esses fatos. Tenho de saber que foras so essas que nos dominaram e como conseguiram fazer isso.
    Deitou-se novamente e sentiu-se mais calma. Ajeitou-se na cama e em seguida adormeceu.
    No viu que um vulto de mulher a abraava com satisfao, dizendo para seu acompanhante:
    - Felizmente ela comeou a reagir. Agora poderemos ajud-la a se libertar.
    Depois de beijarem sua testa com carinho, os dois se afastaram rapidamente.
    No dia seguinte, Gabriela acordou mais disposta. Apesar de ter muitas coisas para fazer, ligou para Hamlton pedindo que a atendesse naquela noite mesmo.
    No fim da tarde, antes de sair, Gabriela chamou Nicete, dizendo:
    - Estou indo ao centro falar com Hamlton. Direi que voc tambm quer freqentar. Ficarei com as crianas para voc ir.
    - Obrigada.  o que mais quero.
    Gabriela chegou ao centro pouco antes da hora marcada e na porta encontrou-se com Renato.
    - Como vai, Gabriela? - perguntou ele.
    - Melhor. Aos poucos estou me recuperando.
    - Fico feliz. Estivemos preocupados com vocs.
    - Nicete contou-me que vocs rezavam por ns mesmo quando no sabiam onde estvamos.
    Os olhos de Renato brilharam emocionados. Ele se esforou para controlar-se. No queria que ela descobrisse o que sentia.
    -        Eu sabia que vocs no estavam bem.
    -        Hamlton disse alguma coisa?
    - Sonhei algumas vezes com voc muito triste pedindo-me que a libertasse. Sem saber o que fazer, procurei Hamlton. Ele fez uma consulta e soube que vocs precisavam 
de ajuda. Orientados pelos amigos espirituais, fizemos nossas oraes.
    -  verdade que o Dr. Aurlio foi ao Rio naquela tarde a pedido dos espritos?
    -        . Nicete havia ligado para o centro pedindo ajuda. Assim conseguimos o endereo. Eu estava to preocupado que desejava ir logo. Porm eles disseram 
que s Aurlio deveria ir. Marcaram at o dia.
    Gabriela comoveu-se.
    -        Ento  verdade! Ele no estava l por acaso...
    -        Ele foi sem saber o que teria de fazer. No nos disseram nada. Foi uma surpresa terrvel.
    - . Foi terrvel mesmo. Mas passou. Estou disposta a recomear minha vida. Tenho dois filhos para criar.
    -        Estou  sua disposio para o que precisar.
    Ela olhou sria para ele e respondeu:
    -        Voc tem sido um bom amigo. Nem sei como agradecer.
    Ele baixou a cabea para esconder o brilho emocionado do seu olhar.
    Ela hesitou um pouco, depois perguntou:
    - Como esto as coisas em sua casa?
    - Esto bem, dentro do possvel. Gioconda ainda est em tratamento psiquitrico. Tem se mostrado muito resistente. Mas, quando ela abusa, Altino lhe diz que 
se continuar assim os mdicos a mandaro de volta ao sanatrio, ento ela melhora um pouco.
    -        E as crianas?
    -        Esto morando com ela. Graas a Aurlio conseguimos uma governanta maravilhosa, que cuida de tudo. Conversa com as crianas explicando a doena da me, 
pedindo que cooperem no tratamento,  firme com Gioconda mas muito bondosa. Clia tem melhorado bastante. Est mais socivel, alegre. Ambos adoram Clara.
    Voc no pensa em voltar a viver com a famlia?
    - No. Minha vida com Gioconda tornou-se impossvel.  difcil continuar junto quando o amor acaba.
    Gabriela pensou em Roberto e considerou:
    - Sei como  isso.
    Renato fitou-a curioso, querendo penetrar seus pensamentos ntimos. Mas Gabriela lembrou:
     - Vamos entrar. Est na hora.
     Hamlton esperava-os na porta da sala de reunies. Vendo-os, abraou-os e depois dos cumprimentos disse a Gabriela:
     - Foi bom ter vindo. Hoje  dia da sesso que fazemos para tratar do seu caso.
     - No sabia. Eu vim porque fiquei sabendo de algumas particularidades. Desejo conversar com voc.
     - Ns conversaremos depois da reunio. Agora est na hora de comear.
     Entraram na sala em penumbra e Gabriela viu que, alm de Cilene, Aurlio tambm estava presente. Sentou-se no lugar que lhe foi indicado.
     Ao som de uma msica suave, Cilene fez ligeira prece, abrindo os trabalhos. Depois pediu orientao para o caso em tratamento e solicitou que as pessoas presentes 
continuassem orando em silncio.
     Gabriela sentiu que uma brisa suave a envolveu e comovida no conteve as lgrimas. As indagaes que vinha fazendo desde a noite anterior reapareceram e ela 
se perguntava por que estava sendo castigada se no havia feito nada errado.
     De sbito, uma mdium comeou a falar:
     - Sinto-me feliz por poder abra-los e desejo que continuem orando em favor daquele que partiu. Infelizmente no pudemos evitar que a tragdia se consumasse. 
Vrias vezes tentamos fazer com que ele sasse da faixa negativa, sem conseguir. Ele j tinha conhecimento para enxergar a vida de outra forma. Contudo, levado pela 
iluso de que sozinho no conseguiria viver, procurou ajuda de espritos vingativos e perigosos para alcanar seus fins. Comprometeu-se com eles, passando a servi-los. 
A essa altura, nada nos restava fazer seno deixar que ele assumisse os resultados de suas escolhas. Os outros envolvidos haviam cumprido a parte que lhes cabia 
e agora devem seguir separados dele.
     Todavia, o que parece a vocs uma tragdia pelos sofrimentos que provocou representou a nica ajuda possvel. Arcando com os resultados de suas atitudes insensatas, 
ele aprender as lies necessrias. A felicidade  conquista que compete a cada um, e os desafios quando enfrentados acabam por demonstrar o quanto somos fortes 
e capazes.
     Educado de forma errada, valorizando as aparncias, comparando-se com valores convencionais e ilusrios, ele se julgava menos que os outros. Sentia-se incapaz 
e, para compensar, gostava de dominar as pessoas que amava, pensando com isso ficar forte e protegido. Perder esse apoio representava olhar para si mesmo, e isso 
ele no poderia suportar, uma vez que se via como uma pessoa inferior.
     Enfrentando a responsabilidade de suas escolhas, ele ter que fazer uso do grande potencial da fora que possui mas da qual no se dava conta. Dessa forma, 
saber o quanto  forte, valoroso, sair dessa experincia amadurecido, sentindo-se mais confiante e capaz.
    Por isso no lamentem o que aconteceu. O que partiu est sendo beneficiado pela experincia, e os que ficaram devem dar por encerrada uma etapa, seguir adiante 
sem olhar para trs, confiantes de que tudo est certo e dias melhores viro.
    O        silncio se fez e Hamlton aproveitou para indagar:
    - Podemos dar por encerrado o atendimento deste caso?
    -        Em parte. No precisaremos mais de reunies especiais. A ligao com as entidades perturbadoras foi cortada. Entretanto, h que ser feita toda uma recuperao 
energtica para as pessoas da casa, inclusive as crianas.
     -        Algum tratamento especfico?
     - Para as duas mulheres, alm do tratamento de rotina, um pouco das luzes da cromoterapia.
     Hamlton agradeceu a ajuda. Permaneceram silenciosos durante algum tempo, depois ele encerrou a reunio.
     Quando as luzes se acenderam, depois de os participantes tomarem um pouco de gua fluida, Hamlton aproximou-se de Gabriela:
     -        Sente-se melhor?
     - Sinto-me mais leve. Porm minha cabea ainda no est normal. Vamos conversar na outra sala.
     Renato aproximou-se com Aurlio e props:
     - Estamos com fome. Queremos convid-los a comer alguma coisa. Depois os levaremos em casa.
     Gabriela olhou-os um pouco indecisa. Cilene, que se juntara a eles, foi quem respondeu:
     -        Aceitamos,  claro. Eu estava pensando nisso.
     -        Vou conversar um pouco com Gabriela, tero que esperar - disse Hamlton.
     -        Esperamos, desde que voc tambm nos acompanhe - interveio Aurlio com um sorriso.
     Hamlton concordou e conduziu Gabriela para outra sala. Uma vez sentados um ao lado do outro, ele considerou:
     - Sei que deseja saber pormenores do seu caso. Estou pronto, pode perguntar.
    -        De fato, quando estava no Rio eu me sentia um tanto alheia, cabea pesada, desanimada, aturdida. Porm, assim que voltei a So Paulo, entrei em minha 
antiga casa, comecei a questionar certos fatos. Nicete contou-me que Roberto freqentava ou trabalhava em um terreiro trs vezes por semana. Ele nunca foi religioso. 
Analisando tudo, tive medo. Senti que havia sido envolvida por uma fora muito esquisita que me dominou e obrigou a fazer coisas que nunca foram da minha natureza.
    -        Graas a Deus voc est voltando ao normal. O que sei  que Roberto, sentindo que voc pensava em deix-lo, fez um pacto com um esprito perigoso prometendo 
servir-lhe desde que ele fizesse o que ele desejava.
    - Como ele fez isso? Que eu saiba, o nico centro que ele freqentou antes de nos mudarmos para o Rio foi este aqui.
    -        Para fazer um pacto como esse no  preciso ir a um centro. Ele pensou em fazer e esse esprito logo se aproveitou. Essas entidades formam grupos de 
auxlio mtuo para realizarem seus fins e esto sempre atentas. Ele deu abertura e o esprito procurou-o.
    -        Como pode ser isso?
    -        Em sonhos ou mesmo em contato mental. Nosso pensamento  um Livro aberto para os habitantes do astral. Eles sentem o teor das energias que nos circundam 
e agem.
    -        Isso  injusto. Por que Deus permite que estejamos  merc dessas entidades?
    - Engana-se. No  assim que funciona. Cada um atrai as companhias de acordo com sua maneira de ser. Roberto atraiu-os quando pensou que precisava domin-la 
de qualquer jeito.
    Pagou o preo.
    - Mas e eu? Por que fui envolvida? Nunca desejei nada disso.
    - De alguma forma voc tambm permitiu que eles a dominassem. Teve atitudes que toldaram suas energias, facilitando esse assdio.
    Gabriela ficou pensativa por alguns instantes, depois disse:
    -        Bem, eu estava muito revoltada por Roberto ter se unido a Gioconda e ter feito aquele desfalque. Pensava mesmo em separar-me dele.
    - Pensar em separar-se dele era um direito seu. Mas  preciso perceber a forma como voc fez isso. A indignao, mesmo quando  justa, permite vrias interpretaes. 
Para que possa saber onde estava seu ponto fraco, ter que analisar com cuidado seus sentimentos. Geralmente a indignao esmorece quando aceitamos que as pessoas 
so o que so e no do jeito que gostaramos que fossem. Embora tenhamos o direito de no querer mais conviver com uma pessoa que age dessa forma, conservar a mgoa, 
o ressentimento,  sempre cair em negatividade.
     -        De fato, eu estava muito indignada. At hoje, quando me lembro do que ele fez, sinto muita revolta.
     -        Isso facilitou seu processo de obsesso. Procure pensar que Roberto agiu assim porque ainda no tinha amadurecimento para agir diferente. Ele pensou 
apenas em se defender, no em prejudicar voc. Ao contrrio, desejava dar tudo para a famlia. No pensou que estivesse fazendo mal querendo conservar seu amor. 
Pode at ter acreditado estar defendendo a unio da famlia.
     -        Isso  bem dele. Garanto que foi assim.
     -        Pense nisso e talvez consiga libertar-se da mgoa. Voc encerrou uma etapa de sua vida. Tem novas oportunidades de felicidade  sua frente. No se 
deixe dominar pelo que foi. Analise, medite, recorde os fatos, procure fazer isso com sinceridade. Tenho certeza de que um dia sentir que est livre, alegre e disposta 
a seguir adiante.
     Gabriela sorriu e disse:
     -        Obrigado por me ajudar tanto. Farei tudo para encontrar a paz interior, educar meus filhos com carinho e construir para ns uma vida melhor.
     -        Eu estou certo disso. Agora vamos, que nossos amigos esto esperando.
     Naquela noite, Gabriela voltou para casa mais animada. A conversa com Hamlton fizera diminuir sua inquietao. Depois, as atenes e o carinho dos amigos, 
a conversa descontrada e proveitosa da qual havia participado no restaurante tiveram o dom de mostrar-lhe que a vida poderia ser muito melhor do que havia sido 
nos ltimos tempos.
     De repente, sentiu-se viva, livre, capaz. A certeza de que a vida continuava depois da morte era confortadora.
     Deitou-se mas no dormiu logo. Por sua mente as lembranas de seu romance com Roberto desfilaram e ela compreendeu com clareza o que Hamlton lhe dissera. De 
fato, Roberto amava-a do seu jeito. Nunca aceitou o fato de ela ser mais instruda, nem de ganhar dinheiro quando ele no conseguia.
     Quando ele percebeu que conseguiria ganhar para sustentar a famlia, desejava provar que era capaz de sustent-la sozinho. Ele no percebia que para ela o emprego 
era uma realizao pessoal.
     Ela fora incapaz de analisar os fatos claramente. Para ele, o desfalque fora uma prova de amor, para ela uma traio cruel.
    Naquele momento Gabriela percebeu que, tendo cultivado a mgoa, havia sido to cruel quanto ele. Exigiu de Roberto um comportamento do qual no era capaz. Alm 
disso, tornara-se tambm presa fcil dos espritos perturbadores. Em toda aquela histria, ela no havia sido vtima, como julgara. Dali para a frente, iria se esforar 
para olhar o passado de outra forma.
    Roberto, mergulhado em suas iluses, optara por aquele caminho doloroso, e agora estava enfrentando as conseqncias. Ela no tinha o direito de atirar sobre 
ele sua incompreenso, suas expectativas que ele fora incapaz de satisfazer.
    Ela desejava ser feliz, poder olhar para trs sem remorsos ou recriminaes. Mas sentia que era importante aprender os valores verdadeiros e eternos do esprito 
para saber se colocar diante dos desafios futuros.

Captulo 26

    Tudo aconteceu muito rpido. Roberto notou o revlver na mo de Neumes apontado em sua direo, viu quando ele puxou o gatilho. Ele tambm apontou, conseguiu 
dar um disparo, mas sua mo no obedeceu mais. Sentiu um lquido quente ensopando suas roupas e perdeu os sentidos.
    Acordou assustado e olhou em volta. Estava deitado em uma esteira e sentia-se muito fraco.
    Lembrou-se de Neumes.
-        Ele me acertou - pensou.
    Onde estava? Olhou em volta, mas no conseguiu ver muito. Estava escuro. Tentou levantar-se, porm no teve foras.
    Talvez Neumes o tivesse escondido naquele lugar escuro para que ele no recebesse tratamento e morresse. Sentia uma dor ardida no peito e no ventre. Passou a 
mo e notou que havia duas feridas abertas, de onde saa uma secreo que ele no soube determinar se era sangue.
    Neumes o havia acertado. Precisava de atendimento mdico.
    Olhou em volta procurando encontrar ajuda. Mas a fraqueza era muito grande. Fechou os olhos assustado. Ia morrer ali, esquecido de todos.
    Lembrou-se de que no tinha dito a ningum onde Neumes morava nem que iria at l. Com certeza Gabriela o estaria procurando mas no iria encontr-lo.
    Roberto pensou em Pai Jos. Talvez ele pudesse socorr-Lo, ir contar a Gabriela onde ele se encontrava. Fazendo grande esforo, Roberto chamou por Pai Jos com 
insistncia.
    Depois de algum tempo, uma plida claridade formou-se a seu lado e um desconhecido apareceu. Roberto indagou aflito:
-        Onde estou? Quem  voc?
    - Sou seu amigo. Pai Jos est ocupado e mandou-me saber o que voc quer.
    - Ainda bem. J estava com medo. Estou prisioneiro aqui. Quero que v avisar minha mulher para vir me socorrer. Estou ferido, preciso de um mdico.
    O homem comeou  gargalhar, exibindo algumas falhas de dentes, e respondeu:
    - O que voc quer  impossvel. Sua mulher no vai poder vir aqui. Mas tenha pacincia, que Pai Jos vir quando puder.
    -        Voc no entendeu. Preciso de socorro. Estou muito ferido. Posso morrer.
    O        outro continuou rindo. Quando parou, disse com m vontade:
    -        Deixe de ser bobo. Voc no vai morrer, no. Agora voc no morre mais.
    - Como assim?
    -        Porque voc j est morto. J foi enterrado e tudo.
    Roberto sentiu tontura e esforou-se para no desfalecer.
    -        No brinque comigo. Comeo a desconfiar que voc no foi mandado por Pai Jos. Deve ser amigo de Neumes.
    -        Se me ofender, vou embora, arrume-se como puder. Se eu disse que foi Pai Jos quem me mandou,  porque foi.
    -        Est bem. No quero ofender. Mas estou mal. No posso ficar aqui sem atendimento.
    - Garanto que no vai acontecer nada. Agente firme. Descanse. Aos poucos vai se sentir melhor. Pai Jos vai vir assim que puder. Agora preciso ir. Trate de 
dormir.
    Ele desapareceu e Roberto chamou-o de volta, inutilmente. Se ao menos ele conseguisse enxergar onde se encontrava... Mas estava escuro e ele sentia frio.
    Aflito, fez vrias tentativas para levantar-se, sem conseguir. Desesperado, tentou gritar, mas sua voz era fraca.
    - Assim ningum vai me ouvir - pensou.
    Forte sensao de medo acometeu-o. Estaria destinado a morrer ali, sozinho, sem socorro?
    Naquele momento, sentindo-se impotente, arrependeu-se de haver procurado Neumes.
    Vrias perguntas sem resposta vieram-lhe  mente, aumentando sua inquietao. Pai Jos havia-lhe garantido que poderia ir ver Neumes. Se ele de fato sabia tudo, 
por que no o prevenira do perigo que estaria correndo? Se houvesse sido avisado, teria tomado mais cuidado.
    Ele lhe garantira proteo, ento por que agora no aparecia para socorr-lo? Sentiu vontade de rezar, porm no teve coragem. Pai Jos dissera-lhe que os espritos 
iluminados no ajudavam quem ousava intervir no destino, fazer justia com as prprias mos. Finalizava dizendo:
    -        Eles acham que devemos aceitar tudo e esperar Deus determinar. Mas, ao que sei, ele est sempre ausente. At quando vamos ficar passivos diante dos 
erros dos outros?
    Se ele apelasse para os espritos superiores, eles iriam pedir-lhe contas do que fizera.
    Roberto lembrou-se de que no terreiro ajudara a fazer inmeros despachos, para separar ou unir pessoas, conforme os pedidos dos freqentadores, tendo se acumpliciado 
com vrias entidades do astral.
    Ele sabia que estava errado, porm obedecia s ordens de Pai Jos. A culpa era dele.
    Entretanto, agora, pensando melhor, sentia que no era to simples assim.
    Sua conscincia comeou a incomod-lo. Estaria sendo castigado? Nesse caso, a quem recorrer?
    Apesar da fraqueza, sua sensibilidade estava aumentada. Por sua mente passaram vrios acontecimentos de sua vida. Pensou nos filhos, e as lgrimas desceram pelas 
suas faces.
    Permaneceu assim longo tempo. Depois, vencido pelo cansao, adormeceu. Acordou sentindo que algum o sacudia. Ainda atordoado, balbuciou:
    -        O que foi? O que aconteceu?
    -        Viemos tomar satisfaes. Por que se meteu em nossa vida?
    -        Eu?
    Admirado, Roberto fixou os dois homens que o olhavam com raiva.
    -        Voc, sim. No se faa de tolo tornou um deles, sacudindo-o pelo brao.
    - Vocs esto enganados. No os conheo.
    -        Agora que est mal, deseja escapar, mas no vamos deixar.
    - Afirmo que no sei do que esto falando.
    -        Sabe, sim. Vocs fizeram mandinga para Maninha separar-se de Joo a pedido da desavergonhada da Joana. Ela ficou doente, eles se separaram por causa 
de vocs.
    - No tive culpa. S fazia o que Pai Jos mandava.
    -        Mentira. Vimos quando voc fez o despacho. Eu jurei me vingar. Maninha  minha filha.
    Quem faz mal a ela compra briga comigo.
    -        Agora que voc veio para c disse o outro, satisfeito -, vai ter que desmanchar tudinho.
    Acho bom se preparar para comear logo.
    Roberto comeou a tremer. O que estaria acontecendo com ele? Por que estava  merc daqueles homens estranhos?
    Lembrava-se do caso de Maninha. Eles haviam vencido e Joana fora at o terreiro agradecer a Pai Jos. Ele havia ganhado uma garrafa de vinho para comemorar.
    -        Quem soube beber o vinho vai saber desmanchar tudo. Vamos levar voc j - disse o pai de Maninha.
    -        Eu estou muito ferido. No posso me levantar. Preciso de um mdico.
    - Precisa criar vergonha, isso sim. Deixe de frescuras. Levante-se e vamos embora - decidiu o outro.
    Ao mesmo tempo puxou o brao de Roberto tentando faz-lo levantar-se. Ele sentiu uma dor forte nas duas feridas e perdeu os sentidos.
    - Ele no vai agentar - disse um.
    - Nesse caso, teremos de faz-lo melhorar. Vamos buscar Neco.
    Os dois saram, deixando Roberto desacordado, estendido na esteira. Voltaram algum tempo depois e ele no havia acordado ainda.
    Neco era um negro alto, magro, gil, rosto sisudo, mos fortes. Aproximou-se de Roberto, colocou a mo sobre sua testa por alguns segundos, depois disse:
    - Ele no tem como fazer o que querem. Se forar, ser pior. Ele vai perder os sentidos e ficar muito tempo desacordado.
    - Nesse caso, o que faremos? Precisamos dele para ajudar Maninha. Vamos lev-lo para nossa colnia. L o deixaremos em condies de fazer o que desejam. Vou 
chamar meus ajudantes.
    Concentrou-se por alguns segundos. Depois disse:
    - Eles esto a caminho. Vamos esperar.
    Depois de alguns minutos chegaram quatro negros. Abriram uma padiola, colocaram Roberto sobre ela e, a uma ordem de Neco, seguiram de volta para seu ponto de 
origem.
    Roberto acordou e olhou em volta, preocupado. Estava em um pequeno quarto, deitado em uma cama tosca e por entre as frestas da pequena janela entrava uma claridade 
acinzentada que lhe permitia divisar perfeitamente o lugar.
    Notou os curativos em suas feridas, sentiu-se aliviado. Havia sido socorrido. Porm no estava em um hospital. O quarto pequeno, pobre, sem um mnimo de higiene, 
parecia mais com uma casa de fazenda do que um lugar de tratamento.
    Sentou-se na cama sem dificuldade. Estava melhor. Levantou-se e deu alguns passos apoiado nos ps da cama e em uma mesinha ao lado da janela. Sentiu-se tonto, 
parou, respirou fundo. O importante era que estava sarando. Precisava saber onde estava e quando poderia voltar para casa.
    Quanto se sentiu melhor, abriu a janela e olhou para fora. O dia estava nublado, mas ele viu que l havia vrios casebres, em uma rua estreita e sem calamento. 
Que lugar seria aquele?
    Certamente alguma pequena cidade onde o progresso ainda no havia chegado.
    A porta do quarto abriu-se e Neco entrou:
    - Vejo que est melhor disse.
    -        Estou. Por que no me levaram para minha casa? Eu estava com meus documentos no bolso do palet.
    -        Sua casa agora  aqui.  melhor se acostumar.
    -        Quem  voc? Por que me trouxeram a este lugar to pobre? Eu posso pagar um tratamento melhor.
    -        Seu dinheiro aqui no vale nada. Deite-se, que eu quero examin-lo e continuar o tratamento.
    -        Voc  mdico?
    -        Estou cuidando de voc.
    -        Eu agradeo por ter me tirado daquele lugar horrvel, mas quero ir para um hospital decente, ver minha famlia. Eles devem estar preocupados com meu 
desaparecimento. H quanto tempo estou aqui?
    -        Contando  moda da Terra, uns dois meses.
    -        Dois meses? No pode ser...
    - Deite-se. Vou esclarecer tudo.
    -        Estou muito bem de p.
    -        Faa o que estou dizendo. Vai precisar se deitar.
    A voz dele era autoritria, e Roberto obedeceu. Vendo-o estendido na cama, Neco colocou a mo direita sobre a testa dele e disse:
    -        Seu tempo na Terra acabou. Os tiros que recebeu estragaram seu corpo de carne. Ele est morto. No h nada a fazer quanto a isso.
    Roberto estremeceu e sentiu que ia perder a conscincia.
    -        No fuja - disse Neco com voz firme. - Enfrente a verdade. Ser melhor.
    Roberto reagiu. Precisava esclarecer tudo. Ele estava blefando. Aquilo no podia ser verdade. Ele tinha corpo, estava ferido e, o que era mais importante, estava 
bem vivo.
    -         assim mesmo - continuou Neco. - Voc continua vivo, s que em outro mundo. Voc morreu para a Terra e para sua famlia. J foi enterrado. No tem 
volta. Agora comea outra etapa, e, diante dos problemas que arranjou,  melhor cooperar.
    Roberto tremia qual folha batida pelo vento forte, sentia frio e uma sensao de medo incontrolvel.
    -        Voc  homem ou o qu? - desafiou Neco. - Os brancos so fracotes mesmo. Que vergonha!
    Enquanto falava, Neco passava suas mos ao redor do corpo de Roberto, detendo-se em alguns pontos. Aos poucos ele foi se controlando. Depois de alguns minutos, 
Roberto indagou triste:
- Tem certeza do que est dizendo?
        - Tenho. Voc, que andava trabalhando no terreiro, no sabe disso? Talvez no saiba tambm que est aqui na condio de prisioneiro de Juvncio e de Brito.
     -        No pode ser. No os conheo!
     -        Conhece, sim. Eles foram visitar voc naquele brejo em que estava enfiado e pediram que eu o socorresse. Juvncio  o pai e Brito o tio de Maninha. 
Eles trouxeram voc para c.
     -        O que desejam de mim?
     -        Voc deve para eles. Vai ter que trabalhar para reparar as besteiras que fez contra Maninha.
     - No fui eu. S fiz o que Pai Jos mandou.
     -        No se faa de bobo, que no adianta. Eu posso ver o que est pensando. Quer saber de uma coisa? Se eu fosse voc, tratava de obedecer, pagar o que 
deve a eles e depois, quem sabe, talvez possa ir para outro lugar.
     -        E se eu me recusar?
     -        Eles tm meios de obrigar. Garanto que vai se dar muito mal.
     -        Voc parece uma boa pessoa. Como pode permitir que eles faam isso comigo?
     -        No me meto nos negcios dos outros. Pediram-me para ajudlo e estou ajudando, mas  s. Depois, eles tm direito de exigir justia. Foi voc quem 
fez aquele trabalho sujo.
     Roberto ficou pensativo. Tudo aquilo seria verdade mesmo? Estaria morto? Precisava pensar, refazer as idias. Era possvel que ele estivesse internado em algum 
manicmio por engano. Se estivesse lidando com um louco, teria de ganhar tempo, fingir que aceitava tudo.
     Neco olhou seriamente para ele, meneou a cabea negativamente, depois disse:
     -        No tente bancar o esperto. Isto aqui no  um hospital de loucos.  uma colnia de pessoas que morreram no mundo e aqui construram esta cidade. Temos 
sociedade organizada, nosso governador cria nossas leis, que devem ser obedecidas. So muito diferentes da Terra. Aqui, as vtimas tm o direito legtimo da vingana 
e da reparao.
     Roberto sentiu um arrepio de medo. Neco havia lido seus pensamentos.
     -        Reconheo que est difcil acreditar em tudo que voc disse. Mas vou fazer fora. Preciso colocar meus pensamentos em ordem. Foi uma mudana muito 
repentina.
     -        Eu sei. Agora eu me vou. Logo mandarei trazer-lhe alimentos mais fortes. Voc j pode comer melhor.
     Depois que ele se foi, Roberto, ainda deitado, repassou na mente tudo quanto lhe havia acontecido. O que Neco lhe dissera poderia ser verdade. Nesse caso, o 
que aprendera no centro em So Paulo valia. Se os tiros de Neumes houvessem matado seu corpo, ele continuava vivo, sofrendo, sentindo, apalpando suas carnes, como 
quando estava no mundo.
     Era incrvel, mas era verdade. Pensou em Gabriela, nos filhos, e as lgrimas desceram-lhe pelas faces. Sentiu-se muito triste. Arrependeuse de haver procurado 
Neumes, porm era tarde.
     O que seria de sua vida dali para a frente? Como estariam Gabriela, as crianas, sem seu amparo? Rompeu em soluos e chorou durante algum tempo. Depois, as 
lgrimas secaram, s restando a tristeza e o desalento.
     Decidiu que prestaria os servios que aqueles dois desejavam. Talvez, se o fizesse de boa vontade, pudesse transform-los em aliados que o ajudariam a cuidar 
de sua famlia. Agora Gabriela estava livre e talvez se juntasse a Renato. Isso ele no poderia permitir. Era injusto. Ele continuava vivo, amando-a, sofrendo a 
ausncia compulsria. Fosse o que fosse, o importante era que ele estava melhorando. Apesar das circunstncias, eles o haviam socorrido.
     Decidiu obedecer. Talvez assim granjeasse a simpatia e a amizade deles. Estava em um lugar desconhecido, e o melhor era contemporizar. Com o tempo, havendo 
recuperado a sade, decidiria o que fazer.
     Tendo tomado essa deciso, dali para a frente Roberto passou a demonstrar boa vontade.
     Dois dias depois, sentiu-se disposto e recuperado. Resolveu sair, dar uma volta para conhecer melhor a cidade.
     Assim que atravessou a soleira, surgiu um negro com um fuzil, que o impediu de sair.
     - Entre - disse ele.
     Roberto obedeceu e respondeu:
     - Eu quero sair um pouco. J me sinto melhor.
     - Agora no pode. Vou avisar Neco.
     Pouco depois Neco entrou e disse satisfeito:
     - Vejo que est bem.
     - Estou. Quero sair, dar uma volta, conhecer a cidade.
     - Ainda no pode. Vou lev-lo  casa de Juvncio. Ele vai apresent-lo ao conselho. Minha misso com voc acabou.
     - Est bem. Decidi seguir seu conselho. Vou pagar o que devo a eles. Quando eles me libertarem, o que acontecer comigo?
     - Depende de como voc se comporta.
     - Estive pensando. No conheo nada aqui, nem tenho para onde ir. Disseram-me que quando a gente morre encontra os amigos e parentes que tinham morrido antes. 
Isso era mentira.
     No encontrei ningum.
     -        No  mentira, no. Alguns encontram mesmo.
     -        Bom, eu no encontrei, e pensei que talvez pudesse continuar morando aqui.
     -        Isso  o conselho quem decide.
     -        Aqui no mora nenhum branco?
     -        Mora. Acontece que a maioria dos servos  de negros. Agora venha comigo.
     Eles saram, e dessa vez ningum apareceu para impedir. Caminharam pela rua estreita e sinuosa e foram dar em uma praa onde havia alguns prdios cinzentos, 
cada um com quatro andares. A construo parecendo alvenaria era lisa, pequenas janelas simtricas, paredes rsticas.
     Roberto notou a ausncia de plantas. A terra era seca e no havia nem mato. Neco conduziu-o para a entrada de um dos prdios onde havia um negro alto, vestido 
com uma tnica de cor indefinida, com um fuzil em posio de sentido.
     -        Viemos ver Juvncio.
     Eles entraram e subiram uma escada estreita e escura. Atravessaram um corredor mal iluminado, onde havia vrias portas. Neco parou em frente a uma delas e acionou 
uma sineta.
     Imediatamente a porta se abriu e eles entraram em uma sala onde havia uma mesa tosca com algumas cadeiras e um armrio. Imediatamente Juvncio veio do aposento 
contguo.
     -        Chegou em boa hora - disse ele dirigindo-se a Roberto. -Ns fizemos tudo que pudemos, agora  sua vez.
     -        Vim disposto a cooperar. Fazer o que voc quiser. Quero ser seu amigo.
     Juvncio olhou srio para ele. Ficou silencioso por alguns instantes, depois respondeu:
     -        . Vejo que pensou bem. Mas, depois do que fez, no quero ser seu amigo.
     -        Eu no conhecia voc. No sabia que eu estava errado. Sabe como so as coisas quando se vive na Terra. Tudo fica to complicado...
     -        Bem, isso veremos. Saiba que ter que ser tudo do meu jeito. No vou admitir fracassos nem mentiras. Sou justo, se fizer como eu quero tudo bem, seno, 
no perdo.  melhor saber disso logo. No estou disposto a tolerar fraquezas nem falsidade.
     -        No precisa repetir isso. Estou disposto a pagar tudo que lhe devo. Quero viver bem.
     Juvncio bateu palmas e logo apareceu uma mulher de meia-idade, vestindo uma tnica parda.
     Juvncio ordenou:
     - Este  o homem do qual lhe falei. Cuide dele.
     Ela se aproximou de Roberto, tomou seu brao e disse:
     - Meu nome  Nena. Venha comigo.
    A mo dela era fria, seu rosto inexpressivo. Roberto sentiu um arrepio e vontade de tirar aquela mo do seu brao. Sentindo o olhar crtico de Juvncio, tratou 
de dissimular e deixou-se conduzir sem resistncia.
     - Obrigado, Neco. Estou lhe devendo mais este favor. Pode estar certo de que no esquecerei. Sou reconhecido a quem me presta um servio.
        -        Sei disso. Se o amigo precisar, estarei  disposio. Fez um bom trabalho. Ele ficou mais obediente.
     - S lhe disse a verdade. Ele ainda no sabia que tinha morrido. Agora sabe que no lhe resta outro remdio seno obedecer.
     - Ainda bem que ele no chamou nenhum servo da luz. Eu tinha medo de que ele me escapasse.
     - Fiz o possvel para evitar isso. Agora cabe a voc.
     - Ele pensa que vai sair daqui logo. No sabe com quem est lidando. Agora que o tenho nas mos, ficar muito tempo.
     - Se ele se rebelar, voc sabe o que fazer. E s trazer a lembrana da culpa que ele sente por haver tramado contra sua mulher que ele vai ficar manso logo. 
Esse  seu trunfo.
     - Eu sei. Pode deixar que no vou esquecer.
     Sentado na estreita cama do pequeno quarto, Roberto sentiu enorme tristeza. Como fora parar naquele lugar horrvel em meio a pessoas to desagradveis? Ah, 
se ele pudesse voltar atrs!
     s vezes beliscava-se tentando acordar do pesadelo em que imaginava estar mergulhado, porm essa atitude apenas lhe provava que no se tratava de um sonho, 
mas de uma difcil realidade que dali para a frente ele teria de suportar.
     Pensou na famlia, e algumas lgrimas molharam suas faces. O que ele havia feito de sua vida?
     Por que se envolvera com pessoas desconhecidas, interferindo em seus caminhos?
     Nena havia-lhe dito:
     - Vai ficar aqui at o patro chamar.
     Pouco depois, Juvncio apareceu e disse-lhe:
     - H uma tnica no armrio. Vista logo, que vamos ao conselho.
     Roberto abriu o armrio, pegou a tnica e respondeu:
     - No posso ir com minha roupa mesmo?
     Juvncio impacientou-se:
    - Vista logo. Voc  meu servo e tem que se apresentar com o uniforme de minha casa.
    Roberto obedeceu e acompanhou-o sem dizer mais nada. Andando pelas ruas estreitas e sem calamento, olhando o cu nublado, as casas feias e mal-acabadas, Roberto 
pensou que talvez aqueles homens no fossem to poderosos como diziam.
    Porm mudou de idia quando chegaram a uma praa com calamento, onde o tipo de construo mudava completamente. Havia casas bem construdas, prdios slidos 
e bem-acabados. Brancos e negros misturavam-se nas ruas e ele observou que os brancos iam na frente acompanhados pelos negros, que lhes obedeciam.
    Notando sua admirao, Juvncio esclareceu:
    - Do que se admira? Aqui somos conservadores. H os senhores e os escravos.
    - A escravido acabou.
    - Acabou no papel. H muitas formas de se escravizar. Mas aqui ns temos nossas leis.
    Quem deve fica escravo.  justo. A escravatura  o melhor sistema social.
    Roberto ia responder, mas desistiu. O que poderia dizer? Aquela realidade era uma aberrao. Concluiu que estava em uma cidade muito atrasada.
    Precisava sair dali. Mas como? Resolveu contemporizar, ganhar a confiana deles e depois decidir. Por isso acompanhou Juvncio, mostrando boa vontade.
    Entraram em um prdio e Roberto notou que a construo ostentava um luxo pesado e grosseiro. Foi conduzido a um salo onde havia uma bancada ao fundo e cadeiras 
na frente.
    Parecia um tribunal.
    Atrs da bancada estavam sentados alguns homens de postura austera, alguns com barba, trajando batas recamadas de gales dourados.
    Juvncio aproximou-se, curvou-se e disse:
    - Sado nossos maiores e peo permisso para ficar com esse escravo a meu servio.
    Eles olharam para Roberto atentamente, depois um deles considerou:
    - Ele  seu escravo em que condies?
    - Quando na Terra, prejudicou minha filha Maninha, fez feitiaria contra ela. No pude fazer nada para impedir. Eu o vigiava e quando veio para c tomei-o a 
meu servio para recolocar as coisas no lugar.
    - Ele foi assassinado - disse um outro srio. - Foi voc quem tramou isso?
    -        No - esclareceu Juvncio. - Foi um ajuste de contas que ele fez e perdeu. No tive nada a ver com isso.
    -        Porque, se teve, sua dvida j est quitada.
    -        No. Vossa Excelncia pode verificar como foi.
    Alguns segundos de silncio depois, o que estava sentado no centro e parecia ser o lder decidiu:
    - Concedido. Ele poder ficar at quando voc se considerar pago. Porm deve obedecer a nossas regras. Ele  seu. Pode ir.
    Juvncio, satisfeito, tomou Roberto pelo brao e conduziu-o para fora.
    - Vamos para casa. Temos que programar a ajuda a Maninha.
    Roberto estava emudecido de surpresa. Nunca imaginou que existisse um lugar como aquele.
    Porm notou que eles no estavam de brincadeira. Se quisesse ficar bem e livrar-se, teria de cooperar.
    De volta ao prdio onde estava instalado, foi conduzido a uma sala onde Brito j os esperava.
    -        Agora  nossa vez disse, vendo-os entrar. - Voc ter que fazer a sua parte.
    -        O que querem de mim? indagou Roberto.
    - Vamos preparar voc. Depois ter que entrar naquele terreiro de Pai Jos e descobrir o que queremos.
    -        No sei como fazer isso...
    -        Vai saber logo esclareceu Juvncio. - Antes vamos preparar tudo. Voc vai fazer do jeito que queremos. Nem pense em nos trair.
    -        Temos como control-lo. Se estiver fazendo alguma coisa errada, temos como traz-lo de volta imediatamente disse Brito. Ento vai se ver conosco.
    - Eu no estou pensando em fazer nada. Se estou devendo a vocs, quero pagar tudo e ficar livre. Eu tenho muito interesse em fazer o que desejam. J vi que so 
poderosos, e estou pronto a obedecer.
    - Melhor assim respondeu Juvncio. Para desfazer o trabalho de Maninha, precisamos destruir um plo que est guardado na sala fechada onde s entra o encarregado. 
Sem isso no conseguimos nada. O lugar  vigiado e ns no pudemos entrar de jeito nenhum. Voc  conhecido deles. No vo impedir sua entrada nem desconfiar de 
nada.
    - No sei como ir at l.
    - Deixe por nossa conta - tornou Juvncio. - Vamos mostrarlhe o lugar e o trabalho que ter que destruir. Voc vai, diz que precisa de ajuda, no fala nada de 
ns. Comea a freqentar, depois lhe daremos nossas instrues. Se fizer tudo direitinho como ensinarmos, vai conseguir.
     Roberto entusiasmou-se. Ele iria voltar  Trra. Do terreiro seria fcil dar um pulo em casa para ver a famlia.
     - Estaremos vigiando todo o tempo. Est vendo esta tela aqui? Vou ligar para voc ver.
     Ele tocou em um lado e ela se acendeu, mostrando o terreiro de Pai Jos, quela hora deserto. Maravilhado, Roberto perguntou:
     -        Eu poderia ver como est minha famlia?
     -        No. Conseguimos este acesso, mas ainda no podemos ver tudo.
     -        Vou fazer o que puder para servi-los. Mas, quando estiver l, gostaria que me dessem permisso para eu ir at minha casa.
     -        Isso no  possvel- disse Brito. - Voc no pode desviar sua ateno. Depois, pode se perder. Se ficar emocionado, se as coisas em casa no estiverem 
correndo bem, pode pensar em nos desobedecer. Isso no vamos permitir.
     -        Por outro lado - tornou Juvncio, maneiroso -, se fizer tudo direito e conseguir o que queremos, ns o ajudaremos a ir ver sua famlia. Mas s depois.
     Apesar de ansioso, Roberto achou bom concordar. Era melhor do que nada.
     Nos dias que se seguiram, ele recebeu aulas sobre como se locomover, esconder-se, vrias tcnicas, e ficou to entusiasmado aprendendo coisas do seu novo estado 
que esqueceu at seus projetos de sair daquele lugar. Afinal, estava sendo muito til.
     Tinha certeza de que um dia poderia ser auto-suficiente, voltar a ver a famlia, saber tudo e cuidar de Gabriela.

Captulo 27

     Gabriela saiu da sala de aula que freqentava no centro esprita e encontrou-se com Renato, que tambm estava deixando uma das salas. Era a primeira vez que 
se encontravam depois da reunio de que haviam participado quinze dias antes.
     Gabriela sorriu e ele se aproximou dizendo:
     - Seu tratamento continua?
     -        Acabou. Hoje comecei um curso de mediunidade. Foi a primeira aula.
     -        Que coincidncia! Tambm estou fazendo um curso de bioenergtica. Como voc est?
     - Melhor. Estou mais disposta. Afinal a vida continua e temos de andar para a frente.
     - Gostaria de conversar. Vamos comer alguma coisa?
     Ela aceitou e foram caminhando at uma lanchonete prxima. Uma vez acomodados, tendo pedido um lanche, Renato perguntou:
     -        Quais seus planos para o futuro?
     -        Bem, felizmente minha situao financeira melhorou. Recebi nosso dinheiro com juros e correo.
     -        Ento agora vai se dedicar a seus filhos. No vai mais trabalhar.
     - Claro que vou me dedicar aos meus filhos, como sempre, porm no pretendo ficar em casa sem fazer nada. Nicete  boa companheira e cuida muito bem de tudo. 
Eu quero continuar aprendendo, sendo til. Tenho pensado bastante. Agora possuo um capital que me permite abrir
um negcio prprio. Contudo, ainda no sei o qu. No posso arriscar o futuro dos meus filhos. No momento, esse dinheiro est aplicado.
     -        Voc tem competncia para administrar uma empresa. Conheo a sua capacidade. Tenho sentido muito sua falta. - Vendo que ela o encarava surpreendida, 
continuou: - Profissional. Depois de voc j tive duas funcionrias e ainda no estou satisfeito.  difcil encontrar uma pessoa honesta, caprichosa, esforada e 
disposta a trabalhar como voc. Se voc aceitasse seu emprego de volta, me faria um grande favor.
     -        No estou ocupada com nada ainda. Poderia voltar a trabalhar com voc, pelo menos at decidir se vou ou no abrir uma firma. Entretanto...
    Ela hesitou e ele perguntou:
    -        O que ?
    -        Gioconda. Todos sofremos muito. Ela  doente. Se souber que estou l novamente, pode ficar pior. No desejo agravar seu estado.
    -        Gioconda  uma mulher mimada, age como criana. Se no tiver esse motivo, arranja outro.
    No aceita a verdade. Um homem, quando escolhe uma companheira, deseja uma pessoa com quem dialogue de igual para igual. Tenho aprendido que, quando um dos dois 
 inseguro e julga-se menos, o relacionamento acaba. Para uma vida em comum bem-sucedida h que ter maturidade. Ela insiste nas mesmas coisas, ainda no compreendeu 
isso.
    -        Entendo o que diz. Vivi o mesmo problema.
    - Voc amava seu marido, por isso suportou. Mas, eu, havia muito tempo que no a amava mais.
    -        Engana-se. Eu amei meu marido. Mas  como voc diz. Com o tempo notei que ele no tinha condies de me oferecer o que eu esperava. Quando ele sofreu 
o atentado em meu lugar, eu estava pensando seriamente em me separar. Depois, no o fiz porque ele estava mal. Fiquei esperando que ele se recuperasse para tomar 
essa deciso.
    Os olhos de Renato brilharam emocionados. Ele no se conteve e indagou:
    - Nesse caso, por que deixou a empresa e mudou-se para o Rio de Janeiro?
    - At hoje, quando me recordo desse perodo, h um branco em minhas lembranas. Parece mentira que tenha acontecido. Hamlton explicou que me deixei envolver 
por entidades maldosas.
    -        Ento foi verdade mesmo. Eu acredito nas explicaes de Hamlton. Alis, eu estava presente quando o esprito de Elvira falou a respeito. Mas pensei 
que voc houvesse sido envolvida por causa do seu amor por ele.
    - Foi exatamente o contrrio. Foi por estar magoada, por no ter podido perdoar aquele desfalque que fiquei vulnervel. Minhas energias estavam negativas.
    - O curso que estou fazendo  para saber mais sobre as leis de influncias, como ficamos vulnerveis s energias negativas e como aprender a recuperar o equilbrio. 
Pela aula de hoje, percebi que terei muito o que aprender. Esse campo  delicado.
    -  verdade. Eu acredito que, conhecendo como o plano energtico funciona, nos livraremos de muitos sofrimentos. Somos ns que atramos as energias de acordo 
com nossas atitudes e com o nvel de evoluo que possumos.  interessante que essas leis funcionam de forma relativa ao nvel de desenvolvimento de cada um.
    Renato olhou-a enlevado. Era fcil conversar com ela. Satisfeito, considerou:
    -         isso que torna a justia divina perfeita. Ningum sofre nada alm da sua necessidade de aprender. Se voc aprende pela inteligncia, certamente se 
poupar de muitos sofrimentos.
    Os dois continuaram conversando animadamente at que Gabriela olhou o relgio e assustou-se:
    -        Meu Deus, como o tempo passou depressa!  quase meia-noite. Tenho que ir.
    -        Vou deix-la em casa.
    -        Obrigada.
    Uma vez no carro, Gabriela ficou pensativa. Como Renato era diferente de Roberto. Se houvesse se casado com ele, teriam sido felizes. Era um belo homem, elegante, 
culto, compreensivo.
    Suspirou forte e Renato perguntou:
    -O que est pensando? Ficou calada de repente.
    Apanhada de surpresa, Gabriela inquietou-se. Ele no podia saber o que ela estava pensando.
    Tentou dissimular.
    -        Pensava o que fazer de minha vida daqui para a frente.
    -        Volte a trabalhar comigo, nem que seja por algum tempo. Se resolver abrir um negcio, poderei ajud-la.
    -        Bem que eu gostaria. Estou ansiosa para me ocupar. Penso em Gioconda. Ela pode comear tudo outra vez.
    -        Ns dois sabemos que nunca fizemos nada errado. No podemos Levar em conta a maldade dela.
    -        No s dela. H D. Georgina. Ela deu muito trabalho por ocasio do enterro de Roberto. Vai continuar me perseguindo.
    -        Pensei que no se importasse com a opinio dos outros, principalmente de pessoas desequilibradas.
    Gabriela sorriu. Sentia que ele estava querendo muito que ela voltasse. Ela tambm gostaria de retomar o emprego. Alm do mais, ele se havia revelado um amigo 
maravilhoso. Devia-lhe muitos favores.
    O        carro parou em frente  casa de Gabriela. Ele se voltou para ela e perguntou:
    -        E ento, o que me diz?
    Havia um brilho ansioso em seus olhos, e Gabriela sentiu-se emocionada. Aps ter sido usada pelo marido, sentir-se to valorizada por uma pessoa a quem prezava 
muito era confortador. Por isso respondeu:
    -        Quando posso comear?
    -        Se no for pedir muito, amanh cedo.
    -        Estarei l.
    Ela estendeu a mo e ele a tomou entre as suas, dizendo:
    -        Obrigado. Saberei reconhecer sua dedicao.
    -        Eu  que tenho de agradecer toda a ajuda que sempre me deu. Obrigada. At amanh.
    Ele ficou esperando que ela entrasse, depois ligou o rdio. Estava alegre, feliz, como h muito no se sentia. No tencionava falar-lhe do seu amor. Mas usufruir 
da sua companhia todos os dias fazia-o cantar de alegria.
    Gabriela entrou em casa contente. Renato sempre a fizera sentir-se bem. Apesar da diferena de posio, ele a tratara de igual para igual, s vezes at com certa 
admirao.
    O que aconteceria quando Georgina ou Gioconda soubessem que ela estava de volta ao antigo emprego? Certamente no a poupariam. Porm Renato tinha razo. Eles 
no deviam nada a ningum. Nunca haviam feito nada errado. Essa conscincia lhes bastava.
    As crianas estavam dormindo, mas Nicete esperava-a.
    - Ainda acordada?  tarde.
    - A senhora nunca demora tanto. Fiquei preocupada.
    - Desculpe, Nicete. A aula acabou cedo, porm encontrei o Dr. Renato e ele me convidou para um lanche. Ficamos conversando e quando olhei o relgio era quase 
meia-noite.
    -        O doutor  boa companhia. Ele j se declarou?
    Gabriela olhou para ela surpreendida.
    -        Ns somos apenas bons amigos. Ele me pediu para voltar a trabalhar l. At agora ainda no arranjou ningum competente. Foi uma conversa profissional.
    Nicete sorriu e respondeu:
    - A senhora no viu como ele a olhava l no Rio.
    -        Nunca notei nada. Voc est enganada.
    -        No estou, no. Ele est escondendo. No deseja que saiba. Mas est caidinho. Quando a senhora olhava, ele disfarava; mas, quando estava distrada, 
ele ficava olhando com olhos de peixe morto. Eu sei como  isso.
Gabriela sorriu, abanou a cabea negativamente e disse:
        - Voc est lendo muitos romances, imaginando coisas. Se houvesse qualquer coisa, eu teria percebido.
    -        Quando vai voltar a trabalhar?
    - Amanh. Vamos dormir, que preciso levantar cedo.
    Gabriela deitou-se, mas as palavras de Nicete no saam de sua mente. Ela teria visto bem?
    Renato estaria interessado nela? Mesmo que isso fosse verdade, entre eles nunca poderia existir nada. Seria dar fora  maledicncia. Iriam pensar que ela havia 
sido amante dele ainda quando Roberto estava vivo.
    A este pensamento, Gabriela sentiu um arrepio. Pensou nos filhos, ainda traumatizados com a morte violenta do pai. O que eles pensariam dela? Talvez fosse melhor 
no voltar a trabalhar l.
    Mas algo dentro de Gabriela se rebelou. Estava precisando trabalhar. Gostava de l, estava familiarizada com o trabalho, o salrio era compensador, havia possibilidade 
de progredir. Por que teria de se preocupar com o que os outros pensavam? Ela sabia que nunca havia trado o marido.
    Ele agora estava vivendo em um plano onde poderia conhecer a verdade. Era isso que importava.
    Tentou dormir, porm a figura de Renato desenhou-se em sua mente. Ele era um homem bonito, atraente, tinha tudo que uma mulher poderia desejar. Ela agora estava 
livre; ele, porm, apesar de separado, ainda estava casado. Tinha filhos.
    Gabriela firmou o propsito de evitar qualquer aproximao pessoal com Renato. Assim no correria o risco de interessar-se por ele. Tendo tomado essa deciso, 
finalmente adormeceu.
    Gioconda deixou de lado a revista que folheava sem interesse e foi at a janela do quarto, pensativa, O que tinha feito de sua vida? Porque um casamento que 
havia comeado to bem tinha dado errado?
    Estava cansada de ser vtima da maldade alheia. Havia sido uma esposa dedicada, fiel, cuidava dos filhos com carinho. Se Gabriela no houvesse aparecido em sua 
vida, ela ainda estaria com o marido.
    Ela havia sido a culpada de tudo. Ainda bem que Roberto tivera a feliz idia de se mudar para o Rio e lev-la da empresa. Suas esperanas de recuperar o marido 
haviam reaparecido. Porm ele havia se mostrado irredutvel.
    No permitia qualquer aproximao. Ela havia tentado tudo quanto sabia para ver se o trazia de volta, sem conseguir. Nenhum dos seus planos deu certo. Ele continuava 
distante, indiferente.
    Se ela adoecia, ele mandava um mdico; se ficava deprimida, l vinha o Dr. Aurlio. No gostava dele. Ia v-la para cuidar dos interesses de Renato. Nunca concordava 
com o que ela dizia. Naturalmente estava do lado dele.
    Quando se queixava de Clara, o marido mandava o advogado, outro que estava combinado com Renato, para amea-la de voltar ao sanatrio.
    Nos ltimos tempos recorrera  igreja. Quando ficava muito deprimida, chamava um padre de quem ficara amiga. Ele comparecia, ouvia sua confisso, mandava-a perdoar, 
passava-lhe uma penitncia e ia embora, levando sempre o donativo que ela generosamente ofertava.
    Ele nunca lhe pedira nada, mas ela pensava que assim, dando-lhe boas somas para as obras da igreja, obteria sua estima e futuros favores.
    Certa vez pediu-lhe que fosse conversar com Renato para interceder em favor da sua famlia, pedindo-lhe que voltasse para casa.
    Ele fora de boa vontade. Mas foi pior. Depois que conversou com Renato, ficou mais distante dela. Gioconda percebeu que ele estava mudado. Certamente Renato 
falara mal dela e conseguira convenc-lo de que a errada era ela.
    Gioconda estava inconformada. Sentia-se abandonada, sem amigos, rodeada de inimigos que desejavam mant-la prisioneira. Isso era insuportvel.
    Clara cuidava de seu conforto, de sua sade, tentava distra-la. Porm, quando ela ficava muito chorosa, reclamando, ela se afastava. Era evidente que estava 
do lado de Renato. Como  que ele conseguia isso? Certamente comprando as pessoas. Tinha muito dinheiro.
    As crianas procuravam alegr-la sem sucesso. Afastavam-se quando notavam que ela estava muito deprimida.
    Gioconda saiu da janela, sentou-se em uma poltrona, apanhou novamente a revista, mas nem sequer a abriu.
    Clara bateu levemente na porta do quarto e entrou. Observando seu estado de esprito, sugeriu:
    - Por que no vai passear um pouco? A tarde est agradvel e Jos est  sua disposio com o carro. Poderia fazer umas compras.
    - Para qu? Nunca tenho aonde ir. Meu armrio est cheio de roupas que nunca uso.
    - Por que no vai ao cinema?
    -  horrvel sair sozinha.
    - Aquela sua prima viva adoraria acompanh-la. Por que no a convida?
    Gioconda deu de ombros.
    - No tenho pacincia para ouvir a conversa dela. Prefiro ficar em casa.
    - A senhora precisa se distrair. No  bom ficar fechada em casa.
    -        O que posso fazer? Meu marido no se incomoda comigo.
    -        O fato de a senhora ficar se deprimindo no o trar de volta. As pessoas fogem da companhia de quem vive triste.
    -        Deixe-me em paz. Agora quer me culpar por ele ter ido embora?
    -        Desculpe. S quis ajudar. Mas a escolha  sua. Se prefere ficar se deprimindo, viver triste.
    Clara afastou-se. Estava difcil vencer a resistncia de Gioconda. Se ao menos ela aceitasse a verdade!
    Gioconda sentiu uma onda de revolta. A culpada era Gabriela. Tentou controlar-se. Apanhou o telefone e ligou para o escritrio do marido.
    -        Quero falar com o Dr. Renato.  Gioconda.
    -        Ele est em uma reunio e pediu para no ser incomodado.
    -         mentira. Ele no quer me atender.
    -        No  nada disso. Ele est ocupado mesmo. Posso anotar a chamada e pedir para ele ligar assim que puder.
    -        Passe a ligao.  um assunto importante e urgente. No posso esperar.
    -        Nesse caso vou passar para D. Gabriela, a assistente dele. Ela ver o que pode fazer.
    Gioconda assustou-se. Gabriela? Ela teria voltado?
    -        Deixe estar. Mais tarde eu ligo.
    Desligou o telefone. Seu corao batia descompassado. Precisava ter certeza. Apanhou um leno, colocou no bocal do telefone e ligou novamente.
    -        Quero falar com D. Gabriela.  da parte do Dr. Altino.
    -        Um momento, por favor.
    Logo depois Gabriela atendeu:
    -        Pronto...
    Gioconda desligou rpido. Reconheceu a voz. Era ela mesma. No havia dvida. Estava outra vez com Renato. H quanto tempo teria voltado?
    Sentiu a cabea rodar e sentou-se na beira da cama procurando se acalmar. Tinha de descobrir por que ela estava l de novo.
    Roberto era um fraco. Como teria concordado em voltar para So Paulo? Agora que seu marido estava separado, talvez Gabriela tambm houvesse deixado Roberto para 
ir viver com Renato.
    A esse pensamento, uma onda de raiva acometeu-a. Precisava saber. No podia cruzar os braos diante daquela traio. Contratar um detetive era perigoso. Da outra 
vez se dera mal. Agora tinha de ser mais esperta. Precisava falar com Roberto, saber de tudo. Juntos poderiam agir.
    Nesse momento, Roberto entrou no quarto e aproximou-se dela, dizendo ao seu ouvido:
    - Estou aqui. Agora s voc pode me ajudar.
    Ela pensou:
    "Preciso encontrar Roberto. Tenho sido vigiada. Clara no me deixa sair sozinha. Onde ser que ele est?"
    -        Estou aqui - tornou ele. -No pode me ouvir nem me ver, mas posso ajud-la.
    Ela, porm, no notou sua presena. Ele continuou ali pensando numa maneira de comunicar-se com ela. Vendo que no conseguia, chamou Juvncio.
    Depois de alguns segundos ele entrou, dizendo:
    -        Por que est me chamando? Nosso negcio j acabou. Agora por sua conta.
    -        Fiz tudo que me pediu, Maninha est bem. Posso ajud-lo no que quiser, mas preciso de voc.
    Em poucas palavras, Roberto explicou tudo para Juvncio e finalizou:
    -        Voc  poderoso, sabe muito mais do que eu. Ela tem que saber que estou aqui e fazer o que eu quero.
    -         fcil. Ela nem precisa saber que voc est aqui. No perca tempo com isso. Notei que ela  impressionvel. Basta mentalizar o que quer que ela faa 
e imaginar que ela est cumprindo.
    -        S isso?
    -        S.  muito fcil lidar com quem  impressionvel. Ela pega tudo fcil.
    -        Vou tentar. Mas, pelo que notei, ela est como que prisioneira. Quero que me ajude a elaborar um plano.
    -        O que voc quer conseguir?
    -        Gabriela voltou a trabalhar com Renato. Quero que ela deixe outra vez a empresa e afaste-se dele para sempre.
    Juvncio ficou calado por alguns segundos, depois disse:
    -        No vai ser fcil. Ele est apaixonado por ela.
    Roberto no se conteve:
    -        Eu sabia. Eles esto me traindo. Vai ver que desde que eu estava com ela.
    -        No. Ela no o traiu ainda. Voc estava enganado. Ela no capaz de trair. Mas agora est livre. Voc est morto... - concluiu ele rindo.
    -        No diga isso. Eu estou vivo. No quero que ela ande com ele.
    -        Se no quer, tem que trabalhar rpido. Ele s pensa nisso. Ela tambm se sente atrada por ele. Foram casados no passado.
    -        Ainda essa? Parece que tudo conspira contra mim.
    -        Se quer separ-los, ter que ser muito esperto.
    -        Voc tem que me ajudar. O que devo fazer?
    -        Envolv-la para que ela venha para c. Assim conseguir separ-los e ainda ficaro juntos.
    Nesse momento a imagem dos dois filhos veio-lhe  mente e ele respondeu:
    -        Isso no. No posso deixar as crianas abandonadas. Elas precisam da me.
    -        Nesse caso ser mais difcil. Mas vou pensar. Preciso conhecer as pessoas, examinar os fatos, e depois conversaremos. Ainda tem que me dizer como pretende 
pagar este servio.
    -        Serei seu escravo por quanto tempo quiser. Sabe que fao um bom trabalho.
    -        . Vamos ver. Agora preciso ir. Mais tarde o procurarei para irmos visitar Gabriela e Renato. Ento direi o que faremos.
    Roberto agradeceu satisfeito. Gabriela era dele. No estava disposto a permitir que ela se apaixonasse por Renato. Ela precisava se lembrar do amor que sentira 
por ele.
    Lembrando-se do que Juvncio dissera, aproximou-se de Gioconda para comear a impression-la. Imaginou uma cena de amor entre Gabriela e Renato com tantos detalhes 
que chegou a sentir aumentar seu dio pelo rival.
    Aproximou-se de Gioconda colocando a mo direita em sua testa, dizendo:
    -        Veja como eles esto felizes, enquanto voc est abandonada, triste, sozinha. Isso no  justo. Voc tem que fazer alguma coisa. Prometo que vou ajud-la. 
Pense nisso.
    Gioconda no ouviu o que ele estava dizendo mas em sua mente imaginou Renato e Gabriela beijando-se. Enquanto eles estavam felizes, ela estava s, doente, fraca, 
abandonada. As lgrimas comearam a rolar em suas faces e ela soluou desesperada.
    -        No se deixe abater. Voc  uma mulher inteligente, forte. Tem que reagir. Vai deixar que eles venam? A esta altura esto rindo de voc. Vai permitir 
isso?
    Gioconda viu os dois rindo e pensou:
    -        Eles esto rindo de mim. Tenho que reagir. Mostrar que sou mais forte e esperta do que eles. Tenho que fazer um plano. Eles vo me pagar.
    Roberto sorriu satisfeito. Estava sendo fcil. Gioconda era mesmo muito impressionvel. Logo ele poderia manej-la como quisesse.
    Dois dias depois, Gabriela chegou em casa alegre. Havia conseguido fechar um bom contrato.
    Alm disso, Renato no lhe dera margem para preocupar-se. Tratara-a de maneira profissional, e ela concluiu que Nicete havia se enganado. Isso a deixava livre 
de preocupaes.
    Poderia trabalhar tranqila. Gostava do que fazia. O salrio era compensador.
    Vendo-a, Nicete comentou:
    - Noto que est se recuperando. Faz tempo que no a vejo to bem.
    -        Estou mesmo. Daqui para a frente vou trabalhar, criar meus filhos e fazer tudo do jeito que eu gosto. Recuperar a alegria de viver.
    -        Que bom!
    Naquela noite, antes de se deitar, Gabriela sentou-se na cama e agradeceu a Deus. Sentia-se feliz. As crianas haviam melhorado, estavam alegres e cooperativas. 
Sentia-se protegida e calma.
    Naquele momento, Roberto e Juvncio entraram no quarto. Roberto ia aproximar-se, mas Juvncio o deteve.
    -        Agora no. Ela est protegida. No viu que est ligada com uma luz?
    - No. O que tem isso?
    -  perigoso. Temos que esperar.
    - Esperar o qu?
    - Que ela esteja vulnervel.
    -        Quer dizer que voc no pode com ela?
    -        Voc tem muito ainda que aprender. E preciso ser inteligente. Agir no momento certo.
    -        No posso fazer o mesmo que fiz com Gioconda?
    -        Com ela no vai funcionar.  uma mulher que sabe o que quer. No se impressiona com facilidade.
    -        Isso . Gabriela nunca ouviu ningum. S faz o que acha bom.
    -        Por isso no vai ouvir voc. Agora vamos embora ver o outro.
    Eles saram e foram ver Renato. Ele j havia se deitado e pensava em Gabriela. Estava feliz por t-la perto o dia inteiro. Ela era maravilhosa. Estava mais linda 
do que nunca. Em pouco tempo colocou os negcios em dia com invejvel competncia.
    Desejava que ela fosse feliz. Mesmo sabendo que no era amado, amava-a. Esse amor fazia-o sentir-se vivo, de bem com a vida. Gabriela jamais deveria saber a 
verdade. Tinha certeza de que, se ela descobrisse, iria embora imediatamente. No desejava correr esse risco.
    Roberto percebeu os pensamentos de Renato e olhou para Juvncio surpreendido. No esperava ouvir isso dele.
    -        Ele no est querendo conquist-la - comentou aliviado.
    -        No seja bobo. Ele no sabe, mas essa  a maneira de conquist-la. Se ele partisse para a conquista, ela se afastaria.  uma mulher difcil, muito honesta.
    -        Mas est viva.
    -        Porm ele no. Isso  to forte nela que a impede sequer de pensar nele como homem.
    Voc agiu muito errado com ela. Duvidou do que ela tem como sagrado. Fez exatamente o contrrio. Perdeu-a por isso. Se tivesse mostrado que confiava nela, voc 
a teria at hoje. Para manter um relacionamento  preciso conhecer bem o parceiro, jamais tripudiar sobre o seu temperamento.
    -        Puxa, eu deveria ter conhecido voc antes.
    -        Quando estava na Terra, se tivesse ficado do meu lado, teria tudo isso.
    -        Agora estou do seu lado. Farei o que disser. Voc acha que, apesar de Renato pensar assim, ela poder se apaixonar por ele?
    -        Podemos tentar fazer com que ele volte com a esposa. Isso a afastar dele.
    -         boa idia.
    -        Trata-se de um homem que gosta da famlia. Ama os filhos. Apesar de tudo, respeita a esposa e deseja ajud-la. Acho que esse pode ser um bom caminho. 
Vou pensar melhor.
    Quando se afastaram, Roberto ficou pensativo. Uma vez no quarto que Juvncio lhe destinara e ele conseguira permanecer mesmo depois de haver terminado o trabalho 
que lhe devia, estendeu-se na cama, sentindo-se deprimido.
    A descoberta de que Gabriela sempre fora honesta e o respeitara, se por um lado o alegrava, por outro mostrara com clareza sua falha. Ele fora incapaz de perceber 
as qualidades da mulher maravilhosa que ela era.
    Por que entrara naquela onda de cime? Por que trabalhara contra o amor, que era tudo em sua vida? Cerrou os punhos com fora e no pde impedir que as lgrimas 
descessem pelo seu rosto.
    Uma onda de tristeza imensa acometeu-o. Agora a havia perdido. Fora um fraco, havia sido maldoso. Ela confiara e ele a havia trado. Gabriela era inocente. No 
tinha culpa de nada. O nico culpado de tudo era ele.
    Enquanto ela era honesta e confiante, ele fora desonesto, desconfiado, maldoso. Ele havia sido o traidor.
    Lembrou-se dos primeiros tempos de namoro, da alegria de Gabriela, de seu sorriso bonito, da felicidade dos primeiros tempos. Do nascimento dos filhos. Da dedicao 
dela quando ele perdeu tudo.
    Por que no soubera entender? Por que fora to ignorante? Lembrou-se das palavras de Aurlio, das palestras que ouvira de ilene, das mensagens no centro esprita.
    Ele havia sido alertado de vrias formas. Por que havia sido to resistente? Por que preferira aquele pacto esprio com as entidades do mal? Por que se acumpliciara 
com Pai Jos, interferindo na vida de pessoas que nem sequer conhecia, assumindo responsabilidade pelos problemas dos outros?
    Naquele momento de reflexo, Roberto arrependeu-se amargamente de suas atitudes. Chorou muito. Depois, levantou-se e ajoelhou-se ao lado da cama, pedindo agoniado:
    - Meu Deus! Sei que no mereo, mas tenha piedade de mim. Estou arrependido. Ajude-me a apagar este remorso do corao. Tenho andado errado. Quero deixar este 
caminho e aprender como reconquistar a paz. Penitencio-me dos meus erros. Agentarei qualquer castigo sem reclamar. Quero pagar pelo mal que fiz, mas mostre-me como 
encontrar a luz.
    Roberto calou-se e respirou fundo. Pela primeira vez percebeu como havia desperdiado as oportunidades que a vida lhe dera. Estava cansado. Queria mudar, poder 
se sentir de novo respeitado, digno.
    Nesse instante viu emocionado um claro, e uma mulher linda e serena surgiu, olhando para ele com bondade.
    - Meu nome  Elvira. Vim busc-lo.
    Roberto no conseguiu falar, deslumbrado. Aquela mulher maravilhosa, aureolada por uma luz muito clara, estendia-lhe os braos olhando-o com amor.
    Ele no conteve os soluos e balbuciou:
    - Eu no posso ir. No mereo nada. Sou mau. Tenho que pagar pelos meus erros.
    - Engana-se. Voc  um esprito que amamos muito e que nos sentimos felizes em termos conosco. Venha!
    Ela abriu os braos e ele baixou a cabea sem foras para levantar-se. Ela se aproximou, segurou suas mos, levantou-o e abraou-o com carinho.
    Roberto no conseguiu dizer nada. Deixou-se ficar naqueles braos protetores sentindo-se amparado, acariciado, amado como nunca se lembrava de haver sido antes.
    Quando conseguiu falar, disse:
    - Se estou sonhando, no quero acordar. Pedi um castigo e deram-me o paraso.
    Ela sorriu e, colocando o brao em sua cintura, disse alegre:
    - Deus s distribui o bem. O castigo  o homem quem faz. Agora vamos embora. Temos que ir para muito longe.
    De repente, toda a angstia, a mgoa e a dor haviam desaparecido do peito, e Roberto deixou-se conduzir maravilhado, olhando o cu cheio de estrelas volitando 
com ela no espao infinito.

Captulo 28

    Roberto apressou-se. Elvira ficara de busc-lo para um encontro com um elevado assistente da colnia em que residia, e ele estava ansioso. Seis meses haviam 
decorrido desde aquela noite em que, sentindo a dor do remorso e tendo a conscincia de seus erros, Elvira o socorrera.
    Logo na chegada, aps atravessar os altos muros que cercavam a cidade, fora conduzido a uma sala onde um assistente o entrevistou, anotando os dados em uma ficha. 
Depois informou com voz calma:
    - Aqui voc receber toda a ajuda de que precisa para se reequilibrar. Em troca precisa cumprir o regulamento. Ningum pode conquistar a paz sem disciplina. 
Ter orientao espiritual e teraputica. Qualquer dificuldade que tiver, dever ser reportada a eles. Esta  uma cidade de tratamento e recuperao. No poder 
sair sem autorizao. , quando no souber o que fazer,  melhor perguntar. Est de acordo?
    - Sim. Estou disposto a me esforar para ficar bem.
    Em seguida ele foi apresentado a uma assistente que o conduziu ao aposento onde estava morando desde ento.
    Apesar da saudade e do arrependimento que sentia, da sensao de incapacidade que o acometia, Roberto esforou-se para seguir o tratamento. Aos poucos foi se 
integrando com as sesses de terapia de grupo, de bioenergtica, e foi se sentindo mais calmo. Nos ltimos tempos havia procurado os programas de lazer da comunidade 
e feito algumas amizades.
    Elvira no morava naquele local. Ia visit-lo de vez em quando. Era com ansiedade que Roberto esperava por aqueles momentos. Quando ela aparecia, ele sentia 
no peito um calor brando, agradvel.
    Contava-lhe seus progressos, suas dvidas, e ela ouvia contente, encontrando sempre uma palavra de entusiasmo e incentivo. Muitas vezes, sozinho olhando o cu 
cheio de estrelas, sentado em um banco do jardim em frente ao edifcio onde morava, Roberto pensava nela.
    Desde que a vira sentira-se atrado. No era paixo, era um sentimento de alegria, afeto, que o fazia sentir-se vivo, capaz, forte.
    Qualquer progresso que conseguisse deixava-o alegre, pensando no que Elvira diria ao saber. Sua presena o deixava de bem com a vida.
Nos momentos em que a lembrana do que fizera o deixava deprimido, reagia pensando que Deus fora muito bondoso permitindo que Elvira o socorresse. Sentia que ela 
era um esprito cheio de luz e ele no merecia o afeto que ela demonstrava.
    Estremecia quando ela o abraava e assustado notava que desejava tom-la nos braos e beij-la. Isso era loucura. Ela o procurava por bondade. Precisava conter-se 
para no se deixar influenciar por uma fantasia e perturbar a amizade que havia entre eles.
    Naquela tarde, antes que ela chegasse, renovou os propsitos de controlar as emoes.
    Certamente estava confundindo as coisas. Ele amava Gabriela. Depois, o que sentia por Elvira era muito diferente do que sentia por sua antiga esposa.
    Apesar do esforo que fez para se controlar, assim que a viu surgir olhando para ele com carinho, seu corao bateu mais forte. Ela estava linda e em seus olhos 
havia muito amor.
    Depois de abra-lo, disse contente:
    -        Vejo que est melhor.
    -        De fato. Sinto-me bem. Quando voc chega, fico melhor.
    Pelos olhos de Elvira passou um brilho de emoo e ela respondeu:
    -        Voc me tem feito muitas perguntas sobre o passado. Hoje ter algumas respostas. O convite de Osris para este encontro indica que voc j est apto 
para dar um passo  frente. Fico feliz que tenha aproveitado o tempo.
    -        Quero aprender, melhorar. Sinto saudade de minha famlia. Desejo v-los, mas somente quando estiver bem, assim poderei levar-lhes energias saudveis.
    -        Concordo. Agora vamos. Est na hora.
    Saram do prdio, atravessaram a praa e andaram por uma larga avenida, cheia de rvores e lindas casas.
    Elvira parou em frente a um porto, dizendo:
    -         aqui.
    Apertou um pequeno disco dourado que havia do lado de fora e logo o porto se abriu e uma voz convidou-os a entrar.
    Um jovem de rosto rosado atendeu-os e conduziu-os a uma sala onde um homem elegante, de fisionomia serena, olhos lcidos, levantou-se e abraou Elvira, dizendo:
    -        Como vai, minha amiga?
    -        Feliz com seu convite.
    -        E voc, Roberto, como se sente?
    -        Melhor.
    Era a primeira vez que ele se encontrava diante de Osr is, e sentiu uma onda de simpatia e de muito respeito.
    -        Tenho acompanhado seu progresso com satisfao. Mas sentem-se, vamos conversar.
    Eles se acomodaram e Osris continuou:
    -        Voc est bem e j deve estar tendo algumas reminiscncias do passado.
    -        Algumas vezes, quando olho no espelho, tenho a impresso de que meu rosto est diferente. Quando fixo melhor, tudo volta ao normal. Quando fao meditao, 
tenho visualizado rostos que, embora desconhecidos, parecem-me familiares.
    -        Sua memria est comeando a voltar. Sua vontade de cooperar est apressando sua recuperao. Na fase em que est,  normal aflorarem sentimentos contraditrios 
que seu consciente no tem como explicar porque refletem experincias passadas. Sua razo no entende, mas, quando se recordar, faro sentido.  no seu inconsciente 
que se encontra o arquivo de suas vivncias passadas, que, apesar de esquecidas temporariamente, continuam l, atuando no presente.
    - De fato, isso est acontecendo comigo.
    - E a cada dia se tornar mais forte, at que aos poucos v se lembrando.
    Roberto olhou srio para os dois. Ia falar, mas hesitou.
    Osris interveio:
    -        Se deseja recuperar logo a lucidez,  melhor falar a respeito.
    Ele olhou para Elvira com certa preocupao, depois respondeu:
-        No  nada importante. Estou misturando as coisas. Deseja que eu saia? indagou ela.
    -        No,  melhor que ele enfrente a verdade. Voc deve ficar sugeriu Osris.
    Depois, voltando-se para Roberto, continuou:
    -        No se acanhe. Eu e Elvira ouvimos seus pensamentos.
    Roberto sentiu vergonha e tentou escapar:
    -        Nesse caso no preciso dizer nada.
    -        No  para ns que ter que se colocar, mas para si mesmo. Quando tiver coragem para admitir seus sentimentos verdadeiros, voc se recordar do passado 
com facilidade.
    Ele se remexeu na cadeira. No se sentia confortvel sabendo que seus pensamentos estavam sendo compartilhados com eles. Tomou flego e respondeu:
    -        No desejo que me julguem mal. Quando eu estava desesperado, sem ver sada, sofrendo, apelei para Deus e ele me mandou Elvira. Para mim ela  um anjo, 
uma santa. Eu a admiro, respeito.
    Ele parou interdito. Estava sendo difcil falar. Os dois ficaram silenciosos esperando. Roberto tomou coragem e completou:
    -        Acho que ainda sou muito materialista, muito terreno. Nos ltimos tempos tenho tido maus pensamentos. Eu resisto, mas, quanto mais tento esquec-los, 
mais aparecem. Penso que estou ficando louco.
    -        Voc est interpretando o que sente.  melhor no resistir, deixar fluir.
    Roberto cobriu o rosto com as mos. Saber que eles conheciam seus pensamentos ntimos deixava-o envergonhado.
    -        No devo. Se no os controlar, eles tomaro conta de mim.
    - Reprimir  pior. Procure no julgar, apenas observar o que est sentindo e deixe fluir.
    Roberto lembrou-se da emoo que sentia quando Elvira chegava, do prazer que sentia quando ela o abraava e o fitava com amor. A vontade de tom-la nos braos 
e beij-la reapareceu forte, viva.
    -        No julgue, apenas sinta - aconselhou Osris. - No tenha medo da verdade.
    Roberto obedeceu e sua fisionomia distendeu-se. Uma luz tnue, amarelada, surgiu em seu peito e ele disse emocionado:
    -         muito bom sentir isso!
    Naquele momento ele viu Elvira, muito jovem, um pouco diferente do que era, abraada a um rapaz alto, elegante. Sentiu que aquele era ele. Emocionado, ficou 
olhando a alegria e o carinho dos dois, trocando carcias e beijos.
    -        Se isso  um sonho, no quero acordar! disse baixinho.
    Em seguida tudo passou e ele abriu os olhos assustado. Olhou para Elvira, que emocionada observava em silncio. Depois tornou:
    -        Eu vi uma cena do passado. Tenho certeza de que j vivemos juntos.
    -         verdade - respondeu Elvira. - Muitas coisas aconteceram desde aqueles tempos.
    -        Talvez por isso eu esteja misturando meus sentimentos. Reconheo que, apesar de estar no astral, conservo impresses muito fortes de quando vivia no 
mundo.
    -        Voc continua o mesmo. As emoes que sentia quando estava no corpo de carne so mais intensas aqui. O corpo terreno  apenas um veculo, uma mquina 
que possibilita interagir naquele plano. Quem pensa, ama, escolhe, sofre e se alegra  o esprito imortal. Vir para c  continuar sendo o mesmo.
    -        Pensei que certos desejos fossem provocados pelo corpo material.
    -        No. O corpo  apenas um meio de manifestao. Quem deseja, quer,  o esprito.
    -        Nesse caso...
    Roberto parou hesitante. Osris interveio:
    -        A unio de duas pessoas que se amam, o sexo, continua existindo neste plano. Claro que l  atravs do corpo carnal. Aqui h outra forma. Contudo o 
efeito  o mesmo. O orgasmo neste plano  mais intenso, principalmente quando h amor.
    -        Eu pensei que sexo fosse pecado.
    -        As religies criaram essa crena na inteno de evitar os abusos. Mesmo assim eles continuaram acontecendo. A Terra  uma oficina de experimentao. 
Tentando ser feliz, o homem corre atrs de todas as emoes que julga capazes de lev-lo  felicidade e nessa busca experimenta as sensaes em vrios campos, colhendo 
os resultados de suas atitudes. Abusa do amor, do dinheiro, dos alucingenos, do poder e outras coisas mais, na tentativa de encontrar o que procura. Quando regressa 
para c, em meio a tantas vivncias, est mais amadurecido. Porm ainda  o mesmo, com as crenas e idias que tinha no mundo. No se admire nem se envergonhe do 
que sente. O sexo  manifestao de Deus para o sagrado ministrio da evoluo. Sem ele, a reencarnao no seria possvel.
    -        Eu pensei que aqui isso no existisse.
    - Muitos no mundo pensam assim. Mas o corpo astral daqueles que ainda devero reencarnar na Terra novamente precisa de todos os elementos que possibilitem comandar 
a formao do corpo de carne que o receber de volta. No se esquea de que o perisprito, ou seja, o corpo astral,  o modelo organizador biolgico da formao 
do corpo em gestao. Sem ele, nenhuma gravidez ir at o fim.
    -        Estou admirado. Mas tem lgica.
    - No se envergonhe de sentir amor  moda do mundo. O importante  como voc administra esse sentimento. Quando mais verdadeiro e profundo, mais gratificante 
ser.
    -        H pouco, vi uma cena de amor entre mim e Elvira. Foi prazeroso, mas ao mesmo tempo me constrange. Ela para mim  uma santa.
    -        O que sente  natural - interveio Elvira com voz calma. - Nossa ligao  antiga.
    Estivemos juntos no mundo vivendo situaes diferentes de parentesco. Voc regressou do mundo h pouco tempo. No se recorda do passado. Quando estiver de posse 
da sua memria total, compreender melhor.
    Roberto remexeu-se na cadeira inquieto e tornou:
    -        Estou ansioso por saber tudo. Pelo que senti hoje quando vi aquela cena, sei que ser muito bom. Vocs poderiam me contar o que ainda no sei?
Osris sorriu e respondeu:
    - Calma. Tudo tem seu tempo certo. Deve acontecer naturalmente. Aconselho-o a continuar fazendo o que fez hoje. Quando sentir uma emoo que no entende, recolha-se 
a um lugar tranqilo, no a reprima. Ao contrrio, entre nela, deixe-a fluir sem julgamento ou medo. Isso o ajudar muito.
    Quando Roberto se viu sozinho no quarto, deitou-se e a cena que vira entre ele e Elvira no lhe saa do pensamento. Quanto mais pensava, mais tinha certeza de 
que eles haviam-se amado.
    Pensou em Gabriela e reconheceu que o que sentia por Elvira era muito diferente do que o que sentia por ela.
    O sentimento por Elvira era doce, prazeroso, dava-lhe uma sensao gostosa de alegria, paz.
    O que sentia por Gabriela era doloroso, provocava insatisfao, angstia, cime, insegurana.
    Por qu? Como um amor podia ser to diferente do outro?
    Recordou-se de tudo que acontecera entre eles e reconheceu que desde o comeo Gabriela despertara nele aqueles sentimentos, misto de prazer e angstia.
    De repente ocorreu-lhe que Gabriela tambm havia feito parte de suas vidas passadas.
    Aqueles sentimentos poderiam refletir acontecimentos esquecidos mas que continuavam arquivados em seu inconsciente, como Osris tinha dito.
    Sentou-se no leito, pensativo. Queria saber a verdade. Deitou-se novamente e tentou fazer o que Osris aconselhara. Lembrou-se de seu relacionamento com Gabriela, 
sentiu a mesma angstia e perguntou:
    - De onde vem esse sentimento? Gabriela sempre foi boa esposa, fiel. Por que sinto isso sempre que penso nela?
    No mesmo instante viu-se em um quarto com Gabriela. Apesar de um pouco diferentes, ele os reconhecia. Roberto gritava nervoso:
    - Voc me traiu! E minha mulher, no a deixarei ir.
    A raiva, o cime reapareceram com violncia. Tentava abra-la, mas ela o empurrava chorando e pedindo que a deixasse ir, que amava outro e tinha um filho pequeno.
    Nesse instante um homem surgiu pela janela empunhando um revlver. Ele reconheceu Renato.
    Apanhou a espada, mas o outro atirou. Sentiu o sangue escorrendo no pescoo, sua vista turvou-se e ele caiu.
    Assustado, viu-se novamente no quarto, a viso havia desaparecido. Ento era verdade mesmo: Gabriela o havia trado. Sentiu um misto de alvio e raiva ao mesmo 
tempo. Alvio por saber que seu cime fora justificado. Raiva por descobrir que ela o trocara por Renato.
    Havia acontecido em outra encarnao, porm a mgoa continua-va dentro dele.
    Que triste destino o seu. Assassinado duas vezes. Por qu? No era justo. Nos dois casos ele fora a vtima. Trado pela mulher e roubado pelo scio.
    Haviam-lhe ensinado que tudo est certo, que Deus  perfeito. No era verdade. Alguma coisa deveria estar errada.
    No conseguiu ficar deitado. Levantou-se e comeou a andar de um lado a outro inquieto.
    Queria ver mais, saber detalhes daquele passado. Aquele flash aguara sua curiosidade.
    Depois de algum tempo, cansado, lembrou-se de que quando estava desesperado havia pedido a ajuda de Deus e fora atendido. Imediatamente se ajoelhou e rezou, 
implorando esclarecimento.
    No conseguiu o que desejava, porm aos poucos foi se acalmando. Deitou-se e pensou:
    -        Preciso me refazer. Amanh tentarei falar com Osris. Ele vai me esclarecer.
    Depois disso, conseguiu adormecer. Na manh seguinte, logo cedo, procurou Osris. Depois de esperar algum tempo, ele o recebeu dizendo:
    - J o esperava. Sente-se e vamos conversar.
    - Ontem vi uma cena que me emocionou muito. Algumas coisas ficaram claras em minha cabea, mas outras me confundiram. Preciso de esclarecimentos.
    -        O que quer saber?
    -        Em outra vida fui casado com Gabriela. Ela fugiu com outro, me traiu, j que tinha um filho dele. Apesar de eu ter sido a vtima, foi o amante dela 
quem me matou. O mesmo aconteceu com Neumes: eu fui roubado e ele me matou. No posso compreender. Eu era inocente, por que Deus permitiu isso?
    -        Voc est enganado. No existe vtima. S a necessidade de aprender. Por isso cada um colhe o resultado de suas atitudes. Foi o que aconteceu.
    -        Mas eu fui roubado, trado. Nunca roubei nem tra ningum.
    -        Voc ainda no se lembrou de tudo. Quando conseguir, compreender.
    -        Voc pode me contar o que ainda no sei.
    -        No.  voc quem precisa rever os fatos para entender.
    -        Estou me sentindo angustiado. Por favor, ajude-me a recuperar a paz.
-        Vou ver o que posso fazer. Deite-se nesta maca.
    Roberto obedeceu e ele continuou:
    -        Feche os olhos, relaxe. Lembre-se de um lugar agradvel em que voc gosta de ir, sinta bem-estar, calma. Respire suavemente, continue pensando que tudo 
est certo, que a vida  perfeita e segue seu curso agindo sempre para o melhor. Agora pense na cena que viu ontem. Voc est preparado para conhecer a verdade. 
Quer saber o que aconteceu no passado. As causas de tudo que tem passado. Volte no tempo e deixe-se conduzir.
    Roberto sentiu que um vento forte soprava e deixou-se levar sem resistir. Depois se viu conversando com Gabriela, que chorava e dizia:
    -        No posso me casar com voc. Eu amo Raul!
    Ele tentou abra-la, dizendo:
    -        Eu quero voc! Tem que ser minha de qualquer jeito! Seu pai concordou, e amanh nos casaremos.
    Ela chorava desesperada:
    -        Eu imploro: desista! Eu no amo voc!
    -        Voc me amar com o tempo.
    Depois, ele viu vrias cenas: o casamento, a frieza dela na noite de npcias, a noite em que ela fugiu com Raul, a procura desesperada, o encontro, o rapto e 
finalmente a cena do quarto onde ele perdeu a vida.
    Comeou a soluar em desespero. Osris disse calmo:
    -        Tudo isso j passou. Acabou. Reconhea que ela no o amava e foi voc que forou a situao. Se houvesse compreendido, desistido desse casamento, teria 
se poupado de muitos problemas.
    Aos poucos ele parou de soluar, abriu os olhos e disse:
    -        Agora compreendo. Gabriela nunca me amou nem me amar. Eu estava iludido. Acreditei que ela um dia pudesse me amar. Mas no tenho o poder de mudar os 
sentimentos dela. Isso foi naquele tempo. Mas desta vez ela disse que me amava, concordou em casar comigo, no posso entender.
    -        Gabriela possui elevados valores de honestidade. Depois que Raul o assassinou, sentiu muita culpa e pensou que, dedicando-se um tempo a voc, estaria 
se libertando desse peso.
    -        Quer dizer que no era amor mesmo. Ela se casou por pena!
    -        No  exatamente isso. Ela tentou se livrar da prpria culpa. Foi um caso de conscincia.
    - Agora estou entendendo muitas coisas. O Dr. Aurlio me disse que eu atra Neumes em minha vida por pensar que ele era mais importante e que sabia mais do que 
eu.
    - Outra iluso. Ningum  mais do que ningum, embora existam diferenas de nveis e de conhecimentos. Como est se sentindo?
    - Melhor. Ainda preciso pensar um pouco mais em tudo. Rever algumas atitudes.
    - Faa isso. Voc est indo muito bem. Dentro de pouco tempo poder deixar este lugar e seguir rumo a novas experincias. H algum que h muitos anos espera 
por isso.
    Roberto hesitou um pouco, depois disse:
    - Elvira. Pressinto que ela foi muito importante em minha vida. H um sentimento muito forte nos unindo. Entretanto, no sei por qu, quando penso nela como 
mulher me sinto inibido. Parece que estou cometendo um pecado.
    Osris sorriu e respondeu:
    - Vocs so livres para se amar. Nada h que impea. Um dia vai entender seus sentimentos.
    Roberto deixou a sala de Osiris sentindo-se leve, alegre. Toda a angstia havia passado. Ele forara Gabriela a um casamento indesejado. Por isso nunca tivera 
certeza de que ela o amava.
    Reconhecia que cada um  livre para amar e que isso acontece naturalmente, sem que a vontade interfira. A atrao entre os seres obedece a critrios prprios 
cujo mistrio nem sempre se pode explicar.
    Percebia o quanto errara tentando forar uma situao, seja usando as fraquezas de Gioconda, seja valendo-se da ignorncia de espritos atrasados.
    Ele estivera errado o tempo todo. Gabriela, apesar de o haver trado anteriormente, nesta ltima vida, mesmo convivendo com Renato, que havia sido o grande amor 
de sua vida, conseguiu ser fiel aos compromissos assumidos.
    Ento ele entendeu por que ele fora atingido e ela poupada. Ele tinha sido o culpado pelo que acontecera. Se tivesse confiado nela, ainda estaria no mundo, ao 
lado da famlia.
    Naquele momento sentiu muita culpa e amargo arrependimento. Precisava fazer alguma coisa para libertar-se desses sentimentos. Pensou nos filhos com carinho. 
Como estariam? At quando precisaria ficar longe deles, sem saber notcias? Haviam-lhe prometido que quando estivesse bem poderia visit-los.
    At l faria tudo para reconquistar o equilbrio perdido. Tinha certeza de que assim conseguiria o que desejava.
    Pensou em Elvira. Seu corao bateu forte. Ela o amava. Lera isso em seus olhos desde que ela atendera seu chamado aflito da primeira vez.
    Era maravilhosa! Uma mulher iluminada como aquela preocupava-se com ele, cuidava de seu bem-estar, trabalhava para sua felicidade.
    Um brando calor surgiu em seu peito e ele se sentiu valorizado, querido, agasalhado.
    Gabriela no o amava, porm Elvira sim. Talvez com ela estivesse sua felicidade. Para isso, precisava apenas esperar.

Captulo 29

    Renato atendeu o telefone:
    -         Clara. O senhor pode atender?
    -        Sim. Pode passar. Clara, o que foi?
    -         D. Gioconda. Ela est muito agitada. Quis sair, mas eu vi que no estava bem e no deixei. Ela ficou fora de si, tentou me agredir. Consegui prend-la 
no quarto, mas ela est esmurrando a porta.
    -        E as crianas?
    -        Esto muito assustadas. No quiseram ir  escola. J liguei para o Dr. Aurlio e ele est vindo para c.
    -        Fez bem. Dentro de alguns minutos estarei ai.
    Ele desligou e preparou-se para sair. Gabriela entrou e notou sua preocupao.
    -        Aconteceu alguma coisa?
    - Sim. Vou para casa. Gioconda est tendo um acesso. Clara trancou-a no quarto e o Dr. Aurlio est indo para l.
    -        Deseja que eu faa alguma coisa?
    -        Tome conta de tudo at eu voltar. O Dr. Menezes ficou de vir daqui a uma hora. Telefone para ele transferindo para amanh. Assim que puder eu ligo para 
c.
    Ele saiu apressado, e Gabriela, depois de fazer o que ele pedira, sentou-se em sua sala, pensativa. A cada dia mais admirava Renato. Apesar de separado da esposa, 
levava vida discreta, recolhendo-se cedo, cuidando dos filhos com carinho e do tratamento de Gioconda com interesse.
    Tratava-a com respeito e ateno, interessando-se pelo futuro de Guilherme e Maria do Carmo, atento a qualquer problema que tivessem. Roberto, que era o pai, 
nunca fizera nada disso. Amava os filhos, mas jamais tivera a delicadeza de Renato.
    Muitas vezes notara que ele ficava triste, e Gabriela imaginava que era por causa da famlia.
    Nessas ocasies sentia vontade de confort-lo. Procurava assuntos alegres, tentava de todas as formas fazer com que ele recuperasse a alegria. S se sentia bem 
quando aquela ruga da testa dele desaparecia e ele distendia a fisionomia.
    Algumas vezes surpreendera-o fitando-a com enlevo. Estremecia e pensava que estava imaginando coisas. Sentia-se muito s e ele lhe transmitia segurana, conforto.
    Nicete dizia que ele a amava e que um dia acabaria por se declarar. Ela gostava tanto de Renato que desejava muito um romance entre eles.
    -        A senhora fala que no, mas o que vai fazer no dia em que ele se declarar?
    -        Esse dia nunca chegar. Voc est imaginando coisas.
    -        No estou. Esse dia vai chegar. Ningum pode esconder um sentimento desses o tempo todo.
    Gabriela sorriu e pensou:
    -        E se ele se declarasse mesmo, o que eu faria?
    Ao pensar nisso, sentiu calor e um arrepio pelo corpo. Levantou-se e tomou um copo de gua.
    Afundou no trabalho tentando esquecer aqueles pensamentos.
    Quando foi levar alguns documentos  mesa de Renato, olhou o retrato dele que estava em um canto. Era um homem bonito, forte, seguro de si. O que faria se ele 
a abraasse? Gabriela corou a esse pensamento. O que estava acontecendo com ela? Precisava se controlar. Renato no podia perceber que tinha esses pensamentos.
    Renato chegou em casa e Aurlio j estava no quarto com Gioconda. Procurou Clara, que estava com as crianas no quarto de Clia. Vendo-o, a menina correu a seu 
encontro chorando.
    -        Pai, a mame est mal. Acho que enlouqueceu!
    -        Eu j disse para ela que foi apenas uma crise nervosa - interveio Ricardinho.
    -        Acalmem-se os dois. Estou aqui para cuidar de tudo.
    -        Ela enlouqueceu - continuou Clia com voz chorosa. Ontem quando entrei no quarto ela disse que ia nos matar e se matar. Estava com os olhos arregalados. 
Fiquei com muito medo.
    - Eu estou aqui. No vai acontecer nada.
    -        O Dr. Aurlio disse que seria bom tirar as crianas daqui - disse Clara.
    -        Eu quero ficar - disse Ricardinho.
    -        Pois eu vou. Estou com medo - tornou Clia.
    -        No tenham medo. No os deixarei. Agora preciso falar com o Dr. Aurlio. Clara vai ficar com vocs enquanto conversamos.
    -        Quero que ela tranque a porta - pediu Clia.
    -        Faa isso, Clara. Vou ver como Gioconda est.
    Renato saiu e Clara fechou a porta. Estava assustado. Gioconda ameaara Clia. Era bem capaz de tentar alguma loucura. Ela ficava furiosa quando no conseguia 
obter o que desejava.
    Foi at o quarto de Gioconda, mas no entrou. Sua presena poderia faz-la ficar mais furiosa.
    Tentou perceber o que acontecia l dentro. Ouviu vozes, mas no entendeu o que diziam.
    Ficou esperando, at que finalmente Aurlio abriu a porta.
    -        Como ela est?
    -        Teve uma violenta recada. Pensei que precisasse chamar uma ambulncia do sanatrio.
    No estava conseguindo control-la. Depois, concordei com tudo que ela dizia, prometi fazer o que ela queria e quando ela parou de gritar eu lhe apliquei uma 
injeo. Agora est dormindo. Podemos conversar.
    - Nesse caso vamos at a sala.
    Uma vez acomodados l, Renato continuou:
    -        Estou muito preocupado. Ela ameaou Clia. Pode tentar alguma coisa.
    -        Ela est ameaando matar Gabriela e os filhos se voc no voltar para casa. No sei como, mas ela descobriu que Gabriela voltou empresa.
    -         uma idia fixa! Ela  bem capaz de tentar fazer o que diz.
    -        Ter que ser internada novamente. No h outro jeito.
    -        Estive pensando... Vou falar com o Dr. Altino e requerer a guarda das crianas. Eu no queria. Pensei que ao lado deles ela pudesse se recuperar. Mas 
agora no posso correr esse risco.
    -        Qualquer juiz lhe dar razo. Estou disposto a colaborar atestando o estado mental dela.
Tambm penso que ela no pode ficar ao lado deles. Mesmo que no faa o que diz, sua convivncia  prejudicial. Principalmente para Clia, que  mais impressionvel.
    -        Ela est to assustada que no quer ficar mais aqui.
    -        Eles podero ficar. Vamos intern-la hoje mesmo. Infelizmente no temos outro recurso.
    -        Virei para c. No posso deix-Los sozinhos.
    -        Vou Ligar agora mesmo para o sanatrio. Seria melhor voc ir dar uma volta com as crianas. Precisamos poup-los. Eu e Clara cuidaremos de tudo.
    -        Est bem. Vou lev-los comigo at o escritrio. Assim que terminar, ligue-me e voltaremos.
    Renato bateu na porta do quarto de Clia, e quando abriram ele disse:
    -        Vo se arrumar que ns vamos sair um pouco. Tomar um sorvete, dar uma volta.
    -        E a mame? - indagou Ricardinho.
    - Est dormindo. O Dr. Aurlio deu-lhe um calmante. Quando acordar estar melhor. Agora vamos.
    Enquanto eles se arrumavam, Clara acompanhou Renato at a sala e ele informou:
    - Teremos que intern-la, Clara. No podemos permitir que ela faa nada s crianas.
    Apesar do controle que tinha sobre si, os olhos de Clara brilharam emocionados:
    - Ela est muito mal. Esta noite no dormiu nada. Fui vrias vezes a seu quarto, mas ela me expulsava. Fechei a porta por fora.
    - Vou entrar na justia para requerer o ptrio poder. Vocs vo morar comigo.
    - Diante das circunstncias, ser melhor. Clia tem estado transtornada. Tem pesadelos, fica trmula a qualquer rudo. A presena de D. Gioconda est sendo muito 
prejudicial a ela.
    - Foi o que o Dr. Aurlio disse. Gioconda ficar internada. Quando melhorar, ir para uma casa de recreio. Nada lhe faltar.
    As crianas desceram e Renato despediu-se de Clara, dizendo:
    - Vamos dar uma volta, depois estaremos no escritrio, O Dr. Aurlio ficou de ligar. Se voc precisar de algo, ligue.
    Depois que eles saram Clara meneou a cabea tristemente. Havia se afeioado s crianas, e aquela situao era-lhe penosa. Mas estava disposta a fazer tudo 
que pudesse para que elas fossem mais felizes.
    Renato levou-os a uma sorveteria, depois foram ao escritrio. Ele s tencionava levar as crianas para casa depois que Gioconda j houvesse sado.
    Vendo-o entrar com os filhos, Gabriela sentiu um aperto no peito. Ele estava abatido. Embora se esforasse em mostrar-se calmo e satisfeito, ela notou logo o 
quanto ele estava tenso. Ela procurou conversar com as crianas, tentando distra-las. Levou-as para conhecer todos os departamentos, apresentando-as aos funcionrios. 
Depois conduziu-as  sua sala, mostrando as fotos de seus filhos.
    Ricardinho mostrava-se mais falante. Gabriela sentiu que Clia estava tensa e insegura. Passou o brao sobre os ombros dela, dizendo sria:
    - Sua me vai melhorar. Quando voc voltar para casa, ela j estar bem.
    Clia encolheu-se, dizendo angustiada:
    - No quero voltar para casa. Estou com medo.
    Apanhada de surpresa, Gabriela no respondeu logo. Ricardinho interveio:
-        Papai no vai deixar acontecer nada. Ele cuida de tudo.
    Gabriela preparou um pouco de gua com acar e ofereceu a Clia.
    -        Beba, assim se sentir melhor. Ricardinho tem razo. Nada acontecer de mau. Seu pai est cuidando de tudo.
    Ela bebeu a gua estremecendo de vez em quando e Gabriela ficou penalizada. Abraou-a com fora, dizendo com carinho:
    -        Eu conheo uma fada que tem muito poder. Ela protege as crianas de todos os perigos.
    Gostaria de conhec-la?
    Os olhos de Clia brilharam quando perguntou:
    -        Ela tem esse poder mesmo?
    -        Tem. Mais do que qualquer outra fada. Ela  invencvel. Quer evoc-la?
    -        Quero. Acha que viria?
    - Se fizer de corao, tenho certeza. S que h uma coisa: ela invisvel  luz do dia.
    -        Por qu?
    -        Por que seu nome  luz. De dia, mesmo ela estando, ningum a ve. Mas,  noite, costuma aparecer s crianas durante o sono.
    -        Como ela ? - perguntou Clia interessada.
    -        Linda! Iluminada.
    -        Onde ela mora?
    -        Na terra das fadas. A misso dela  proteger as crianas do mal.
    O        rosto de Clia transformou-se. Ficou corada, seus olhos brilharam. Gabriela continuou:
    -        Vou ensin-la a evoc-la. A noite, antes de se deitar, imagine uma luz brilhante e diga: "Eu evoco a fada da luz para me proteger com a fora de Deus". 
Repita trs vezes e depois pode dormir sossegada.
    -        Eu vou sonhar com ela?
    -        Vai. Pode ser que nos primeiros dias no consiga v-la, mas continue firme. Logo conseguir. A luz  a fora que nos protege.
    Clia abraou-a contente.
-        Obrigada, Gabriela. Voc tambm pede a proteo dela? Sempre.
-        Nesse caso, pode pedir tambm para mim e para minha me?
-        Posso, mas para dar certo  a prpria pessoa quem deve pedir.
    Gabriela levantou os olhos e viu que Renato as observava comovido. Tentou dissimular a emoo. O drama daquelas crianas tocara-a muito.
-        Vejo que est melhor - disse Renato satisfeito.
    -        Ainda bem - tornou Ricardinho.
    -        Agora temos que ir embora. Obrigado, Gabriela, pela ajuda.
    Clia aproximou-se de Gabriela, dizendo baixinho:
    -        Vou fazer tudo direitinho.
    -        Faa mesmo.
    Depois se levantou nas pontas dos ps e beijou o rosto de Gabriela, que sensibilizada abraou-a, beijando-a na testa. Ricardinho tambm a abraou, beijou-a na 
face, depois piscou um olho dizendo baixinho:
    -        Boa essa sua jogada. Gostei.
    Gabriela sorriu e respondeu:
    -        Experimente. Funciona para voc tambm. Vai se surpreender.
    Depois que eles se foram, Gabriela pensou nos problemas que tanto seus filhos como os de Renato estavam enfrentando. No sabia o que era pior: se a morte do 
pai ou a vida tumultuada dos filhos de Renato, rfos de me viva.
    Renato durante o trajeto preparou os filhos para a separao da me.
    -        O Dr. Aurlio ligou e disse que precisou levar sua me para o hospital. Ela precisa de um tratamento mais forte.
    Ricardinho apertou fortemente os lbios, tentando controlar-se. Renato continuou:
    -        Ela precisa. Em casa estava ficando cada dia pior. Infelizmente ela estava muito descontrolada. Quando algum est assim, pode fazer coisas sem pensar 
e machucar as pessoas.
    -        Ela poderia nos machucar? - perguntou Ricardinho.
    -        Ela nunca faria isso se estivesse em seu juzo perfeito. Ela os ama muito. Mas quando tem essas crises fica atordoada e no reconhece as pessoas.
    -        Eu senti que ela seria capaz de me matar! disse Clia.
    -        J passou. No pense mais nisso - pediu Renato, impressionado pelo tom da filha.
    -        Agora eu estou protegida. Gabriela me ensinou e no tenho mais medo.
    -        Isso mesmo, minha filha. Alm do mais, estamos juntos.
    -        Voc vai voltar para casa? indagou Ricardinho.
    -        Preciso saber a opinio de vocs. Estou pensando que sua me est muito doente e vai precisar de um longo tratamento. Ento pensei em pedir ao juiz 
autorizao para que vocs fiquem morando comigo para sempre.
    Clia respondeu alegre:
    -        Eu quero. Que bom! Com voc, no tenho medo de nada.
    -        Eu tambm - concordou Ricardinho.
    -        Vocs gostariam que sua me estivesse junto. Mas, por razes que desconhecemos, a vida disps as coisas de forma diferente. Contudo ela age sempre certo 
e precisamos aceitar o que no podemos mudar. No momento,  o melhor a fazer.
    Eles ficaram em silncio por alguns instantes. Depois Ricardinho perguntou:
    -        Quando o mdico lhe der alta, ela vir para nossa casa?
    - No. Ter sua prpria casa, mas vocs continuaro morando comigo. Podero visit-la sempre, at mesmo passar algum tempo com ela, se desejarem.
    Clia suspirou aliviada e respondeu:
    -        Ainda bem. Acho que no vou querer ficar com ela nem um dia.
    -        Ela  nossa me, no tem culpa de estar doente da cabea. Temos que a tratar com carinho - disse Ricardinho.
    -        Isso mesmo, meu filho. Ela precisa do nosso apoio. Mas para fazer isso no precisam morar na mesma casa com ela.
    - Pai, quero que Clara fique em nossa casa.
    - Ela ficar. Vai continuar cuidando da casa e de vocs.
    Eles se deram por satisfeitos e Renato sentiu-se aliviado. O pior havia passado. Aurlio dissera-lhe que, mesmo que melhorasse, Gioconda no teria condies 
de assumir a famlia.
    Sua resoluo estava tomada. Falaria com o advogado e trataria imediatamente de requerer o divrcio e a tutela dos filhos. Sentiu-se satisfeito por haver assumido 
aquela responsabilidade.
    Gioconda acordou e olhou assustada as paredes claras do quarto. Sua cabea estava atordoada. Tentou levantar-se, mas no conseguiu. Onde estava? Aquele no era 
seu quarto.
    Fechou os olhos e respirou fundo, tentando reagir. Onde estava Clara? Olhou em volta tentando se localizar. Do lado da cama havia uma campainha. Apertou com 
fora.
    Logo uma enfermeira entrou e aproximou-se da cama, indagando:
    -        Como se sente?
    -        Mal. Onde estou?
    -        No hospital. Fique calma. Estamos cuidando de tudo.
    -        No posso ficar aqui. Tenho que ir para casa. Meus filhos precisam de mim.
    - Descanse. Eles esto bem cuidados. No se preocupe.
    -        No quero ficar aqui. No gosto deste lugar. Tenho que ir embora.
    -        Precisa tratar da sade. Ir quando estiver bem.
    Gioconda olhou em volta, depois disse baixinho:
    -        Tenho uma misso importante para cumprir. Minha famlia corre perigo. Preciso falar com o mdico.
    -        O Dr. Aurlio vir logo.
    -        Esse no serve. Est contra mim, a servio dela. Ela voltou para acabar comigo. Mas no conseguir!
    -        Acalme-se. O Dr. Aurlio  seu mdico. Est do seu lado.
    -        Mentira! Voc tambm est do lado dos meus inimigos.
    -        Estou aqui para ajudar. Precisa tomar a injeo.
    -        Afaste-se. No se aproxime. Sei que quer me envenenar. No vou tomar nada. Saia daqui.
    Deu violento soco que alcanou a mo da enfermeira, derrubando a cuba com os medicamentos. A moa retirou-se apressada, fechando a porta por fora.
    Depois de alguns minutos entraram dois enfermeiros.
    - Voc precisa tomar os medicamentos - disse um.
    -        No quero - gritou ela, furiosa. - Deixem-me em paz. Eles se aproximaram e, enquanto um a segurava com fora, o outro lhe aplicava a injeo. Aps alguns 
minutos ela deixou cair a mo e adormeceu.
    Aurlio informou-se de seu estado e  noite foi  procura de Renato depois do jantar.
    -        Como vo as coisas aqui? - indagou o mdico assim que se sentaram na sala.
    - Melhor. Tenho conversado com as crianas e parecem-me conformadas.
    - Quando cheguei, observei que estavam mais alegres.
    -        Ficaram felizes quando voltei a morar com eles. E Gioconda?
    -        Ns a mantivemos dormindo nos ltimos dias. Hoje acordou, mas continua revoltada. Foi preciso aplicar-lhe mais calmante. Est dormindo.
    - Clia estava muito assustada. No quer de forma alguma voltar a morar com a me.  de admirar, porque sempre foi a mais apegada.
    -        Ela me pareceu muito nervosa. Observe bem como est reagindo. Se for preciso, faremos um suporte psicolgico.
    -        A outra vez deu bom resultado. Tenho vindo cedo para casa. Fico fora s o tempo estritamente necessrio para trabalhar. Sinto que eles precisam do meu 
apoio.
    - Isso mesmo. As crianas precisam de segurana. Como a me no tem condies de apoi-los, ficaram inseguros. Sua atitude est suprindo essa necessidade.
    -        Tenho conversado muito com eles, indagando como foi o seu dia, contando ocorrncias da empresa, trocando idias. Desejo que eles sintam que estamos 
integrados, que formamos uma famlia. Que um pode ajudar o outro, trocando experincias.
    -        Esse  o melhor caminho. Foi bom ter assumido a educao deles. Receio que Gioconda no consiga mais fazer isso.
    - Ela est to mal assim?
    -        Est. Acordou hoje revoltada, achando que todos esto contra ela, interessados em mat-la. Foi preciso dop-la de novo. Tenho srias dvidas quanto 
ao seu problema mental. No se trata mais de uma crise provocada pelo seu inconformismo em aceitar a separao.
    -        Voc acha que no foi isso a causa do seu desequilbrio?
    -        Acho. Tenho estudado o comportamento dela minuciosamente. Durante os meses que a tratei, consegui que falasse da sua infncia, da adolescncia e da 
juventude. Notei um procedimento altamente neurtico, uma personalidade fracionada, uma viso distorcida da realidade, indicando que ela necessitava de um tratamento 
psiquitrico mais intenso.
    -        Voc a medicou, receitou-lhe calmantes.
    -        Sim. Tentei evitar o agravamento do seu estado.
    -        Apesar de dizer que nossa separao no foi a causa da sua doena, isso deve ter influenciado para que seu estado se agravasse.
    -        Para uma personalidade doentia como a dela, qualquer coisa, por insignificante que fosse, teria efeito pernicioso. Claro que a separao influenciou. 
Mas no causou a doena. Apenas revelou o que estava encoberto. Entendeu?
    -        Sim. Lamento ter provocado isso. Mas no podia mais suportar nossa convivncia. Como voc disse, qualquer coisa era motivo para que ela se deprimisse. 
Notei que, quando eu aparecia, seu estado se agravava. Ficava mais queixosa, mais chorosa, mais incapaz. Cheguei a pensar que ela estivesse fingindo para me manipular.
    -        Ela  uma manipuladora contumaz. Se voc fosse fraco, ela o teria dominado completamente. Acontece que, de tanto distorcer os fatos para conseguir o 
que desejava, acabou por perder a noo de realidade. Ela acredita no que imagina. Sofre mas no percebe o mal que est fazendo a si mesma.
    -        Pensei que com a separao ela voltasse ao normal, uma vez que eu no estaria l para ela representar seu papel.
    -        No lamente sua atitude. Se houvesse continuado ao lado dela, as crises teriam acontecido da mesma forma. O problema no  voc. E ela com ela.
    -        Quando ela acordar, se estiver consciente, vai sofrer muito.
    -        Na prxima semana faremos alguns exames clnicos. Depois estudaremos como ajud-la.
    -        Gabriela sugeriu que eu levasse os meninos ao centro para um novo tratamento espiritual.
    -         bom. Aos sbados h um tratamento s para crianas.
    -        Isso mesmo. Naquele dia em que Gioconda foi internada, levei-os ao escritrio e Gabriela conseguiu acalmar Clia. Contou-lhe uma histria de fadas e 
ela adorou. Todas as noites faz o que Gabriela lhe ensinou, ajoelha-se ao lado da cama e imagina uma luz, chama pela fada, agradece e pede proteo.
    -        timo. Dessa forma ela est se ligando com a luz da espiritualidade.
    -        Ricardinho, que gosta de parecer adulto, disfara mas tambm faz. Diz que  para convencer Clia.
    Os dois riram. Aurlio comentou:
    -        Aos poucos a vida de vocs est se equilibrando. Gabriela tem estado mais alegre, seus filhos tambm. As vezes fico pensando em Roberto. Como estar? 
At agora no apareceu nas sesses que freqentamos no centro.
    -        Elvira, aquele esprito que nos ajudou, tambm no apareceu mais. Ela disse que era muito ligada a ele. Ser que se encontraram?
    -        Gostaria de saber. Outro dia perguntei isso a Hamlton e ele acredita que os dois ainda viro nos visitar. Ento, saberemos muitas coisas.
    No dia seguinte, Gabriela estava na sala com Renato quando ele disse de repente:
    -        Ontem eu e o Dr. Aurlio falamos sobre Roberto. Voc tem pensado nele?
    Apanhada de surpresa, Gabriela no respondeu logo. Notando que Renato estava esperando a resposta, disse:
    De vez em quando. Fico me perguntando como estar.
    -        Tem sentido saudade?
    -        Dos bons tempos, um pouco. Mas no sou de ficar lamentando o passado. O que passou acabou. Guardo as boas recordaes, e as ruins tento esquecer. A 
vida continua.
    -        Pensa em se casar novamente?
    -        No sei. Ainda no pensei nisso. O casamento quase sempre uma priso.
    - Pois eu gostaria de ser livre, para me prender de novo.
    Gabriela olhou para ele surpreendida.
    -        Est com saudade de Gioconda?
    -        No. Nosso casamento foi um erro. Somos muito diferentes.
    -        Ento...
    -         muito triste ter encontrado a mulher ideal tarde demais.
    Renato falava mais para si mesmo, considerando seu amor impossvel. Gabriela no respondeu. Uma ponta de tristeza acometeu-a. Renato estaria apaixonado por outra 
mulher?
    Esse pensamento a entristeceu. Procurou esquecer, mas durante todo o dia as palavras dele no lhe saram do pensamento. Irritada, pensou:
    -        Ele se sente solitrio. Est separado,  livre. E natural que deseje recomear a vida. No tenho nada com isso. Por que esse pensamento me incomoda?
    No fim da tarde, levou alguns documentos para Renato. Enquanto ele os assinava, ela notou sua postura elegante, aspirou o gostoso perfume que vinha dele, observou 
os traos firmes de seu rosto moreno. Concluiu que ele era um homem bastante atraente.
    Lembrou-se de suas palavras:
    -  muito triste ter encontrado a mulher ideal tarde demais.
    Emocionada, reconheceu que ela tambm havia encontrado o homem ideal tarde demais. Se ela o houvesse encontrado quando eram livres, tudo teria sido diferente.
    Ele levantou a cabea e seus olhos se encontraram. Gabriela sustentou o olhar e Renato sentiu o corao bater mais forte.
    -        Gabriela! - disse emocionado.
    Assustada diante dos prprios sentimentos, ela deu meia volta e deixou a sala. Renato sentiu vontade de segui-la, porm o telefone tocou.
    -         o Dr. Aurlio - disse Gabriela, aps atender.
    Renato pegou o aparelho. Aurlio informou:
    -        Gioconda acordou.
    Est melhor?
    -        No. Perdeu a noo de realidade. Nem sequer me reconheceu.
    -        Continua revoltada?
    -        No. Est calma. Esqueceu-se de tudo que a incomodava. Foi a maneira que encontrou para fugir dos problemas. Alienou-se.
    - Como ela fez isso?
    -  uma reao natural. Uma vez que aceitar a verdade  doloroso para ela, seu inconsciente criou uma defesa, fazendo-a esquecer.  uma trgua.
    -        O que poderemos fazer?
    -        Continuar o tratamento. Podemos medicar, manter sua sade fsica, proteg-la como uma criana, para que no se machuque. E um processo delicado, onde 
nosso acesso  muito relativo. S ela pode reagir e encontrar o caminho da volta.
    Depois que desligou, Renato pensou em Gabriela. Pela primeira vez percebera carinho em seus olhos. Havia esperana para eles?
    A esse pensamento foi dominado por forte emoo. Sentia-se muito s, gostaria de abra-la, abrir seu corao. Tinha certeza de que ela era a pessoa certa para 
entender o que se passava em seu ntimo.
    Precisava v-la. Foi procur-la, mas no havia ningum. Todos haviam sado. O relgio marcava quase sete horas. Precisava estar no centro s sete e meia. Era 
dia de reunio.
    Tomou um caf e foi para l. Encontrou Aurlio, que lhe forneceu detalhes do estado de Gioconda e finalizou:
    -        Apesar de tudo, ela est melhor agora. Voltou para a adolescncia. Cantarola as msicas da poca, conversa com pessoas com as quais Conviveu.
    -        Mesmo assim  triste. No menciona as crianas?
    -        No. Para ela eles ainda no nasceram.
    Os olhos de Renato brilharam emocionados. Aurlio considerou:
    -        A alienao choca os familiares, porm para a pessoa  um meio de agentar uma realidade que no deseja. Ela voltou a uma poca de sua vida em que estava 
feliz. E esqueceu o resto.
    Hamlton chamou-os, dizendo:
    -        Vamos entrar, est na hora.
    Gabriela chegou apressada e entrou logo depois deles. As luzes apagaram-se e depois da prece um amigo espiritual manifestou-se, falando sobre os casos em atendimento. 
Depois de breve pausa, um dos mdiuns comeou a falar:
    -        Sou Elvira. Hoje volto a abra-los com alegria. Trago comigo um amigo de vocs que deseja cumpriment-los.
    O homem calou-se por alguns instantes, depois se remexeu na cadeira, respirando forte. Hamlton aproximou-se do mdium e colocou as mos sobre sua testa e nuca. 
Ento ele disse com voz que a emoo entrecortava:
    -  com grande emoo que volto a esta casa onde recebi tanta ajuda quando ainda estava no mundo. Se os houvesse escutado, tudo poderia ter sido diferente.
    Ele fez silncio por alguns instantes, depois continuou:
    - Mas no estou aqui para falar dos meus erros passados nem do meu sofrimento, mas sim para agradecer a Deus e a vocs tudo que fizeram por mim. Reconheo minha 
responsabilidade nos fatos que culminaram com minha morte. Vejo aqui uma pessoa que me  muito querida, cujo valor e sinceridade s pude avaliar quando cheguei aqui.
    Lamento. Gostaria de poder voltar no tempo para agir de outra forma. Mas isso  impossvel.
    Eu pensei que voc um dia pudesse me amar, e essa  uma iluso que j perdi. Voc ama outro e  correspondida. Estou procurando aceitar essa realidade e posso 
dizer que desejo aos dois toda a felicidade. Mando um beijo para nossos filhos. Diga-lhes que sempre os amarei e, se Deus permitir, onde estiver estarei rezando 
pela felicidade deles. Quero dizer tambm que hoje os estou devolvendo a vocs dois. Antes de serem meus filhos, eles foram seus.
    Gostaria que se lembrassem de mim com amizade. Podem ter certeza de que estou muito feliz.
    Minha vida aqui est sendo produtiva e o carinho de Elvira tem me motivado a progredir.
    Talvez um dia, quando eu estiver mais amadurecido, possa viver ao lado dela para sempre.
    Agora tenho que ir. Deixo um abrao agradecido e votos de muita alegria e felicidade a todos. Deus os abenoe.
    O silncio se fez, apenas cortado pelos soluos abafados de Gabriela, que no conseguia conter o pranto. A emoo tomava conta dos presentes, que se rejubilavam 
com a mensagem.
    Renato, tocado em seus sentimentos, tinha receio de acreditar que, falando do amor de Gabriela, Roberto estivesse se referindo a ele.
    Lembrava-se da histria que Elvira havia contado, entre Gabrielle, Alberto, o conde que a desposara, e Raul, o mercador que ela amava. Tinha certeza de que se 
tratava de Gabriela e Roberto. Mas e Raul, teria sido ele? Nesse caso, teria sido o verdadeiro amor de Gabriela?
    Roberto disse que eles seriam felizes. Haveria tempo ainda? Gabriela reconheceria seu amor por ele?
    Hamlton fez breve pausa, depois proferiu ligeira prece e encerrou a reunio. As luzes acenderam-se. As pessoas silenciosamente serviram-se da gua, beberam-na 
e foram-se. No sentiam vontade de conversar. Desejavam guardar a magia daquele momento.
    Ficaram apenas Aurlio, Renato, Gabriela e Hamlton. Depois de abraar Gabriela, Hamlton disse apenas:
    - Ns vamos indo. Renato a levar para casa.
    Todos se foram. Renato deu um leno para Gabriela, que enxugou os olhos tentando sorrir.
    -        Vamos - disse ele tomando-lhe o brao.
    Saram em silncio. Uma vez no carro, ele a abraou, dizendo:
    -        Esta noite recebemos um presente divino. Sinto-me comovido.
    Ela descansou a cabea em seu peito, depois se afastou um pouco e respondeu:
    -        Eu tambm. De repente, muitas coisas ficaram claras em minha mente. Compreendi tudo.
    Eu fui Gabrielle, Roberto foi o conde e voc foi Raul, o homem que...
    Ela parou hesitante e Renato segurou as mos dela, dizendo emocionado:
    -        Voc tambm acha que eu posso ter sido ele?
    Ela baixou a cabea e no respondeu. Seu corao batia descompassado e ela sentia a fora de um amor que o tempo adormecera e que despertara agora em toda a 
plenitude.
    -        Olhe para mim, Gabriela. Diga que tambm sente este amor que tenho tentado conter mas que agora rompe todas as barreiras e toma conta de mim.
    Renato comeou a beij-la com carinho e Gabriela correspondeu, revelando o que sentia sem precisar das palavras.
    Quando conseguiram se acalmar, Renato considerou:
    -        Gabriela, quero casar com voc. Juntos criaremos nossos filhos. Seremos felizes. Diga que aceita.
    - Essa seria a maior felicidade. Mas e Gioconda?
    -        Estamos divorciados. Mas cuidarei dela como sempre. Nada lhe faltar.
    -        Quando ela souber que estamos juntos, ir sofrer.
    -        Ela nunca saber. Gioconda enlouqueceu. Esqueceu tudo, voltou no tempo. Est como uma adolescente. Nem sequer se lembra de mim ou das crianas.
    -         muito triste.
    -        O Dr. Aurlio acha que ela encontrou um jeito de no sofrer. Voc aceita?
    -Sim.
    -        Amanh mesmo falarei com nosso advogado para tratar de tudo. Quero que voc seja minha scia na empresa.
    -        No  preciso nada disso.
    -        Eu quero cuidar do seu futuro e do futuro dos seus filhos. Acha que eles me aceitaro?
    - Tenho certeza. E os seus, gostaro de mim?
    - Eles j gostam. Clia s fala em voc.
    Gabriela sorriu feliz. Renato beijou-a levemente na face.
    - Adoro seu sorriso.
    Enquanto eles se beijavam felizes, Elvira e Roberto estavam l. Ele observava calado, olhos marejados.
    Elvira segurou-o pelo brao, dizendo:
    - Devamos ter ido embora. Voc poderia ter se poupado.
    Ele a fitou nos olhos e respondeu:
    - No. Eu precisava ver para avaliar melhor meus sentimentos.
    - Est se atormentando sem necessidade.
    - Engana-se. Eu mudei. Minha paixo por Gabriela tambm mudou. Analisando meus sentimentos, descobri que meu amor por ela foi o desejo de auto-afirmao. Eu 
a via como um prmio para minha vaidade. Perd-la significava afirmar minha incapacidade. Por isso quis ficar aqui. Vendo-a nos braos de Renato, no senti cime 
nem raiva. Confesso que senti at um certo alvio. Agora eu sei que posso cuidar de mim, que tenho capacidade para escolher melhor meu caminho. Desejo que sejam 
felizes. Outra  minha preocupao...
    - O que quer dizer?
    - Vamos sair daqui. Nos ltimos tempos tenho pensado muito em voc. Sei que ainda terei que aprender muito para viver sempre a seu lado. Apesar disso,  o que 
mais desejo.
    - Voc sabe que eu o amo muito e que sempre o amei.
    Haviam deixado o carro e tomado o caminho de volta. Roberto pegou as mos dela e disse emocionado:
    -  isso que me intriga. Sinto que a amo, desejo tom-la nos braos, beij-la, mas ao mesmo tempo fico inibido. Parece que estou cometendo um pecado.
    Ela sorriu e respondeu:
    - Est na hora de saber que ns j vivemos uma louca paixo. Juntos mergulhamos em perigosas iluses. Mas nosso amor era verdadeiro, e para descobrir isso tivemos 
que reencarnar como me e filho. Esses sentimentos contraditrios que voc sente resultam dessa experincia.
    Contudo, os laos de sangue so apenas limitaes do mundo fsico. O que conta  o amor incondicional que sela nossas vidas.
    Roberto abraou-a inebriado, beijando seus lbios com amor. Sentiu um calor no peito, ao mesmo tempo que dentro dele acendeu-se uma luz que o envolveu todo, 
provocndo indescritvel bem-estar.
    Elvira no conteve uma exclamao de alegria:
    - Voc conseguiu! Meu amor, voc alcanou a vibrao de amor e luz que sempre esperei.
    Agora poderemos ficar juntos para sempre! Nunca mais nos separaremos. A nossa frente estende-se um caminho de progresso e de felicidade.
    Tomando a mo dele com delicadeza, Elvira pediu:
    - Venha, ajoelhe-se a meu lado. Veja este cu cheio de estrelas e de maravilhosos mundos. Agradeamos a Deus a glria de viver e a felicidade que nos une para 
sempre neste momento.
    Juntos, caminharemos trabalhando sempre a favor da vida. Onde quer que estejamos, cantaremos o amor e distribuiremos a alegria. Que Deus nos abenoe.
    Nesse instante uma claridade desceu do alto e envolveu os dois, que, abraados, se elevaram desaparecendo rumo ao infinito.

                                                Fim



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